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domingo, 2 de junho de 2024

Tom Kristensen: O Ateu

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[traduzido por José Paulo Paes]

Ele fuma tranquilo seu cachimbo
enquanto sangra o dia no poente.
Sob o beiral das casas, vai seguindo
contra o vento da tarde. Então a gente
que por trás das janelas o vigia
vê que um clarão as faces lhe enrubesce.
Mas como pode estar em paz alguém
que nem mesmo ao seu próprio Deus conhece?

Um rosto acobreado de semita
com ideias de bordos aguçados.
Dedos sensíveis de amador de livros
em cima de um in-fólio amarelado.
Ele é visto a passear pelas vielas
quando os ruídos da cidade acalmam-se
e o azul do entardecer lento se vela.

Ei-lo que pára para encher de fumo
o cachimbo que traz na mão. A gente
que, segura, o espia das janelas,
divisa um homem culto mas silente
que, sob sol ou neve, como os astros,
segue tranquilo por caminhos seus.
Embora manso, é perigoso, pois
não reconhece absolutamente a Deus.

E a gente segura atrás das janelas
lhe teme o perfil de homem do deserto,
as sobrancelhas de viés, satânicas,
e o seu sorriso estranhamente aberto;
como se frios raios de cristal
lançados pelos mil prismas da vida
surgissem de entre  absurda claridade 
lábios e sobrancelhas soerguidas.

E a gente segura atrás das janelas
despreza-lhe o andar gingado, mas
receia os seus olhos gastos nos livros
e a ironia que o seu riso traz.
Crêem que a casa ante a qual ele pára,
para encher o cachimbo, foi marcada
pela morte: as janelas dessa casa
estarão amanhã cedo enlutadas.

E de novo eles martelam no piano
baixos e agudos popularizados
quando vêem sumir a capa dele,
o seu cachimbo e in-fólio amarelado;
foi-se o semita e a digna ordem burguesa
pode enfim fazer uma parada
como o capim que diante dos pés de Átila
tornou-se em palha seca e chamuscada.

E novamente à rua com beirais
é dado dormitar em lerdo idílio
e à gente segura atrás das janelas
passear sob os brancos alnos do estio.
e quando a tarde de junho põe-se atrás
dos murmurantes jardinzinhos seus,
os vizinhos, fumando nos cachimbos,
sentem-se todos em casa com Deus.

Tom Kristensen

Atheisten

Han ryger saa stille en Pibe,
naar Dagen forbløder i Vest.
I Læ af de gavlede Huse
han lunter for Aftens Blæst.
Og Folk, som spejder bag Ruden,
ser Gløden mod Ansigtets Hud.
Hvorledes kan han føle Hvile?
Han kender jo ikke til Gud.

Det mørke, semitiske Ansigt
med Tankens skarpt optrukne Kant.
De følende Bogelskerfingre
paa Vagt ved en gul Foliant
I sort og folderig Kappe
han se slangs med Stræderne gaa,
naar en Dæmper er lagt over Larmen,
og Aftenen lukker sig blaa.

Han dvæler med Piben i Haanden
og stopper Tobakken til Rand,
og Folk bag de sikrende Ruder
besér den kulturtyste Mand.
Med Ro som Stjernernes Bane
han vandrer i Sol som i Slud,
saa blid, men dog dirrende farlig:
han kender jo ikke til Gud.

Og Folk bag de sikrende Ruder
har Skræke for hans Ørken-Profil
med skæve, sataniske Bryn og
med underligt ridsende Smil;
thi Livets talrige Prismer
har sendt de krystalkolde Lyn,
som splintrer i meningsløs Klarhed
fra Læber of løftede Bryn.

Og Folk bag de sikrende Ruder
foragter hans luntende Gang
men frygter hans bogtrætte Øjne,
hans Latters ironiske Klang.
De tror, det Hus, hvor han standser
og stopper sin Pibe paany,
vil mærkes af Døden ag stirre
med sorgblanke Ruder ved Gry.

Nu klimprer de atter Piano
med folkelig Bas og Diskant;
de saa jo hans Kappe forsvinde
og Pibe og gul Foliant;
thi hvor Semitten har vandret,
gaar Borgerligheden i Staa,
som Græsset for Atillas Fødder
blev visne og afsvedne Straa.

Og atter den gravlede Gade
kan slumre i døsig Idyl,
og Folk bag de sikrende Ruder
gaa ud under sommerhvid Hyld.
Og Juniaftenen hælder
bag Smaahavers hviskende Skrud,
og Naboer ryger paa Pibe
og føler sig hjemme hos Gud.
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Quinze Poetas Dinamarqueses, edição bilíngue, Seleção, Tradução, Introdução, Prefácio e Notas de José Paulo Paes e Apresentação de Jorge H. Wolff, Coleção Poesia Traduzida, Volume II, 1997, Letras Contemporâneas, Florianópolis — SC; Tom Kristensen (1893 1974), nasceu em Londres Inglaterra, desde a infância viveu no interior de Copenhague Dinamarca, foi poeta, escritor, letrista, jornalista, tradutor, revisor e crítico literário; como crítico, escreveu para o Politiken, primeiro jornal dinamarquês de tendência socialista; suas obras: Fribytterdrømme (Os sonhos do pirata, coleção de poesia, 1920), Livets arabesk (poesia, 1921), En Anden (romance autobiográfico, 1923), Hærværk (romance, 1930), Aabenhjertige Fortielser (memórias, 1966) ...; o poeta traduziu Kafka, Joyce, D. H. Lawrence, Hemingway, T. S. Eliot, e outros, para o idioma danês, tornando-se o responsável pela divulgação de tais autores na Dinamarca; teve poemas musicados..