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quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Francisca Júlia da Silva: Anfitrite


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Louco, às doidas, roncando, em látegos, ufano,
O vento o seu furor colérico passeia...
Enruga e torce o manto à prateada areia
Da praia, zune no ar, encarapela o oceano.

A seus uivos, o mar, chora o seu pranto insano,
Grita, ulula, revolto, e o largo dorso arqueia;
Perdida ao longe, como um pássaro que anseia,
Alva e esguia, uma nau avança a todo o pano.

Sossega o vento; cala o oceano a sua mágoa;
Surge, esplêndida, e nua, envolta em áurea bruma,
Anfitrite, e, a sorrir, nadando à tona d'água,

Lá vai... mostrando à luz suas formas redondas,
Sua clara nudez salpicada de espuma,
Deslizando no glauco amículo das ondas...

(Esfinges — 1903)


* Nota do blogue Verso e Conversa: acerca da vida de Francisca Júlia, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página expõe que em 27 de fevereiro de 1909 a poetisa se casou com Filadelfo Edmundo Münster, telegrafista da Estrada de Ferro Central do Brasil, “de poucas posses e limitada bagagem intelectual”, afastou-se da literatura e passou a dedicar-se ao esposo e ao lar, “uma casa modesta mas muito bem cuidada”; o “casamento-relâmpago” foi noticiado pelos jornais O Estado de São Paulo, Correio Paulistano, Diário Popular e Commercio de São Paulo; em 1914, Francisca Júlia adoeceu, incômodo que a acompanhou pelos seus seis últimos anos de vida; a partir de 1915 a poetisa voltou a publicar seus textos poéticos através das páginas de A Cigarra; em dezembro de 1916, em entrevista ao jornal A Época, ao ser perguntada sobre sua doença, respondeu:
Tenho alucinações, [...] Há ocasiões que de repente saio da vida real e entro no sonho. Vejo pessoas e seres desconhecidos. A princípio cuidei que me estava tornado médium. Mas não, isto é o princípio do fim. Sinto-me feliz ao observar, dia a dia, que esse fim se aproxima. Sabe, é muito bom morrer. Minha vida encurta-se hora a hora. Tenho ambições, oh! muitas ambições, mas são de outra natureza.”;
em 31 de outubro de 1920, seu marido veio a falecer acometido de tuberculose e após demorado tratamento; a poetisa, que confessara a amigos não ver mais sentido em sua vida sem a companhia do marido, constatada a morte de Filadelfo, se retirou para repousar e “não mais acordou, apesar dos esforços médicos para reanimá-la, vindo a morrer na manhã do dia do enterro do marido." — o atestado de óbito registrou como causa mortishemorragia cerebral”. [informações colhidas da longa matéria Francisca Júlia, a musa impassível, registrada na página virtual do jornal O Vale do Ribeira [Registro — SP e região], de 01.11.2020 — clique no título lá em cima.
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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira (1897 a 1900), Diretora: Presciliana Duarte de Almeida, Edição fac-similar, Volume I, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Francisca Júlia da Silva Münster (1874 1920), nascida em Xiririca, hoje Eldorado SP, poeta, pianista e crítica, teve sua estréia literária em 1891 nas páginas do jornal O Estado de São Paulo e, ao longo dos anos, publicou seus poemas em jornais e revistas (Correio Paulistano e Diário Popular, em São Paulo, e, no Rio de Janeiro, em O Álbum, A Semana, A Cigarra, O Pirralho, Revista do Brasil, A Vida Moderna, etc.); deixou-nos como legado Mármores (1895), Livro da Infância (1899), Esfinges (1903) e Alma Infantil (coletânea de poemas para a infância, 1912), este último em coautoria com seu irmão Júlio César da Silva; do livro Esfinges, Monteiro Lobato fez uma reedição ampliada em 1920; a poetisa, uma das precursoras da literatura feminina no país, e considerada a principal representante feminina amante do Parnaso, foi reverenciada e incentivada por Olavo Bilac, Alberto de Oliveira e Raimundo Correia, constituintes da tríade do Parnasianismo no Brasil; Francisca Júlia, leitora de românticos alemães Goethe e Henri Heine , traduziu poemas de Heine para o português.

