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I
A meu Pai doente
Para onde fores, Pai, para onde fores,
Irei também, trilhando as mesmas ruas...
Tu, para amenizar as dores tuas,
Eu, para amenizar as minhas dores!
Que coisa triste! O campo tão sem flores,
E eu tão sem crença e as árvores tão nuas
E tu, gemendo, e o horror de nossas duas
Mágoas crescendo e se fazendo horrores!
Magoaram-te, meu Pai?! Que mão sombria,
Indiferente aos mil tormentos teus
De assim magoar-te sem pesar havia?!
— Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim
É bom, é justo, e sendo justo, Deus,
Deus não havia de magoar-te assim!
II
A meu Pai
morto
Madrugada
de Treze de Janeiro.
Rezo,
sonhando, o ofício da agonia.
Meu Pai
nessa hora junto a mim morria
Sem um
gemido, assim como um cordeiro!
E eu
nem lhe ouvi o alento derradeiro!
Quando
acordei, cuidei que ele dormia,
E disse
à minha Mãe que me dizia:
“Acorda-o!”
deixa-o, Mãe, dormir primeiro!
E saí
para ver a Natureza!
Em tudo
o mesmo abismo de beleza,
Nem uma
névoa no estrelado véu...
Mas
pareceu-me, entre as estrelas flóreas,
Como
Elias, num carro azul de glórias,
Ver a
alma de meu Pai subindo ao Céu!
III
Podre meu Pai! A Morte o olhar lhe vidra.
Em seus lábios que os meus lábios osculam
Microrganismos fúnebres pululam
Numa fermentação gorda de cidra.
Duras leis as que os homens e a hórrida hidra
A uma só lei biológica vinculam,
E a marcha das moléculas regulam,
Com a invariabilidade da clepsidra!...
Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos
Roída toda de bichos, como os queijos
Sobre a mesa de orgíacos festins!...
Amo meu Pai na atômica desordem
Entre as bocas necrófagas que o mordem
E a terra infecta que lhe cobre os rins!
(Eu — 1912)
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Toda a Poesia de Augusto dos Anjos — Estudo crítico de Ferreira Gullar
(Augusto dos Anjos ou Vida e Morte Nordestina) e Apresentação de Otto Maria Carpeaux,
1976, Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro — RJ; Augusto de Carvalho Rodrigues dos
Anjos (1884 — 1914), paraibano de Sapé, aprendeu as primeiras letras com o pai,
fez o curso secundário no Liceu Paraibano, formou-se em Direito pela Faculdade de
Recife e não advogou, foi professor e poeta; em 1908, recém-formado, transferiu-se
para a capital da Paraíba, passou a dar aulas particulares e foi nomeado professor
interino de Literatura do Liceu Paraibano; em 1910, mudou-se para o Rio de Janeiro
e, continuando no magistério, assumiu o cargo de professor de Geografia na Escola
Normal e no Colégio Pedro II; em 1913, mudando-se para Leopoldina — MG, foi nomeado
diretor do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira e continuou a dar aulas particulares de Português, Francês, Inglês, Grego, Latim;
seus poemas, e alguma prosa, foram publicados em vários jornais da época: Almanaque
do Estado da Paraíba, O Comércio, Nonevar, A União, todos da Paraíba, Gazeta de
Leopoldina (Leopoldina — MG); publicou, em vida, sua única obra, Eu (1912); em 1920,
foi editado na Paraíba Eu e Outras Poesias, reunindo a sua produção posterior ao
primeiro e único livro; hoje é um dos poetas mais estudados e reeditados no Brasil.