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Cal
A cal,
o amor
guardado para os mortos,
dissolvendo perfeito
da tua solidão
descarnada
em meu peito,
a cal,
o coração.
— o —
Sono
Dormir
mas o sonho
repassa
duma insistente dor
a lembrança
da vida
água outra vez bebida
na pobreza da noite:
e assim perdido
o sono
o olvido
bates, coração, repetes
sem querer
o dia.
— o —
Névoa
A morte
em flor
dos camponeses
tão chegados à terra
que são folhas
e ervas de nada
passa no vento
e eu julgo ouvir
ao longe
nos recessos da névoa
os animais feridos
do Início.
(Trabalho Poético I)
(Trabalho poético — 1º volume (1975 ?
[1977-1978])
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Poesia portuguesa contemporânea
[várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos
por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP;
Carlos Alberto Serra de Oliveira, mais conhecido como Carlos de Oliveira (1921 —
1982), brasileiro e paraense de Belém, filho de emigrantes portugueses, dois anos
após nascido seguiu os pais que retornavam a Portugal, residiu inicialmente na
região de Gândara, depois em Coimbra, formou-se em Ciências Histórico-Filosóficas
na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, foi escritor, tradutor, cronista
e poeta; em 1948, após quinze anos residindo em Coimbra, o poeta mudou-se para Lisboa,
passou a manter colaborações nos jornais e revistas literárias, entre os quais,
Altitude, Seara Nova, Alcatéia, e atuou como diretor na revista Vértice; suas obras:
em poesia: Turismo (1942), Mãe pobre (1945), Colheita perdida (1948), Descida aos
infernos (1939), Terra de harmonia (1950), Cantata (1960), Sobre o lado esquerdo
(1961-1962), Micropaisagem (1963-1965), Entre duas memórias (recebeu o Prêmio Bordalo
de Literatura da Casa da Imprensa, 1971), Trabalho poético (1º e 2º volumes, compilação
das obras poéticas, 1977 e 1978); em prosa: Casa na Duna (1943), Alcatéia (1944),
Pequenos burgueses (1948), Uma abelha na chuva (1953), Finisterra (recebeu o Prêmio
Cidade de Lisboa, 1978), todos do gênero romance, O Aprendiz de Feiticeiro (crônicas,
1971) ...; seu romance Uma abelha na chuva foi adaptado para o cinema por Fernando
Lopes, no filme com o mesmo título.