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terça-feira, 20 de maio de 2025

Percy Bysshe Shelley: Num galho batido da invernia, . . . & A . . .

 
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[traduzidos por Oswaldino Marques]

Num galho batido da invernia, . . . *

Num galho batido da invernia,
Um pássaro viúvo pôs-se a lamentar seu amor;
O vento gelado se arrastava no alto,
Um veio regelante se estirava lá em baixo.

Não havia uma folha na floresta nua,
No chão desolado sequer uma flor;
O ar, por um fio, dir-se-ia parado,
Não fora a soar da roda do moinho.

— o —

A . . .

Quando da música cessam as ternas vozes,
O eco fica vibrando na memória...
O aroma, quando as violetas fenecem,
Continua presente no sentido que aguça.

Com as pétalas da rosa estiolada
Estofa-se um leito para quem se ama;
Assim, quando partires, o amor, personificado,
Sobre teus cismares adormecerá contente.

Percy Bysshe Shelley

A Widow Bird Sate Mourning For Her Love

A widow bird sate mourning for her Love
Upon a wintry bough;
The frozen wind crept on above,
The freezing stream below.

There was no leaf upon the forest bare,
No flower upon the ground,
And little motion in the air
Except the mill-wheel's sound.

— o —

To — [Music, when Soft Voices Die, . . .]

Music, when soft voices die,
Vibrates in the memory —
Odours, when sweet violets sicken,
Live within the sense they quicken.

Rose leaves, when the rose is dead,
Are heap’d for the belovèd's bed;
And so thy thoughts, when Thou art gone,
Love itself shall slumber on.

* Nota de Oswaldino Marques: Esta é uma pequena lírica que encerra o drama de Shelley, Carlos I (Charles The First).
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Poemas Famosos de Língua Inglesa [diversas autorias], edição bilíngue, Compilação, Tradução, Prefácios das 1ª e 2ª edições e Notas de Oswaldino Marques, Coleção Antologia de Poetas Universais — volume 599, 1968, Edições de Ouro, Rio de Janeiro — RJ; Percy Bysshe Shelley (1792 1822), inglês nascido em Field Place, Horsham, foi poeta, ensaísta e dramaturgo do Romantismo da Inglaterra; de família abastada, fez seus estudos na Syon House Academy Brentford e no Eton College, uma escola secular nos arredores do Castelo de Windsor; depois, matriculou-se na University College Oxford, de onde foi expulso por ter publicado anonimamente um panfleto, The Necessity of Atheism, enviado aos bispos e outras personalidades, com um convite para debate e, intimado pelas autoridades escolares, ter-se calado, não respondendo se o folheto era ou não de sua autoria; com um professor de clássicos estudou de Horácio e Virgílio a Homero; traduziu O Banquete, de Platão; conheceu Lord Byron, John Keats, Leigh Hunt e outros escritores e poetas de sua época, convivendo com eles; suas obras: Zastrozzi (romance, 1810), Original Poetry by Victor and Cazire (em coautoria com sua irmã Elizabeth Shelley, 1810), The Cenci, a Tragedy, in Five Acts (Os Cenci, uma Tragédia em 5 Atos, 1819), The Masque of Anarchy (1819), Una Favola (original em italiano, 1819), Ode to the West Wind (Ode ao Vento Oeste, 1819), Prometheus Unbound, A Lyrical Drama, in Four Acts (Prometeu Libertado, 1820), Adonais — elegia sobre a morte de John Keats (1821), Hellas, A Lyrical Drama (1821), e outros títulos; O poeta Shelley morreu no mar, quando o barco em que velejava desapareceu na neblina de uma tempestade, tendo seu corpo sido encontrado; Robert Schumann, Samuel Barber, Berthold Goldschmidt e outros compositores musicaram textos do poeta.

