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quinta-feira, 27 de junho de 2024

Júlia Cortines: O Deserto


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A Presciliana Duarte de Almeida

O sol queima; o ar sufoca; a infinita celagem
Do céu resplende sobre o infinito deserto;
E do vasto horizonte, ao derredor aberto,
Sopra, como de um forno, uma ardente bafagem.

Nada à flor do areal, quer à distância ou perto;
E, através da nudez da vazia paisagem,
Nem sequer a ilusória e efêmera miragem
Deixa, ao longe, entrever o seu perfil incerto...

Nem o leve ruflar de uma asa; nem um grito,
Fazendo estremecer o deserto que dorme,
Como uma flecha, vara a mudez do infinito...

Implacável, o sol, quente e fulvo, dardeja
Uma luz que, abrasando a solidão enorme,
No ar, na areia e no céu treme, brilha e flameja...

[revista A Mensageira, de 15 de outubro de 1897,
Ano I, nº 1, São Paulo — SP]

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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira, Diretora: Presciliana Duarte de Almeida (1897 a 1900), Edição fac-similar, Volume I, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; da vida da poetisa e cronista Maria Júlia Cortines Laxe (1863 1948), fluminense de Rio Bonito, apesar de sua longevidade, pouco se sabe: de sua avó recebeu “instrução elementar”, prosseguiu seus estudos em Niterói e, autodidata, adquiriu formação literária e pedagógica; portas foram abertas para que ela atuasse no magistério, é o que se supõe; colaborou com as revistas A Semana e A Mensageira, redigiu para o jornal O País, no qual manteve a coluna “Através da Vida”; no início do século XX, no meio literário brasileiro, foi considerada uma das "três Júlias" mais famosas da época (as outras foram Francisca Júlia, também poetisa, e Júlia Lopes de Almeida, romancista); escreveu seus primeiros versos aos 13 anos, e aos 21 já colaborava em periódicos da Corte Imperial; deixou-nos como legado Versos (1894) e Vibrações (1905), ambos de poesia; ”praticamente esquecida em nossos dias”, em 2010 a Academia Brasileira de Letras publicou o volume Versos & Vibrações de Júlia Cortines e mais três poemas inéditos, “Coleção Austregésilo de Athayde, nº 32”, com apresentação/estudo, Descortinando Júlia, de Gilberto Araújo e o texto A poesia esquecida de Júlia Cortines, de Fausto Cunha; no Rio de Janeiro existe uma rua com seu nome, além de também ter o nome emprestado a escolas e logradouros de outras cidades (Rua Júlia Cortines, em São Paulo, Escola Municipal Julia Cortines, em Niterói...).

sexta-feira, 12 de abril de 2024

Júlia Cortines: O Tempo

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Passas, leve e sutil, sem trégua e sem cansaço.
Passas, e de teus pés vem rolar sob a planta
Tudo o que ri e chora e se lastima e canta.
Uma esteira de pó fica após o teu passo...

Quanta angústia desfeita em lágrimas, e quanta
Ilusão, que embalou um’hora o teu regaço,
Não pensaram, ness’hora inolvidada e santa,
Seguir contigo a estrada infinita do espaço!

E ao término fatal levaste-as, no entanto.
O monumento eril rui à tua passagem,
E transmuda-se em sombra a mais brilhante imagem.

Tarde ou cedo destróis tudo o que existe: o pranto
Secas, sustas o riso, e emudeces o grito
No lento caminhar através do infinito...

[Vibrações — 1905]

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Antologia de Poetas Fluminenses (vários autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; da vida da poetisa e cronista Maria Júlia Cortines Laxe (1863 1948), fluminense de Rio Bonito, apesar de sua longevidade, pouco se sabe: de sua avó recebeu “instrução elementar”, prosseguiu seus estudos em Niterói e, autodidata, adquiriu formação literária e pedagógica; portas foram abertas para que ela atuasse no magistério, é o que se supõe; colaborou com as revistas A Semana e A Mensageira, redigiu para o jornal O País, no qual manteve a coluna “Através da Vida”; no início do século XX, no meio literário brasileiro, foi considerada uma das "três Júlias" mais famosas da época (as outras foram Francisca Júlia, também poetisa, e Júlia Lopes de Almeida, romancista); escreveu seus primeiros versos aos 13 anos, e aos 21 já colaborava em periódicos da Corte Imperial; deixou-nos como legado Versos (1894) e Vibrações (1905), ambos de poesia; ”praticamente esquecida em nossos dias”, em 2010 a Academia Brasileira de Letras publicou o volume Versos & Vibrações de Júlia Cortines e mais três poemas inéditos, “Coleção Austregésilo de Athayde, nº 32”, com apresentação/estudo, Descortinando Júlia, de Gilberto Araújo e o texto A poesia esquecida de Júlia Cortines, de Fausto Cunha; no Rio de Janeiro existe uma rua com seu nome, além de também ter o nome emprestado a escolas e logradouros de outras cidades (Rua Júlia Cortines, em São Paulo, Escola Municipal Julia Cortines, em Niterói...).