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

Francisca Júlia da Silva: O mergulhador

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(idéia de Murger)

Querendo mais um astro em seu cabelo, a clara
Rainha assim falou: “Desce ao mar e passeia
Por esse amplo palácio onde canta a sereia,
E traz-me lá do fundo a pérola mais rara”.

E o bom mergulhador, em busca do tesouro,
Desce, passeia o olhar pela amplidão marinha;
Acha a pérola, e oferta-a à formosa rainha
Numa caixinha azul vermiculada de ouro.

O poeta é assim também: se teu capricho, instante,
Requer, Senhora, um verso, unicamente um verso,
Mas um verso perfeito, áureo, sonoro e terso,
Que diga a tua ideal formosura radiante,

Ao fundo da su’alma imaculada e santa,
Undoso plaino azul, vasto mar onde boia
O dourado palácio onde a sereia canta,
Mergulha, e vai buscar a desejada joia.

(Esfinges — 1903)


* Nota do blogue Verso e Conversa: acerca da vida de Francisca Júlia, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página expõe que em 27 de fevereiro de 1909 a poetisa se casou com Filadelfo Edmundo Münster, telegrafista da Estrada de Ferro Central do Brasil, “de poucas posses e limitada bagagem intelectual”, afastou-se da literatura e passou a dedicar-se ao esposo e ao lar, “uma casa modesta mas muito bem cuidada”; o “casamento-relâmpago” foi noticiado pelos jornais O Estado de São Paulo, Correio Paulistano, Diário Popular e Commercio de São Paulo; em 1914, Francisca Júlia adoeceu, incômodo que a acompanhou pelos seus seis últimos anos de vida; a partir de 1915 a poetisa voltou a publicar seus textos poéticos através das páginas de A Cigarra; em dezembro de 1916, em entrevista ao jornal A Época, ao ser perguntada sobre sua doença, respondeu:
Tenho alucinações, [...] Há ocasiões que de repente saio da vida real e entro no sonho. Vejo pessoas e seres desconhecidos. A princípio cuidei que me estava tornado médium. Mas não, isto é o princípio do fim. Sinto-me feliz ao observar, dia a dia, que esse fim se aproxima. Sabe, é muito bom morrer. Minha vida encurta-se hora a hora. Tenho ambições, oh! muitas ambições, mas são de outra natureza.”;
em 31 de outubro de 1920, seu marido veio a falecer acometido de tuberculose e após demorado tratamento; a poetisa, que confessara a amigos não ver mais sentido em sua vida sem a companhia do marido, constatada a morte de Filadelfo, se retirou para repousar e “não mais acordou, apesar dos esforços médicos para reanimá-la, vindo a morrer na manhã do dia do enterro do marido." — o atestado de óbito registrou como causa mortishemorragia cerebral”. [informações colhidas da longa matéria Francisca Júlia, a musa impassível, registrada na página virtual do jornal O Vale do Ribeira [Registro — SP e região], de 01.11.2020 — clique no título lá em cima.
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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira (1897 a 1900), Diretora: Presciliana Duarte de Almeida, Edição fac-similar, Volume I, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Francisca Júlia da Silva Münster (1874 1920), nascida em Xiririca, hoje Eldorado SP, poeta, pianista e crítica, teve sua estréia literária em 1891 nas páginas do jornal O Estado de São Paulo e, ao longo dos anos, publicou seus poemas em jornais e revistas (Correio Paulistano e Diário Popular, em São Paulo, e, no Rio de Janeiro, em O Álbum, A Semana, A Cigarra, O Pirralho, Revista do Brasil, A Vida Moderna, etc.); deixou-nos como legado Mármores (1895), Livro da Infância (1899), Esfinges (1903) e Alma Infantil (coletânea de poemas para a infância, 1912), este último em coautoria com seu irmão Júlio César da Silva; do livro Esfinges, Monteiro Lobato fez uma reedição ampliada em 1920; a poetisa, uma das precursoras da literatura feminina no país, e considerada a principal representante feminina amante do Parnaso, foi reverenciada e incentivada por Olavo Bilac, Alberto de Oliveira e Raimundo Correia, constituintes da tríade do Parnasianismo no Brasil; Francisca Júlia, leitora de românticos alemães Goethe e Henri Heine , traduziu poemas de Heine para o português.

