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terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Lautréamont: Os Cantos de Maldoror [excerto]


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[traduzido por José Lino Grünewald]

(Canto primeiro — estrofe 2)

Leitor, talvez seja o ódio que você queira que eu invoque no início desta obra! Quem lhe diz que você não torcerá o nariz, banhado em inúmeras voluptuosidades, tal como queira, com suas narinas orgulhosas, grandes e estreitas, revirando o ventre, como um tubarão, no ar belo e, negro, como se você compreendesse a importância deste ato e a importância não menor de seu legítimo apetite, lentamente e majestosamente, as emanações vermelhas? Eu lhe asseguro, elas irão alegrar os dois buracos informes de teu museu hediondo, ó monstro, se todavia você antes se dedicasse a respirar três mil vezes seguidas a maldita consciência do Eterno! Tuas narinas que ficarão desmesuradamente dilatadas de satisfação inefável, de êxtase imóvel, não vão pedir qualquer coisa de melhor ao espaço, de ter vindo embalsamado tal como perfumes e incensos; pois elas estarão saciadas de uma felicidade total, como os anjos que moram na paz e magnificência de céus aprazíveis.

Lautréamont

(Les Chants de Maldoror:
Chant premier — strophe 2)

Lecteur, c'est peut-être la haine que tu veux que j'invoque dans le commencement de cet ouvrage! Qui te ditque tu n'en renifleras pas, baigné dans d'innombrables voluptés, tant que tu voudras, avec tes narines orgueilleuses, larges et maigres, en te renversant de ventre, pareil à un requin, dans l'air beau et noir, comme si tu comprenais l'importance de cet acte et l'importance non moindre de ton appétit légitime, lentement et majestueusement, les rouges émanations? Je t'assure, elles réjouiront les deux trous informes de ton museau hideux, ô monstre, si toutefois tu t'appliques auparavant à respirer trois mille fois de suite la conscience maudite del'Éternel! Tes narines, qui seront démesurément dilatées de contentement ineffable, d'extase immobile, ne demanderont pas quelque chose de meilleur à l'espace, devenu embaumé comme de parfums et d'encens; car, elles seront rassasiées d'un bonheur complet, comme les anges qui habitent dans la magnificence et la paix des agréables cieux.
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Poetas Franceses do Século XIX — Seleção, Organização, Tradução e Nota Introdutória de José Lino Grünewald, 1991, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Conde de Lautréamont (1846 1870), pseudônimo literário de Isidore Lucien Ducasse, uruguaio de Montevidéu, educado por jesuítas, aos quatorze anos embarcou para a França e ali se tornou aluno interno do Liceu Imperial de Tarbes e, depois, do de Pau, estudou letras e ciências [Retórica e Filosofia] e foi poeta; suas obras: Les Chants de Maldoror (Os Cantos de Maldoror [I, II, III, IV, V e VI], 1869) e Poésies (em dois fascículos, textos em prosa de natureza ensaística, 1870); consta que André Breton (1896 1966), escritor tido como pai e fundador do Movimento Surrealista, considerava Lautréaumont, de certa forma, como um dos precursores do surrealismo; ainda em criança, Isidore Ducasse era tido como “de inteligência precoce, mas de saúde delicada” e que “rapidamente se destacou pelo seu humor bastante selvagem”; morreu jovem, a 24 de novembro de 1870; é o que se encontrou de sua biografia.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Lautréamont: Os Cantos de Maldoror [excerto]

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[traduzido por José Lino Grünewald]

(Canto primeiro  estrofe 1)

