Mostrando postagens com marcador Aurora Fononi Bernardini. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Aurora Fononi Bernardini. Mostrar todas as postagens

sábado, 23 de abril de 2022

Ana Akhmátova: Introdução [do livro Réquiem]

 
____________________
[em tradução livre por Aurora Fononi Bernardini e Hadasa Cytrynowikz]

Aconteceu quando a sorrir
Eram só os mortos: contentes pela paz.
E, inútil sobra, pendia
Em volta de suas celas, Leningrado.
E quando, loucas de dor,
Já marchavam as legiões dos condenados,
E os silvos do trem cantavam
Um breve canto de adeus.
As estrelas da morte sobrestavam
À Rússia inocente, se crespando
Sob as botas de sangue
E a sola dos negros camburões*.

Ana Akhmátova

ВСТУПЛЕНИЕ

Это было, когда улыбался
Только мертвый, спокойствию рад.
И ненужным привеском болтался
Возле тюрем своих Ленинград.
И когда, обезумев от муки,
Шли уже осужденных полки,
И короткую песню разлуки
Паровозные пели гудки.
Звезды смерти стояли над нами,
И безвинная корчилась Русь
Под кровавыми сапогами
И под шинами черных марусь.

* Nota dos tradutores: camburões — Ou literalmente marússias, como eram chamados, em Leningrado, os furgões da polícia na época de Stálin.
____________________
Réquiem — Ana Akhmátova, Tradução livre e Notas de Aurora Fononi Bernardini e Hadasa Cytrynowicz e Prefácio de Leo Gilson Ribeiro, edição bilíngue, Coleção Toda Poesia 10, 1991, Art Editora, São Paulo — SP; Ana Akhmatóva (1889 1966), ou Ana Andréevna Gorenko, ucraniana de Odessa, antigo Império Russo, foi poetisa, tradutora e biógrafa; após iniciar seus estudos, inscreveu-se na Faculdade de Direito de Kiev e, mais tarde, transferindo-se para Petersburgo, estudou Literatura e História; obras: Entardecer (1912), Rosário (1914), Rebanho branco (1917), Capim (1921), Anno Domini MCMXXI (1922), De Seis Livros (antologia de poemas já publicados e novos poemas, 1940), Poemas 1909—1960 (a obra Poemas, que fora censurada anteriormente, foi publicada em 1961), Réquiem (1963), O vôo do tempo (1965), e outros títulos; a poetisa sofreu expurgo na era stalinista, teve obras censuradas e vetadas para circulação e foi forçada a fazer deslocamentos dentro da própria União Soviética; em 1956 deu-se o início de sua reabilitação e, a partir daí, Ana Akhmátova pode viajar para o exterior e receber premiações literárias.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

Ana Akhmátova: Em lugar de prefácio [do livro Réquiem]

 
____________________
[em tradução livre por Aurora Fononi Bernardini e Hadasa Cytrynowikz]

          Nos anos terríveis de ejóvchina* eu passei dezessete meses nas filas da prisão de Leningrado.
          Uma vez alguém me “identificou”. Então uma mulher de lábios azuis que estava atrás de mim e que nunca, é claro, ouvira o meu nome, despertou do torpor peculiar a todos nós e me perguntou no ouvido (lá todos sussurravam):
           E isso você é capaz de contar?
          E eu disse:
           Sou**.
          Então algo como um sorriso passou por aquilo que outrora foi seu rosto.

1º de abril de 1957. Leningrado.

Ana Akhmátova

ВМЕСТО ПРЕДИСЛОВИЯ

          В страшные годы ежовщины я провела семнадцать месяцев в тюремных очередях в Ленинграде. Как-то раз кто-то «опознал» меня. Тогда стоящая за мной женщина с голубыми губами, которая, конечно, никогда не слыхала моего имени, очнулась от свойственного нам всем оцепенения и спросила меня на ухо (там все говорили шепотом):
           А это вы можете описать?
          И я сказала:
           Могу.
          Тогда что-то вроде улыбки скользнуло по тому, что некогда было ее лицом.