domingo, 30 de abril de 2023

Francisca Júlia: Vidas anteriores


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Quando, curva a cabeça, à toa, o passo tardo,
          Por desertas ruas caminho,
À hora crepuscular em que, sob o céu pardo,
Asas se cruzam no ar em demanda do ninho,

E o céu é triste, o ambiente é leve, e as auras puras
Deixam, suspensas no ar, a amargura das notas,
Vêm-me recordações de existências obscuras
Que no sepulcro estão das épocas remotas.

Na Índia vejo-me a ler, sóbrio o gesto e voz clara,
À multidão que escuta o sábio Verbo e o Exemplo,
Preces do Bagavatta e do Vedanta-Sara,
Sob os negros umbrais de um arruinado templo.

Fui chela, fui fakir, fui shaberon; e inda hoje
Minha imaginação, no seu voo altaneiro,
          Desprende-se, ala-se e foge
Para aquelas regiões onde nasci primeiro.

(Esfinges — reedição ampliada, 1920)

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Do Encantamento à Apostasia: A poesia brasileira de 1880—1919: antologia e estudo, por Fernando Cerisara Gil, 2006, Editora da UFPR, Curitiba — PR; Francisca Júlia da Silva Munster (1874 1920), nascida em Xiririca, hoje Eldorado SP, poeta, pianista e crítica, teve sua estréia literária em 1891 nas páginas do jornal O Estado de São Paulo e, ao longo dos anos, publicou seus poemas em jornais e revistas (Correio Paulistano e Diário Popular, em São Paulo, e O Álbum e A Semana, no Rio de Janeiro, A Cigarra, O Pirralho, Revista do Brasil, A Vida Moderna, etc.); deixou-nos como legado Mármores (1895), Livro da Infância (1899), Esfinges (1903) e Alma Infantil (coletânea de poemas para a infância, 1912), este último em coautoria com seu irmão Júlio César da Silva; do livro Esfinges, Monteiro Lobato fez uma reedição ampliada em 1920.

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Francisca Júlia da Silva: Fonte de Jacó

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Na velha Samaria era Sicar situada;
Ora, em Sicar, Jacó, filho de Isaac, um dia,
Velho já, tarda a mão, à sua gente amada
Uma fonte rasgou d'água límpida e fria.

O Mestre, certa vez, a essa borda abençoada,
(No tempo de Jesus a fonte inda existia)
À hora sexta quedou-se, a fronte angustiada
De dor, a ver passar gentes de Samaria.

Uma samaritana, acaso, à fonte veio:
E ao passar por Jesus, com seu cântaro cheio,
O alto busto ondulou uma graça lasciva:

“Água!” pediu Jesus, “mata-me a sede e a mágoa,
Do cântaro que tens dá-me uma pouca d'água,
Que em troca eu te darei da fonte d'água viva”.

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Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Organização e Seleção de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; Francisca Júlia da Silva Munster (1874 1920), nascida em Xiririca, hoje Eldorado SP, poeta, pianista e crítica, teve sua estréia literária em 1891 nas páginas do jornal O Estado de São Paulo e, ao longo dos anos, publicou seus poemas em jornais e revistas (Correio Paulistano e Diário Popular, em São Paulo, e, no Rio de Janeiro, em O Álbum, A Semana, A Cigarra, O Pirralho, Revista do Brasil, A Vida Moderna, etc.); deixou-nos como legado Mármores (1895), Livro da Infância (1899), Esfinges (1903) e Alma Infantil (coletânea de poemas para a infância, 1912), este último em coautoria com seu irmão Júlio César da Silva; do livro Esfinges, Monteiro Lobato fez uma reedição ampliada em 1920.

