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terça-feira, 17 de outubro de 2023

Zé Gamela: Confissão de poeta*


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Escrevo há cinquenta anos
Poesia popular,
Poesia de cordel,
Em modesto versejar,
Sem riqueza de linguagem,
Levando ao povo a mensagem,
Sem pretensão de brilhar.
Escrevo há cinquenta anos
Inspirado no repente.
E usando minha poesia
Vivo na linha de frente,
Contra o sistema impudico
Que torna o homem mais rico
E o pobre mais decadente.
Escrevo há cinquenta anos,
A combater a opressão,
Pondo na minha poesia
Anseios da multidão.
Muito embora perseguido,
Jamais me dei por vencido,
Pois não temo a reação.
A minha poesia é simples,
Mas contém sinceridade.
Falta-lhe o vocabulário
Que se aprende em faculdade.
Com ela canto a beleza
E exalto toda a grandeza
De nossa brasilidade.
É o canto de nossa gente,
A raiz nacionalista,
Que vibra com nosso povo
Na marcha socialista,
Denunciando a opressão
Dos agentes da traição
Em sua voragem entreguista.
Poesia nacional,
Sem interferência estrangeira.
É o canto do camponês
Que exalta a mulher rendeira.
É a poesia da alpercata,
Que sem proferir bravata
Se torna bem brasileira.
É a mensagem inspirada
Nos anseios populares,
Que combate e não aceita
Os nefastos lupanares,
É a poeira das estradas,
É o deslizar das jangadas
Nas ondas dos verdes mares.
Literatura do povo,
Refletindo a grande lida
De um sertão abandonado,
Com sua gente sofrida
Que luta por liberdade,
Fraternidade, igualdade,
Indispensáveis na vida.
Não é poesia de salão
Do mundo intelectual.
É a poesia do repente
Espontâneo e natural.
É mensagem brasileira
De nossa gente guerreira
Com ardor nacional.
Poesia do bumba-meu-boi,
Poesia do pastoril,
Poesia das vaquejadas,
Que com arrojo viril,
Sem a riqueza verbal,
Tem por sublime ideal
Valorizar o Brasil.

* [Zé Gamela traçou este cordel autobiográfico por ocasião do seu cinquentenário como cordelista, conforme Wanderlino Teixeira Leite Netto, no tópico Literatura de cordel deste Passeio das Letras...]

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Passeio das Letras na Taba de Araribóia: A literatura em Niterói no século XX — Wanderlino Teixeira Leite Netto, Apresentação de Marcos Gomes, 2003, Niterói Livros: Fundação de Artes de Niterói — FAN, Niterói — RJ; de pseudônimo Zé Gamela, ou Divaldo Gomes Ribeiro (1914 2002), baiano de Lençóis, aos 13 anos começou a labutar, “foi quase tudo: garimpeiro, cangaceiro, aprendiz de marinheiro, sargento, carregador de malas, administrador de empresas, jornalista, gerente de hotel, autor, contrarregra”, além de, também desde cedo, ter-se dedicado às artes circenses, ao teatro e à literatura de cordel; assim, Zé Gamela ampliou seus ofícios: foi ator, diretor de teatro e cordelista autor de mais de duas centenas de cordéis; depois de mambembear pelo país afora, chegou em Niterói em 1956, fundou o TET Teatro Experimental do Trabalhador, em parceria com Dety Ribeiro, sua esposa e atriz-vedete, criou e construiu ele próprio oito circos-teatro o Circo Orion, também chamado Pavilhão do Zé Gamela, tendo sido um deles , escreveu e apresentou dezenas de peças, entre as quais as do gênero-revista Rumo ao Ingá, Garotas do Bambolê, O Negócio é Fofoca, Cartões Turísticos de Niterói; com seu circo-teatro itinerante, Zé Gamela e suas apresentações fizeram périplo por diversas cidades, vilas e pequenos povoados; o ator e autor também trabalhou nos circos Garcia, Tihany, Teatro-Show...; Zé Gamela foi preso várias vezes, por suas convicções políticas: mostrava sua indignação contra os opressores e dava voz aos anseios populares através de seus cordéis.