1 апреля 1957 года. Ленинград.

Notas dos tradutores:
* De Ejóv, comissário do povo e chefe de polícia da Rússia de Stálin cujo nome permanece associado aos inúmeros expurgos e deportações que marcaram a época.
** Referência implícita a Dante, que, como fonte privilegiada de Akhmátova, aparecerá em várias passagens da coletânea [Réquiem]. Aqui, o fato de declarar ser capaz de descrever o mundo de pesadelo da ejóvchina à mulher despersonalizada e sem identidade remete ao Canto 34 do Inferno:

Non demander, Lettor, ch’io non lo scrivo.
Però ch’ogni parlar sarebbe poco.
Io non morii, e non rimasi vivo:
Pensa oramai per te, s’hai fior d’ingegno
Qual io divenni, d’uno e d’altro privo.
____________________
Réquiem — Ana Akhmátova, Tradução livre e Notas de Aurora Fononi Bernardini e Hadasa Cytrynowicz e Prefácio de Leo Gilson Ribeiro, edição bilíngue, Coleção Toda Poesia 10, 1991, Art Editora, São Paulo — SP; Ana Akhmatóva (1889 1966), ou Ana Andréevna Gorenko, ucraniana de Odessa, antigo Império Russo, foi poetisa, tradutora e biógrafa; após iniciar seus estudos, inscreveu-se na Faculdade de Direito de Kiev e, mais tarde, transferindo-se para Petersburgo, estudou Literatura e História; obras: Entardecer (1912), Rosário (1914), Rebanho branco (1917), Capim (1921), Anno Domini MCMXXI (1922), De Seis Livros (antologia de poemas já publicados e novos poemas, 1940), Poemas 1909—1960 (a obra Poemas, que fora censurada anteriormente, foi publicada em 1961), Réquiem (1963), O vôo do tempo (1965), e outros títulos; a poetisa sofreu expurgo na era stalinista, teve obras censuradas e vetadas para circulação e foi forçada a fazer deslocamentos dentro da própria União Soviética; em 1956 deu-se o início de sua reabilitação e, a partir daí, Ana Akhmátova pode viajar para o exterior e receber premiações literárias.

domingo, 21 de novembro de 2021

Ana Akhmátova: Tranquilo corre o Don silencioso, . . .

 
____________________
2.

[em tradução livre por Aurora Fononi Bernardini e Hadasa Cytrynowikz]

Tranquilo corre o Don silencioso,
Amarela, a lua entra em casa,

Entra, o boné de viés,
Vê uma sombra, amarela, a lua.

Essa mulher está enferma,
Essa mulher está só,

Marido na cova, filho no xadrez,
Rogai por mim.

[1938]

Ana Akhmátova

II

Тихо льется тихий Дон,
Желтый месяц входит в дом.

Входит в шапке набекрень.
Видит желтый месяц тень.

Эта женщина больна,
Эта женщина одна.

Муж в могиле, сын в тюрьме,
Помолитесь обо мне.

[1938]
____________________
Réquiem — Ana Akhmátova, Tradução livre e Notas de Aurora Fononi Bernardini e Hadasa Cytrynowicz e Prefácio de Leo Gilson Ribeiro, edição bilíngue, Coleção Toda Poesia 10, 1991, Art Editora, São Paulo — SP; Ana Akhmatóva (1889 1966), ou Ana Andréevna Gorenko, ucraniana de Odessa, antigo Império Russo, foi poetisa, tradutora e biógrafa; após iniciar seus estudos, inscreveu-se na Faculdade de Direito de Kiev e, mais tarde, transferindo-se para Petersburgo, estudou Literatura e História; obras: Entardecer (1912), Rosário (1914), Rebanho branco (1917), Capim (1921), Anno Domini MCMXXI (1922), De Seis Livros (antologia de poemas já publicados e novos poemas, 1940), Poemas 1909—1960 (a obra Poemas, que fora censurada anteriormente, foi publicada em 1961) Réquiem (1963) O vôo do tempo (1965), e outros títulos; a poetisa sofreu expurgo na era stalinista, teve obras censuradas e vetadas para circulação e foi forçada a fazer deslocamentos dentro da própria União Soviética; em 1956 deu-se o início de sua reabilitação e, a partir daí, Ana Akhmátova pode viajar para o exterior e receber premiações literárias.