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Percy Bysshe Shelley: À Lua & A Lua Minguante


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[traduzidos por José Lino Grünewald]

A Lua Minguante

E, dama em agonia, enguia e lívida,
Cambaleando, envolta num véu leve,
Fora da câmara, seguindo insanos
E débeis devaneios do cérebro em dano,
A lua ergueu-se no lúgubre Leste,
Uma branca massa amorfa

À Lua

I

É você pálida por apatia
De o céu subir e mirar o universo,
Divagando sem companhia
Entre estrelas que têm nascer diverso, 
Como olho triste, sempre em alternância,
Que nada acha a valer sua constância?

II

Você, irmã eleita do Espírito,
Que te contempla até em ti ter pena...

Percy Bysshe Shelley

The Waning Moon

And like a dying lady, lean and pale,
Who totters forth, wrapped in a gauzy veil,
Out of her chamber, led by the insane
And feeble wanderings of her fading brain,
The moon arose up in the murky East,
A white and shapeless mass

To the Moon

I

Art thou pale for weariness
Of climbing heaven and gazing on the earth,
Wandering companionless
Among the stars that have a different birth,
And ever changing, like a joyless eye
That finds no object worth its constancy?

II

Thou chosen sister of the Spirit,
That gazes on thee till in thee it pities ..
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Grandes Poetas da Língua Inglesa do Século XIX, edição bilíngue, Seleção, Tradução e Organização de José Lino Grünewald, 1988, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Percy Bysshe Shelley (1792 1822), inglês nascido em Field Place, Horsham, foi poeta, ensaísta e dramaturgo do Romantismo da Inglaterra; de família abastada, fez seus estudos na Syon House Academy Brentford e no Eton College, uma escola secular nos arredores do Castelo de Windsor; depois, matriculou-se na University College Oxford, de onde foi expulso por ter publicado anonimamente um panfleto, The Necessity of Atheism, enviado aos bispos e outras personalidades, com um convite para debate e, intimado pelas autoridades escolares, ter-se calado, não respondendo se o folheto era ou não de sua autoria; com um professor de clássicos estudou de Horácio e Virgílio a Homero; traduziu O Banquete, de Platão; conheceu Lord Byron, John Keats, Leigh Hunt e outros escritores e poetas de sua época, convivendo com eles; suas obras: Zastrozzi (romance, 1810), Original Poetry by Victor and Cazire (em coautoria com sua irmã Elizabeth Shelley, 1810), The Cenci, a Tragedy, in Five Acts (Os Cenci, uma Tragédia em 5 Atos, 1819), The Masque of Anarchy (1819), Una Favola (original em italiano, 1819), Ode to the West Wind (Ode ao Vento Oeste, 1819), Prometheus Unbound, A Lyrical Drama, in Four Acts (Prometeu Libertado, 1820), Adonais — elegia sobre a morte de John Keats (1821), Hellas, A Lyrical Drama (1821), e outros títulos; O poeta Shelley morreu no mar, quando o barco em que velejava desapareceu na neblina de uma tempestade, tendo seu corpo sido encontrado; Robert Schumann, Samuel Barber, Berthold Goldschmidt e outros compositores musicaram textos do poeta.

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Percy Bysshe Shelley: Ave viúva pousada

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[traduzido por José Lino Grünewald]

Ave viúva pousada
Chorando por seu amado
Sobre um ramo regelado

Acima o vento gelado
Se arrasta sobre o riacho
A congelar-se lá abaixo

Folha alguma, a floresta, recobria
Sobre o solo nenhuma flor subia

E pouco movimento lá no ar
Só a roda de moinho a soar.

Percy B. Shelley

A widow bird sate mourning for her love
Upon a wintry bough;
The frozen wind crept on above,
The freezing stream below.