segunda-feira, 8 de abril de 2024

Júlia Cortines: O Sonho


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“Vem! o Sonho me diz, e a sua mão me acena
Sobre uma asa que vibra, e se estende, e se eleva,
Sobe! sobe! e à região afastada e serena
Das estrelas o voo ousadamente leva!

A vida corre sempre amargurada ou seva;
A esperança atraiçoa e a paixão envenena.
Nada vale a embriaguez da poesia que enleva...
Paira acima da terra onde habitas, sem pena.

É mais formoso e puro o país da quimera:
O aroma fresco, o céu azul, a aragem branda;
Asas fremem à luz de um sol de primavera.

Glória, vida e prazer, tudo esse mundo encerra.
Pensa, ó alma infeliz, ó alma miseranda,
Que nada existe assim sobre a face da terra.”

[revista A Mensageira, de 15 de Janeiro de 1898,
Ano I, nº 7, São Paulo — SP]

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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira, Diretora: Presciliana Duarte de Almeida (1897 a 1900), Edição fac-similar, Volume I, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; da vida da poetisa e cronista Maria Júlia Cortines Laxe (1863 1948), fluminense de Rio Bonito, apesar de sua longevidade, pouco se sabe: de sua avó recebeu “instrução elementar”, prosseguiu seus estudos em Niterói e, autodidata, adquiriu formação literária e pedagógica; portas foram abertas para que ela atuasse no magistério, é o que se supõe; colaborou com as revistas A Semana e A Mensageira, redigiu para o jornal O País, no qual manteve a coluna “Através da Vida”; no início do século XX, no meio literário brasileiro, foi considerada uma das "três Júlias" mais famosas da época (as outras foram Francisca Júlia, também poetisa, e Júlia Lopes de Almeida, romancista); escreveu seus primeiros versos aos 13 anos, e aos 21 já colaborava em periódicos da Corte Imperial; deixou-nos como legado Versos (1894) e Vibrações (1905), ambos de poesia; ”praticamente esquecida em nossos dias”, em 2010 a Academia Brasileira de Letras publicou o volume Versos & Vibrações de Júlia Cortines e mais três poemas inéditos, “Coleção Austregésilo de Athayde, nº 32”, com apresentação/estudo, Descortinando Júlia, de Gilberto Araújo e o texto A poesia esquecida de Júlia Cortines, de Fausto Cunha; no Rio de Janeiro existe uma rua com seu nome, além de também ter o nome emprestado a escolas e logradouros de outras cidades (Rua Júlia Cortines, em São Paulo, Escola Municipal Julia Cortines, em Niterói...).

terça-feira, 5 de março de 2024

Júlia Cortines: A Giacomo Leopardi

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Leio-te: e a triste e máscula poesia
Que dos teus lábios flui, dolente e forte,
Enche a minha alma de melancolia.

Como tu, nada vejo além da morte
No tormentoso pélago da vida
Que a uma plaga serena nos transporte.

Volvo, contigo, a vista entristecida
Ao silencioso pó da morta idade,
Que o mundo enchia de rumor e lida.

Punge-me a dor, lacera-me a saudade,
Quando cantas a doce e breve hora
Das ilusões da curta mocidade.

Sofres? Também minha alma sofre e chora:
Prélios inúteis, ilusões desfeitas,
Toda a miséria do viver deplora.

Quanta amargura nesse olhar que deitas
Às glórias vãs ao amor, que agita e passa,
E às almas, todas ao sofrer sujeitas!

Bebo também do tédio a amara taça,
E sinto, quando a tua angústia leio,
Que esse teu coração, que a dor enlaça,

É o coração que pulsa-me no seio.

