Mostrando postagens com marcador Vitoriano López. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Vitoriano López. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Fábian Restivo: Palavras para depois: Conversas com Pepe Mujica — Nunca esquecerei Dom Vitoriano López

 
____________________
[traduzido por Rogério Tomaz Jr.]

          — Entre as suas lembranças, há um funileiro que te marcou e te ensinou diversas coisas.
          — Sim, seu nome era dom Vitoriano López. Eu era um menino, quase uma criança, e o conheci quando tinha onze ou doze anos, por aí. Os mais velhos contavam que ele havia chegado ao bairro e comprado um pequeno terreno à beira de um balneário. E ali fez uma casinha de madeira, que naquele tempo era forrada com chapa. Era funileiro, estrava construindo o seu terreno. Ele havia sido peão de manutenção de uma fábrica, La Uruguayana Avante, como soldador e mecânico. Ele veio já como um homem muito maduro, chegou velho. Já tinha se separado e tinha outra mulher, uma galega. Tinha uma oficina bacana, as arruelas em potes de vidro. E era o funileiro do bairro. Naquela época, uma panela era cara, quando ela furava você tinha que consertar e trocar o fundo. Assim, havia muitas coisas para se consertar e aquele homem fazia um trabalho bárbaro. Ele fazia umas soldas que pareciam cirurgia e, quando te entregava o trabalho, sorria como se dissesse: “Olha, guri, olha que qualidade”. Acontece que ele sabia de tudo. Lá em casa, por exemplo, tinha uma bomba velha que um dia não quis tirar mais água, mas dom Vitoriano não saía para trabalhar fora e teríamos que levar ela para ele lá. Mas ele disse: “Bem, vou ver se consigo passar por aí e vê-la”. Ele veio, olhou e disse: “Isso é uma Marelli, perceba que a estrela que bombeia a água está desgastada. Desmonte aqui e leve para mim que eu conserto, depois eu monto”. Com certeza, ele encheu a estrela com solda. Ele veio, montou e lembro que colocou umas arruelas de couro que apertavam a bomba. Ficou perfeita e ele riu. Depois, ainda tínhamos controle de importações, uma escassez bárbara de peças de reposição, não havia nada. Tinha um carro velho, um Chevrolet 28 de quatro cilindros, que tinha o tanque atrás, mas, em vez de bomba, tinha uma coisa chamada vácuo, que criava vácuo e sugava, mas funcionava mal. Então eu disse a ele: “Não seria bom colocar uma bombinha elétrica?”, e ele olha para mim e diz: “Sabe de uma coisa? Quem inventou isso sabia mais do que você e eu, isso deve estar sugando ar”. Na verdade, ele tinha razão. Aí descobriu que o carro estava um desastre, estava fundido. Não havia metais e ele me disse: “Olha, vá de bicicleta até uma concessionária, pegue os metais velhos que foram arrancados dos motores e traga-os para mim”. Colocou o virabrequim em uma morsa e, com um maçarico de querosene, começou a derreter os metais velhos e a preencher as peças. Depois virava e desmontava outra vez, e ficou perfeito. Ele fez isso mil vezes na vizinhança. Agora, uns anos depois, um dia o encontrei no ponto de ônibus com o macacão todo rasgado e lhe disse: “Aonde você vai, Vitoriano?”. E ele me diz: “Sabe de uma coisa? Vou morrer logo e tenho que deixar para a velha, que tanto me acompanha, uma boa casa. Compro materiais de empresas de demolição e me visto assim porque baixam o preço, entende?”. E, sabe, ele construiu uma casa para ela com velhos tijolos franceses, antigos. Ainda acho que consigo ver a mulher enchendo os baldes com mistura e ele num andaime fazendo as paredes. Uma linda casa. Ele tinha uma hortinha aqui, eram os melhores tomates do bairro. Fazia vinho porque tinha um parreiral. Criava coelhos para comer carne. Ele estudou como é o ninho natural dos coelhos no chão e fez para eles um ninho de concreto com o mesmo formato, enterrado, onde o esterco vai para um lado e a urina para o outro, acredita? Fazia doces. A mulher teve um problema na perna, sabe? Ela era uma veterana, então ele inventou um solado com uma mola. Ficava assim e tac, o salto se acomodava sozinho, não precisava levantar a perna. Ele era um cara brilhante, brilhante no seu ofício, e eu dizia a mim mesmo: “Ele deve ter sido um engenheiro desperdiçado”. Um cara tão talentoso, tão criativo, percebe? O cara é impactante e virou uma espécie de símbolo para mim porque era um trabalhador eficiente, com habilidade manual, com múltiplos ofícios. O conhecimento que a diversidade gera, porque usava uma solda como usava um torno ou uma bússola.
          — Como na época dos grandes inventores, caras que criavam...
          — Sim, sim, por isso que estou lhe contando. Seu nome era dom Vitoriano López, nunca esqueci seu nome. Um personagem inesquecível do meu bairro.

(Conversas com Pepe Mujica... pág. 110)

Fabián Restivo
____________________
Palavras para depois: Conversas com Pepe Mujica — Fabián Restivo, Tradução de Rogério Tomaz Jr., texto da quarta-capa por Olívio Dutra, 1ª edição, outono de 2024, Editora Coragem, Porto Alegre — RS; Fabíán Restivo, nascido em 1961, argentino, ‘autointitulado “um fotógrafo que escreve”’, é jornalista, escritor, fotógrafo, documentarista e cineasta; frequentou a Universidad Mayor de San Andrés — La Paz, Bolívia, escreve para o jornal argentino Página 12; o autor deste Palavras para depois: Conversas com Pepe Mujica tem “mais de 40 anos de carreira e obras publicadas internacionalmente”, foi fotógrafo do documentário Adiós, comandante Che (dirigido e roteirizado por Edgardo Cabeza, 1997) e também dirigiu o documentário Conversas com Pepe Mujica (2024); Fabián Restivo ainda realizou outros trabalhos "nos mais variados formatos, inclusive direção de teatro ou programas de canais de televisão".

José Alberto “Pepe” Mujica Cordano, nascido em 1935, uruguaio de Paso de La Artena — Montevidéo, é político e agricultor, foi presidente do Uruguai (2010 — 2015), senador (2015 — 2018), combatente contra a ditadura militar uruguaia, guerrilheiro e membro do então Movimiento de Libertación Nacional — Tupamaros, na década de 1960 — 1970, época em que foi preso algumas vezes, na última permanecendo recluso por 13 anos, tendo sido libertado em 1985, ao ser anistiado no final do período ditatorial; foi presidente pro tempore do Mercosul em 2013, reside em Rincón del Cerro, Montevidéo — Uruguai; Pepe Mujica já havia sido deputado por Montevidéo (1994), senador (1999), ministro da Agricultura, Pecuária e Pesca (2005).