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terça-feira, 30 de junho de 2015

Luís Guimarães Júnior: A Borralheira *

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Meigos pés, pequeninos, delicados,
Como um duplo lilás, se os beija-flores
Vos descobrissem entre as outras flores,
Que seria de vós, pés adorados!

Como dois gêmeos silfos animados,
Vi-vos ontem pairar entre os fulgores
Do baile, ariscos, brancos, tentadores,
Mas, ai de mim! como os mais pés, calçados.

“Calçados como os mais! Que desacato!
Disse eu... Vou já talhar-lhes um sapato
Leve, ideal, fantástico, secreto...”

Ei-lo. Resta saber, Anjo faceiro,
Se acertou na medida o sapateiro:
Mimosos pés, calçai este soneto.

(Transcrito de Sonetos e Rimaspor Marques Rebelo, em
Antologia Escolar Brasileira  1a. edição, MEC, p.200)

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Nota das Organizadoras:
* Conferido com Péricles Eugênio da Silva Ramos, Panorama da Poesia Brasileira, v. III: Parnasianismo, p.27.
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Antologia de Antologias — 101 poetas brasileiros "revisitados", Organização de Magaly Trindade Gonçalves, Zélia Thomaz de Aquino e Zina Bellodi Silva, e Prefácio de Alfredo Bosi, 1ª  edição (2ª  reimpressão), Musa Editora, 2004, São Paulo — SP; Luís Caetano Pereira Guimarães Júnior (1845? 1898), nascido no Rio de Janeiro, formado em Direito na Faculdade de Recife, foi poeta, folhetinista, comediógrafo, jornalista e diplomata, e publicou Lírio Branco (1862), Uma Cena Contemporânea (teatro, 1862), Corimbos (poesia, 1866), A Família Agulha (romance, 1870), Noturnos (poesia, 1872), Filigranas (ficção, 1872), Sonetos e Rimas (poesia, 1880) etc.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Luís Guimarães Júnior: A primeira entrevista *

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Ela não tarda. Disse-me que vinha:
Mas quem sabe! Se acaso acontecesse
Qualquer cousa imprevista, e não viesse!
Oh! Deus do céu! que situação a minha!

E este relógio vil que não caminha!
E o tempo! 
 uma hora apenas e parece
Noite fechada já! Ah! se chovesse!...
Mas, não: alguém tocou a campainha,

Alguém subiu veloz a minha escada:
Ouço um rumor de seda machucada
E uns miudinhos, uns nervosos passos...

Duvido ainda! Espreito delirante:
Abro a tremer 
 e toda palpitante
Ela cai a sorrir entre os meus braços.

* (Transcrito de Alberto de Oliveira, Páginas de
 Ouro da Poesia Brasileira, p. 301, pelas orgs.)

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Antologia de Antologias — 101 poetas brasileiros "revisitados", Organização de Magaly Trindade Gonçalves, Zélia Thomaz de Aquino e Zina Bellodi Silva, e Prefácio de Alfredo Bosi, 1ª edição (2ª  reimpressão), Musa Editora, 2004, São Paulo — SP; Luís Caetano Pereira Guimarães Júnior (1845? 1898), nascido no Rio de Janeiro, formado em Direito na Faculdade de Recife, foi poeta, folhetinista, comediógrafo, jornalista e diplomata, e publicou Lírio Branco (1862), Uma Cena Contemporânea (teatro, 1862), Corimbos (poesia, 1866), A Família Agulha (romance, 1870), Noturnos (poesia, 1872), Filigranas (ficção, 1872), Sonetos e Rimas (poesia, 1880) etc.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Raimundo Correia: A Cavalgada *

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A lua banha a solitária estrada...
Silêncio!... Mas além, confuso e brando,
O som longínquo vem se aproximando
Do galopar de estranha cavalgada...

São fidalgos que voltam da caçada;
Vêm alegres, vêm rindo, vêm cantando,
E as trompas a soar vão agitando
O remanso da noite embalsamada...

E o bosque estala, move-se, estremece...
Da cavalgada o estrépito, que aumenta,
Perde-se após no centro da montanha...

