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terça-feira, 18 de maio de 2021

Zeferino Brazil: Branca, entre lírios e camélias, morta . . . [soneto]

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Branca, entre lírios e camélias, morta
Vejo-a, serena flor esmaecida...
Aproxima-se o instante da partida,
E, ai! como esta certeza desconforta!

Vai para o céu, risonha, adormecida,
E para o céu o nosso amor transporta,
Porque a morte cruel, que a vida corta,
O amor não corta que nos doura a vida.

“Que formosa!” suspira o céu ao vê-la;
“Que testa de anjo e que cabelo louro!”
Soluçando, murmura cada estrela.

E querubins vão-na levando às francas
Paragens claras das esferas de ouro,
Morta, entre lírios e camélias brancas.

(Vovó Musa — 1903)

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História da Literatura Brasileira — Simbolismo: Massaud Moisés, 1988, 2ª edição, Editora Cultrix, São Paulo — SP; Zeferino Antônio de Souza Brazil (1870 1942), gaúcho de Taquari, foi cronista, romancista, dramaturgo, crítico literário e sobretudo poeta parnasiano e simbolista, tendo recebido o epíteto de "príncipe dos poetas riograndenses"; colaborou com os periódicos Jornal do Comércio, Correio do Povo, Última Hora e Gazeta do Comércio entre outros veículos, nos quais fazia uso, além do seu nome verdadeiro, também de vários pseudônimos (Nilo Castanheira, João Simplício, Lúcifer, Til, Eça de Oliveira, Brás Patife Júnior, José dos Cantinhos, Tic, Tac, Diabo Coxo, Vasco de Montarroyos, Phoebus de Montalvão, Luiz Denis, etc.); escreveu e publicou: Alegros e Surdinas (versos dos 15 anos, 1891), Traços Cor de Rosa (versos, 1892), Comédia da Vida (1896), Juca, o Letrado (estudo da psicologia mórbida, 1900), Vovó Musa (1903), Visão do Ópio (1906), Na Torre de Marfim (1910), Comédia da Vida, versos alegres para gente triste — segunda série (1914) O Meio: psicofisiologia do alcoolismo (1922), Teias de Luar (1924), Boêmia de Pena (prosa velha, 1932), Alma Gaúcha (1935), entre outros títulos.

quinta-feira, 29 de abril de 2021

Raul de Leoni: Legenda dos Dias

 
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O Homem desperta e sai cada alvorada
Para o acaso das cousas... e, à saída,
Leva uma crença vaga, indefinida,
De achar o Ideal nalguma encruzilhada...

As horas morrem sobre as horas... Nada!
E ao poente, o Homem, com a sombra recolhida
Volta, pensando: "Se o Ideal da Vida
Não vejo hoje, virá na outra jornada...

Ontem, hoje, amanhã, depois, e, assim,
Mais ele avança, mais distante é o fim,
Mais se afasta o horizonte pela esfera;

E a Vida passa... efêmera e vazia:
Um adiantamento eterno que se espera,
Numa eterna esperança que se adia...

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História da Literatura Brasileira — Simbolismo: Massaud Moisés, 1988, 2ª edição, Editora Cultrix, São Paulo — SP; Raul de Leôni (1895 1926), nascido em Petrópolis RJ, formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade Livre de Direito do Rio de Janeiro, foi diplomata e poeta; em 1914 iniciou sua colaboração literária em revistas (Fon-Fon e Para Todos) e jornais cariocas (Jornal do Brasil, Jornal do Comércio, O Jornal e O Dia); bibliografia: Ode a Um Poeta Morto (1919) e Luz Mediterrânea (1922); parte de sua obra em prosa, artigos de interesse literário, ficou dispersa em periódicos da época.

quarta-feira, 21 de abril de 2021

Pedro Kilkerry: Horas ígneas *

 

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Eu sorvo o haxixe do estio...
E evolve um cheiro, bestial,
Ao solo quente, como o cio
De um chacal.

Distensas, rebrilham sobre
Um verdor, flamâncias de asa...
Circula um vapor de cobre
Os montes de cinza e brasa.

Sombras de voz hei no ouvido
De amores ruivos, protervos
E anda no céu, sacudido,
Um pó vibrante de nervos.