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Ana Akhmátova: Voam leves as semanas, . . .

 
____________________
[em tradução livre por Aurora Fononi Bernardini e Hadasa Cytrynowikz]

6.

Voam leves as semanas,
O que se passou, não entendo.
Como te olhavam, filhinho,
Na prisão as noites brancas,
E como te olham ainda
Seus olhos quentes de gavião,
E falam da tua cruz
Alta e da tua morte.

(1939.)

Ana Akhmátova

VI

Легкие летят недели,
Что случилось, не пойму.
Как тебе, сынок, в тюрьму
Ночи белые глядели,
Как они опять глядят
Ястребиным жарким оком,
О твоем кресте высоком
И о смерти говорят.

[Весна (1939.) г.]
____________________
Réquiem — Ana Akhmátova, Tradução livre e Notas de Aurora Fononi Bernardini e Hadasa Cytrynowicz e Prefácio de Leo Gilson Ribeiro, edição bilíngue, Coleção Toda Poesia 10, 1991, Art Editora, São Paulo — SP; Ana Akhmatóva (1889 1966), ou Ana Andréevna Gorenko, ucraniana de Odessa, antigo Império Russo, foi poetisa, tradutora e biógrafa; após iniciar seus estudos, inscreveu-se na Faculdade de Direito de Kiev e, mais tarde, transferindo-se para Petersburgo, estudou Literatura e História; suas obras: Entardecer (1912), Rosário (1914), Rebanho branco (1917), Capim (1921), Anno Domini MCMXXI (1922), De Seis Livros (antologia de poemas já publicados e novos poemas, 1940), Poemas 1909—1960 (a obra Poemas, que fora censurada anteriormente, foi publicada em 1961) Réquiem (1963) O vôo do tempo (1965), e outros títulos; a poetisa sofreu expurgo na era stalinista, teve obras censuradas e vetadas para circulação e foi forçada a fazer deslocamentos dentro da própria União Soviética; em 1956 deu-se o início de sua reabilitação e, a partir daí, Ana Akhmátova pode viajar para o exterior e receber premiações literárias.

segunda-feira, 5 de julho de 2021

Ana Akhmátova: À morte

 
____________________
[em tradução livre por Aurora Fononi Bernardini e Hadasa Cytrynowikz]

8.

Vais vir mesmo, por que não agora?
Espero-te  estou muito mal.
Apaguei a luz e escancarei a porta
Para ti, tão prodigiosa e simples.
Assume para isso o aspecto que quiseres,
Penetra, envenenado projétil
Ou sorrateira aproxima-te, adestrado bandido,
Ou como a névoa do tifo* sufoca-me.
Ou então, como uma fábula por ti inventada
E conhecida de todos, até à náusea 
Faz com que eu veja a ponta de um barrete azul**
E branco de medo, o administrador.
Para mim agora tudo é indiferente. Enovela-se o Ienissei,
Fulgura a estrela do norte.
E o brilho azul dos olhos amados
O último horror encobre.

19 de agosto de 1939. Casa da Fontanka.

Ana Akhmátova

8.

К СМЕРТИ

Ты все равно придешь  зачем же не теперь?
Я жду тебя  мне очень трудно.
Я потушила свет и отворила дверь
Тебе, такой простой и чудной.
Прими для этого какой угодно вид,
Ворвись отравленным снарядом
Иль с гирькой подкрадись, как опытный бандит,
Иль отрави тифозным чадом.
Иль сказочкой, придуманной тобой
И всем до тошноты знакомой, 
Чтоб я увидела верх шапки голубой
И бледного от страха управдома.
Мне все равно теперь. Клубится Енисей,
Звезда Полярная сияет.
И синий блеск возлюбленных очей
Последний ужас застилает.