E o silêncio outra vez soturno desce...
E límpida, sem mácula, alvacenta,
A lua a estrada solitária banha.

(Transcrito de Sinfonias, Marques Rebelo,
em Antologia  Escolar Brasileira 
 1ª  ed. p. 163, MEC, 1967)

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Nota das Organizadoras:
* Conferido com Raimundo Correia, Nossos Clássicos, Volume 20, p.29 e Poesias, p. 84.
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Antologia de Antologias — 101 poetas brasileiros "revisitados", Organização de Magaly Trindade Gonçalves, Zélia Thomaz de Aquino e Zina Bellodi Silva, e Prefácio de Alfredo Bosi, 1ª edição (2ª  reimpressão), 2004, Musa Editora, São Paulo — SP; Raimundo da Mota de Azevedo Correia (1859  1911), maranhense nascido nas costas litorâneas do Maranhão (em um navio ali ancorado), formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual Direito USP), foi juiz e poeta; escreveu e publicou Primeiros Sonhos (1879), Sinfonias (1883), Versos e Versões (1887), Aleluias (1891), Poesias (1898); em sua carreira poética foi influenciado fortemente pelos românticos Fagundes Varela, Casimiro de Abreu e Castro Alves e, a partir de 1883, com a edição de Sinfonias, assumiu o parnasianismo e passou a formar, juntamente com Alberto de Oliveira e Olavo Bilac, a literariamente cultuada "Tríade Parnasiana"; morreu em Paris, para onde fora tratar da saúde.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Augusto dos Anjos: Ricordanza della mia gioventù *

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A minha ama de leite Guilhermina
Furtava as moedas que o Doutor me dava.
Sinhá-Mocinha, minha Mãe, ralhava...
Via naquilo a minha própria ruína!

Minha ama, então, hipócrita, afetava
Suscetibilidades de menina:
 Não, não fora ela!  E maldizia a sina,
Que ela absolutamente não furtava.
 
Vejo, entretanto, agora, em minha cama,
Que a mim somente cabe o furto feito...
Tu só furtaste a moeda, o ouro que brilha...

Furtaste a moeda só, mas eu, minha ama,
Eu furtei mais, porque furtei o peito
Que dava leite para a tua filha!

(Transcrito de Eu e outras poesias, 9ª. ed., p. 132,
1941, Bedeschi, por Fausto Barreto e Carlos de
Laet, em Antologia Nacional, 43ª ed., 1969.)


Nota das Organizadoras:
* Conferido com Fernando Góes, Panorama da Poesia Brasileira  Pré-Modernismo, v. V, p. 77, e com Augusto dos Anjos, Eu e outras poesias, p. 132.
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Antologia de Antologias — 101 poetas brasileiros "revisitados", Organização de Magaly Trindade Gonçalves, Zélia Thomaz de Aquino e Zina Bellodi Silva, e Prefácio de Alfredo Bosi, 1ª edição (2ª  reimpressão), 2004, Musa Editora, São Paulo — SP; Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884 1914), paraibano de Sapé, formado em Direito pela Faculdade de Recife, professor, foi poeta e publicou, em vida, sua única obra, Eu (1912); em 1920, foi editado na Paraíba, Eu e Outras Poesias, reunindo a sua produção posterior ao primeiro e único livro; hoje é um dos poetas mais estudados e reeditados no Brasil.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Olavo Bilac: O Parnasianismo [excerto]

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Foste e és o chefe da nossa escola poética. E não sei que nome deva dizer a esta doutrina, que me ensinaste, e ensinaste a tantos outros. Será ela essa famosa escola parnasiana, tão apregoada, tão defendida e tão combatida, sempre tão pouco compreendida? Pouco compreendida, porque não se pode bem compreender o que não existe...

