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segunda-feira, 11 de maio de 2015

Elisa Andrade Buzzo: Soneto excêntrico

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Se a mim foi concedida esta vida
Sob o duro signo da eternidade
Não sei se a quero toda a mim fundida.
Eu, que tanto prezava das idades

O desregramento, a imediatez,
A presença de anjos e mastins,
 No riso disfarçava a palidez,
Formatado tudo está ante mim.

Algo pura e intacta, onipresente,
Uma boca de tempos primitivos
Ressoa por debaixo de camadas.

O que restou ao ser depauperado
De sua própria condição desgraçada?
Existência inteira, gestos robóticos...

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Hiperconexões: realidade expandida — poemas, volume 2 (vários autores), Organização de Luiz Bras, Posfácio-Linguagens de Victor Del Franco, 2014, Editora Patuá, São Paulo — SP; Elisa Andrade Buzzo, nascida em 1981, paulista e paulistana, formada em jornalismo pela USP Universidade de São Paulo SP, é jornalista e poeta; trabalhou na Radiobrás, revista Cult, Le Monde Diplomatique (edição brasileira); sobre a autora, em 'Nós, ciborgues', nas últimas páginas de Hiperconexões, escreveu-se que ela "se rebelará para ser transformada em matéria difusa diante da falta de uma existência apenas humana"; é autora de Se Lá no Sol (2005), Noticias de ninguna parte (bilíngue, 2009), Canción retráctil e Kanto Retráctil (bilíngues, ambos em 2010), Vário som (2012); participou das coletâneas Cuatro poetas recientes del Brasil e Oitavas (ambas em 2006), Antologia Vacamarela (2007), Caos Portátil, poesia contemporânea del Brasil (2007), Roteiro da Poesia Brasileira Anos 2000 (2009); é colunista do site digestivocultural e mantém o blogue caliope.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Sônia Barros: Contato sem tato

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Toque de teclas,
telas interligando
íntimos contatos
com conexões
multimidiáticas.

Roçar de ondas
sonoras de línguas
nos ouvidos
eriça poros
e sentidos
de dois corpos
que se veem
mas não
se tocam.

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Hiperconexões: realidade expandida — poemas, volume 2 (vários autores), Organização de Luiz Bras, Posfácio-Linguagens de Victor Del Franco, 2014, Editora Patuá, São Paulo — SP; Sônia Barros, nascida em 1968, paulista de Monte Mor, formada em Letras pela Universidade Metodista de Piracicaba  SP, é escritora de ficção para o público infantojuvenil e poeta; em 'Nós, ciborgues'  últimas páginas de Hiperconexões , escreveu-se que a poeta "renovou os androides de sua empresa e iniciou a produção em larga escala de pele-armadura"; escreveu e publicou, entre outros títulos, Um bichinho só pra mim (infantil, 1997), Diário ao contrário (juvenil, 1997), O que é que eu faço, Afonso? (infantil, 2000), O gato que comia couve-flor (infantil, 2003), Mezzo Voo (poesia, 2007), Passeio no trem da poesia (infantil, 2008), Ciranda mágica e outros poemas (infantil, 2009), Pode ser depois? (infantil, 2012), Passagem secreta para o sonho (infantil, 2013), A coragem de Leo (juvenil, 2014), Fios (vencedor do Prêmio Paraná de Literatura na categoria Poesia, 2014).

domingo, 5 de abril de 2015

Manoel Herzog: Programando a noite de amor

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< Primeira tentativa >

Às onze conecto a rede
Plugo eletrodos no tampo
Pego o protótipo e a sede
Lasciva se lança a campo.

(O sistema informa: "Desculpe, esta máquina não reconhece quadrinhas em versos heptassílabos rimados. Tente heptassílabos brancos ou quadrinhas em decassílabos")

< Segunda tentativa >

Faz tempo que adquiri um novo boneco
Par de sexos, cabeças três tipos
Corrido liso crespo corte reco
Est'ultimo faz estilo joãozito.

(accept)

Mais barato que puta ou que marido
Troca de cor cabelo sexo ou cara
Regula-se a umbigada e até o gemido
Satisfação desejo sonho ou tara.

(accept)

Ruim é sair do modelo
De quatro versos, binários
Sistema lê, senão quadras,
Só os heptassílabos brancos.

( O sistema informa: "Desculpe, você mudou a matriz de quadrinhas decassilábicas para heptassílabos brancos. Eleja um único tipo de linguagem e continue sua programação erótico-poética. Bom divertimento")

< Terceira tentativa >

Antropomorfo boneco
Ligado em computador
Eu vou ligado também
Pelos eletrodos todos
Toda irradiação que eu mando
Lá nalgum lugar do mundo
Num computador dum outro
Se reflete em seu boneco
Se eu bimbar boneco bimba
Se eu chupar boneco chupa
Não sei com quem estou brincando
Mas também pouco isso importa
Se é mulher, se é homem, bicho
Só fodemos personagens
Nessa impessoal trepada
Cibernética d'agora
Imune a qualquer virose
Desilusão amorosa.
Os bonecos são perfeitos
Pele pelos cheiros todos
Temperatura de gente
Movimentam qual queiramos
Como mandem nossas ondas
Mentais pros computadores
Sexo virtual pra gente
Mas bem real pros bonecos
Teletransporte de transa
Foda de metempsicose
Transmigração d'almas coito
Celestial, sensorial.
Só se impõe nisto, contudo,
Frente a tais modernidades
A adoção de uma linguagem
Padronizada de máquina
Verso duro, em heptassílabo 
Liberdade tem limite 
Pra gozar desde que em lóculos
Sextavados, megabytes
Podem-se inventar manias
Taras medos tudo é aceito
No boneco impessoal,
Menos se fugir de um metro
Menos se voltar a um tempo
Onde os corpos se sonhavam
De amor extravideogame.

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Hiperconexões: realidade expandida  poemas, volume 2 (vários autores), Organização de Luiz Bras, Posfácio-Linguagens de Victor Del Franco, 2014, Editora Patuá, São Paulo  SP; sobre Manoel Herzog, paulista de Santos, nascido em 1964, advogado, poeta e romancista, em 'Nós, ciborgues'  últimas páginas de Hiperconexões , escreveu-se que "além da vida material presente, em que é representado por um clone, aloca-se num futuro onde escreve por mediunidade, incorporando entidades astrais. Dedica-se ao erotismo e às experiências bizarras no mundo virtual, base de sua literatura"; Manoel Herzog publicou Brincadeira Surrealista (poesia, 1987), Os Bichos (romance, 2012), Companhia Brasileira de Alquimia (romance, 2013), A comédia de Alissia Bloom (poesia, 2014); coordena oficinas de literatura e escreve crônicas no site Cinezen.