O mar faz medo... que espanca
A redondez sensual
Da praia, como uma anca

De animal.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Nem ondas de sangue... e sangue
Nem de uma nau Morre a cisma.
Doiram-me as faces do prisma
Mulheres flores num mangue...


* Nota de Massaud Moisés: Apud Augusto de Campos, Re-visão de Kilkerry. S. Paulo, Fundo Estadual de Cultura, 1970, pp. 94-5. Além de um longo e elucidativo estudo da obra do poeta, o volume reúne toda a sua obra dispersa.
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História da Literatura Brasileira — Simbolismo: Massaud Moisés, 1988, 2ª edição, Editora Cultrix, São Paulo — SP; Pedro Militão Kilkerry (1885 1917), baiano de Santo Antonio de Jesus, formado em Ciências Jurídicas e Sociais na Faculdade de Direito da Bahia, foi advogado, jornalista e poeta simbolista; fez parte do grupo literário baiano 'Nova Cruzada', vindo a publicar seus poemas em revista homônima, órgão simbolista, e também em Os Anais, colaborando ainda com poemas e artigos em outros periódicos da capital baiana; não publicou nenhum livro em vida; sua obra poemas e outros manuscritos, inclusive os mantidos oralmente por amigos e familiares , foi recuperada, recolhida e publicada pelo poeta Augusto de Campos, no volume ReVisão de Kilkerry (1970), que o considera um dos precursores do modernismo no Brasil; graças a este trabalho de garimpagem poética de Campos, a poesia de Kilkerry vem sendo percebida como uma das grandes forças do simbolismo brasileiro.

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Silveira Neto: Pórtico

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Versos mendigos de mantos reais ,
Ide, que vos esperam sete espadas.
Fugi aos olhos d’oiros senhoriais:
Antes a prece aldeã pelas estradas...

Ide arrastar o meu burel de monge;
(Quanta saudade esse burel traduz...)
Se encontrardes o Mundo, tende-o longe,
Porque os seus braços são braços de cruz.

Direis a uns Olhos Olhos onde a sorte
Pôs meu Ser a rezar, como em altares
Que me vou de caminho para a Morte.

E a Morte... essa verá, na triste hosana
Do poente roxo que orla os meus olhares,
Como anoitece uma existência humana.

(Luar de Hinverno — 1900)

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História da Literatura Brasileira — Simbolismo: Massaud Moisés, 1988, 2ª edição, Editora Cultrix, São Paulo — SP; Manuel Azevedo da Silveira Neto (1872 1942), paranaense de Morretes, foi poeta, desenhista, crítico de arte, conferencista e orador; iniciou o curso de humanidades (estudos interrompidos), entrou para a Litografia de Narciso Filgueiras, onde estudou gravura e desenhos em pedra, e ingressou na Escola de Belas Artes de Curitiba; prestou concurso e passou a trabalhar na Fazenda Federal; integrou a revista O Cenáculo, periódico de um grupo de mesmo nome, em que participava junto de outros autores simbolistas Dario Veloso e Júlio Perneta, entre eles; mudando para o Rio de Janeiro, passou a freqüentar rodas poéticas na companhia de Nestor Vítor e Cruz e Sousa; sua obra: Pela consciência (opúsculo, 1898), Antonio Nobre (elegia, 1900), Luar de Hinverno (poesias, 1900), Brasílio Itiberê (elegia com música, 1913), Do Guaíra aos Saltos do Iguaçu (1914), Ronda Crepuscular (poesias, 1923), Cruz e Sousa (ensaio, 1924), O Bandeirante (1927) etc; Silveira Neto também foi criador da revista A Luta, além de ter colaborado com as revistas Azul, O Sapo, Breviário, todas de Curitiba, Terra do Sol, Festa, no Rio de Janeiro, e  em outros periódicos pelo país afora e no estrangeiro.

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Augusto dos Anjos: Agonia de um Filósofo

 
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Consulto o Phtah-Hotep. Leio o obsoleto
Rig-Veda. E, ante obras tais, me não consolo...
O Inconsciente me assombra e eu nele rolo
Com a eólica fúria do harmatã inquieto!

Assisto agora à morte de um inseto!...
Ah! todos os fenômenos do solo
Parecem realizar de pólo a pólo
O ideal de Anaximandro de Mileto!