Nunca houve uma escola parnasiana, nem aqui, nem na Europa, se nesta designação quisermos exprimir uma revolução poética, trazendo invenções de novidade. Houve aqui, como na Europa, uma brilhante logomaquia, sonora e vazia batalha de palavras em torno de uma palavra. Os corifeus do parnasianismo nada inventaram, como nada tinham inventado os românticos. Os paladinos de 1830 apenas tinham pretendido dar seiva nova de idealizações e de elocuções á planta da poesia, mirrada e anêmica, empobrecida pela secura do classicismo. E os de 1865, rebelando-se contra os últimos discípulos daqueles, somente quiseram restaurar estas qualidades, tão simples e tão belas, que estavam a ponto de ser esquecidas: a simplicidade e a correção. A extravagância da imaginação e o desalinho da fôrma iam expelir dos poemas a sobriedade, a clareza e a justeza, virtudes máximas do gênio greco-latino. Porque já eram sóbrios, claros e justos, na rudeza da vida pastoril, os primeiros poetas da nossa civilização, apercebidos de cajado e avena, sonhando, ao pé da montanha da Fócida, consagrada a Apolo e às Musas; aqueles foram os primeiros e verdadeiros parnasianos; e parnasianos foram pelas idades fora, todos os artistas que amaram e praticaram as idéias límpidas, os sentimentos altos e as expressões puras. Os poetas franceses, arregimentados no Parnasse Contemporain, não quiseram estabelecer uma teoria, em que se pregasse "a poesia sem paixão e sem pensamento, o desprezo dos sentimentos humanos, o culto dos versos bem feitos e ocos, e, em suma, a forma pela forma". Quiseram apenas lembrar que, em matéria de arte, não se compreende um artista sem arte; que, sem palavras precisas, não há idéias vivas; que, sem locução perfeita, não há perfeita comunicação, de sentimento; e que não pode haver simplicidade artística sem trabalho, e mestria sem estudo.

Estas mesmas idéias preconizaste, no Brasil, pela palavra e pela ação, meu nobre mestre. Foi esta a instrução, de que foste o maior e melhor professor. Não digamos "a escola parnasiana". Nem digamos ainda "escola", nem teoria; chamemos "a disciplina do bom gosto", à aula tua, em que me matriculei, antes dos meus vinte anos de idade, graças à boa estrela, que levou os meus passos à tua sombra.

Sempre haverá uma poesia popular sem arte, e poetas populares sem apuro gramatical e métrico, versejando com o falar da gente rústica. Acredito que é esta a verdadeira poesia, sentimento instintivo e pensamento espontâneo da terra e dos homens, nascendo do coração do povo, como o canto sai da garganta dos pássaros e o aroma da corola das flores. Esta será a legítima poesia, anônima e rude; e talvez seja esta a que mais dure... Mas, ao lado desta, inspirando-se dela, e dela aproveitando a seiva e o encanto, uma outra sempre haverá, culta e difícil; e sempre haverá, entre os bardos sem técnica, os artífices do estro literário. Quantos pregadores iletrados, quantos padres sem estudos clássicos, quantos modestos curas de aldeia sem brilho de eloqüência viveram no Brasil e em Portugal, no século XVII? não tinham talento, nem estilo, nem retórica; entretanto, comoviam e consolavam as almas simples e sofredoras, e eram bons e necessários, como os nossos trovadores campesinos. Pois bem, entre eles apareceu Antônio Vieira, construtor entre tantos operários, arquiteto esteta entre tantos pedreiros sem estética, artista entre tantos mesteirais... Não queiramos que toda a extensão da terra seja dada ao trabalho dos hortelões; demos uma nesga da horta á fantasia e ao lavor dos jardineiros! E' justo que, entre tantos latoeiros e funileiros, vivam alguns ourives!

Admitida esta necessidade, não admitíamos confusões entre os que se resignam ao poetar espontâneo e os que ambicionam ao sacerdócio do poetar artístico. Não tragam os aprendizes para a oficina da joalheria um material indigno, vocação errada, incapacidade, pechisbeque e miçangas, em vez de ouro e pérolas, preguiça em vez de paciência, negligência em vez de vontade e gosto. Não entrem no verso culto o calão e o solecismo, a sintaxe truncada, o metro cambaio, a indigência das imagens e do vocabulário, a vulgaridade do pensar e do dizer. Não seja a arte fancaria e biscate: seja tarefa difícil, consciente, asseada, em que haja sacrifício e orgulho! Só assim será bela e simples a obra. A própria Natureza não trabalha de improviso. De que suados labores, de que longos e pacientes esforços, de que complicado mecanismo de metamorfoses nascem a singeleza de uma flor e a naturalidade de uma borboleta!