There was no leaf upon the forest bare,
No flower upon the ground,
And little motion in the air
Except the mill-wheel's sound.
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Grandes Poetas da Língua Inglesa do Século XIX, edição bilíngue, Seleção, Tradução e Organização de José Lino Grünewald, 1988, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Percy Bysshe Shelley (1792 1822), inglês nascido em Field Place, Horsham, foi poeta, ensaísta e dramaturgo do Romantismo da Inglaterra; de família abastada, fez seus estudos na Syon House Academy Brentford e no Eton College, uma escola secular nos arredores do Castelo de Windsor; depois, matriculou-se na University College Oxford, de onde foi expulso por ter publicado anonimamente um panfleto, The Necessity of Atheism, enviado aos bispos e outras personalidades, com um convite para debate e, intimado pelas autoridades escolares, ter-se calado, não respondendo se o folheto era ou não de sua autoria; com um professor de clássicos estudou de Horácio e Virgílio a Homero; traduziu O Banquete, de Platão; conheceu Lord Byron, John Keats, Leigh Hunt e outros escritores e poetas de sua época, convivendo com eles; obras: Zastrozzi (romance, 1810), Original Poetry by Victor and Cazire (em coautoria com sua irmã Elizabeth Shelley, 1810), The Cenci, a Tragedy, in Five Acts (Os Cenci, uma Tragédia em 5 Atos, 1819), The Masque of Anarchy (1819), Una Favola (original em italiano, 1819), Ode to the West Wind (Ode ao Vento Oeste, 1819), Prometheus Unbound, A Lyrical Drama, in Four Acts (Prometeu Libertado, 1820), Adonais — elegia sobre a morte de John Keats (1821), Hellas, A Lyrical Drama (1821), e outros títulos; O poeta Shelley morreu no mar, quando o barco em que velejava desapareceu na neblina de uma tempestade, tendo seu corpo sido encontrado; Robert Schumann, Samuel Barber, Berthold Goldschmidt e outros compositores musicaram textos do poeta.

terça-feira, 24 de maio de 2022

Percy Bysshe Shelley: A filosofia do amor

 
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[traduzido por José Lino Grünewald]

I

As fontes mesclam-se com o rio
    E os rios com o Mar,
Ventos do Céu em mútuo rodopio
    Em doce emocionar;
Nada no mundo é singular;
    Tudo, da lei divina sob abrigo,
Num espírito se acha no mesclar,
    Por que não eu contigo?

II

Mirem montanhas a beijar o Céu
    E as ondas a se abraçar;
Qualquer flor-irmã estaria ao léu
    Se seu irmão fosse desprezar;
E a luz do sol vem a terra abraçar
    E os raios de luar osculam o mar:
De que vale esse puro laborar
    Se você não me beijar?

Percy B. Shelley

Love’s Philosophy

I

The fountains mingle with the river
    And the rivers with the Ocean,
The winds of Heaven mix for ever
    With a sweet emotion;
Nothing in the world is single;
    All things by a law divine
In one spirit meet and mingle.
    Why not I with thine?

II

See the mountains kiss high Heaven
    And the waves clasp one another;
No sister-flower would be forgiven
    If it disdained its brother;
And the sunlight clasps the earth
    And the moonbeams kiss the sea:
What is all this sweet work worth
    If thou kiss not me?
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Grandes Poetas da Língua Inglesa do Século XIX, edição bilíngue, Seleção, Tradução e Organização de José Lino Grünewald, 1988, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Percy Bysshe Shelley (1792 1822), inglês nascido em Field Place, Horsham, foi poeta, ensaísta e dramaturgo do Romantismo da Inglaterra; de família abastada, fez seus estudos na Syon House Academy Brentford e no Eton College, uma escola secular nos arredores do Castelo de Windsor; depois, matriculou-se na University College Oxford, de onde foi expulso por ter publicado anonimamente um panfleto, The Necessity of Atheism, enviado aos bispos e outras personalidades, com um convite para debate e, intimado pelas autoridades escolares, ter-se calado, não respondendo se o folheto era ou não de sua autoria; com um professor de clássicos estudou de Horácio e Virgílio a Homero; traduziu O Banquete, de Platão; conheceu Lord Byron, John Keats, Leigh Hunt e outros escritores e poetas de sua época, convivendo com eles; obras: Zastrozzi (romance, 1810), Original Poetry by Victor and Cazire (em coautoria com sua irmã Elizabeth Shelley, 1810), The Cenci, a Tragedy, in Five Acts (Os Cenci, uma Tragédia em 5 Atos, 1819), The Masque of Anarchy (1819), Una Favola (original em italiano, 1819), Ode to the West Wind (Ode ao Vento Oeste, 1819), Prometheus Unbound, A Lyrical Drama, in Four Acts (Prometeu Libertado, 1820), Adonais — elegia sobre a morte de John Keats (1821), Hellas, A Lyrical Drama (1821), e outros títulos; O poeta Shelley morreu no mar, quando o barco em que velejava desapareceu na neblina de uma tempestade, tendo seu corpo sido encontrado; Robert Schumann, Samuel Barber, Berthold Goldschmidt e outros compositores musicaram textos do poeta.