No hierático areópago heterogêneo
Das idéias, percorro como um gênio
Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!...

Rasgo dos mundos o velário espesso;
E em tudo, igual a Goethe, reconheço
O império da substância universal!

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História da Literatura Brasileira — Simbolismo: Massaud Moisés, 1988, 2ª edição, Editora Cultrix, São Paulo — SP; Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884 1914), paraibano de Sapé, aprendeu as primeiras letras com o pai, fez o curso secundário no Liceu Paraibano, formou-se em Direito pela Faculdade de Recife e não advogou, foi professor e poeta; em 1908, recém-formado, transfere-se para a capital da Paraíba, passa a dar aulas particulares e é nomeado professor interino de Literatura do Liceu Paraibano; em 1910, muda-se para o Rio de Janeiro e, continuando no magistério, assume o cargo de professor de Geografia na Escola Normal e no Colégio Pedro II; em 1913, mudando-se para Leopoldina MG, é nomeado diretor do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira e continua a dar aulas particulares; seus poemas, e alguma prosa, são publicados em vários jornais da época: Almanaque do Estado da Paraíba, O Comércio (Paraíba), Nonevar (Paraíba), A União, Gazeta de Leopoldina (Leopoldina MG); publicou, em vida, sua única obra, Eu (1912); em 1920, foi editado na Paraíba, Eu e Outras Poesias, reunindo a sua produção posterior ao primeiro e único livro; hoje é um dos poetas mais estudados e reeditados no Brasil.

domingo, 14 de março de 2021

Marcelo Gama: Bonita e Feia

 
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Bela, mas fria. Fria, mas bonita.
Misto de graça e de melancolia.
Cedo gelou aspérrima invernia
e coração que no seu peito habita.

Por que bonita, sendo assim tão fria?
Por que tão fria, sendo assim bonita?
De algum pólo talvez, flor esquisita,
exilada, a morrer de nostalgia.

Foge do amor, religião que evita,
desconhecendo a sua liturgia,
e baixa os olhos, quando alguém os fita.

Bela que a indiferença desafia!
Mas, de que serve ser assim bonita,
sendo bonita, mas assim tão fria?

(Avatar — 1904)

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História da Literatura Brasileira — Simbolismo: Massaud Moisés, 1988, 2ª edição, Editora Cultrix, São Paulo — SP; Marcelo Gama, nome literário (1878 1915), pseudônimo de Possidônio Machado, gaúcho de Mostardas, de índole inquieta e boêmia, autodidata, viveu de jornalismo e de modestos empregos e foi poeta, dramaturgo, cronista e editor; em 1898, em Porto Alegre RS, fundou o quinzenário Artes e Letras e, em Cachoeira do Sul RS, a revista A Lua; depois, transferindo-se para o Rio de Janeiro, continuou a levar a mesma vida de noctívago e sonhador, vindo a falecer de forma inusitada ao ter sido lançado para fora do bonde em que viajava, dormindo, em pleno madrugada, caindo de uma ponte sobre os trilhos de estrada de ferro; bibliografia: Via Sacra (1902), Avatar (1904), Noite de Insônia (1907), todos publicados em Porto Alegre; em 1944, a Sociedade Felipe d’Oliveira, no Rio de Janeiro,  publicou-lhe as obras completas sob o título de Via Sacra e Outros Poemas, acrescentando os Dispersos aos livros mencionados; foi um dos membros fundadores da Academia Rio-Grandense de Letras e é tido por estudiosos como o poeta que introduziu o Simbolismo no Rio Grande do Sul.

sexta-feira, 12 de março de 2021

Cruz e Sousa: Antífona *

 
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Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
de luares, de neves, de neblinas!...
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas...
Incensos dos turíbulos das aras...

Formas do Amor, constelarmente puras,
de Virgens e de Santas vaporosas...
Brilhos errantes, medidas frescuras
e dolências de lírios e de rosas...

Indefiníveis músicas supremas,
harmonias da Cor e do Perfume...
Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,
Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume...

Visões, salmos e cânticos serenos,
surdinas de órgãos flébeis, soluçantes...
Dormências de volúpicos venenos
sutis e suaves, mórbidos, radiantes...

Infinitos espíritos dispersos,
inefáveis, edênicos, aéreos,
fecundai o Mistério destes versos
com a chama ideal de todos os mistérios.

