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[soneto #4]
Seu nome verdadeiro é Doroteu.
A mana é Dorotéia e o Bugre, Ivan.
No dia da tragédia, foi a irmã
fazer compras na feira e um tempo
deu.
O Bugre está de porre e quer que
seu
caralho o cego chupe. No divã
reclina-se, esperando, e folgazã
ressoa sua voz: “Mama aqui, meu!”
O cego se recusa: “Isso eu não
faço!
Já chega o que a Dorô chupa na
marra!”
O Bugre no Chinelo desce o braço.
Tentando defender-se, a mão esbarra
na faca sobre a mesa. Um só pontaço
bastou: tombando, o Bugre sangue
escarra.
[soneto #5]
Legítima defesa foi a tese
que a mídia divulgou, mas do
Chinelo
ninguém se condoeu. Bate o martelo,
sem pena, o magistrado, e o réu que
reze.
Na cela, o aperto faz que se reveze
quem queira se deitar, mas, antes
belo,
agora o Doroteu, fraco e magrelo,
mal dorme e só resiste pela ascese.
A mana o visitava, mas, passado
um tempo, acha outro Bugre e está
sumida.
O cego ninguém tem mais do seu
lado.
Não fosse já difícil sua vida,
ainda fez burrice em ter contado
aos outros como a sola era lambida.
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Faca cega e outras pelejas sujas — Glauco Mattoso (com Danilo
Cymrot e Leo Pinto), Série Mattosiana, Volume 1, 1ª edição: agosto de 2007,
(Coleção Dix Editorial), 2007, Editora Annablume, São Paulo — SP; Glauco Mattoso,
ou Pedro José Ferreira da Silva, nascido em 1951, paulista e paulistano, é poeta,
ensaísta, ficcionista e articulista em diversas mídias; seu pseudônimo e nome artístico
trocadilha com "glaucomatoso" (portador de glaucoma, doença congênita
que lhe acarretou perda progressiva da visão, até a cegueira total em 1995); cursou
Biblioteconomia (Escola de Sociologia e Política, São Paulo) e Letras Vernáculas,
na USP — São Paulo; tem publicado uma extensa obra poética e outros textos: Jornal
Dobrábil — de 1977 a 1981 (compilado em um único volume pela Iluminuras, São Paulo
— SP, em 2001), Revista Dedo Mingo (duas parcelas, 1982, completa o Jornal Dobrábil),
Memórias de um Pueteiro: As Melhores Gozações de Glauco Mattoso (poemas, 1982, Edições
Trote, Rio de Janeiro — RJ), Línguas na Papa (poemas, 1982, Edições Pindaíba, São
Paulo — SP), Paulisséia Ilhada: Sonetos Tópicos (1999, Ciência do Acidente, São
Paulo — SP), Geléia de Rococó: Sonetos Barrocos (1999, Ciência do Acidente, São
Paulo — SP), Panacéia — Sonetos Colaterais (2000, Nankin Editorial, São Paulo —
SP), Melopéia: Sonetos Musicados (2001, compact-disc, com diversos compositores
e intérpretes, Rotten Records, São Paulo — SP), O que é Poesia Marginal (ensaio,
1981, Editora Brasiliense, São Paulo — SP), O que é Tortura (ensaio, 1984, Editora
Brasiliense, São Paulo — SP), O Calvário dos Carecas: História do Trote Estudantil
(ensaio, 1985, EMW Editores, São Paulo — SP) etc etc etc, e bota etecetera nisso;
colaborou em vários jornais e revistas da imprensa alternativa e em diversos periódicos
literários, e ainda colabora; Pedro José Ferreira da Silva, hoje bancário aposentado,
foi funcionário do Banco do Brasil; é sonetista inveterado.

