sexta-feira, 15 de abril de 2022

Percy Bysshe Shelley: Hino ao espírito da natureza

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[traduzido por Oswaldino Marques]

Vida da Vida! Teus lábios incendeiam
De amor o alento que por eles escapa;
Teus sorrisos, antes de se desvanecerem,
Tornam em fogo o ar frio; vela-os, pois,
Com essas madeixas, que fazem desmaiar
Quem quer que as mire, enredado em torvelinhos.

Rebento da luz! Teus contornos estão ardendo
Por trás do véu que parece escondê-los,
Tal como, da manhã, as estrias radiantes,
Através de tênues nuvens, antes de as apartar;
E esta atmosfera supremamente divina
Envolve-te, a ti, onde quer que refuljas.

A beleza é de outrem: ninguém te contempla;
Tua voz, todavia, soa grave e terna
Como a que mais linda seja, pois ela te rodeia
Subtraindo-te à visão, esse líquido esplendor;
E todos te sentem, sem que jamais te vejam,
Como te sinto agora, perdido para sempre!

Lâmpada da Terra! Aonde quer que te movas
As turvas formas do orbe se vestem de luz,
E as almas daqueles a quem dás teu amor
Singram os ventos, tocadas de leveza,
Até se consumirem, como estou me extinguindo,
Tonto, desgarrado, mas sem prorromper em queixas!

Percy Bysshe Shelley

Hymn to the sprit of nature

Life of Life! thy lips enkindle
       With their love the breath between them;
And thy smiles before they dwindle
       Make the cold air fire; then screen them
In those locks, where whoso gazes
Faints, entangled in their mazes.

Child of Light! thy limbs are burning
       Through the vest which seems to hide them;
As the radiant lines of morning
       Through the clouds ere they divide them;
And this atmosphere divinest
Shrouds thee wheresoe’er thou shinest.

Fair are others; none beholds thee,
       But thy voice sounds low and tender
Like the fairest, for it folds thee
       From the sight, that liquid splendour,
And all feel, yet see thee never,
As I feel now, lost for ever!

Lamp of Earth! where’er thou movest
       Its dim shapes are clad with brightness,
And the souls of whom thou lovest
       Walk upon the winds with lightness
Till they fail, as I am failing,
Dizzy, lost, yet unbewailing!

* Nota de Oswaldino Marques: Este hino, que figura em muitas antologias com o título dado aqui, é uma das falas do drama alegórico de Shelley, Prometeu Desacorrentado (Prometheus Unbound, Ato II, Cena V).
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Poemas Famosos de Língua Inglesa [diversos autores], Compilação, Tradução, Prefácios das 1ª e 2ª edições e Notas de Oswaldino Marques, edição bilíngue, volume 599 da Coleção Antologia de Poetas Universais, 1968, Edições de Ouro, Rio de Janeiro — RJ; Percy Bysshe Shelley (1792 1822), inglês nascido em Field Place, Horsham, foi poeta, ensaísta e dramaturgo do Romantismo da Inglaterra; de família abastada, fez seus estudos na Syon House Academy Brentford e no Eton College, uma escola secular nos arredores do Castelo de Windsor; depois, matriculou-se na University College Oxford, de onde foi expulso por ter publicado anonimamente um panfleto, The Necessity of Atheism, enviado aos bispos e outras personalidades, com um convite para debate e, intimado pelas autoridades escolares, ter-se calado, não respondendo se o folheto era ou não de sua autoria; com um professor de clássicos estudou de Horácio e Virgílio a Homero; traduziu O Banquete, de Platão; conheceu Lord Byron, John Keats, Leigh Hunt e outros escritores e poetas de sua época, convivendo com eles; obras: Zastrozzi (romance, 1810), Original Poetry by Victor and Cazire (em coautoria com sua irmã Elizabeth Shelley, 1810), The Cenci, a Tragedy, in Five Acts (Os Cenci, uma Tragédia em 5 Atos, 1819), The Masque of Anarchy (1819), Una Favola (original em italiano, 1819), Ode to the West Wind (Ode ao Vento Oeste, 1819), Prometheus Unbound, A Lyrical Drama, in Four Acts (Prometeu Libertado, 1820), Adonais — elegia sobre a morte de John Keats (1821), Hellas, A Lyrical Drama (1821) e outros títulos; O poeta Shelley morreu no mar, quando o barco em que velejava desapareceu na neblina de uma tempestade, tendo seu corpo sido encontrado; Robert Schumann, Samuel Barber, Berthold Goldschmidt e outros compositores musicaram textos do poeta.