19 августа 1939, Фонтанный Дом

Notas dos tradutores:
* Durante a epidemia de tifo era hábito ferver todos os indumentos, havendo portanto muito vapor nas casas dos doentes;
** Cor do uniforme dos agentes da NKVD.
____________________
Réquiem — Ana Akhmátova, Tradução livre e Notas de Aurora Fononi Bernardini e Hadasa, Cytrynowicz e Prefácio de Leo Gilson Ribeiro, edição bilíngue, Coleção Toda Poesia 10, 1991, Art Editora, São Paulo — SP; Ana Akhmatóva (1889 1966), ou Ana Andréevna Gorenko, ucraniana de Odessa, antigo Império Russo, foi poetisa, tradutora e biógrafa; após iniciar seus estudos, inscreveu-se na Faculdade de Direito de Kiev e, mais tarde, transferindo-se para Petersburgo, estudou Literatura e História; obras: Entardecer (1912), Rosário (1914), Rebanho branco (1917), Capim (1921), Anno Domini MCMXXI (1922), De Seis Livros (antologia de poemas já publicados e novos poemas, 1940), Poemas 1909—1960 (a obra Poemas, que fora censurada anteriormente, foi publicada em 1961), Réquiem (1963), O vôo do tempo (1965), e outros títulos; a poetisa sofreu expurgo na era stalinista, teve obras censuradas e vetadas para circulação e foi forçada a fazer deslocamentos dentro da própria União Soviética; em 1956 deu-se o início de sua reabilitação e, a partir daí, Ana Akhmátova pode viajar para o exterior e receber premiações literárias.

domingo, 6 de junho de 2021

Ana Akhmátova: Dedicatória [do livro Réquiem]

 
____________________
[em tradução livre por Aurora Fononi Bernardini e Hadasa Cytrynowikz]

Diante dessa dor curvam-se os montes,
O grande rio já não corre,
Mas são fortes as trancas das prisões,
E atrás delas os “covis de forçados”*.
E uma angústia mortal.
Para quem sopra a vida leve,
A quem enternece o pôr-do-sol **
Não sabemos, por toda parte iguais,
Ouvimos só o hediondo estridor das chaves
E os passos pesados dos soldados.
Levantávamos como para a missa da manhã,
Íamos pela cidade embrutecida,
Nos víamos lá, mais exânimes que os mortos,
O sol mais baixo e mais nublado o Nieva,
Mas a esperança ainda cantando ao longe.
A sentença... E as lágrimas irrompem,
De todos já afastada,
A vida arrancada do coração aos gritos.
Derrubada de costas, brutalmente,
Mas ela anda... Cambaleia... Só...
Onde estão as amigas prisioneiras
Dos meus dois anos de inferno?***
O que eles vêem na tormenta siberiana,
O que tremeluz no halo da lua?
A elas, meu adeus de despedida.

Março 1940.

Ana Akhmátova

ПОСВЯЩЕНИЕ

Перед этим горем гнутся горы,
Не течет великая река,
Но крепки тюремные затворы,
А за ними «каторжные норы»
И смертельная тоска.
Для кого-то веет ветер свежий,
Для кого-то нежится закат —
Мы не знаем, мы повсюду те же,
Слышим лишь ключей постылый скрежет
Да шаги тяжелые солдат.
Подымались как к обедне ранней.
По столице одичалой шли,
Там встречались, мертвых бездыханней,
Солнце ниже и Нева туманней,
А надежда все поет вдали.
Приговор... И сразу слезы хлынут,
Ото всех уже отделена,
Словно с болью жизнь из сердца вынут,
Словно грубо навзничь опрокинут,
Но идет… шатается… одна…
Где теперь невольные подруги
Двух моих осатанелых лет?
Что им чудится в сибирской вьюге,
Что мерещится им в лунном круге?
Им я шлю прощальный свой привет.

