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segunda-feira, 19 de maio de 2025

Carlos de Oliveira: Cal & Sono & Névoa

 
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Cal

A cal,
o amor
guardado para os mortos,
dissolvendo perfeito
da tua solidão
descarnada
em meu peito,
a cal,
o coração.

— o —

Sono

Dormir
mas o sonho
repassa
duma insistente dor
a lembrança
da vida
água outra vez bebida
na pobreza da noite:
e assim perdido
o sono
o olvido
bates, coração, repetes
sem querer
o dia.

— o —

Névoa

A morte
em flor
dos camponeses
tão chegados à terra
que são folhas
e ervas de nada
passa no vento
e eu julgo ouvir
ao longe
nos recessos da névoa
os animais feridos
do Início.


(Trabalho Poético I)
(Trabalho poético — 1º volume (1975 ? [1977-1978])
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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Carlos Alberto Serra de Oliveira, mais conhecido como Carlos de Oliveira (1921 1982), brasileiro e paraense de Belém, filho de emigrantes portugueses, dois anos após nascido seguiu os pais que retornavam a Portugal, residiu inicialmente na região de Gândara, depois em Coimbra, formou-se em Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, foi escritor, tradutor, cronista e poeta; em 1948, após quinze anos residindo em Coimbra, o poeta mudou-se para Lisboa, passou a manter colaborações nos jornais e revistas literárias, entre os quais, Altitude, Seara Nova, Alcatéia, e atuou como diretor na revista Vértice; suas obras: em poesia: Turismo (1942), Mãe pobre (1945), Colheita perdida (1948), Descida aos infernos (1939), Terra de harmonia (1950), Cantata (1960), Sobre o lado esquerdo (1961-1962), Micropaisagem (1963-1965), Entre duas memórias (recebeu o Prêmio Bordalo de Literatura da Casa da Imprensa, 1971), Trabalho poético (1º e 2º volumes, compilação das obras poéticas, 1977 e 1978); em prosa: Casa na Duna (1943), Alcatéia (1944), Pequenos burgueses (1948), Uma abelha na chuva (1953), Finisterra (recebeu o Prêmio Cidade de Lisboa, 1978), todos do gênero romance, O Aprendiz de Feiticeiro (crônicas, 1971) ...; seu romance Uma abelha na chuva foi adaptado para o cinema por Fernando Lopes, no filme com o mesmo título.

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

Carlos de Oliveira: Rudes e breves as palavras pesam . . . [soneto]

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Rudes e breves as palavras pesam
mais do que as lajes ou a vida, tanto,
que levantar a torre do meu canto
é recriar o mundo pedra a pedra;
mina obscura e insondável, quis
acender-te o granito das estrelas
e nestes versos repetir com elas
o milagre das velhas pederneiras;
mas as pedras do fogo transformei-as
nas lousas cegas, áridas, da morte,
o dicionário que me coube em sorte
folheei-o ao rumor do sofrimento:
ó palavras de ferro, ainda sonho
dar-vos a leve têmpera do vento.

Trabalho poético — 1º volume (1975 ? [1977-1978])

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Carlos Alberto Serra de Oliveira, mais conhecido como Carlos de Oliveira (1921 1982), brasileiro e paraense de Belém, filho de emigrantes portugueses, dois anos após nascido seguiu os pais que retornavam a Portugal, residiu inicialmente na região de Gândara, depois em Coimbra, formou-se em Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, foi escritor, tradutor, cronista e poeta; em 1948, após quinze anos residindo em Coimbra, o poeta mudou-se para Lisboa, passou a manter colaborações nos jornais e revistas literárias, entre os quais, Altitude, Seara Nova, Alcatéia, e atuou como diretor na revista Vértice; suas obras: em poesia: Turismo (1942), Mãe pobre (1945), Colheita perdida (1948), Descida aos infernos (1939), Terra de harmonia (1950), Cantata (1960), Sobre o lado esquerdo (1961-1962), Micropaisagem (1963-1965), Entre duas memórias (recebeu o Prêmio Bordalo de Literatura da Casa da Imprensa, 1971), Trabalho poético (1º e 2º volumes, compilação das obras poéticas, 1977 e 1978); em prosa: Casa na Duna (1943), Alcatéia (1944), Pequenos burgueses (1948), Uma abelha na chuva (1953), Finisterra (recebeu o Prêmio Cidade de Lisboa, 1978), todos do gênero romance, O Aprendiz de Feiticeiro (crônicas, 1971) ...; seu romance Uma abelha na chuva foi adaptado para o cinema por Fernando Lopes, no filme com o mesmo título.