Aos chamados poetas parnasianos também se deu outro nome: "impassíveis". Quem pode conceber um poeta que não seja suscetível de padecimento? Ninguém e nada é impassível: nem sei se as pedras podem viver sem alma. Uma estátua, quando é verdadeiramente bela, tem sangue e nervos. Não há beleza morta: o que é belo vive de si e por si só.
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["A Alberto de Oliveira", em Últimas Conferencias e
 DiscursosAlves, Rio, 1927; transcrito de Antônio
 Cândido e José Aderaldo Castelo  Presença da
 Literatura Brasileira  volume II, pp. 244  247]

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Antologia de Antologias — prosadores brasileiros "revisitados", organização de Magaly Trindade Gonçalves, Zélia Thomaz de Aquino e Zina Bellodi Silva, apresentação de Plínio Doyle e prefácio de Fábio Lucas, Musa Editora 1996, São Paulo — SP; Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (1865 1918), nascido no Rio de Janeiro, foi poeta expoente do parnasianismo, cronista e jornalista; escreveu Poesias (1888), Crônicas e Novelas (1894), Crítica e Fantasia (1904), Conferências Literárias (1906), Tratado de Versificação (1910), Dicionário de Rimas (1913), Ironia e Piedade crônicas (1916) etc; foi autor da letra do Hino à Bandeira.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Farias Brito: Filosofia e Poesia *