Март 1940

Notas dos tradutores:
* A expressão foi retirada da penúltima quadra do poema “Voglubiné Sibírskikh rud” (“No fundo das minas siberianas”), espécie de carta em verso escrita por Púchkin em 1827 aos “decabristas” exilados pelo czar Nicolau I, exortando-os a resistir à provação e prevendo tempos melhores. A quadra é a seguinte:

O amor e a amizade a vós
Virão atravessando obscuros cadeados,
Como a vossos covis de forçados,
Chega minha livre voz.

A diferença de tom entre a carta de Púchkin e a dedicatória de Akhmátova é, entretanto, patente. No primeiro caso, a voz do poeta incita à coragem, no segundo ela é tão-somente um adeus.

** Essas duas linhas, inciadas por uma anáfora inesperadamente primária, são, de acordo com Susan Amert (cf. Akhmatova’s “Song of the motherland”: rereading the opening texts of Rekviem. Slavic Rewiew, 49, n. 3, 1990), uma paródia de dois versos semelhantes de Pesnia o rodine (Canção da pátria) (1935), composição de Vassíli Lebedev-Kumach, famosa nos tempos de Stálin:

Nad stranói vesénnii véter véet,
S kájdim dniom vse rádostnee jit’.

Por sobre a pátria sopra o vento primaveril,
A cada dia viver é mais alegre.

Assim, como a segunda linha da dedicatória de Akhmátova, “O grande rio já não corre”, seria uma alusão subversiva de “Tochno Volga pólnaia, tetchót” (“Qual Volga caudaloso, corre”), da mesma canção do autor citado.

*** As duas linhas ecoam o começo do poema de Púchkin, escrito em 1826, “Nianie” (“À babá”) — “Podruga dnei moickh suróvikh” (“Amiga de meus dias sombrios”) — dedicado a Arina Rodiônovna, babá do poeta, inspiradora e fiel companheira do exílio em Mikháilovskoie, onde Púchkin permaneceu dois anos, sob a tutela política do pai.
____________________
Réquiem — Ana Akhmátova, Tradução livre e Notas de Aurora Fononi Bernardini e Hadasa, Cytrynowicz e Prefácio de Leo Gilson Ribeiro, edição bilíngue, Coleção Toda Poesia 10, 1991, Art Editora, São Paulo — SP; Ana Akhmatóva (1889 1966), ou Ana Andréevna Gorenko, ucraniana de Odessa, antigo Império Russo, foi poetisa, tradutora e biógrafa; após iniciar seus estudos, inscreveu-se na Faculdade de Direito de Kiev e, mais tarde, transferindo-se para Petersburgo, estudou Literatura e História; obras: Entardecer (1912), Rosário (1914), Rebanho branco (1917), Capim (1921), Anno Domini MCMXXI (1922), De Seis Livros (antologia de poemas já publicados e novos poemas, 1940), Poemas 1909—1960 (a obra Poemas, que fora censurada anteriormente, foi publicada em 1961), Réquiem (1963), O vôo do tempo (1965), e outros títulos; a poetisa sofreu expurgo na era stalinista, teve obras censuradas e vetadas para circulação e foi forçada a fazer deslocamentos dentro da própria União Soviética; em 1956 deu-se o início de sua reabilitação e, a partir daí, Ana Akhmátova pode viajar para o exterior e receber premiações literárias.

terça-feira, 25 de maio de 2021

Ana Akhmátova: A loucura com sua asa . . .

 
____________________
[em tradução livre por Aurora Fononi Bernardini e Hadasa Cytrynowikz]

9.

A loucura com sua asa
Já cobriu meia alma,
Ela verte um vinho inflamado
E atrai-me ao vale negro.