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Francisca Júlia: Carlos Gomes

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Essa que plange, que soluça e pensa
Amorosa e febril, tímida e casta,
Lira que raiva, lira que devasta,
E que dos próprios sons vive suspensa.

Guarda na cordas uma escala imensa,
Que, quando rompe, espaço fora arrasta
Ora do mar as queixas, ora a vasta
Sussurração de uma floresta densa.

Ei-la muda; mas tal intensidade
Teve a música enorme do seu choro,
O dilúvio orquestral dos seus lamentos,

Que, muda assim, rotas as cordas, há de
Para sempre vibrar o eco sonoro
Que su’alma lançou aos quatro ventos.

(Esfinges 1903)

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Do Encantamento à Apostasia: A poesia brasileira de 1880—1919: antologia e estudo, por Fernando Cerisara Gil, 2006, Editora da UFPR, Curitiba — PR; Francisca Júlia da Silva Munster (1874 1920), nascida em Xiririca, hoje Eldorado SP, poeta, teve sua estréia literária em 1891 nas páginas do jornal O Estado de São Paulo e, ao longo dos anos, publicou seus poemas em jornais e revistas (Correio Paulistano e Diário Popular, em São Paulo, e O Álbum e A Semana, no Rio de Janeiro, A Cigarra, O Pirralho, Revista do Brasil, A Vida Moderna, etc.); deixou-nos como legado Mármores (1895), Livro da Infância (1899), Esfinges (1903) e Alma Infantil (coletânea de poemas para a infância, 1912), este último em coautoria com seu irmão Júlio César da Silva; do livro Esfinges, Monteiro Lobato fez uma reedição ampliada em 1920.

segunda-feira, 18 de julho de 2022

Francisca Júlia: A um poeta

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Poeta, quando te leio, a angústia dolorida
Que te mina a existência e que em teu peito impera,
Faz-me também sofrer, d’alma se me apodera,
Como se da minh’alma ela fosse nascida.

Sinto o que sentes: ora a lágrima sincera
Que foi pela saudade ou pelo amor vertida,
Ora a mágoa que habita em tua alma  guarida
Onde a negra legião das mágoas se aglomera.

Não há nos versos teus um sentimento alheio
À dor; neles se encontra a aspereza das fráguas;
Há neles ora o suave e módulo gorjeio

Das aves, ora a queixa harmônica das águas...
Leio os teus versos; e, em minh’alma, quando os leio,
Vai gemendo, em surdina, a música das mágoas...

(Esfinges — 1903)

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Do Encantamento à Apostasia: A poesia brasileira de 1880—1919: antologia e estudo, por Fernando Cerisara Gil, 2006, Editora da UFPR, Curitiba — PR; Francisca Júlia da Silva Munster (1874 1920), nascida em Xiririca, hoje Eldorado SP, poeta, pianista e crítica, teve sua estréia literária em 1891 nas páginas do jornal O Estado de São Paulo e, ao longo dos anos, publicou seus poemas em jornais e revistas (Correio Paulistano e Diário Popular, em São Paulo, e O Álbum e A Semana, no Rio de Janeiro, A Cigarra, O Pirralho, Revista do Brasil, A Vida Moderna, etc.); deixou-nos como legado Mármores (1895), Livro da Infância (1899), Esfinges (1903) e Alma Infantil (coletânea de poemas para a infância, 1912), este último em coautoria com seu irmão Júlio César da Silva; do livro Esfinges, Monteiro Lobato fez uma reedição ampliada em 1920.

quarta-feira, 26 de maio de 2021

Johann Wolfgang von Goethe: Mar calmo

 
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[traduzido por Francisca Júlia]

Tranqüilo, o mar não canta nem ondeia.
O nauta, imerso noutro mar de mágoas,
Os olhos tristes e úmidos passeia
Pela tranqüila quietação das águas.

