[traduzido por Philadelpho Menezes]
XXIX
Minha enfadada vida, insatisfeita
neste frustrado limbo de só ser,
a quem a força do querer rejeita,
e o próprio rejeitar não vai querer;
minha farta vida, de nada farta,
na moção de mover-se, sempre forte,
de seus sonhos o sonho mesmo aparta —
que a vida Deus transforme ou faça-a morte.
Pois no infindo percurso as horas vãs,
desertos a desertos sucedendo,
a própria força do sonhar solapam
na indolência ativa do pensamento,
sujando em desdesejo o quisto ato
no duplo despejar do inconquistado.
XXIX
My weary life, that lives unsatisfied
On the foiled off-brink of being e’er but this,
To whom the power to will hath been denied
And the will to renounce doth also miss;
My sated life, with having nothing sated,
In the motion of moving poisèd aye,
Within its dreams from its own dreams abated —
This life let the Gods change or take away.
For this endless succession of empty hours,
Like deserts after deserts, voidly one,
Doth undermine the very dreaming powers
And dull even thought’s active inaction,
Tainting with fore-unwilled will the dreamed act,
Twice thus removed from the unobtained fact.
* Nota deste aprendiz de blogueiro: Fernando Pessoa viveu na África do Sul entre 1896 e 1905, tendo feito seus estudos ali e aprendido fluentemente a língua inglesa, daí ter escrito e publicado poemas neste idioma; quando voltou a viver em Portugal já tinha feito 17 anos de idade; 35 Sonnets pertence ao Pessoa ainda jovem.
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Poemas Ingleses (35 sonnets e Inscriptions) — Fernando Pessoa, Tradução, Introdução/Ensaio e Notas de Philadelpho Menezes e Apresentação de Fernando Segolin, edição bilingue, 1993, Editora Experimento, São Paulo — SP; Fernando Antônio Nogueira de Seabra Pessoa (1888 — 1935), português nascido em Lisboa, considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa, foi também escritor, crítico literário e tradutor; seus estudos escolares no Convento de West Street e na High School, em Durban, África do Sul, onde aprendeu fluentemente o idioma inglês; no mundo das letras, contribuiu com revistas e jornais da época: A Águia (1912 e 1913), A Renascença (1914), Orpheu (1915), Exílio (1916), Centauro (1916), a revista literária Athena (1924 e 1925), entre tantos outros veículos de comunicação, alguns criados por ele e outros parceiros do ofício; em sua extensiva produção literária construiu também diversos heterônimos, dos quais os mais famosos e conhecidos são: Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Bernardo Soares; em vida, além do livro Mensagem, única obra publicada em português, publicou, em inglês, Antinous, 35 Sonnets, English Poems I e II, English Poems III; o poeta legou-nos, ainda, uma vida inteira de trabalho inédito e inacabado.