Do Sonho as mais azuis diafaneidades
que fuljam, que na Estrofe se levantem
e as emoções, todas as castidades
da alma do Verso, pelos versos cantem.

Que o pólen de ouro dos mais finos astros
fecunde e inflame a rima clara e ardente...
que brilhe a correção dos alabastros
sonoramente, luminosamente.

Forças originais, essência, graça
de carnes de mulher, delicadezas...
Todo esse eflúvio que por ondas passa
do Éter nas róseas e áureas correntezas...

Cristais diluídos de clarões alacres,
desejos, vibrações, ânsias, alentos
fulvas vitórias, triunfamentos acres,
os mais estranhos estremecimentos...

Flores negras do tédio e flores vagas
de amores vãos, tantálicos, doentios...
Fundas vermelhidões de velhas chagas
em sangue, abertas, escorrendo em rios...

Tudo! vivo e nervoso e quente e forte,
nos turbilhões quiméricos do Sonho,
passe, cantando, ante o perfil medonho
e o tropel cabalístico da Morte...


* Nota deste Verso e Conversa: o atrevido aprendiz de blogueiro desta página faz constar que nas Preliminares desta História da Literatura Brasileira — Simbolismo, Massaud Moisés assim descreve a respeito do surgimento do movimento simbolista em terras brasileiras e do poema Antífona: ‘... Assim, chegamos a 1893, “ano climatérico”, ao ver de Araripe Júnior: Cruz e Sousa publica Missal e Broquéis, cujo conteúdo definia nitidamente o movimento simbolista entre nós. “Antífona”, poema inicial de Broquéis, é, como se sabe, verdadeira profissão de fé simbolista: (...) Com o falecimento de Cruz e Sousa, em 1898, fechava-se o ciclo ativo do movimento: esmorece o ímpeto revolucionário; cismas internos desintegram o edifício laboriosamente erguido pelo autor de Broquéis e companheiros de geração.'
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História da Literatura Brasileira — Simbolismo: Massaud Moisés, 1988, 2ª edição, Editora Cultrix, São Paulo — SP; João da Cruz e Sousa (1861 1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, estudou e foi educado nas melhores escolas da região; com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e foi obrigado a trabalhar; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público, por ser negro; já no Rio de Janeiro, em 1890, manteve contato com a poesia simbolista francesa, colaborou em alguns jornais e publicou Missal (poemas em prosa, 1893) e Broquéis (poemas, 1893); em 1885, já publicara Tropos e Fantasias (poemas em prosa), em conjunto com Virgílio Várzea; no Rio, mesmo bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego miserável, como arquivista, na Estrada de Ferro Central (do Brasil); foram editados postumamente Evocações (1898), Faróis (1900) e Últimos Sonetos (1905).

segunda-feira, 8 de março de 2021

Alceu Wamosy: Melancolia

 
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Mon âme est malade aujourd’hui
Mon âme est malade de absences…
Maurice Maeterlinck

Uma tarde tão triste; um céu de tanta bruma;
nem um adeus de sol pela planura rasa;
nem um rumor de canto, a alegria de uma asa;
tudo se esbate em sombra e em tristeza se esfuma.

E essa ausente não vem, para alumiar-me a casa
com o seu riso leal, que o meu ermo perfuma,
e aquelas suaves mãos  carne feita de pluma 
que atenuam a febre que meu corpo abrasa…

Como eu me sinto só, dentro do fim do dia!
Todo o meu coração é uma alcova sombria.
Tenho à boca o amargor de uma taça de fel.

E este abandono… Esta incerteza que me aflige…
Ó Georges Rodenbach! Ó meu Cisnes de Bruges!
Ó “Crepuscule Pluvieux” de Ephraim Mikhael!

