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[traduzido por José Paulo
Paes]
Ele fuma tranquilo seu
cachimbo
enquanto sangra o dia no
poente.
Sob o beiral das casas, vai
seguindo
contra o vento da tarde. Então
a gente
que por trás das janelas o
vigia
vê que um clarão as faces lhe
enrubesce.
Mas como pode estar em paz
alguém
que nem mesmo ao seu próprio
Deus conhece?
Um rosto acobreado de semita
com ideias de bordos aguçados.
Dedos sensíveis de amador de
livros
em cima de um in-fólio
amarelado.
Ele é visto a passear pelas
vielas
quando os ruídos da cidade
acalmam-se
e o azul do entardecer lento
se vela.
Ei-lo que pára para encher de
fumo
o cachimbo que traz na mão. A
gente
que, segura, o espia das
janelas,
divisa um homem culto mas
silente
que, sob sol ou neve, como os
astros,
segue tranquilo por caminhos
seus.
Embora manso, é perigoso, pois
não reconhece absolutamente a
Deus.
E a gente segura atrás das
janelas
lhe teme o perfil de homem do
deserto,
as sobrancelhas de viés,
satânicas,
e o seu sorriso estranhamente
aberto;
como se frios raios de cristal
lançados pelos mil prismas da
vida
surgissem de entre — absurda
claridade —
lábios e sobrancelhas
soerguidas.
E a gente segura atrás das
janelas
despreza-lhe o andar gingado,
mas
receia os seus olhos gastos
nos livros
e a ironia que o seu riso
traz.
Crêem que a casa ante a qual
ele pára,
para encher o cachimbo, foi
marcada
pela morte: as janelas dessa
casa
estarão amanhã cedo enlutadas.
E de novo eles martelam no
piano
baixos e agudos popularizados
quando vêem sumir a capa dele,
o seu cachimbo e in-fólio
amarelado;
foi-se o semita e a digna
ordem burguesa
pode enfim fazer uma parada
como o capim que diante dos
pés de Átila
tornou-se em palha seca e
chamuscada.
E novamente à rua com beirais
é dado dormitar em lerdo
idílio
e à gente segura atrás das janelas
passear sob os brancos alnos
do estio.
e quando a tarde de junho
põe-se atrás
dos murmurantes jardinzinhos
seus,
os vizinhos, fumando nos
cachimbos,
sentem-se todos em casa com
Deus.
Atheisten
Han ryger saa stille en Pibe,
naar Dagen forbløder i Vest.
I Læ af de gavlede Huse
han lunter for Aftens Blæst.
Og Folk, som spejder bag
Ruden,
ser Gløden mod Ansigtets Hud.
Hvorledes kan han føle Hvile?
Han kender jo ikke til Gud.
Det mørke, semitiske Ansigt
med Tankens skarpt optrukne
Kant.
De følende Bogelskerfingre
paa Vagt ved en gul Foliant
I sort og folderig Kappe
han se slangs med Stræderne
gaa,
naar en Dæmper er lagt over
Larmen,
og Aftenen lukker sig blaa.
Han dvæler med Piben i Haanden
og stopper Tobakken til Rand,
og Folk bag de sikrende Ruder
besér den kulturtyste Mand.
Med Ro som Stjernernes Bane
han vandrer i Sol som i Slud,
saa blid, men dog dirrende
farlig:
han kender jo ikke til Gud.
Og Folk bag de sikrende Ruder
har Skræke for hans Ørken-Profil
med skæve, sataniske Bryn og
med underligt ridsende Smil;
thi Livets talrige Prismer
har sendt de krystalkolde Lyn,
som splintrer i meningsløs
Klarhed
fra Læber of løftede Bryn.
Og Folk bag de sikrende Ruder
foragter hans luntende Gang
men frygter hans bogtrætte
Øjne,
hans Latters ironiske Klang.
De tror, det Hus, hvor han
standser
og stopper sin Pibe paany,
vil mærkes af Døden ag stirre
med sorgblanke Ruder ved Gry.
Nu klimprer de atter Piano
med folkelig Bas og Diskant;
de saa jo hans Kappe forsvinde
og Pibe og gul Foliant;
thi hvor Semitten har vandret,
gaar Borgerligheden i Staa,
som Græsset for Atillas Fødder
blev visne og afsvedne Straa.
Og atter den gravlede Gade
kan slumre i døsig Idyl,
og Folk bag de sikrende Ruder
gaa ud under sommerhvid Hyld.
Og Juniaftenen hælder
bag Smaahavers hviskende Skrud,
og Naboer ryger paa Pibe
og føler sig hjemme hos Gud.
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Quinze Poetas Dinamarqueses, edição
bilíngue, Seleção, Tradução, Introdução, Prefácio e Notas de José Paulo Paes e Apresentação
de Jorge H. Wolff, Coleção Poesia Traduzida, Volume II, 1997, Letras Contemporâneas,
Florianópolis — SC; Tom Kristensen (1893 — 1974), nasceu em Londres — Inglaterra,
desde a infância viveu no interior de Copenhague — Dinamarca, foi poeta, escritor,
letrista, jornalista, tradutor, revisor e crítico literário; como crítico,
escreveu para o Politiken, primeiro jornal dinamarquês de tendência socialista;
suas obras: Fribytterdrømme (Os sonhos do pirata, coleção de poesia, 1920), Livets
arabesk (poesia, 1921), En Anden (romance autobiográfico, 1923), Hærværk (romance,
1930), Aabenhjertige Fortielser (memórias, 1966) ...; o poeta traduziu Kafka, Joyce,
D. H. Lawrence, Hemingway, T. S. Eliot, e outros, para o idioma danês, tornando-se
o responsável pela divulgação de tais autores na Dinamarca; teve poemas
musicados..