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                    A poesia não é somente o verso, nem mesmo principalmente o verso. Ao contrário pode-se sustentar, com muito fundamento, que o verso vai em decadência crescente e tende a desaparecer. E por mais que pareça à primeira vista extraordinário, é isto o que entre muitas outras cousas se explica como uma das conseqüências gerais da descoberta da Imprensa.
                    De fato, o que deu origem ao verso foi a necessidade que tinha a antigüidade de reduzir a linguagem a uma forma mais própria para facilitar a tradição oral das idéias. Ora, o verso conserva-se na memória com muito mais facilidade que a prosa, e o pensamento transmite-se de geração em geração muito mais prontamente por meio do verso que por meio da prosa; por isto era o verso que mais convinha aos antigos na falta de um sistema aperfeiçoado de escrita; e é assim que se explica o extraordinário desenvolvimento que teve primitivamente o verso, sendo que era em verso que entre os primeiros povos se escrevia tudo, história, legislação, ciência. Daí os grandes poemas didáticos, como as epopéias homéricas. Mas hoje  com a 1 descoberta da Imprensa, ao verso sucede o livro que é a objetivação material das idéias, ou em outros termos, o pensamento gravado em bronze, o verso já não tem mais razão de ser e só pode explicar-se como arte auxiliar da música. É assim que se explica, por um lado o descrédito em que têm caído e a má vontade mesma com que são, por via de regra, recebidos pelos homens de letras especialmente e pelo povo em geral, os livros de versos; e por outro lado, o desenvolvimento crescente do romance que é a forma literária destinada a substituir o poema. Laboram, porém, em grande confusão aqueles que partem da decadência do verso para a condenação da poesia.
                    Não é, pois, do verso, nem mesmo da poesia em sua acepção comum, mas da poesia em sua significação mais ampla, que vou tratar, e, assim compreendida, a poesia é eterna, porque nasce da essência mesma da natureza. "É tudo o que é belo", na frase decisiva de Lange, e forma com a filosofia e a ciência, a tríplice cadeia do espírito humano, sendo que é com estes três elementos  ciência, poesia e filosofia  que há de ser constituída a religião do futuro.
                    Entramos, porém, no estudo analítico do fato.
                    Estudando os diversos elementos que concorrem para a determinação dos atos humanos e observando a marcha da humanidade através da história, vê-se, claramente, que dois princípios subjetivos fundamentais, combinados com uma multiplicidade infinita de causas objetivas, presidem o desenvolvimento do homem, desde o obscuro habitante das cavernas até os brilhantes filhos da civilização hodierna. Tais são: o interesse e a paixão. Esses dois princípios combinados dão em resultado a necessidade; e tal é a grande força motora a que são devidas todas as obras, todas as grandes conquistas da atividade humana. As nossas necessidades podem ser reduzidas a duas ordens: necessidades físicas e necessidades intelectuais ou morais. Das necessidades físicas nascem os esforços tendentes à apropriação do universo, os quais têm por fim o desenvolvimento físico do indivíduo. As necessidades intelectuais dão lugar  aos esforços tendentes ao conhecimento das coisas, ao aperfeiçoamento indefinido da inteligência, a estas grandes manifestações do pensamento: a ciência, a religião, a filosofia.
                    Tal é, com efeito, o grande campo em que se exerce a atividade humana; e a história inteira não tem outro fim senão registrar as conquista do espírito 2, já relativas à satisfação das necessidades intelectuais. Mas ao lado das necessidades físicas e intelectuais coloca-se outra ordem de necessidades, as necessidades estéticas. O homem não precisa apenas 3 de conhecer e dominar as forças da natureza: admira e precisa de traduzir sua admiração; sente e precisa manifestar seu sentimento. Em virtude de suas necessidades intelectuais observa atentamente o espectro 4 do mundo e desta observação eleva-se ao conhecimento das leis que regulam a marcha das coisas; põe-se depois, por força de suas necessidades físicas, em luta com as forças da natureza, e dominando-as, para o que se serve dos conhecimento já adquiridos pela experiência quotidiana, transforma estas mesmas forças em utilidades, assegurando assim a conservação e o desenvolvimento da vida.
                    Há, porém, além desta esfera em que gira a atividade humana, outra ordem de fatos ainda mais elevada. esforçando-se pela apropriação e conhecimento do universo, sucede que o homem encontra sempre e por toda a parte, embaraços de toda a sorte e dificuldades de toda a parte 5, no exercício de suas faculdades. Vem primeiro o sentimento da própria fraqueza em face da soberania inalterável da natureza. Depois há uma infinita complexidade nos fatos da sociedade e vivemos, continuamente, no meio de lutas contínuas e intermináveis. Nestas condições, o homem, cercado de dúvidas, rodeado de incertezas, na grandeza, nos gozos, bem como na miséria e no sofrimento e, em qualquer situação, tendo sempre diante dos olhos o espetáculo maravilhoso do mundo, sente agitar-se dentro de si um elemento desconhecido que o transporta: entusiasma-se 6, suspira, enlouquece e chora.
                    A história é, sem dúvida, uma série de lutas intelectuais e de lutas físicas ou econômicas; mas é também e ao mesmo tempo uma série de lutas emocionais: e a lágrima, o sentimento, o entusiasmo, o amor não deixam de exercer poderosa influência sobre a vida e sobre os destinos do homem.
                    Werther, suicidando-se por não lhe ter sido permitido o amor de Carlota, não foi o produto híbrido de uma imaginação doentia, porém um símbolo vivo da humanidade.
                    Dante afogando-se em um oceano de luz, depois de haver passado pelos sombrios horrores do inferno; Dante afagando a imaginação e inundando as profundezas d'alma com a deliciosa perspectiva da felicidade celeste, depois de haver feito sentir os horrores do inferno; Dante, dominado por uma só idéia que o inflamava, a idéia de Beatriz, confundindo-se com a idéia mesma da humanidade; Dante, o profundo Dante, com seu admirável poema, não foi um simples exercício de metrificação, o produto de um longo e paciente trabalho, porém os mais elevados paroxismos, os últimos delírios, a profundeza, o transcendentalismo do amor.
                    Quem foi que no meio das grandes agitações da sociedade, entre a alegria e a tristeza, o prazer e a dor, o sorriso e a lágrima, em face das grandes lutas da humanidade, tendo em vista os incompreensíveis arcanos do coração e as produções admiráveis do pensamento alguma vez não sentiu-se poeta? Há momentos em que um só homem concentra em si a totalidade das emoções que constituem a vida da humanidade: é quando uma grande idéia revoluciona o seu ser.