(Coroa de Sonhos — 1923)

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História da Literatura Brasileira — Simbolismo: Massaud Moisés, 1988, 2ª edição, Editora Cultrix, São Paulo — SP; Alceu de Freitas Wamosy (1895 1923), gaúcho de Uruguaiana, foi poeta da fase do simbolismo; trabalhou como colaborador no jornal A Cidade (de propriedade de seu pai, em Alegrete RS) e também nos periódicos A Notícia, A Federação, O Diário e na revista A Máscara; passando por Porto Alegre, segue depois para Santana do Livramento e ali tornou-se proprietário do jornal O Republicano, a partir de 1917 e cujo periódico dirige até morrer; obra poética: Flâmulas (1913), Terra Virgem (1914), Coroa de Sonhos (1923); postumamente publicou-se Poesias Completas (1925, Editora Globo) e Poesia Completa (1994, Coleção Memória, da EDIPUCRS).

segunda-feira, 1 de março de 2021

Pereira da Silva: Hora de fundas cismas nos Espaços; . . . [soneto]

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Hora de fundas cismas nos Espaços;
Hora de paz, de lânguida dormência;
Hora em que os corações se sentem lassos
De respirar a poeira da existência...

Sobem da terra mórbidos cansaços,
Cansaços da Miséria, da Indigência.
E a sombra espalma pelos ares baços
A cor cristã das pétalas da hortênsia...

Ave Maria! Como a Noite desce,
Plena de Assombro e de melancolia,
Depois que o sol tem murcho toda a messe!

Ave Maria, Céus! Ave Maria!
Té sob tanta exaustação parece
Que exala o mundo a última agonia... *


* Nota de Massaud Moisés: Pereira da Silva, Vae Soli!, Curitiba, Imp. Paranaense, 1903, p.53.
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História da Literatura Brasileira — Simbolismo: Massaud Moisés, 1988, 2ª edição, Editora Cultrix, São Paulo — SP; Antônio Joaquim Pereira da Silva (1876 1944), paraibano de Araruna, estudou no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro, formou-se em Direito, foi promotor público, jornalista, crítico literário e poeta; colaborou como crítico literário nos jornais cariocas A Cidade do Rio, Gazeta de Notícias, Época e Jornal do Commercio, além de ter feito publicações nas revistas Mundo Literário, Rua do Ouvidor e outras; participou do grupo simbolista que publicou a revista Rosa-Cruz, divulgadora deste movimento literário; escreveu e publicou Vae Soli! (1903), Solitudes (1918), Beatitudes (1919), Holocausto (1921), O pó das sandálias (1923), Senhora da melancolia (1928) e outros títulos; pertenceu à Academia Brasileira de Letras.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Massaud Moisés: Simbolismo [na literatura brasileira]

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                    I. Preliminares *

                    [ . . . ]

