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quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Torquato Neto: Cogito

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eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.

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26 Poetas Hoje — Antologia: Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro — RJ; Torquato Pereira de Araújo Neto (1944 1972), piauiense de Teresina, mudando-se para Salvador (BA) aos 16 anos, fez seus estudos secundários no Colégio [marista] Nossa Senhora da Vitória, foi jornalista, poeta, letrista de música popular e participante do movimento de contracultura (tropicalismo, cinema marginal, poesia concreta ...) no Brasil; em 1962, mudando-se para o Rio de Janeiro, estudou jornalismo mas não se formou, trabalhou na imprensa carioca, escreveu sobre cultura nos jornais Correio da Manhã, Jornal dos Sports e Última Hora; em 1973 foi publicado Os últimos dias de paupéria (1ª edição, Livraria Eldorado Tijuca Ltda., Rio de Janeiro RJ), sua obra póstuma; em 1968, o poeta e letrista Torquato Neto teve participação no LP (long-play, disco de vinil) Tropicalia ou Panis et Circencis (em composições de Gilberto Gil e Caetano Veloso), além de outras parcerias musicais em LPs de Luiz Melodia, Jards Macalé, João Bosco, Sérgio Brito, Edu Lobo, Geraldo Vandré, Geraldo Azevedo, Paulo Diniz, ...; como ator, participou dos filmes Nosferatu (1970), de Ivan Cardoso, Adão e Eva do Paraíso ao Consumo (super 8, 1972), de Edemar Oliveira e Carlos Galvão, e também foi diretor, além de ator, do filme Terror da Vermelha (1972); suicidou-se em 10 de novembro de 1972, trancando-se no banheiro e abrindo o gás; algum tempo depois, em homenagem póstuma ao poeta piauiense, Caetano Veloso escreveu a canção Cajuína e a incluiu no disco Cinema Transcendental (1979).

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

Torquato Neto: Agora não se fala mais . . .


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Agora não se fala mais
toda palavra guarda uma cidade
e qualquer gesto é o fim
do seu início;

Agora não se fala nada
e tudo é transparente em cada forma
qualquer palavra é um gesto
e em sua orla
os pássaros de sempre cantam
nos hospícios.

Você não tem que me dizer
o número de mundo deste mundo
não tem que me mostrar
a outra face
face ao fim de tudo:

só tem que me dizer
o nome da república do fundo
o sim do fim
do fim de tudo
e o tem do tempo vindo;

não tem que me mostrar
a outra mesma face ao outro mundo
não se fala, não é permitido:
mudar da idéia. é proibido.
não se permite nunca mais olhares
tensões de cismas crises e outros tempos.
está vetado qualquer movimento.

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26 Poetas Hoje — Antologia: Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro — RJ; Torquato Pereira de Araújo Neto (1944 1972), piauiense de Teresina, mudando-se para Salvador (BA) aos 16 anos, fez seus estudos secundários no Colégio [marista] Nossa Senhora da Vitória, foi jornalista, poeta, letrista de música popular e participante do movimento de contracultura (tropicalismo, cinema marginal, poesia concreta ...) no Brasil; em 1962, mudando-se para o Rio de Janeiro, estudou jornalismo mas não se formou, trabalhou na imprensa carioca, escreveu sobre cultura nos jornais Correio da Manhã, Jornal dos Sports e Última Hora; em 1973 foi publicado Os últimos dias de paupéria (1ª edição, Livraria Eldorado Tijuca Ltda., Rio de Janeiro RJ), sua obra póstuma; em 1968, o poeta e letrista Torquato Neto teve participação no LP (long-play, disco de vinil) Tropicalia ou Panis et Circencis (em composições de Gilberto Gil e Caetano Veloso), além de outras parcerias musicais em LPs de Luiz Melodia, Jards Macalé, João Bosco, Sérgio Brito, Edu Lobo, Geraldo Vandré, Geraldo Azevedo, Paulo Diniz, ...; como ator, participou dos filmes Nosferatu (1970), de Ivan Cardoso, Adão e Eva do Paraíso ao Consumo (super 8, 1972), de Edemar Oliveira e Carlos Galvão, e também foi diretor, além de ator, do filme Terror da Vermelha (1972); suicidou-se em 10 de novembro de 1972, trancando-se no banheiro e abrindo o gás; algum tempo depois, em homenagem póstuma ao poeta piauiense, Caetano Veloso escreveu a canção Cajuína e a incluiu no disco Cinema Transcendental (1979).

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

Torquato Neto: era um pacato cidadão de roupa clara . . .


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era um pacato cidadão de roupa clara
seu terno, sua gravata lhe caíam bem
seu nome, que eu me lembre, era ezequias
casado, vacinado e sem ninguém.
brasileiro e eleitor, seu ezequias
reservista de terceira e com família
três filhos, prestações e alguns livros
(enciclopédias e biografias).
era uma pacato cidadão de roupa clara
era um homem de bem que eu conhecia
cumpria seus deveres, trabalhava
chegava cedo, em casa de madrugada
lutando pelo pão de cada dia.
era um pacato cidadão de roupa clara
e todo dia passava e me dizia
que o mundo estava andando muito mal
eu perguntava por que, eu perguntava
seu ezequias nunca me explicava
apenas repetia
lá dentro do seu puro tropical
este mundo vai seguindo muito mal
este mundo, meu filho, vai seguindo muito mal.
ah, seu ezequias!
que pena, que desastre, que tragédia
que coisa aconteceu naquele dia
seu ezequias, ah, seu ezequias
saiu do emprego e foi tomar cachaça
e apenas de manhã voltou pra casa
batendo na mulher, xingando os filhos
seu ezequias, ah, seu ezequias
era um pacato cidadão de roupa clara
era um homem de bem que eu conhecia
e agora é a vergonha da família.

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26 Poetas Hoje — Antologia: Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro — RJ; Torquato Pereira de Araújo Neto (1944 1972), piauiense de Teresina, mudando-se para Salvador (BA) aos 16 anos, fez seus estudos secundários no Colégio [marista] Nossa Senhora da Vitória, foi jornalista, poeta, letrista de música popular e participante do movimento de contracultura (tropicalismo, cinema marginal, poesia concreta ...) no Brasil; em 1962, mudando-se para o Rio de Janeiro, estudou jornalismo mas não se formou, trabalhou na imprensa carioca, escreveu sobre cultura nos jornais Correio da Manhã, Jornal dos Sports e Última Hora; em 1973 foi publicado Os últimos dias de paupéria (1ª edição, Livraria Eldorado Tijuca Ltda., Rio de Janeiro RJ), sua obra póstuma; em 1968, o poeta e letrista Torquato Neto teve participação no LP (long-play, disco de vinil) Tropicalia ou Panis et Circencis (em composições de Gilberto Gil e Caetano Veloso), além de outras parcerias musicais em LPs de Luiz Melodia, Jards Macalé, João Bosco, Sérgio Brito, Edu Lobo, Geraldo Vandré, Geraldo Azevedo, Paulo Diniz, ...; como ator, participou dos filmes Nosferatu (1970), de Ivan Cardoso, Adão e Eva do Paraíso ao Consumo (super 8, 1972), de Edemar Oliveira e Carlos Galvão, e também foi diretor, além de ator, do filme Terror da Vermelha (1972); suicidou-se em 10 de novembro de 1972, trancando-se no banheiro e abrindo o gás; algum tempo depois, em homenagem póstuma ao poeta piauiense, Caetano Veloso escreveu a canção Cajuína e a incluiu no disco Cinema Transcendental (1979).