Já compreendi que a ela
Devo ceder a vitória,
Ouvindo meu delírio
Como se fosse o alheio.

E nada ela permite
Que leve embora comigo
(Por mais que lhe implore
E a enfade, lamurienta):

Nem os olhos terríveis do filho 
Petrificada dor ,
Nem o dia em que veio a tempestade,
Nem a hora de adeus no calabouço,

Nem o frescor de mãos suaves,
Nem as sombras agitadas das tílias,
Nem o leve som longínquo
Dos últimos consolos.

4 de maio de 1940, Casa da Fontanka.

Ana Akhmátova

9.

Уже безумие крылом
Души накрыло половину,
И поит огненным вином,
И манит в черную долину.

И поняла я, что ему
Должна я уступить победу,
Прислушиваясь к своему
Уже как бы чужому бреду.

И не позволит ничего
Оно мне унести с собою
(Как ни упрашивай его
И как ни докучай мольбою):

Ни сына страшные глаза —
Oкаменелое страданье,
Ни день, когда пришла гроза,
Ни час тюремного свиданья,

Ни милую прохладу рук,
Ни лип взволнованные тени,
Ни отдаленный легкий звук —
Слова последних утешений.

4 мая 1940, Фонтанный Дом.
____________________
Réquiem — Ana Akhmátova, Tradução livre e Notas de Aurora Fononi Bernardini e Hadasa, Cytrynowicz e Prefácio de Leo Gilson Ribeiro, edição bilíngue, Coleção Toda Poesia 10, 1991, Art Editora, São Paulo — SP; Ana Akhmatóva (1889 1966), ou Ana Andréevna Gorenko, ucraniana de Odessa, antigo Império Russo, foi poetisa, tradutora e biógrafa; após iniciar seus estudos, inscreveu-se na Faculdade de Direito de Kiev e, mais tarde, transferindo-se para Petersburgo, estudou Literatura e História; suas obras: Entardecer (1912), Rosário (1914), Rebanho branco (1917), Capim (1921), Anno Domini MCMXXI (1922), De Seis Livros (antologia de poemas já publicados e novos poemas, 1940), Poemas 19091960 (a obra Poemas, que fora censurada anteriormente, foi publicada em 1961), Réquiem (1963), O vôo do tempo (1965), e outros títulos; a poetisa sofreu expurgo na era stalinista, teve obras censuradas e vetadas para circulação e foi forçada a fazer deslocamentos dentro da própria União Soviética; em 1956 deu-se o início de sua reabilitação e, a partir daí, Ana Akhmátova pode viajar para o exterior e receber premiações literárias.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Ana Akhmátova: Há dezessete meses eu grito . . .


____________________
[em tradução livre por Aurora Fononi Bernardini e Hadasa Cytrynowikz]

5.

Há dezessete meses eu grito,
Te chamo para casa.
Joguei-me aos pés do carrasco,
Meu filho e meu terror.
Tudo turvou-se para sempre,
Não posso mais distinguir
Quem é homem ou fera e quanto
A pena me cabe esperar.
Há somente flores de pó,
E o tilintar do turíbulo, e rastros,
Algures, para lugar nenhum.
Direto nos olhos fita-me
E ameaça de morte próxima
A enorme estrela.

Imagem relacionada
Ana Akhmátova

5.