                    5. O nosso movimento simbolista não constituiu época literária autônoma; misturou-se ao Parnasianismo. O apego à forma deitava fundas raízes em nossa tradição literária para ceder facilmente aos ímpetos renovadores do Simbolismo: herdeiros da cultura portuguesa e tendo recebido o modelo simbolista através do exemplo que vinha de Lisboa, não estranha que o gosto pela versificação rigorosa, clássica, estivesse arraigado entre nós. O Romantismo custou a romper os módulos neoclássicos, que vigoravam praticamente desde o século XVII. E o Parnasianismo, renegando o conteúdo sentimental da revolução romântica, pouco fez para que o culto da forma ganhasse aceitação, a ponto de, resistindo às tentativas de mudança, permanecer até a modernidade, como denunciam as obras de Cassiano Ricardo e Jorge de Lima. Nem mesmo o Simbolismo lhe recusou o influxo: atesta-o a freqüência com que o soneto foi cultivado, inclusive com preciosismos parnasianos.1
                    Nas minúcias, entretanto, a métrica simbolista diferiu da parnasiana: “no interior do verso é que se mostravam mais audaciosos. O deslocamento da cesura, e até a ausência dela; a divisão do alexandrino segundo medida ternária, pareceram, e ainda parecerão a alguns, falta de música”.2 E ainda no corte do decassílabo e no eneassílabo, no emprego do pentassílabo e do hendecassílabo trocaicos, do verso de 17 e 19 sílabas, e finalmente na inovação do verso livre.3 Quanto a este, seu aparecimento se processou tardiamente: os primeiros simbolistas, ainda vulneráveis ao formalismo parnasiano, não o empregaram. A utilização consciente do novo recurso se deveu a Adalberto Guerra Duval (Palavras que o vento leva..., 1900),4 mas permaneceu ¨fruto isolado, até o aparecimento de Histórias do Meu Casal, de Mário Pederneiras, em 1906, e a estréia de Hermes Fontes, com Apoteoses, em 1908”,5 tornando-se comum no Modernismo. Além disso, os simbolistas, inspirados nos temas medievais, ressuscitaram a vilanela, o canto real, o rondó, o rondel, o pantum, a balada.6 Quanto ao vocabulário, seguiam o estímulo francês, com o seu caráter medievalizante, litúrgico, funeral, hermético e esotérico, a que não faltaram incidências maçônicas.
                    Outro aspecto a ponderar são os fatores históricos: o fulcro sócioeconômico-cultural da Nação havia-se transferido para o sul, mercê do desenvolvimento a partir da segunda metade do século XVIII, com a descoberta e exploração de jazidas auríferas, e sobretudo após a transladação da corte de D. João VI para o Rio de Janeiro, em 1808. Desde o Arcadismo, e mais precisamente com o Romantismo, o foco central de nossa atividade literária havia-se deslocado para o sul, conseqüente à mudança do eixo econômico, primeiro em torno do minério e, mais tarde, do café. E a tal ponto se enraizou na região sulina que nem o efêmero sonho dum eldorado amazônico, estimulado pela borracha, conseguiu desviar o rumo dos acontecimentos. O Sul apresentava condições ideais para a aclimação duma estética refinada, flor de estufa das civilizações, como era o Simbolismo. Inicialmente nucleado em Santa Catarina e no Paraná, cedo o movimento se transferiu para o Rio de Janeiro, onde encontrou ambiente intelectual ainda mais apropriado: nesse trânsito, as razões mesológicas cedem, ao menos em parte, pois Curitiba e Florianópolis continuavam a ser palco de manifestações simbolistas, a razões de ordem socieconômico-cultural.
                    Por fim, cumpre examinar as relações entre o Simbolismo e o Modernismo. Do ângulo da liberdade criadora e do à vontade formal, não há dúvida que as raízes do Modernismo devem ser procuradas no Simbolismo. Ainda mais: algumas tendências simbolistas penetraram o Modernismo (como o referido grupo de espiritualistas), enquanto outras vieram a influenciar poetas, como Manuel Bandeira, Mário de Andrade, e outros. O verso livre, instrumento anarquizante das hostes modernistas, é legado simbolista. Admitindo-se que “toda a poesia moderna tem no Simbolismo o seu ponto de partida”,7 o Modernismo se identifica como uma espécie de Simbolismo inconsciente, ou a sua continuação.8 “Não restam mais dúvidas que o melhor de nossa poesia modernista tem suas origens nos poetas simbolistas. Suas ousadias e experiências foram bastante fecundas, e aí estão para atestar o quanto os modernistas de 22, e mesmo os de agora, lhes devem. De resto, um dos chefes da revolução de 22 Oswald de Andrade, reconheceu isso quando declarou, certa vez, que a linha ascendente da moderna poesia brasileira deriva do Simbolismo.”9 O mesmo se poderia dizer da prosa introspectiva duma Clarice Lispector, dum Lúcio Cardoso, dum Cornélio Pena. Mesmo na ficção de Oswald de Andrade, como nas Memórias Sentimentais de João Miramar (1924), se adivinham expedientes cinematográficos e algo surrealistas de possível extração simbolista. Por vias subterrâneas, ou às escâncaras, o Modernismo manteve com o Simbolismo um comércio benéfico: o primeiro, continuando aspectos do segundo, procurava pôr em prática ideais de arte que o outro, tendo-os apenas vislumbrado, se apressou a comunicar à geração subseqüente, na esperança de vê-los concretizados.

                    [ . . . ]