          Quisera Deus que o leitor, estimulado e tornado momentaneamente feroz como aquilo que lê, encontre, sem se desorientar, seu caminho abrupto e selvagem através dos pântanos assolados destas páginas sombrias e prenhes de veneno; pois, a não ser que ele empregue em sua leitura uma lógica rigorosa e uma tensão de espírito pelo menos igual à sua desconfiança, as emanações mortais deste livro embeberão sua alma como a água no açúcar. Não é aconselhável que todo mundo leia as páginas que se seguem; apenas alguns irão saborear este fruto amargo, sem perigo. Em decorrência, alma tímida, antes de penetrar mais longe em tais terras inexploradas, conduza teus passos para trás e, não, em frente. Ouça bem o que te digo: conduza teus passos para trás e, não, em frente, como os olhos de um filho que se desvia respeitosamente da contemplação augusta da face materna; ou, antes, como um ângulo infinito de grous friorentos projetando-se em grande número, que, durante o inverno, voam vigorosamente através do silêncio, todas as asas estendidas, em direção de um ponto determinado do horizonte, de onde, súbito, vem um vento estranho e violento, precursor da tormenta. O grou mais velho e que sozinho forma a vanguarda, vendo isso, sacode a cabeça como uma pessoa de bom senso, em conseqüência também seu bico que ele faz estalar, e não está alegre (eu também não o estaria em seu lugar), enquanto seu velho pescoço, despojado de penas e contemporâneo de três gerações de grous, agita-se em ondulações exasperadas a pressagiar a tempestade que, mais e mais, se aproxima. Depois de ter, a sangue-frio, olhado diversas vezes por todos os lados com olhos que contêm a experiência, prudentemente, o primeiro (pois é ele que possui o privilégio de mostrar as plumas de sua cauda aos outros grous inferiores em inteligência), com seu grito vigilante de sentinela melancólico, a fim de rechaçar o inimigo comum, gira com flexibilidade o vértice da figura geométrica talvez um triângulo, mas não se vê o terceiro lado que formam no espaço essas curiosas aves migratórias), seja a bombordo, seja a estibordo, como um capitão sagaz; e, manobrando com asas que aparentam não serem maiores do que aquelas de um pardal, porque ele não é tolo, toma assim um outro caminho filosófico e mais seguro.

Lautréamont

(Les Chants de Maldoror:
Chant premier  strophe 1)

Plût au ciel que le lecteur, enhardi et devenu momentanément féroce comme ce qu'il lit, trouve, sans se désorienter, son chemin abrupt et sauvage, à travers les marécages desoles de ces pages sombres et pleines de poison; car, à moins qu'il n'apporte dans sa lecture une logique rigoureuse et une tension d'esprit égale au moins à sa défiance, les émanations mortelles de ce livre imbiberont son âme comme l'eau le sucre. Il n'est pas bon que tout le monde lise les pages qui vont suivre; quelques-uns seuls savoureront ce fruit amer sans danger. Par conséquent, âme timide, avant de pénétrer plus loin dans de pareilles landes inexplorées, dirige tes talons en arrière et non en avant. Écoute bien ce que je te dis: dirige tes talons en arrière et non en avant, comme les yeux d'un fils qui se détourne respectueusement de la contemplation auguste de la face maternelle; ou, plutôt, comme un angle à perte de vue de grues frileuses méditant beaucoup, qui, pendant l'hiver, volent
puissamment à travers le silence, toutes voiles tendues, vers un point déterminé de l'horizon, d'où tout à coup part un vent étrange et fort, précurseur de la tempête. La grue la plus vieille et qui forme à elle seule l'avant-garde, voyant cela, branle la tête comme une personne raisonnable, conséquemment son bec aussi qu'elle fait claquer, et n'est pas contente (moi, non plus, je ne le serais pas à sa place), tandis que son vieux cou, dégarni de plumes et contemporain de trios générations de grues, se remue en ondulations irritées qui présagent l'orage qui s'approche de plus en plus. Après avoir de sang-froid regardé plusieurs fois de tous les côtés avec des yeux qui renferment l'expérience, prudemment, la première (car, c'est elle qui a le privilége de montrer les plumes de sa queue aux autres grues inférieures en intelligence), avec son cri vigilant de mélancolique sentinelle, pour repousser l'ennemi commun, elle vire avec flexibilité la pointe de la figure géométrique (c'est peut-être un triangle, mais on ne voit pas le troisième côté que forment dans l'espace ces curieux oiseaux de passage), soit à bâbord, soit à tribord, comme un habile capitaine; et, manoeuvrant avec des ailes qui ne paraissent pas plus grandes que celles d'un moineau, parce qu'elle n'est pas bête, elle prend ainsi un autre chemin philosophique et plus sûr. 
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Poetas Franceses do Século XIX — Seleção, Organização, Tradução e Nota Introdutória de José Lino Grünewald, 1991, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Isidore Lucien Ducasse (1846  1870), uruguaio de Montevidéu, mais conhecido pelo pseudônimo literário Conde de Lautréamont, foi poeta, viveu e estudou na França; sua obra: Os Cantos de Maldoror (Les Chants de Maldoror1869) e Poesias (textos em prosa de natureza ensaística, 1870); consta que André Breton (1896 1966), escritor tido como pai e fundador do Movimento Surrealista, considerava Lautréaumont, de certa forma, como um dos precursores do surrealismo; é o que se encontrou de sua biografia.