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domingo, 26 de fevereiro de 2023

Marina Tzvietáieva: A Vladímir Maiakóvski


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[traduzido por Haroldo de Campos]

Acima das cruzes e dos topos,
Arcanjo sólido, passo firme,
Batizado a fumaça e a fogo
Salve, pelos séculos, Vladímir!

Ele é dois: a lei e a exceção,
Ele é dois: cavalo e cavaleiro.
Toma fôlego, cospe nas mãos:
Resiste, triunfo carreteiro.

Escura altivez, soberba tosca,
Tribuno dos prodígios da praça,
Que trocou pela pedra mais fosca
O diamante lavrado e sem jaça.

Saúdo-te, trovão pedregoso!
Boceja, cumprimenta e ligeiro
Toma o timão, rema no teu vôo
Áspero de arcanjo carreteiro.

[18 de setembro de]1921

Marina Tzvietáieva

Маяковскому

Превыше крестов и труб,
Крещенный в огне и дыме,
Архангел-тяжелоступ
Здорово, в веках Владимир!

Он возчик и он же конь,
Он прихоть и он же право.
Вздохнул, поплевал в ладонь:
 Держись, ломовая слава!

Певец площадных чудес
Здорово, гордец чумазый,
Что камнем тяжеловес
Избрал, не прельщась алмазом.

Здорово, булыжный гром!
Зевнул, козырнул и снова
Оглоблей гребет крылом
Архангела ломового.

18 сентября 1921
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Poesia Russa Moderna [vários autores] — Traduções e Notas de Augusto e Haroldo de Campos e de Boris Schnaiderman, com revisão e colaboração mútuas dos tradutores, e Prefácios da 1ª e 2ª edições de Boris Schnaiderman, Coleção Signos Volume 33, 2ª reimpressão da 6ª edição, 2012, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Marina Ivanovna Tsvietáieva (1892 1941), russa e moscovita, foi poetisa, escritora e tradutora; por decisão da mãe, ainda criança estudou piano e, entre 1901 e 1905, educou-se em ginásios clássicos e internatos na Europa (Nervi Itália, Lausanne França e Freiburg Alemanha); aprendeu italiano, francês e alemão; cursou História da Literatura na Sorbonne em Paris; publicou seus primeiros poemas aos 16 anos; opondo-se à Revolução de Outubro, deixou a Rússia em 1922 para juntar-se ao marido que fora oficial do Exército Branco na guerra civil, residiu primeiro em Berlim, depois em Praga e em Paris; no exílio, “deu prova também de profunda oposição ao capitalismo” e, quando os nazistas invadiram a Tcheco-Eslováquia, “escreveu um ciclo de poemas que era uma denúncia veemente do fascismo”; já em 1940, em plena turbulência da segunda guerra, retornou à então União Soviética e acabou por suicidar-se em 1941, após o marido ter sido fuzilado e uma filha ter sido internada em campo de concentração; suas obras: Вечерний альбом (Álbum da Noite, 1910), Волшебный фонарь, вторая книга стихов, Изд. «Оле-Лукойе» (Lanterna Mágica, o segundo livro de poemas, Ed. "Ole-Lukoye", 1912), Юношеские стихи (Poemas juvenis, 1913-1915), Червонный валет (Valete de Copas, drama, 1918), Каменный Ангел (Anjo de Pedra, drama, 1919), Лебединый стан (Acampamento dos cisnes, 1921), Разлука (Separação, 1922), После России (Depois da Rússia, 1928), Сибирь (Sibéria, 1930) e outros textos em verso e prosa; foi contemporânea de Rainer Maria Rilke, Boris Pasternak, Sofia Parnok, Óssip Mandelstam, Anna Akhmatova e outros; com uma Europa em guerra e uma Rússia conflagrada, traduziu Federico García Lorca, Charles Baudelaire e Vasa Pshavela, um meio de subsistência e sobrevivência.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

Marina Tzvietáieva: Mão esquerda contra a direita. . . .


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[traduzido por Haroldo de Campos]

Mão esquerda contra a direita.
Tua alma e minha alma rentes.

Fusão, beatitude que abrasa.
Direita e esquerda duas asas.

Roda o tufão, o abismo fez-se
Da asa esquerda à asa direita.

[10 de julho de] 1918

Marina Tzvietáieva

Как правая и левая рука

Как правая и левая рука,
Твоя душа моей душе близка.

Мы смежены, блаженно и тепло,
Как правое и левое крыло.

Но вихрь встаёт и бездна пролегла
От правого до левого крыла!