terça-feira, 5 de abril de 2022

P. B. Shelley: Hino de Apolo

 
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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

I
As Horas vígeis que me guardam, se deitado,
     Veladas com a tapeçaria constelada
Do vasto luar copado;
     Fazendo voar dos olhos meus a sonharada,
Acordam-me quando a Mãe delas, a cinzenta Aurora,
Lhes diz que lua e sonhos foram já embora.

II
O domo azul do céu, galgo-o ao me levantar;
     Caminho sobre os montes, sobre as ondas,
E deixo o manto meu sobre a espuma do mar;
     Minha presença aclara as cavernas redondas,
Calçam com fogo as nuvens os meus passos
E o ar deixa a verde Terra nua para os meus abraços.

III
Meus dardos, os raios de sol, com os quais mortal
     Sou para o engano, que ama a noite e teme o dia;
O homem que faz ou que imagina o mal
     Voa de mim, e de meu raio que gloria;
Ganham as boas mentes e ações francas nova força,
Até que a noite para débil a distorça.

IV
Os arco-íris e as nuvens nutro, e as flores belas
     Com suas etéreas cores; o globo lunar
E, em seus pousos eternos, as estrelas,
     Meu poder, como um manto, os vem cercar;
As lâmpadas que acendem Terra ou Céu
São porção de um poder, que é o meu.

V
No píncaro do céu ao meio-dia eu estadeio,
     Depois, com passos relutantes, lento eu me despenho
Nas nuvens do cair do sol atlântico; em seu seio;
     Elas choram a mágoa de eu partir, franzem o cenho.
Que olhar dá mais prazer do que o sorriso ideal
Com que as acalmo da ilha ocidental?

VI
Sou eu o olho com o qual o Universo
     Contempla-se a si mesmo e sabe-se divino;
Toda harmonia de instrumento ou verso
     E minha, e a medicina, e a fala do destino,
E toda a luz da arte ou natureza: é jus portanto,
A vitória e o louvor pertencem ao meu canto.

P. B. Shelley

Hymn of Apollo

I
The sleepless Hours who watch me as I lie,
     Curtained with star-inwoven tapestries
From the broad moonlight of the sky,
     Fanning the busy dreams from my dim eyes,
Waken me when their Mother, the gray Dawn,
Tells them that dreams and that the moon is gone.

II
Then I arise, and climbing Heaven's blue dome,
     I walk over the mountains and the waves,
Leaving my robe upon the ocean foam;
     My footsteps pave the clouds with fire; the caves
Are filled with my bright presence, and the air
Leaves the green earth to my embraces bare.

III
The sunbeams are my shafts, with which I kill
     Deceit, that loves the night and fears the day;
All men who do or even imagine ill
     Fly me, and from the glory of my ray
Good minds and open actions take new might,
Until diminished by the reign of night.

IV
I feed the clouds, the rainbows, and the flowers
     With their ethereal colours; the Moon's globe,
And the pure stars in their eternal bowers
     Are cinctured with my power as with a robe;
Whatever lamps on Earth or Heaven may shine
Are portions of one power, which is mine.