Notas do autor de História da Literatura Brasileira — Simbolismo (1893 — 1922):
* Retomam-se, de forma abreviada, os capítulos iniciais do meu livro O Simbolismo, vol. IV dA Literatura Brasileira. S. Paulo, Cultrix, 1966
1. Péricles Eugênio da Silva Ramos, op. cit. [Poesia Simbolista, S. Paulo, Melhoramentos, 1965], pp. 27-8.
2. Andrade Muricy, op. cit. [Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro, 3 vols., Rio de Janeiro, INL, 1952 (2² ed., 2 vols., Rio de Janeiro, INL, 1973)], vol. I, p. 42.
3. Idem, ibidem, pp. 41-3; Péricles Eugênio da Silva Ramos, op. cit., pp. 25-8.
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos preconiza para Alberto Ramos um papel pelo menos de precursor, porquanto “adotou uma ‘prosa ritmada’ (1894) que era verso livre sem esse nome” (Poesia Parnasiana, S. Paulo, Melhoramentos, 1967, p. 247).
5. Andrade Muricy, op. cit., vol. 1, p. 42.
6. Idem, ibidem, pp. 46-7; Péricles Eugênio da Silva Ramos, Poesia Simbolista, pp. 27-8.
7. Otto Maria Carpeaux, Origens e Fins, Rio de Janeiro, Casa do Estudante do Brasil, 1944, p. 313.
8. Idem, ibidem, p. 328; Alceu de Amoroso Lima, op. cit., p. 55.
9. Fernando Góes, O Simbolismo, vol. IV do Panorama da Poesia Brasileira, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1959, p. 18.
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História da Literatura Brasileira — Simbolismo (1893 — 1922): Massaud Moisés, 1988, 2ª edição, Editora Cultrix, São Paulo — SP; Massaud Moisés (1928 2018), paulista e paulistano, formado pela USP Universidade de São Paulo, foi professor titular de Literatura Portuguesa do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da mesma universidade, onde também desenvolveu importantes trabalhos de pesquisa na área e dirigiu o Centro de Estudos Portugueses, além de ter sido professor visitante em várias universidades norte-americanas e na Universidade de Santiago de Compostela Espanha; bibliografia: Fernando Pessoa: o Espelho e a Esfinge (1958), A Literatura Portuguesa (1960), Poemas escolhidos de Cruz e Sousa (introdução e seleção, 1961), O Simbolismo — volume IV d’A Literatura Brasileira (1966), A Criação Literária — Poesia (1967), A Criação Literária — Prosa (1967), A Literatura Portuguesa através dos textos (1968), O Conto Português (1975), Dicionário de Termos Literários (1974), Pequeno Dicionário de Literatura Portuguesa (em colaboração com outros especialistas, 1981), Literatura: Mundo e Forma (1982), História da Literatura Brasileira, 3 volumes — Origens, Barroco e Arcadismo; Realismo e Romantismo; Simbolismo (1983-1984-1985) etc. etc. etc.; o autor e professor teve muitas de suas reeditadas várias vezes; em 2015, Massaud Moisés doou sua biblioteca pessoal, com livros e todo mobiliário, para a Casa de Portugal, em São Paulo; foi membro da Academia Paulista de Letras.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Zeferino Brazil: Eu não sou deste mundo. Eu venho de outra Vida, . . . [soneto]

 
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Eu não sou deste mundo. Eu venho de outra Vida,
De uma estranha região, deslumbrante e afastada,
E, saudoso, recordo a existência passada
Nessa Terra de Luz para sempre perdida.

Conservo na retina a paisagem dourada
Dessa pátria remota, harmoniosa e florida,
Que era, para minh’alma a Terra-Prometida
E de onde há muito tempo ela anda desterrada.

Ah! foi lá que eu vivi uma existência leda,
Sonhos de ouro a sonhar, quimeras perseguindo,
Sob céus de cristal, por montanhas de seda.

E não raro diviso, através de um risonho
Crepúsculo de névoa, esse mavioso e lindo,
Encantado país da Delícia e do Sonho.

(Teias de Luar 1924)

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História da Literatura Brasileira — Simbolismo: Massaud Moisés, 1988, 2ª edição, Editora Cultrix, São Paulo — SP; Zeferino Antônio de Souza Brazil (1870 1942), gaúcho de Taquari, foi cronista, romancista, dramaturgo, crítico literário e sobretudo poeta parnasiano e simbolista, tendo recebido o epíteto de "príncipe dos poetas riograndenses"; colaborou com os periódicos Jornal do Comércio, Correio do Povo, Última Hora e Gazeta do Comércio entre outros veículos, nos quais fazia uso, além do seu nome verdadeiro, também de vários pseudônimos (Nilo Castanheira, João Simplício, Lúcifer, Til, Eça de Oliveira, Brás Patife Júnior, José dos Cantinhos, Tic, Tac, Diabo Coxo, Vasco de Montarroyos, Phoebus de Montalvão, Luiz Denis, etc.); escreveu e publicou: Alegros e Surdinas (versos dos 15 anos, 1891), Traços Cor de Rosa (versos, 1892), Comédia da Vida (1896), Juca, o Letrado (estudo da psicologia mórbida, 1900), Vovó Musa (1903), Visão do Ópio (1906), Na Torre de Marfim (1910), Comédia da Vida, versos alegres para gente triste — segunda série (1914) O Meio: psicofisiologia do alcoolismo (1922), Teias de Luar (1924), Boêmia de Pena (prosa velha, 1932), Alma Gaúcha (1935), entre outros títulos.

