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Soneto da vida
dura (#17)
Você não passa fome, mas é pobre:
dindim de aposentado é mixaria!
E, como me sustenta, deveria
pedir esmola, pra que algum me sobre!
Agora que seu teto também cobre
o cara que lhe zomba da agonia,
você vai, desde já, durante o dia,
pra esquina do metrô! Não acha nobre?
E nada de queixar-se a algum estranho,
tá ouvindo? Eu que te pegue! A quem pergunta,
sou seu irmão mais novo e te acompanho!
De tarde, um bom trocado você junta
e eu pego! Tá pensando que me acanho?
Papai sumiu! Mamãe já tá defunta!
Soneto da boa
vida (#16)
Emprego? Isso eu não tenho nem procuro!
Me viro é mais no bico e no trambique!
E quando pinta chance pra que eu fique
à toa, não sou trouxa de dar duro!
O trouxa é só você, que tá no escuro,
pra sempre! Justo agora dou um clique
e ligo essa tevê, que não é chique
mas custa no seu bolso, a prazo, o juro!
Assisto meus programas, puxo fumo
e deixo aí você, chupando o dedo
do pé! Do meu pezão! Sou foda e assumo!
Eu fico no sofá. Você, eu concedo
que arraste-se no chão: assim arrumo
um teto, um prato, um judas e um brinquedo!
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Faca cega e outras pelejas sujas — Glauco Mattoso (com Danilo
Cymrot e Leo Pinto), Série Mattosiana, Volume 1, 1ª edição: agosto de 2007,
(Coleção Dix Editorial), 2007, Editora Annablume, São Paulo — SP; Glauco Mattoso,
ou Pedro José Ferreira da Silva, nascido em 1951, paulista e paulistano, é poeta,
ensaísta, ficcionista e articulista em diversas mídias; seu pseudônimo e nome artístico
trocadilha com "glaucomatoso" (portador de glaucoma, doença congênita
que lhe acarretou perda progressiva da visão, até a cegueira total em 1995); cursou
Biblioteconomia (Escola de Sociologia e Política, São Paulo) e Letras Vernáculas,
na USP — São Paulo; tem publicado uma extensa obra poética e outros textos: Jornal
Dobrábil — de 1977 a 1981 (compilado em um único volume pela Iluminuras, São Paulo
— SP, em 2001), Revista Dedo Mingo (duas parcelas, 1982, completa o Jornal Dobrábil),
Memórias de um Pueteiro: As Melhores Gozações de Glauco Mattoso (poemas, 1982, Edições
Trote, Rio de Janeiro — RJ), Línguas na Papa (poemas, 1982, Edições Pindaíba, São
Paulo — SP), Paulisséia Ilhada: Sonetos Tópicos (1999, Ciência do Acidente, São
Paulo — SP), Geléia de Rococó: Sonetos Barrocos (1999, Ciência do Acidente, São
Paulo — SP), Panacéia — Sonetos Colaterais (2000, Nankin Editorial, São Paulo —
SP), Melopéia: Sonetos Musicados (2001, compact-disc, com diversos compositores
e intérpretes, Rotten Records, São Paulo — SP), O que é Poesia Marginal (ensaio,
1981, Editora Brasiliense, São Paulo — SP), O que é Tortura (ensaio, 1984, Editora
Brasiliense, São Paulo — SP), O Calvário dos Carecas: História do Trote Estudantil
(ensaio, 1985, EMW Editores, São Paulo — SP) etc etc etc, e bota etecetera nisso;
colaborou em vários jornais e revistas da imprensa alternativa e em diversos periódicos
literários, e ainda colabora; Pedro José Ferreira da Silva, hoje bancário aposentado,
foi funcionário do Banco do Brasil; é sonetista inveterado.




















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