V
I stand at noon upon the peak of Heaven,
     Then with unwilling steps I wander down
Into the clouds of the Atlantic even;
     For grief that I depart they weep and frown;
What look is more delightful than the smile
With which I soothe them from the western isle?

VI
I am the eye with which the Universe
     Beholds itself and knows it is divine;
All harmony of instrument or verse,
     All prophecy, all medicine, is mine,
All light of art or Nature; to my song
Victory and praise in its own right belong.
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P. B. Shelley: Ode ao Vento Oeste e outros poemas — Organização e Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 2009, 2ª edição, Editora Hedra, São Paulo — SP; Percy Bysshe Shelley (1792 — 1822), inglês nascido em Field Place, Horsham, foi poeta, ensaísta e dramaturgo do Romantismo da Inglaterra; de família abastada, fez seus estudos na Syon House Academy Brentford e no Eton College, uma escola secular nos arredores do Castelo de Windsor; depois, matriculou-se na University College Oxford, de onde foi expulso por ter publicado anonimamente um panfleto, The Necessity of Atheism, enviado aos bispos e outras personalidades, com um convite para debate e, intimado pelas autoridades escolares, ter-se calado, não respondendo se o folheto era ou não de sua autoria; com um professor de clássicos estudou de Horácio e Virgílio a Homero; traduziu O Banquete, de Platão; conheceu Lord Byron, John Keats, Leigh Hunt e outros escritores e poetas de sua época, convivendo com eles; obras: Zastrozzi (romance, 1810), Original Poetry by Victor and Cazire (em coautoria com sua irmã Elizabeth Shelley, 1810), The Cenci, a Tragedy, in Five Acts (Os Cenci, uma Tragédia em 5 Atos, 1819), The Masque of Anarchy (1819), Una Favola (original em italiano, 1819), Ode to the West Wind (Ode ao Vento Oeste, 1819), Prometheus Unbound, A Lyrical Drama, in Four Acts (Prometeu Libertado, 1820), Adonais — elegia sobre a morte de John Keats (1821), Hellas, A Lyrical Drama (1821), e outros títulos; O poeta Shelley morreu no mar, quando o barco em que velejava desapareceu na neblina de uma tempestade, tendo seu corpo sido encontrado; Robert Schumann, Samuel Barber, Berthold Goldschmidt e outros compositores musicaram textos do poeta.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Shelley: Prometeu Libertado [trecho]

 
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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

[ . . . ]

Ato II  Cena I

Das rajadas do céu, de todas, tu desceste,
Como um espírito, ou um pensamento, faz.
Indesejado o pranto afluir os córneos olhos
E palpitar o desolado coração,
Que devera aprender a repousar: desceste
No berço das tormentas: Primavera, acordas!
Filha de muitos ventos! Tão subitamente
Tu chegas, tal como a recordação de um sonho
Que é triste agora porque foi encantador,
Tal como o gênio ou alegria que se eleva
Como da terra e veste de umas nuvens áureas
O deserto da nossa vida.
A quadra é esta, é este o dia, a hora é esta;
Virias ao raiar do sol, doce irmã minha,
Há muito desejada e tão morosa, vem!
Como vermes de morte arrastam-se os momentos!
O ponto de uma estrela branca ainda tirita
Fundo na luz laranja da manhã crescente,
Além dos montes púrpura: através da fenda
Feita na bruma pelo vento, o lago escuro
Reflete-a; esvai-se agora; brilha novamente,
Como desmaia a vaga, e como os fios ardentes
Da entretecida nuvem se desfazem no ar;
Perdeu-se; e em picos de uma neve como nuvem
Tremula a rósea luz do sol; não ouço a música
Eólia de suas plumas, verdes como o mar,
Abanando a aurora carmesim?