(Transcrito de Finalidade do Mundo
por Marques Rebelo, Antologia
 Escolar  Brasileira,  pp. 136 — 138,
1ª ed. MEC, 1967)


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Notas das Organizadoras:
* Conferido com Farias Brito, Finalidade do Mundo, Estudos de Filosofia e Teleologia Naturalista, 2a. edição, 2 volumes, primeiro volume, Rio de Janeiro, 1957, pp. 113 - 116;
quando depois da em vez de com a;
2  já relativa à satisfação das necessidades físicas, omitido pelo antologista;
3 somente em vez de apenas;
espetáculo em vez de espectro;
ordem em vez de parte;
6 canta, omitido pelo antologista.
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Antologia de Antologias — prosadores brasileiros "revisitados", organização de Magaly Trindade Gonçalves, Zélia Thomaz de Aquino e Zina Bellodi Silva, apresentação de Plínio Doyle e prefácio de Fábio Lucas, Musa Editora 1996, São Paulo  SP; Raimundo de Farias Brito (1862 1917), cearense de São Benedito, formado em Direito pela Faculdade de Recife PE, é das figuras mais representativas do pensamento filosófico brasileiro; atuou como advogado e promotor, foi secretário de estado no governo do Ceará, lecionou na Faculdade de Direito de Belém do Pará e foi professor de Lógica no Colégio Pedro II no Rio de Janeiro; escreveu Cantos Modernos (poesia, 1889), Finalidade do Mundo (filosofia, 3 volumes, 1894/1899/1905), A Verdade como Regras das Ações (filosofia, 1905) etc.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Artur Azevedo: Plebiscito*

Da série: Contos considerados clássicos nos meios acadêmicos e literários da língua portuguesa