10 июля 1918
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Poesia Russa Moderna [vários autores] — Traduções e Notas de Augusto e Haroldo de Campos e de Boris Schnaiderman, com revisão e colaboração mútuas dos tradutores, e Prefácios da 1ª e 2ª edições de Boris Schnaiderman, Coleção Signos Volume 33, 2ª reimpressão da 6ª edição, 2012, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Marina Ivanovna Tsvietáieva (1892 1941), russa e moscovita, foi poetisa, escritora e tradutora; por decisão da mãe, ainda criança estudou piano e, entre 1901 e 1905, educou-se em ginásios clássicos e internatos na Europa (Nervi Itália, Lausanne França e Freiburg Alemanha); aprendeu italiano, francês e alemão; cursou História da Literatura na Sorbonne em Paris; publicou seus primeiros poemas aos 16 anos; opondo-se à Revolução de Outubro, deixou a Rússia em 1922 para juntar-se ao marido que fora oficial do Exército Branco na guerra civil, residiu primeiro em Berlim, depois em Praga e em Paris; no exílio, “deu prova também de profunda oposição ao capitalismo” e, quando os nazistas invadiram a Tcheco-Eslováquia, “escreveu um ciclo de poemas que era uma denúncia veemente do fascismo”; já em 1940, em plena turbulência da segunda guerra, retornou à então União Soviética e acabou por suicidar-se em 1941, após o marido ter sido fuzilado e uma filha ter sido internada em campo de concentração; suas obras: Вечерний альбом (Álbum da Noite, 1910), Волшебный фонарь, вторая книга стихов, Изд. «Оле-Лукойе» (Lanterna Mágica, o segundo livro de poemas, Ed. "Ole-Lukoye", 1912), Юношеские стихи (Poemas juvenis, 1913-1915), Червонный валет (Valete de Copas, drama, 1918), Каменный Ангел (Anjo de Pedra, drama, 1919), Лебединый стан (Acampamento dos cisnes, 1921), Разлука (Separação, 1922), После России (Depois da Rússia, 1928), Сибирь (Sibéria, 1930) e outros textos em verso e prosa; foi contemporânea de Rainer Maria Rilke, Boris Pasternak, Sofia Parnok, Osip Mandelstam, Anna Akhmatova e outros; com uma Europa em guerra e uma Rússia conflagrada, traduziu Federico García Lorca, Charles Baudelaire e Vasa Pshavela, um meio de subsistência e sobrevivência.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

Marina Tzvietáieva: À Vida


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[traduzido por Haroldo de Campos]

Não roubarás minha cor
Vermelha, de rio que estua.
Sou recusa: és caçador.
Persegues: eu sou a fuga.

Não dou minha alma cativa!
Colhido em pleno disparo,
Curva o pescoço e o cavalo
Árabe
E abre a veia da vida.

[25 de dezembro de] 1924

— o —

[traduzido por Augusto de Campos]

Não colherás no meu rosto sem ruga
A cor, violenta correnteza.
És caçadora eu não sou presa.
És a perseguição eu sou a fuga.

Não colherás viva minha alma!
Acossado, em pleno tropel,
Arqueia o pescoço e rasga
A veia com os dentes o corcel

Árabe.

[25 de dezembro de] 1924

Marina Tzvietáieva

Жизни

Не возьмешь моего румянца
Сильного как разливы рек!
Ты охотник, но я не дамся,
Ты погоня, но я семь бег.

Не возьмешь мою душу живу!
Так, на полном скаку погонь
Пригибающийся и жилу
Перекусывающий конь

Аравийский.

25 декабря 1924
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Poesia Russa Moderna [vários autores] — Traduções e Notas de Augusto e Haroldo de Campos e de Boris Schnaiderman, com revisão e colaboração mútuas dos tradutores, e Prefácios da 1ª e 2ª edições de Boris Schnaiderman, Coleção Signos Volume 33, 2ª reimpressão da 6ª edição, 2012, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Marina Ivanovna Tsvietáieva (1892 1941), russa e moscovita, foi poetisa, escritora e tradutora; por decisão da mãe, ainda criança estudou piano e, entre 1901 e 1905, educou-se em ginásios clássicos e internatos na Europa (Nervi Itália, Lausanne França e Freiburg Alemanha); aprendeu italiano, francês e alemão; cursou História da Literatura na Sorbonne em Paris; publicou seus primeiros poemas aos 16 anos; opondo-se à Revolução de Outubro, deixou a Rússia em 1922 para juntar-se ao marido que fora oficial do Exército Branco na guerra civil, residiu primeiro em Berlim, depois em Praga e em Paris; no exílio, “deu prova também de profunda oposição ao capitalismo” e, quando os nazistas invadiram a Tcheco-Eslováquia, “escreveu um ciclo de poemas que era uma denúncia veemente do fascismo”; já em 1940, em plena turbulência da segunda guerra, retornou à então União Soviética e acabou por suicidar-se em 1941, após o marido ter sido fuzilado e uma filha ter sido internada em campo de concentração; suas obras: Вечерний альбом (Álbum da Noite, 1910), Волшебный фонарь, вторая книга стихов, Изд. «Оле-Лукойе» (Lanterna Mágica, o segundo livro de poemas, Ed. "Ole-Lukoye", 1912), Юношеские стихи (Poemas juvenis, 1913-1915), Червонный валет (Valete de Copas, drama, 1918), Каменный Ангел (Anjo de Pedra, drama, 1919), Лебединый стан (Acampamento dos cisnes, 1921), Разлука (Separação, 1922), После России (Depois da Rússia, 1928), Сибирь (Sibéria, 1930) e outros textos em verso e prosa; foi contemporânea de Rainer Maria Rilke, Boris Pasternak, Sofia Parnok, Óssip Mandelstam, Anna Akhmatova e outros; com uma Europa em guerra e uma Rússia conflagrada, traduziu Federico García Lorca, Charles Baudelaire e Vasa Pshavela, um meio de subsistência e sobrevivência.