[ . . . ]

Percy Bysshe Shelley

Prometheus Unbound

[ . . . ]

Act II  Scene I

From all the blasts of heaven thou hast descended;
Yes, like a spirit, like a thought, which makes
Unwonted tears throng to the horny eyes,
And beatings haunt the desolated heart,
Which should have learnt repose; thou hast descended
Cradled in tempests; thou dost wake, O Spring!
O child of many winds! As suddenly
Thou comest as the memory of a dream,
Which now is sad because it hath been sweet;
Like genius, or like joy which riseth up
As from the earth, clothing with golden clouds
The desert of our life.
This is the season, this the day, the hour;
At sunrise thou shouldst come, sweet sister mine,
Too long desired, too long delaying, come!
How like death-worms the wingless moments crawl!
The point of one white star is quivering still
Deep in the orange light of widening morn
Beyond the purple mountains; through a chasm
Of wind-divided mist the darker lake
Reflects it: now it wanes: it gleams again
As the waves fade, and as the burning threads
Of woven cloud unravel in pale air:
'T is lost! and through yon peaks of cloud-like snow
The roseate sunlight quivers; hear I not
The Æolian music of her sea-green plumes
Winnowing the crimson dawn?

[ . . . ]
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Poesias de Shelley — Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1995, Coleção Toda Poesia nº 14, Art Editora Ltda., São Paulo — SP; Percy Bysshe Shelley (1792 1822), inglês nascido em Field Place, Horsham, foi poeta, ensaísta e dramaturgo do Romantismo da Inglaterra; de família abastada, fez seus estudos na Syon House Academy Brentford e no Eton College, uma escola secular nos arredores do Castelo de Windsor; depois, matriculou-se na University College Oxford, de onde foi expulso por ter publicado anonimamente um panfleto, The Necessity of Atheism, enviado aos bispos e outras personalidades, com um convite para debate e, intimado pelas autoridades escolares, ter-se calado, não respondendo se o folheto era ou não de sua autoria; com um professor de clássicos estudou de Horácio e Virgílio a Homero; traduziu O Banquete, de Platão; conheceu Lord Byron, John Keats, Leigh Hunt e outros escritores e poetas de sua época, convivendo com eles; obras: Zastrozzi (romance, 1810), Original Poetry by Victor and Cazire (em coautoria com sua irmã Elizabeth Shelley, 1810), The Cenci, a Tragedy, in Five Acts (Os Cenci, uma Tragédia em 5 Atos, 1819), The Masque of Anarchy (1819), Una Favola (original em italiano, 1819), Ode to the West Wind (Ode ao Vento Oeste, 1819), Prometheus Unbound, A Lyrical Drama, in Four Acts (Prometeu Libertado, 1820), Adonais — elegia sobre a morte de John Keats (1821), Hellas, A Lyrical Drama (1821) e outros títulos; O poeta Shelley morreu no mar, quando o barco em que velejava desapareceu na neblina de uma tempestade, tendo seu corpo sido encontrado; Robert Schumann, Samuel Barber, Berthold Goldschmidt e outros compositores musicaram textos do poeta.

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

P. B. Shelley: A vitória da vida

 
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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

(Primeira Parte)

Como um espírito a voar para missão
De luz e bem, e alegre com o seu fulgor
O sol pulou, e a máscara da escuridão

Caiu da terra despertada; em seu candor
Os altares sem fumo dos nevosos montes
Flamearam sobre as nuvens rubras; com o albor

Do dia, a prece despertou do mar, à qual
Uniram as canções os pássaros e as fontes.
A flor que descerrou em campo ou matagal

Trêmulas pálpebras ao ósculo do dia,
A balançar o seu turíbulo no ar
Com o incenso do oriente luminoso ardia,

Ardia inextinguivelmente e devagar,
Enviando soluçantes ais ao ar que ria;
E na devida sucessão a ilha, o mar,

O continente, e tudo o que em si próprio ostente
A forma e a natureza do húmus que perece,
Se levantaram como o sol, seu pai ardente,

Para fazer o seu trabalho, que ele outrora
Tomara para si, antes que a eles o desse;
Mas eu os pensamentos silencio agora,

Os quais me mantiveram vígil, como estrelas
A ornar a noite; ora que estão adormecidos,
Meus membros estirei sob as ramagens belas

De um velho castanheiro em flanco de Apenino;
Diante de mim, a noite em voos foragidos;
Atrás, o dia que se ergueu; o mar divino

Achava-se a meus pés, o céu por sobre a fronte.
Estranho transe me tomou o pensamento:
Não era sono; a sombra que espalhou defronte

Tinha tal transparência que mostrou a cena
Tão clara como, quando um véu de alumbramento
Se puxa, à tarde os morros mostram luz serena;

Eu soube que o frescor sentira dessa aurora,
Fronte e cabelos eu banhara neste orvalho
E num declive eu me sentara como agora,

Sob a mesma ramada, ouvindo como aqui
Manterem pássaros, mais fontes, mais o mar,
Conversas musicais no enamorado ar:
Depois uma visão na mente percebi.