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          A cena passa-se em 1890.
          A família está toda reunida na sala de jantar.
          O senhor Rodrigues palita os dentes, repimpado numa cadeira de balanço. Acabou de comer como um abade.
          Dona Bernardina, sua esposa, está muito entretida a limpar a gaiola de um canário belga.
          Os pequenos são dois, um menino e uma menina. Ela distrai-se a olhar para o canário. Ele, encostado à mesa, os pés cruzados, lê com muita atenção uma das nossas folhas diárias.
          Silêncio.
          De repente, o menino levanta a cabeça e pergunta:
          — Papai, que é plebiscito?
          O senhor Rodrigues fecha os olhos imediatamente para fingir que dorme.
          O pequeno insiste:
          — Papai?
          Pausa:
          — Papai?
          Dona Bernardina intervém:
          — Ó seu Rodrigues, Manduca está lhe chamando. Não durma depois do jantar, que lhe faz mal.
          O senhor Rodrigues não tem remédio senão abrir os olhos.
          — Que é? que desejam vocês?
          — Eu queria que papai me dissesse o que é plebiscito.
          — Ora essa, rapaz! Então tu vais fazer doze anos e não sabes ainda o que é plebiscito?
          — Se soubesse, não perguntava.
          O senhor Rodrigues volta-se para dona Bernardina, que continua muito ocupada com a gaiola:
          — Senhora, o pequeno não sabe o que é plebiscito!
          — Não admira que ele não saiba, porque eu também não sei.
          — Que me diz?! Pois a senhora não sabe o que é plebiscito?
          — Nem eu, nem você; aqui em casa ninguém sabe o que é plebiscito.
          — Ninguém, alto lá! Creio que tenho dado provas de não ser nenhum ignorante!
          — A sua cara não me engana. Você é muito prosa. Vamos: se sabe, diga o que é plebiscito! Então? A gente está esperando! Diga!...
          — A senhora o que quer é enfezar-me!
          — Mas, homem de Deus, para que você não há de confessar que não sabe? Não é nenhuma vergonha ignorar qualquer palavra. Já outro dia foi a mesma coisa quando Manduca lhe perguntou o que era proletário. Você falou, falou, falou, e o menino ficou sem saber!
          — Proletário, acudiu o senhor Rodrigues, é o cidadão pobre que vive do trabalho mal remunerado.
          — Sim, agora sabe porque foi ao dicionário; mas dou-lhe um doce, se me disser o que é plebiscito sem se arredar dessa cadeira!
          — Que gostinho tem a senhora em tornar-me ridículo na presença destas crianças!
          — Oh! ridículo é você mesmo quem se faz. Seria tão simples dizer: — Não sei, Manduca, não sei o que é plebiscito; vai buscar o dicionário, meu filho.
          O senhor Rodrigues ergue-se de um ímpeto e brada:
          — Mas se eu sei!
          — Pois se sabe, diga!
          — Não digo para me não humilhar diante de meus filhos! Não dou o braço a torcer! Quero conservar a força moral que devo ter nesta casa! Vá para o diabo!
          E o senhor Rodrigues, exasperadíssimo, nervoso, deixa a sala de jantar e vai para o seu quarto, batendo violentamente a porta.
          No quarto havia o que ele mais precisava naquela ocasião: algumas gotas de água de flor de laranja e um dicionário...
          A menina toma a palavra:
          — Coitado de papai! Zangou-se logo depois do jantar! Dizem que é tão perigoso!
          — Não fosse tolo, observa dona Bernardina, e confessasse francamente que não sabe** o que é plebiscito!
          — Pois sim, acode Manduca, muito pesaroso por ter sido o causador involuntário de toda aquela discussão; pois sim, mamãe; chame papai e façam as pazes.
          — Sim! Sim! façam as pazes! diz a menina em tom meigo e suplicante. Que tolice! duas pessoas que se estimam tanto zangaram-se por causa do plebiscito!
          Dona Bernardina dá um beijo na filha, e vai bater à porta do quarto:
          — Seu Rodrigues, venha sentar-se; não vale a pena zangar-se por tão pouco.
          O negociante esperava a deixa. A porta abre-se imediatamente.
          Ele entra, atravessa a casa, e vai sentar-se na cadeira de balanço.
          — É boa! brada o senhor Rodrigues depois de largo silêncio; é muito boa! Eu! eu ignorar a significação da palavra plebiscito! Eu!...
          A mulher e os filhos aproximam-se dele.
          O homem continua num tom profundamente dogmático:
          — Plebiscito...
          E olha para todos os lados a ver se há por ali mais alguém que possa aproveitar a lição.
          — Plebiscito é uma lei decretada pelo povo romano, estabelecido em comícios.
          — Ah! suspiram todos, aliviados.
          — Uma lei romana, percebem? E querem introduzi-la no Brasil! É mais um estrangeirismo!...

(Transcrito de Contos Fora da Moda por
 Marques Rebelo, em Antologia Escolar
 Brasileira, primeira edição, 1967, MEC.)


* Conferido com Artur Azevedo, Contos Fora da Moda, Livraria Garnier.
** Não sabia em vez de não sabe.

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Antologia de Antologias  prosadores brasileiros "revisitados", organização de Magaly Trindade Gonçalves, Zélia Thomaz de Aquino e Zina Bellodi Silva, apresentação de Plínio Doyle e prefácio de Fábio Lucas, Musa Editora 1996, São Paulo  SP; Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo (1855 1908), maranhense de São Luís, foi jornalista, romancista, comediógrafo, contista, poeta e uma das grandes figuras do humorismo brasileiro; escreveu e publicou Carapuças (poesia, 1871), Sonetos (1875), Uma Véspera de Reis (teatro, 1876), A Capital Federal (teatro, 1897), O Escravocrata (teatro, 1884), O Dote (teatro, 1896), Um Dia de Finados (sátira, 1880), Contos Fora da Moda (contos, 1897), Contos em Verso (1898) etc.; como jornalista, trabalhou nos principais jornais da época, no Rio de Janeiro, tendo fundado e dirigido A Gazetinha, Vida Moderna e O Álbum.