Семнадцать месяцев кричу,
Зову тебя домой.
Кидалась в ноги палачу
Ты сын и ужас мой.
Все перепуталось навек,
И мне не разобрать
Теперь, кто зверь, кто человек,
И долго ль казни ждать.
И только пышные цветы,
И звон кадильный, и следы
Куда-то в никуда.
И прямо мне в глаза глядит
И скорой гибелью грозит
Огромная звезда.
____________________
Réquiem — Ana Akhmátova, Tradução livre e Notas de Aurora Fononi Bernardini e Hadasa, Cytrynowicz e Prefácio de Leo Gilson Ribeiro, edição bilíngue, Coleção Toda Poesia 10, 1991, Art Editora, São Paulo — SP; Ana Akhmatóva (1889  1966), ou Ana Andréevna Gorenko, ucraniana de Odessa, antigo Império Russo, foi poetisa, tradutora e biógrafa; após iniciar seus estudos, inscreveu-se na Faculdade de Direito de Kiev e, mais tarde, transferindo-se para Petersburgo, estudou Literatura e História; bibliografia:  Entardecer (1912), Rosário  (1914), Rebanho branco (1917), Capim  (1921), Anno Domini MCMXXI (1922), De Seis Livros (antologia de poemas já publicados e novos poemas, 1940), Réquiem (1963) O vôo do tempo (1965), e outros títulos; a poetisa sofreu expurgo na era stalinista, teve obras censuradas e vetadas para circulação e foi forçada a fazer deslocamentos dentro da própria União Soviética; em 1956 deu-se o início de sua reabilitação e a partir daí Ana Akhmátova pode viajar para o exterior e receber premiações literárias.

domingo, 17 de junho de 2018

Ana Akhmátova: Veredicto

____________________
[em tradução livre por Aurora Fononi Bernardini e Hadasa Cytrynowikz]

7.

E a palavra de pedra caiu
Em meu peito ainda vivo.
Não é nada, já estava preparada,
Darei um jeito, de qualquer maneira.

Hoje, tenho muito que fazer:
É preciso acabar com o eco da memória,
É preciso que a alma se transforme em pedra,
É preciso reaprender a viver.

Se não... O quente farfalhar do estio,
Uma festa, atrás do meu postigo.
Há tempo pressentira esse
Dia claro e a casa vazia.

22 de junho de 1939. * Casa da Fontanka. **

Resultado de imagem para anna akhmatóva
Ana Akhmátova

7.

Приговор

И упало каменное слово
На мою еще живую грудь.
Ничего, ведь я была готова,
Справлюсь с этим как-нибудь.

У меня сегодня много дела:
Надо память до конца убить,
Надо чтоб душа окаменела,
Надо снова научиться жить.

А не то... Горячий шелест лета,
Словно праздник за моим окном.
Я давно предчувствовала этот
Светлый день и опустелый дом.

1939. летo

Notas dos tradutores:
* A data se refere à condenação de Lev Gumilióv [1912  1992, filho de Ana Akhmátova] para o campo de concentração;
** Casa de Fontanka ou Fontánni Dom, nome dado ao palácio dos condes Cheremiétiev, sobre o rio Fontanka, em São Petersburgo, construído em 1750-1755 pelos arquitetos F. S. Argunóv e S. I. Chevakínski; a poetisa residiu ali, juntamente com outras pessoas, de 1923 a 1941.
____________________
Réquiem Ana Akhmátova, Tradução livre e Notas de Aurora Fononi Bernardini e Hadasa, Cytrynowicz e Prefácio de Leo Gilson Ribeiro, edição bilíngue, Coleção Toda Poesia 10, 1991, Art Editora, São Paulo SP; Ana Akhmatóva (1889  1966), ou Ana Andréevna Gorenko, ucraniana de Odessa, antigo Império Russo, foi poetisa, tradutora e biógrafa; após iniciar seus estudos, inscreveu-se na Faculdade de Direito de Kiev e, mais tarde, transferindo-se para Petersburgo, estudou Literatura e História; bibliografia: Entardecer (1912), Rosário (1914), Rebanho branco (1917), Capim (1921), Anno Domini MCMXXI (1922), De Seis Livros (antologia de poemas já publicados e novos poemas, 1940), Réquiem (1963) O vôo do tempo (1965), e outros títulos; a poetisa sofreu expurgo na era stalinista, teve obras censuradas e vetadas para circulação e foi forçada a fazer deslocamentos dentro da própria União Soviética; em 1956 deu-se o início de sua reabilitação e a partir daí Ana Akhmátova pode viajar para o exterior e receber premiações literárias.