P. B. Shelley

The Triumph of Life

(First Part)

Swift as a spirit hastening to his task
Of glory and of good, the Sun sprang forth
Rejoicing in his splendour, and the mask

Of darkness fell from the awakened Earth
The smokeless altars of the mountain snows
Flamed above crimson clouds, and at the birth

Of light, the Ocean's orison arose,
To which the birds tempered their matin lay,
All flowers in field or forest which unclose

Their trembling eyelids to the kiss of day,
Swinging their censers in the element,
With orient incense lit by the new ray

Burned slow and inconsumably, and sent
Their odorous sighs up to the smiling air;
And, in succession due, did continent,

Isle, ocean, and all things that in them wear
The form and character of mortal mould,
Rise as the Sun their father rose, to bear

Their portion of the toil, which he of old
Took as his own, and then imposed on them:
But I, whom thoughts which must remain untold

Had kept as wakeful as the stars that gem
The cone of night, now they were laid asleep
Stretched my faint limbs beneath the hoary stem

Which an old chestnut flung athwart the steep
Of a green Apennine: before me fled
The night; behind me rose the day; the deep

Was at my feet, and Heaven above my head,
When a strange trance over my fancy grew
Which was not slumber, for the shade it spread

Was so transparente, that the scene came through
As clear as when a veil of light is drawn
O'er evening hills they glimmer; and I knew

That I had felt the freshness of that dawn
Bathed in the same cold dew my brow and hair,
And sate as thus upon that slope of lawn

Under the self same bough, and heard as there
The birds, the fountains and the ocean hold
Sweet talk in music through the enamoured air,
And then a vision on my brain was rolled.
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P. B. Shelley: Ode ao Vento Oeste e outros poemas — Organização e Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 2009, 2ª edição, Editora Hedra, São Paulo — SP; Percy Bysshe Shelley (1792 1822), inglês nascido em Field Place, Horsham, foi poeta, ensaísta e dramaturgo do Romantismo da Inglaterra; de família abastada, fez seus estudos na Syon House Academy Brentford e no Eton College, uma escola secular nos arredores do Castelo de Windsor; depois, matriculou-se na University College Oxford, de onde foi expulso por ter publicado anonimamente um panfleto, The Necessity of Atheism, enviado aos bispos e outras personalidades, com um convite para debate e, intimado pelas autoridades escolares, ter-se calado, não respondendo se o folheto era ou não de sua autoria; com um professor de clássicos estudou de Horácio e Virgílio a Homero; traduziu O Banquete, de Platão; conheceu Lord Byron, John Keats, Leigh Hunt e outros escritores e poetas de sua época, convivendo com eles; obras: Zastrozzi (romance, 1810), Original Poetry by Victor and Cazire (em coautoria com sua irmã Elizabeth Shelley, 1810), The Cenci, a Tragedy, in Five Acts (Os Cenci, uma Tragédia em 5 Atos, 1819), The Masque of Anarchy (1819), Una Favola (original em italiano, 1819), Ode to the West Wind (Ode ao Vento Oeste, 1819), Prometheus Unbound, A Lyrical Drama, in Four Acts (Prometeu Libertado, 1820), Adonais — elegia sobre a morte de John Keats (1821), Hellas, A Lyrical Drama (1821), e outros títulos; O poeta Shelley morreu no mar, quando o barco em que velejava desapareceu na neblina de uma tempestade, tendo seu corpo sido encontrado; Robert Schumann, Samuel Barber, Berthold Goldschmidt e outros compositores musicaram textos do poeta.