[revista A Mensageira, de 15 de Abril de 1898,
Ano I, nº 13, São Paulo — SP]

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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira, Diretora: Presciliana Duarte de Almeida (1897 a 1900), Edição fac-similar, Volume I, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; da vida da poetisa e cronista Maria Júlia Cortines Laxe (1863 1948), fluminense de Rio Bonito, apesar de sua longevidade, pouco se sabe: de sua avó recebeu “instrução elementar”, prosseguiu seus estudos em Niterói e, autodidata, adquiriu formação literária e pedagógica; portas foram abertas para que ela atuasse no magistério, é o que se supõe; colaborou com as revistas A Semana e A Mensageira, redigiu para o jornal O País, no qual manteve a coluna “Através da Vida”; no início do século XX, no meio literário brasileiro, foi considerada uma das "três Júlias" mais famosas da época (as outras foram Francisca Júlia, também poetisa, e Júlia Lopes de Almeida, romancista); escreveu seus primeiros versos aos 13 anos, e aos 21 já colaborava em periódicos da Corte Imperial; deixou-nos como legado Versos (1894) e Vibrações (1905), ambos de poesia; ”praticamente esquecida em nossos dias”, em 2010 a Academia Brasileira de Letras publicou o volume Versos & Vibrações de Júlia Cortines e mais três poemas inéditos, “Coleção Austregésilo de Athayde, nº 32”, com apresentação/estudo, Descortinando Júlia, de Gilberto Araújo e o texto A poesia esquecida de Júlia Cortines, de Fausto Cunha; no Rio de Janeiro existe uma rua com seu nome, além de também ter o nome emprestado a escolas e logradouros de outras cidades (Rua Júlia Cortines, em São Paulo, Escola Municipal Julia Cortines, em Niterói...).

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Júlia Cortines: A Vingança de Cambises *

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Disseram diz o rei a Prexaspes que o vinho
Sobe presto à cabeça em denso torvelinho
De vapores, e a febre, o delírio produz,
Que irradiam no olhar uma sinistra luz.
Ou, pouco a pouco, pelo organismo se entorna,
Qual onda de torpor, voluptuosa e morna?
Disseram; e tu tens a ousadia de vir
Em face de teu rei palavras repetir
De estultos, e afirmar que o vinho afrouxa braços
Que fazem, como os meus, os reinos em pedaços?
Ao contrário; verás; (e bêbado entesou
No arco a flecha) porém é preciso que aponte
Um alvo; o coração de teu filho.
                                                    E atirou,
Da criança, que nele o doce olhar fitava,
Olhar que o etéreo azul do infinito espelhava,
Varando lado a lado o peito e o coração.

E o pai disse, curvando humildemente a fronte:

"Nem de Apolo é mais firme e mais certeira a mão."

[1888]

Versos (1894)
(In: Valentim Magalhães, A Literatura Brasileira (1870-1895),
Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1896, págs. 297/298).


* Nota do organizador Péricles Eugênio da Silva Ramos: A Vingança de Cambises — A poesia traz a data de 1888.
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Panorama da Poesia Brasileira, Volume III — Parnasianismo, por Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1959, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; da vida da poetisa e cronista Maria Júlia Cortines Laxe (1863 1948), fluminense de Rio Bonito, apesar de sua longevidade, pouco se sabe: de sua avó recebeu “instrução elementar”, prosseguiu seus estudos em Niterói e, autodidata, adquiriu formação literária e pedagógica; portas foram abertas para que ela atuasse no magistério, é o que se supõe; colaborou com as revistas A Semana e A Mensageira, redigiu para o jornal O País, no qual manteve a coluna “Através da Vida”; no início do século XX, no meio literário brasileiro, foi considerada uma das "três Júlias" mais famosas da época (as outras foram Francisca Júlia, também poetisa, e Júlia Lopes de Almeida, romancista); escreveu seus primeiros versos aos 13 anos, e aos 21 já colaborava em periódicos da Corte Imperial; deixou-nos como legado Versos (1894) e Vibrações (1905), ambos de poesia; ”praticamente esquecida em nossos dias”, em 2010 a Academia Brasileira de Letras publicou o volume Versos & Vibrações de Júlia Cortines e mais três poemas inéditos, “Coleção Austregésilo de Athayde, nº 32”, com apresentação/estudo, Descortinando Júlia, de Gilberto Araújo e o texto A poesia esquecida de Júlia Cortines, de Fausto Cunha; no Rio de Janeiro existe uma rua com seu nome, além de também ter o nome emprestado a escolas e logradouros de outras cidades (Rua Júlia Cortines, em São Paulo, Escola Municipal Julia Cortines, em Niterói...).

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

Júlia Cortines: Fracos


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Fracos, odeio a inércia e detesto a fraqueza.
Prefiro a mão que esmaga ou que vibra o punhal
À doce e inconsciente e nefasta moleza,
Que é para a alma do forte um veneno mortal.

Como de encontro à costa, em ondas remansadas
Chora o mar, ou se atira em bravos vagalhões,
Assim de encontro a vós, almas adormentadas,
Fremem de ódio e de amor os nossos corações.