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

Marina Tzvietáieva: A Carta


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[traduzido por Augusto de Campos]

Assim não se esperam cartas.
Assim se espera a carta.
Pedaço de papel
Com uma borda
De cola. Dentro uma palavra
Apenas. Isto é tudo.

Assim não se espera o bem.
Assim se espera o fim:
Salva de soldados,
No peito três quartos
De chumbo. Céu vermelho.
E só. Isto é tudo.

Felicidade? E a idade?
A flor floriu.
Quadrado no pátio:
Bocas de fuzil.

(Quadrado da carta:
Tinta, tanto!)
Para o sono da morte
Viver é bastante.

Quadrado da carta.

[11 de agosto de] 1923

Marina Tzvietáieva

Письмо

Так писем не ждут,
Так ждут письма.
Тряпичный лоскут,
Вокруг тесьма
Из клея. Внутри словцо.
И счастье. И это всё.

Так счастья не ждут,
Так ждут конца:
Солдатский салют
И в грудь свинца
Три дольки. В глазах красно.
И только. И это всё.

Не счастья стара!
Цвет ветер сдул!
Квадрата двора
И черных дул.

(Квадрата письма:
Чернил и чар!)
Для смертного сна
Никто не стар!

Квадрата письма.

11 августа 1923
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Poesia Russa Moderna [vários autores] — Traduções e Notas de Augusto e Haroldo de Campos e de Boris Schnaiderman, com revisão e colaboração mútuas dos tradutores, e Prefácios da 1ª e 2ª edições de Boris Schnaiderman, Coleção Signos Volume 33, 2ª reimpressão da 6ª edição, 2012, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Marina Ivanovna Tsvietáieva (1892 1941), russa e moscovita, foi poetisa, escritora e tradutora; por decisão da mãe, ainda criança estudou piano e, entre 1901 e 1905, educou-se em ginásios clássicos e internatos na Europa (Nervi Itália, Lausanne França e Freiburg Alemanha); aprendeu italiano, francês e alemão; cursou História da Literatura na Sorbonne em Paris; publicou seus primeiros poemas aos 16 anos; opondo-se à Revolução de Outubro, deixou a Rússia em 1922 para juntar-se ao marido que fora oficial do Exército Branco na guerra civil, residiu primeiro em Berlim, depois em Praga e em Paris; no exílio, “deu prova também de profunda oposição ao capitalismo” e, quando os nazistas invadiram a Tcheco-Eslováquia, “escreveu um ciclo de poemas que era uma denúncia veemente do fascismo”; já em 1940, em plena turbulência da segunda guerra, retornou à então União Soviética e acabou por suicidar-se em 1941, após o marido ter sido fuzilado e uma filha ter sido internada em campo de concentração; suas obras: Вечерний альбом (Álbum da Noite, 1910), Волшебный фонарь, вторая книга стихов, Изд. «Оле-Лукойе» (Lanterna Mágica, o segundo livro de poemas, Ed. "Ole-Lukoye", 1912), Юношеские стихи (Poemas juvenis, 1913-1915), Червонный валет (Valete de Copas, drama, 1918), Каменный Ангел (Anjo de Pedra, drama, 1919), Лебединый стан (Acampamento dos cisnes, 1921), Разлука (Separação, 1922), После России (Depois da Rússia, 1928), Сибирь (Sibéria, 1930) e outros textos em verso e prosa; foi contemporânea de Rainer Maria Rilke, Boris Pasternak, Sofia Parnok, Óssip Mandelstam, Anna Akhmatova e outros; com uma Europa em guerra e uma Rússia conflagrada, traduziu Federico García Lorca, Charles Baudelaire e Vasa Pshavela, um meio de subsistência e sobrevivência.