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Louco, às
doidas, roncando, em látegos, ufano,
O vento o
seu furor colérico passeia...
Enruga e
torce o manto à prateada areia
Da praia,
zune no ar, encarapela o oceano.
A seus
uivos, o mar, chora o seu pranto insano,
Grita,
ulula, revolto, e o largo dorso arqueia;
Perdida
ao longe, como um pássaro que anseia,
Alva e
esguia, uma nau avança a todo o pano.
Sossega o
vento; cala o oceano a sua mágoa;
Surge,
esplêndida, e nua, envolta em áurea bruma,
Anfitrite,
e, a sorrir, nadando à tona d'água,
Lá vai...
mostrando à luz suas formas redondas,
Sua clara
nudez salpicada de espuma,
Deslizando
no glauco amículo das ondas...
(Esfinges
— 1903)
* Nota do
blogue Verso e Conversa: acerca da vida de Francisca Júlia, o atrevidíssimo aprendiz
de blogueiro desta página expõe que em 27 de fevereiro de 1909 a poetisa se
casou com Filadelfo Edmundo Münster, telegrafista da Estrada de Ferro Central do
Brasil, “de poucas posses e limitada bagagem intelectual”, afastou-se da literatura
e passou a dedicar-se ao esposo e ao lar, “uma casa modesta mas muito bem cuidada”;
o “casamento-relâmpago” foi noticiado pelos jornais O Estado de São Paulo, Correio
Paulistano, Diário Popular e Commercio de São Paulo; em 1914, Francisca Júlia adoeceu,
incômodo que a acompanhou pelos seus seis últimos anos de vida; a partir de 1915
a poetisa voltou a publicar seus textos poéticos através das páginas de A Cigarra;
em dezembro de 1916, em entrevista ao jornal A Época, ao ser perguntada sobre sua
doença, respondeu:
“Tenho alucinações, [...] Há ocasiões que de repente saio da vida real e entro no sonho. Vejo pessoas e seres desconhecidos. A princípio cuidei que me estava tornado médium. Mas não, isto é o princípio do fim. Sinto-me feliz ao observar, dia a dia, que esse fim se aproxima. Sabe, é muito bom morrer. Minha vida encurta-se hora a hora. Tenho ambições, oh! muitas ambições, mas são de outra natureza.”;
em 31 de outubro de 1920, seu marido veio a falecer
acometido de tuberculose e após demorado tratamento; a poetisa, que confessara a
amigos não ver mais sentido em sua vida sem a companhia do marido, constatada a
morte de Filadelfo, se retirou para repousar e “não mais acordou, apesar dos esforços
médicos para reanimá-la, vindo a morrer na manhã do dia do enterro do marido."
— o atestado de óbito registrou como causa mortis “hemorragia cerebral”. [informações
colhidas da longa matéria Francisca Júlia, a musa impassível, registrada na
página virtual do jornal O Vale do Ribeira [Registro — SP e região], de 01.11.2020 — clique no título lá em cima.
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A Mensageira — Revista Literária dedicada
à mulher brasileira (1897 a 1900), Diretora: Presciliana Duarte de Almeida, Edição
fac-similar, Volume I, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert,
1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Francisca Júlia da
Silva Münster (1874 — 1920), nascida em Xiririca, hoje Eldorado — SP, poeta, pianista
e crítica, teve sua estréia literária em 1891 nas páginas do jornal O Estado de
São Paulo e, ao longo dos anos, publicou seus poemas em jornais e revistas (Correio
Paulistano e Diário Popular, em São Paulo, e, no Rio de Janeiro, em O Álbum, A Semana,
A Cigarra, O Pirralho, Revista do Brasil, A Vida Moderna, etc.); deixou-nos como
legado Mármores (1895), Livro da Infância (1899), Esfinges (1903) e Alma Infantil
(coletânea de poemas para a infância, 1912), este último em coautoria com seu irmão
Júlio César da Silva; do livro Esfinges, Monteiro Lobato fez uma reedição ampliada
em 1920; a poetisa, uma das precursoras da literatura feminina no país, e considerada
a principal representante feminina amante do Parnaso, foi reverenciada e incentivada
por Olavo Bilac, Alberto de Oliveira e Raimundo Correia, constituintes da tríade
do Parnasianismo no Brasil; Francisca Júlia, leitora de românticos alemães — Goethe
e Henri Heine —, traduziu poemas de Heine para o português.