A onda, que dorme quieta, não espuma;
O astro, que sonha plácido, não canta,
E em todo o vasto mar, em parte alguma
A mais pequena vaga se levanta.

Goethe

Meeresstille

Tiefe Stille herrscht im Wasser,
Ohne Regung ruht das Meer,
Und bekümmert sieht der Schiffer
Glatte Fläche rings umher.

Keine Luft von keiner Seite!
Todesstille fürchterlich!
In der ungeheuern Weite
Reget keine Welle sich.
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O Livro de Ouro da Poesia Alemã — Antologia de Poetas da Língua Alemã (diversos autores e tradutores), Apresentação e Seleção de Geir Campos, edição bilíngue, Clássicos de Bolso, 1985, Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Johann Wolfgang von Goethe (1749 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, formou-se em Direito, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; Goethe realizou suas primeiras obras poéticas (canções e odes) ainda jovem; suas obras: Die Laune des Verliebten (1768), Götz von Berlinchingen (1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (1774), Clavigo (1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (1779), Torquato Tasso (1780), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (1797), Hermann e Dorothea (1798), Die natürliche Tochter (18011803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1807), Teoria das Cores (1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 18111833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 18131817), West-östlicher Divan (1819, e versão ampliada em 1827), Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Francisca Júlia: Voz dos animais

Resultado de imagem para Poesia Brasileira para a Infância Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito
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O peru, em meio à bulha
De outras aves em concerto,
Como faz de leque aberto?
            Grulha.

Como faz o pinto, em dia
De chuva, quando se interna
Debaixo da asa materna?
            Pia.

Enquanto alegre passeia
Girando em torno do ninho,
Como faz o passarinho?
            Gorjeia.

E de intervalo a intervalo
Quando a manhã se levanta,
No quintal que faz o galo?
            Canta.

Quando a galinha deseja
Chamar os pintos que aninha,
Como é que faz a galinha?
            Cacareja.

A rã quando a noite baixa,
Que faz ela a toda hora
Dentre os limos em que mora?
            Coaxa.

E quando as narinas incha,
Cheio de gosto e regalo,
Como é que faz o cavalo?
            Rincha.

Que faz o gato, que espia
Uma terrina de sopa
Que fumega sobre a copa?
            Mia.

Com a barriga farta e cheia,
Que faz o burrinho quando
Se está na grama espojando?
            Orneia.

Para o sinal de rebate,
Aviso, alarme ou socorro,
Como é que faz o cachorro?
            Late.

Para que as mágoas embale
Quando tresmalha, * sozinha,
Que faz a branca ovelhinha?
            Bale.

Em fugir quando porfia **
À garra e aos dentes do gato.
Como faz o pobre rato?
            Chia.

— De pé, se a boca descerra
E alta levanta a cabeça,
Que faz a cabra travessa?
            — Berra.

Cheia a boca de babuge
Do milho bom que rumina,
Que faz o boi na campina?
            Muge.

A pomba, que grãos debulha,
Como faz, batendo as asas
Sobre o telhado das casas?
            Arrulha.

A voz tremida do grilo
Que vive oculto na grama,
A trilar, como se chama?
            Trilo.

Mas escravos das paixões
Que os fazem bons ou ferozes,
Os homens têm suas vozes
Conforme as ocasiões.

