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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Castro Meneses: Baudelaire

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Na água-forte onde vejo o rigor sem exemplo
Do severo perfil de teu busto de poeta,
Charles, o teu olhar, não sei por que, me inquieta,
Evocando o pavor de uma orgia num templo.

Penetra-me essa luz de encantos esquisitos,
Que deviam possuir, em rápidos instantes,
Os teus olhos fatais como dois sóis malditos,
Fixos num céu de sonhos de ópio alucinantes...

Há um ríctus singular na tua boca estranha...
E esse ríctus cruel, de tédio ou de loucura,
Imprime a esta água-forte uma vida tamanha,

Que desvairo ao fitá-la e, num trágico espanto,
Vejo Satã possuir, na paz da cela escura,
O corpo virginal de uma noviça em pranto...



Nota do Organizador:
A evocação de Baudelaire não destoa da imagem que dele faziam os satanistas decadentes.
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Poesia Simbolista, Antologia — Introdução, Seleção e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1965, Edições Melhoramentos, São Paulo — SP; Álvaro de Sá Castro Meneses (1883  1920), fluminense de Niterói, formado em Direito, além de ter exercido as funções de promotor público e juiz, foi professor, jornalista e poeta; na área literária, pertenceu ao grupo simbolista fundador da revista Rosa-Cruz; escreveu e publicou Mitos (1898), Estrada de Damasco (1920) e também deixou-nos poesias esparsas; trabalhou longos anos no Jornal do Comércio.

domingo, 27 de abril de 2014

Castro Meneses: (Soneto) Cruz e Sousa *

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Vieste como o cansim ** dos areais africanos,
Ébrio ainda do sol que requeima o deserto
Tentar, em pleno espaço, os vôos sobre-humanos
Dos anjos e lutar de peito descoberto.

Vieste da solidão dos tormentos insanos
À procura da luz de um grande sonho incerto,
Tendo por voz amiga o clamor dos oceanos
E por tenda o alto céu sobre tua fronte aberto.

Reabriu sobre ti um anátema eterno.
Mas, indômito e só, velho titã glorioso,
Transpuseste, sorrindo, os círculos do inferno...

E, esboçando na sombra o rictus mais tristonho,
Ficaste, como um deus, vencido e silencioso,
Emparedado, enfim, dentro do próprio sonho.

(Estrada de Damasco, 1920, Jacinto Ribeiro dos
 Santos Junior Editor, Rio de Janeiro  RJ)

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* Cruz e Sousa (1861  1898), foi um expoente da poesia simbolista.
** Cansim: vento do sul, quente e seco, que sopra no Egito na época das inundações do Nilo.
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Antologia dos Poetas Brasileiros — Poesia da Fase Simbolista, Organização de Manuel Bandeira, 1996, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro RJ; Álvaro de Sá Castro Meneses (1883 1920), fluminense de Niterói, formado em Direito, exerceu as funções de promotor público e juiz; foi professor, jornalista e poeta; na área literária, pertenceu ao grupo simbolista fundador da revista Rosa-Cruz; escreveu e publicou Mitos (1898) e Estrada de Damasco (1920).