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terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Anacreonte: A Cigarra

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(Tradução de Castilho *)

Feliz cigarra, invejo-te!
Pousada lá nos píncaros
destas folhudas árvores,
que bem que te hás de estar!

Gota de orvalho mínima
te sobra de Castália;
que do Parnaso aos cânticos
desbanca o teu cantar.

Quanto nos dias plácidos
os campos têm de flórido,
de ameno, de frutífero,
dominas! tudo é teu.

Amiga és tu do agrícola;
para ninguém maléfica;
por seu arauto músico
o estio te elegeu.

Estimam-te as Piérides,
Ama-te o nume Délfico;
dele te veio em dádiva
esse primor de voz.

Da terra, ó filha ingênua!
A todos tão simpática!
Isenta dos descômodos
que pesam sobre nós!

Toda fervor poético!
Em hinos, sempre extáticos,
Soltando de contínuo
delícias musicais.

Leve, sutil crepúsculo!
Quase incorpóreo espírito!
Dás-me ares, minha alígera,
dos entes imortais.

Anacreonte

Μακαρίζομέν σε, τέττιξ,
τε δενδρέων π’ κρων
λίγην δρόσον πεπωκώς
βασιλες πως είδεις.
σ γάρ στι κενα πάντα,
πόσα βλέπεις ν γρος
χπόσα φέρουσιν λαι.
σ δ φείδεαι γεωργν,
π μηδενός τι βλάπτων·
σ δ τίμιος βροτοσιν,
θέρεος γλυκς προφήτης.
φιλέουσι μέν σε Μοσαι,
φιλέει δ Φοβος ατός,
λιγυρν δ’ δωκεν ομην·
τ δ γρας ο σε τείρει.
σοφέ, γηγενής, φίλυμνε,
παθής, ναιμόσαρκε·
σχεδν ε θεος μοιος.


* O poema "A Cigarra", pela tradução ('artística' e 'rimada') de Antônio Feliciano de Castilho (1800 1876), poeta português, compôs a palestra proferida por Amadeu Amaral, na cidade de Santos, em junho de 1917, em que discorreu sobre a conhecida fábula "A Cigarra e a Formiga; o palestrante toma partido e faz elogio à cigarra e seu canto, em detrimento da formiga e seu trabalho. 
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Letras Floridas, de Amadeu Amaral (conferência, palestras e ensaios), 1976, Editora Hucitec, São Paulo SP; Anacreonte (570 a.C ?  488 a.C ?), de origem jônica, nascido em Teos, na Ásia Menor, foi um poeta lírico grego; de sua biografia consta ter escrito diversos livros de poemas odes, epigramas, canções, elegias, etc. dos quais só nos é dado conhecer fragmentos; frise-se também que famosas odes a ele atribuídas foram de outros autores gregos que as escreviam à moda do Mestre jônico, daí a nomeação atual aceita de Odes Anacreônticas em vez de Odes de Anacreonte.