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Notas dos organizadores:
* Tresmalhar: Afastar-se do bando;
** Porfiar: Teimar.
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Poesia Brasileira para a Infância (diversos autores), Seleção, Organização e Texto/Apresentação de Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, Coleção Henriqueta 1, 3ª edição revista, 1968, Edição Saraiva, São Paulo — SP; Francisca Júlia da Silva Munster (1874 1920), nascida em Xiririca, hoje Eldorado SP, teve sua estréia literária em 1891 nas páginas do jornal O Estado de São Paulo e, ao longo dos anos, publicou seus poemas em jornais e revistas (Correio Paulistano e Diário Popular, em São Paulo, e O Álbum e A Semana, no Rio de Janeiro); deixou-nos como legado Mármores (1895), Livro da Infância (1899), Esfinges (1903) e Alma Infantil (1912), este último em colaboração com seu irmão Júlio César da Silva; do livro Esfinges, Monteiro Lobato fez uma reedição em 1920.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Francisca Júlia: Inverno

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A João Luso

Outrora, quanta vida e amor nestas formosas
Ribas! Quão verde e fresca esta planície, quando,
Debatendo-se no ar, os pássaros, em bando,
O ar enchiam de sons e queixas misteriosas!

Tudo era vida e amor. As árvores copiosas
Mexiam-se, de manso, ao resfôlego brando
Da brisa que passava em tudo derramando
O perfume sutil dos cravos e das rosas...

Mas veio o inverno; a vida e amor foram-se em breve...
O ar se encheu de rumor e de uivos desolados...
As árvores do campo, enroupadas de neve,

Sob o látego atroz da invernia que corta,
São esqueletos que, de braços levantados,
Vão pedindo socorro à primavera morta.

(Esfinges, Monteiro Lobato & Cia.,
 S. Paulo, p. 45 — 46.)

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Antologia dos Poetas Brasileiros — Poesia da fase parnasiana, Organização de Manuel Bandeira, 1996, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Francisca Júlia da Silva Munster (1874  1920), nascida em Xiririca, hoje Eldorado  SP, teve sua estréia literária em 1891 nas páginas do jornal O Estado de São Paulo e, ao longo dos anos, publicou seus poemas em jornais e revistas (Correio Paulistano e Diário Popular, em São Paulo, e O Álbum e A Semana, no Rio de Janeiro); deixou-nos como legado Mármores (1895), Livro da Infância (1899), Esfinges (1903) e Alma Infantil (1912), este último em colaboração com seu irmão Júlio César da Silva; do livro Esfinges, Monteiro Lobato fez uma reedição em 1920.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Francisca Júlia: Musa impassível

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I

Musa! um gesto sequer de dor ou de sincero
Luto jamais te afeie o cândido semblante!
Diante de um Jó, conserva o mesmo orgulho; e diante
De um morto, o mesmo olhar e sobrecenho austero.

Em teus olhos não quero a lágrima; não quero
Em tua boca o suave e idílico descante.
Celebra ora um fantasma anguiforme de Dante,
Ora o vulto marcial de um guerreiro de Homero.

Dá-me o hemistíquio d'ouro, a imagem atrativa;
A rima, cujo som, de uma harmonia crebra,
Cante aos ouvidos d'alma; a estrofe limpa e viva;

Versos que lembrem, com seus bárbaros ruídos,
Ora o áspero rumor de um calhau que se quebra,
Ora o surdo rumor de mármores partidos.

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Coletânea de Poetas Paulistas  Seleção, Organização e Introdução de Enéas de Moura, 1951, Editora Minerva, Rio de Janeiro — RJ; Francisca Júlia da Silva Munster (1874  1920), nascida em Xiririca, hoje Eldorado SP, teve sua estréia literária em 1891 nas páginas do jornal O Estado de São Paulo e, ao longo dos anos, publicou seus poemas em jornais e revistas (Correio Paulistano e Diário Popular, em São Paulo, e O Álbum e A Semana, no Rio de Janeiro); deixou-nos como legado Mármores (1895), Livro da Infância (1899), Esfinges (1903) e Alma infantil (1912), este último em colaboração com seu irmão Júlio César da Silva; do livro Esfinges, Monteiro Lobato fez uma reedição em 1920.