Almas fracas, fugindo à aspereza das lides,
Sem um esforço para as correntes opor,
Pelo rio do tempo arrebatadas ides,
Desta ou daquela vaga a boiar ao sabor.

Que vos importa a vós a agonia da luta,
A ânsia de possuir, o infinito aspirar?
Que vos importa a vós a decepção que enluta,
Se não sabeis querer, nem sabeis adorar?!

[Vibrações — 1905]

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Antologia de Poetas Fluminenses (vários autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; da vida da poetisa e cronista Maria Júlia Cortines Laxe (1863 1948), fluminense de Rio Bonito, apesar de sua longevidade, pouco se sabe: de sua avó recebeu “instrução elementar”, prosseguiu seus estudos em Niterói e, autodidata, adquiriu formação literária e pedagógica; portas foram abertas para que ela atuasse no magistério, é o que se supõe; colaborou com as revistas A Semana e A Mensageira, redigiu para o jornal O País, no qual manteve a coluna “Através da Vida”; no início do século XX, no meio literário brasileiro, foi considerada uma das "três Júlias" mais famosas da época (as outras foram Francisca Júlia, também poetisa, e Júlia Lopes de Almeida, romancista); escreveu seus primeiros versos aos 13 anos, e aos 21 já colaborava em periódicos da Corte Imperial; deixou-nos como legado Versos (1894) e Vibrações (1905), ambos de poesia; ”praticamente esquecida em nossos dias”, em 2010 a Academia Brasileira de Letras publicou o volume Versos & Vibrações de Júlia Cortines e mais três poemas inéditos, “Coleção Austregésilo de Athayde, nº 32”, com apresentação/estudo, Descortinando Júlia, de Gilberto Araújo e o texto A poesia esquecida de Júlia Cortines, de Fausto Cunha; no Rio de Janeiro existe uma rua com seu nome, além de também ter o nome emprestado a escolas e logradouros de outras cidades (Rua Júlia Cortines, em São Paulo, Escola Municipal Julia Cortines, em Niterói...).

domingo, 22 de outubro de 2023

Júlia Cortines: Depois da batalha


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Ei-lo, triste e de pé, de sua tenda à porta.
Na planície cessou o fragor da batalha,
E o silêncio, por sobre essa paisagem morta,
Deixa agora cair a pesada mortalha.

Espraia o olhar, e nada o seu olhar conforta:
Corre o sangue; do fumo esgarça-se a toalha;
O ar, um corvo, estendendo as asas negras, corta;
Por tudo uma tristeza infinita se espalha...

De súbito, o guerreiro, atento, a face inclina
Para o lado em que, doce e piedosa, tu desces,
Morte, sobre o sofrer a tua asa divina!

Qual se, de longe, um triste e confuso ruído
De resfôlegos e ais, de blasfêmias e preces,
Lhe viesse ferir subitamente o ouvido...

[revista A Mensageira, de 15 de março de 1899,
Ano II, nº 26, São Paulo — SP]

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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira (1897 a 1900), Diretora: Presciliana Duarte de Almeida, Edição fac-similar, Volume II, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; da vida da poetisa e cronista Maria Júlia Cortines Laxe (1863 1948), fluminense de Rio Bonito, apesar de sua longevidade, pouco se sabe: de sua avó recebeu “instrução elementar”, prosseguiu seus estudos em Niterói e, autodidata, adquiriu formação literária e pedagógica; portas foram abertas para que ela atuasse no magistério, é o que se supõe; colaborou com as revistas A Semana e A Mensageira, redigiu para o jornal O País, no qual manteve a coluna “Através da Vida”; no início do século XX, no meio literário brasileiro, foi considerada uma das "três Júlias" mais famosas da época (as outras foram Francisca Júlia, também poetisa, e Júlia Lopes de Almeida, romancista); escreveu seus primeiros versos aos 13 anos, e aos 21 já colaborava em periódicos da Corte Imperial; deixou-nos como legado Versos (1894) e Vibrações (1905), ambos de poesia; ”praticamente esquecida em nossos dias”, em 2010 a Academia Brasileira de Letras publicou o volume Versos & Vibrações de Júlia Cortines e mais três poemas inéditos, “Coleção Austregésilo de Athayde, nº 32”, com apresentação/estudo, Descortinando Júlia, de Gilberto Araújo e o texto A poesia esquecida de Júlia Cortines, de Fausto Cunha; no Rio de Janeiro existe uma rua com seu nome, além de também ter o nome emprestado a escolas e logradouros de outras cidades (Rua Júlia Cortines, em São Paulo, Escola Municipal Julia Cortines, em Niterói...).