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Silveira Neto: Escombros

 
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Recordam templos de um ardor violento,
Escombros! Que saudade os acompanha!
São os profetas do Aniquilamento,
Petrificados numa dor tamanha...

Jazem deuses e ritos  caos poeirento 
Nessa de pedras agonia estranha;
Vasto epitáfio em lúgubre memento,
Das grandezas que a Morte à Vida apanha.

De olhá-los gosto em noite atormentada,
Quando a terra se turba a ouvir, crispada,
Gemer nas ruínas o coral dos ventos.

Lembram-me a dor e todo esse deserto
Que transfiguram da alma o lírio aberto
Numa panóplia de punhais sangrentos...

(Luar de Hinverno — 1900)

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História da Literatura Brasileira — Simbolismo: Massaud Moisés, 1988, 2ª edição, Editora Cultrix, São Paulo — SP; Manuel Azevedo da Silveira Neto (1872 1942), paranaense de Morretes, foi poeta, desenhista, crítico de arte, conferencista e orador; iniciou o curso de humanidades (estudos interrompidos), entrou para a Litografia de Narciso Filgueiras, onde estudou gravura e desenhos em pedra, e ingressou na Escola de Belas Artes de Curitiba; prestou concurso e passou a trabalhar na Fazenda Federal; integrou a revista O Cenáculo, periódico de um grupo de mesmo nome, em que participava junto de outros autores simbolistas Dario Veloso e Júlio Perneta, entre eles; mudando para o Rio de Janeiro, passou a freqüentar rodas poéticas na companhia de Nestor Vítor e Cruz e Sousa; sua obra: Pela consciência (opúsculo, 1898), Antonio Nobre (elegia, 1900), Luar de Hinverno (poesias, 1900), Brasílio Itiberê (elegia com música, 1913), Do Guaíra aos Saltos do Iguaçu (1914), Ronda Crepuscular (poesias, 1923), Cruz e Sousa (ensaio, 1924), O Bandeirante (1927) etc; Silveira Neto também foi criador da revista A Luta, além de ter colaborado com as revistas Azul, O Sapo, Breviário, todas de Curitiba, Terra do Sol, Festa, no Rio de Janeiro, e  em outros periódicos pelo país afora e no estrangeiro.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Sosígenes Costa: O Pavão Vermelho

Resultado de imagem para A Criação Poética — Massaud Moisés, 1977,
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Ora, a alegria, este pavão vermelho,
está morando em meu quintal agora.
Vem pousar como um sol em meu joelho
quando é estridente em meu quintal a aurora.

Clarim de lacre, este pavão vermelho
sobrepuja os pavões que estão lá fora.
É uma festa de púrpura. E o assemelho
a uma chama do lábaro da aurora.

É o próprio doge a se mirar no espelho.
E a cor vermelha chega a ser sonora
neste pavão pomposo e de chavelho.

Pavões lilases possuí outrora.
Depois que amei este pavão vermelho,
os meus outros pavões foram-se embora.

Sosígenes Costa, Obra Poética,
 Rio de Janeiro, Leitura, 1959, p. 41.

Sosígenes Costa
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A Criação Poética  Massaud Moisés, 1977, Edições Melhoramentos / Editora da Universidade de São Paulo, São Paulo  SP; Sosígenes Marinho da Costa (1901  1968), baiano de Belmonte, foi professor de instrução primária, jornalista, escritor e poeta; colaborou com o jornal Diário da Tarde, de Ilhéus, foi membro da 'Academia dos Rebeldes', grupo modernista baiano, e divulgou seus versos em jornais e revistas da época; o seu livro Obra Poética (1959), foi vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura de 1960, na categoria poesia; o poeta aposentou-se como telegrafista do antigo DCT Departamento de Correios e Telégrafos.