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Júlia Cortines: Indiferente

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E vão assim as horas!...  Vão fugindo
Um após outro os dias voadores,
Ao túmulo do olvido conduzindo
As alegrias como os dissabores.

O sonho agita as asas multicores
E vai-se, vai-se rápido sumindo,
Enquanto a vaga quérula das dores
Soluça e rola pelo espaço infindo...

A mim, porém, a mim, a mim que importa,
A mim, cuja esperança há muito é morta,
Que o tempo, como um rio que se escoa,

Nos arrebate as ilusões que temos?
 Deixo em descanso os fatigados remos
E que o barco da vida boie à toa.

1887
(Versos  1894)


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Antologia de Poetas Fluminenses (vários autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; da vida da poetisa e cronista Júlia Cortines Laxe (1868 1948), fluminense de Rio Bonito, apesar de sua longevidade, pouco ou nada se sabe, supondo-se que tenha sido professora; no início do século XX, no meio literário brasileiro, chegou a ser considerada uma das "três Júlias" mais famosas da época (as outras foram Francisca Júlia, também poetisa, e Júlia Lopes de Almeida, romancista); deixou-nos como legado Versos (1894) e Vibrações (1905).

segunda-feira, 23 de março de 2015

Júlia Cortines: Última Página

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Antes de mergulhar no silêncio da morte,
ou da idade sentir a fraqueza e o torpor,
eu quisera lançar, num supremo transporte,
meu grito de revolta e meu grito de horror.

Mas sei que por mais forte e por mais estridente
que ela corra através do infinito, até vós,
ó céus, que além brilhais numa paz inclemente,
nem qual brando rumor chegará minha voz!

Mas sei que não há dor que a natureza vença,
e que nunca a fará de leve estremecer
na sua eternidade e sua indiferença
o lamento que vem dum transitório ser.

Mas sei que sobre a face execrável da terra,
onde cada alma sente, em torno, a solidão,
esse grito, que a dor duma existência encerra,
não irá ressoar em nenhum coração.

Contudo, num clamor de suprema energia,
eu quisera lançar minha voz! Mas a quem
enviar esse brado imenso de agonia,
se para o compreender não existe ninguém?! *

                           (Vibrações — 1905)

 

* Nota do Organizador:
Já Górgias, na filosofia grega, afirmava que não era possível a compreensão de um homem por outro.
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Poesia Parnasiana — Antologia (vários autores), Introdução, Seleção e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1967, Edições Melhoramentos, São Paulo — SP; da vida da poetisa e cronista Júlia Cortines Laxe (1868 1948), nascida em Rio Bonito RJ, apesar de sua longevidade, pouco ou nada se sabe, supondo-se que tenha sido professora; no início do século XX, no meio literário brasileiro, chegou a ser considerada uma das "três Júlias" mais famosas da época (as outras foram Francisca Júlia, também poetisa, e Júlia Lopes de Almeida, romancista); deixou-nos como legado Versos (1894) e Vibrações (1905).

segunda-feira, 12 de março de 2012

Júlia Cortines: O lago


Um pouco d'água só e, ao fundo, areia ou lama,
Um pouco d'água em que, no entanto se retrata,
O pássaro que o vôo aos ares arrebata,
e o rubro e infindo céu do crepúsculo em chama.

Água que se transmuda em reluzente prata
Quando do bosque em flor, que as brisas embalsama,
A lua, como uma áurea e finíssima trama,
Pelos ombros da noite a sua luz desata.

Poeta, como esse lago adormecido e mudo
Onde não há, sequer, um frêmito de vida,
Onde tudo é ilusório, e passageiro é tudo.

Existem, sobre um fundo, ou de lama ou de areia,
Almas em que tu vês, apenas, refletida
A tua alma, onde, o sonho astros de ouro semeia.
Vibrações (1905)
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Os Mais Belos Sonetos Brasileiros 
— Seleção e Notas de Edgard Rezende, da Academia Fluminense de Letras Prefácio de Oliveira e Silva, 2ª  edição, 1947, Casa Editora Vecchi Ltda., Rio de Janeiro RJ; Roteiro da Poesia Brasileira Parnasianismo, Seleção e Prefácio de Sânzio de Azevedo, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2006, São Paulo SP; da vida da poetisa e cronista Júlia Cortines Laxe (1868 1948), fluminense de Rio Bonito, apesar de sua longevidade, pouco ou nada se sabe, supondo-se que tenha sido professora; no início do século XX, no meio literário brasileiro, chegou a ser considerada uma das "três Júlias" mais famosas da época (as outras foram Francisca Júlia, também poetisa, e Júlia Lopes de Almeida, romancista); deixou-nos como legado Versos (1894) e Vibrações (1905).