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sábado, 26 de maio de 2018

Tácito de Almeida: Meditação [Sobre a Morte]

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Melancolia!
                       A noite desenrola lentamente
                       a peça infinita, de veludo negro...
Melancolia!
                       Fugiram os desejos incertos,
                       fugiram as alegrias insensíveis...

                       Mas ainda existe o mistério?
                       ainda existe a vida? existe a morte?
Melancolia!
                       Mais um silêncio, melancolia!
                       Um silêncio último, um silêncio pequeno
                       para ouvirmos aquele “outro” silêncio...

Mais uma sombra, uma grande sombra,
para diluir, suavizar aquelas “outras” sombras...

Mais olhos, melancolia,
               olhos claros, brilhantes, olhos noturnos,
               para avistarmos e conduzirmos,
               silenciosamente,
               ATÉ AO NOSSO DESEJO,
               aquela grande imagem cega
               que nos procura,
               que nos espera...

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Tácito de Almeida — Túnel e Poesias Modernistas — 1922/23, Estabelecimento de texto e estudo por Telê Porto Ancona Lopez, Coleção Toda Poesia 3, 1987, Art Editora, São Paulo — SP; Carlos  Tácito  Alberto de Almeida Araújo (1889 — 1940), paulista de Campinas,  formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo São Francisco), foi jurista, jornalista, escritor e poeta; contribuiu na fundação da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, onde lecionou Ciências Políticas; participou da Semana de Arte Moderna de 1922 e colaborou com a Klaxon, revista modernista, onde assinou seus textos como Carlos Alberto de Araújo, e cuja redação ficava em seu escritório; em 1923, deixou a produção poética e iniciou a produção de textos jurídicos e políticos; em 1926, porém, escreveu um conto, ‘Um homem bondoso’, publicado no primeiro número da revista modernista Terra roxa e outras terras; escreveu Túnel (poesias, 1922).

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Tácito de Almeida: Crianças

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                Rápido comboio escorregando pelos trilhos,
                escorregando suavemente.

Rápido comboio,
                como a pena, como a vida de um poeta,
copiando um poema e copiando um destino
                já decorados pela imaginação fugitiva...

Rápido comboio...
                       Ó o ponto negro das cidades pobrezinhas,
sentadas como crianças,
tristemente,
nos degraus mais baixos das montanhas...

                       Onde ficarão os pontos finais?...

Como crianças... Pálidas crianças,
crianças mendigas, enfraquecidas,
estendendo o braço de uma estrada mais longa,
de uma estrada que sobe, que foge, que some,
muito vermelha, muito esmagada,
como o interior das veias fracas
onde o sangue luta para não se coagular.

                Pobres crianças
                braços frágeis, caminhos magros,
                caminhos que fogem,
                crianças tísicas,
                famintas,
                corroídas pela miséria,
                crianças que morrem pedindo esmolas,
                pedindo esmolas para viver.

Pobres crianças...

                       RÁPIDO COMBOIO. . .

E o mundo feliz, o mundo elétrico,
cheio de brilho, cheio de luzes, cheio de noites alegres,
o mundo feliz cheio de leitos!

Cidades pobrezinhas, pequeninas,
que não poderão nunca mais crescer!...

Caminhos vermelhos e estreitos que lutam, que fogem, que sobem,
caminhos que somem e só vão parar,
desfalecidamente,
cada vez mais surdos, mais desertos,
à porta gelada, gelada dos cemitérios.

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Tácito de Almeida — Túnel e Poesias Modernistas — 1922/23, Estabelecimento de texto e estudo por Telê Porto Ancona Lopez, Coleção Toda Poesia 3, 1987, Art Editora, São Paulo — SP; Carlos  Tácito  Alberto de Almeida Araújo (1889  1940), paulista de Campinas,  formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo São Francisco), foi jurista, jornalista, escritor e poeta; contribuiu na fundação da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, onde lecionou Ciências Políticas; participou da Semana de Arte Moderna de 1922 e colaborou com a Klaxon, revista modernista, onde assinou seus textos como Carlos Alberto de Araújo, e cuja redação ficava em seu escritório; em 1923, deixou a produção poética e iniciou a produção de textos jurídicos e políticos; em 1926, porém, escreveu um conto, ‘Um homem bondoso’, publicado no primeiro número da revista modernista Terra roxa e outras terras; escreveu Túnel (poesias, 1922).

domingo, 27 de agosto de 2017

Tácito de Almeida: Desenho

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Vamos vivendo, vamos vivendo...

Não imaginamos como deve ser,
como queremos que seja a nossa vida...

Vamos vivendo, vamos vivendo...

Deixemos que a nossa vida
seja como essas figuras despreocupadas
que a nossa mão vai desenhando sem querer...

Essas figuras que só depois de terminadas
começamos a achar parecidas com alguém...

Vamos vivendo, vamos vivendo...

(Túnel)

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Tácito de Almeida — Túnel e Poesias Modernistas — 1922/23, Estabelecimento de texto e estudo por Telê Porto Ancona Lopez, 1987, Coleção Toda Poesia 3, Art Editora, São Paulo — SP; Carlos Tácito Alberto de Almeida Araújo (1889 1940), paulista de Campinas, formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo São Francisco), foi jurista, jornalista, escritor e poeta; contribuiu na fundação da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, onde lecionou Ciências Políticas; participou da Semana de Arte Moderna de 1922 e colaborou com a Klaxon, revista modernista, onde assinou seus textos com o pseudônimo de Carlos Alberto de Araújo, e cuja redação ficava em seu escritório; em 1923, deixou a produção poética e iniciou a produção de textos jurídicos e políticos; em 1926, porém, escreveu um conto, ‘Um homem bondoso’, publicado no primeiro número da revista modernista Terra roxa e outras terras; escreveu Túnel (poesias, 1922).

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Tácito de Almeida: Meditação [Noturno da Sorocabana]

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“O céu que alimenta a ciência dos Homens
Porque nada lhes diz...”
Carlos Alberto de Araújo
 (d’A planta flexível)

I

Ó as noites aladas!

Como o comboio longo voa,
todo solto,
mastigando a treva!

Uma brasa leve, livre, ardente,
cada vez mais viva,
toda entregue ao vento...

Ó os sonhos dos velhos pobres!

Ó meu céu, meu bom São Jorge,
como é b elo o teu capacete cheio de plumas,
e como está brilhante a tua armadura escamada!

II

Ó as noites aladas!

Um choque mole,
um silvo afiado
e a serpente luminosa que para,
tonta, perdida na paisagem silenciosa...

Ó os sonhos dos olhos pobres!

Porque baixaste, meu bom São Jorge,
a estrela cadente de tua espada
contra o ar azul, contra o mundo frágil
e contra a minha serpente encantada?

III

Ó as noites aladas!

O silêncio vazio dos campos parados...

O céu largo, de asas fosforescentes,
debatendo-se no espaço inviolável...

Imobilidade,
perfume das planícies noturnas.

Rumor surdo,
rumor rouco
no peito da noite crivada de setas.

Rumor surdo...

A noite é uma grande bobina elétrica,
muito encerrada,
dentro de fortes cilindros de aço polido...

A noite é uma usina,
uma enorme fábrica negra, invisível...

Rumor surdo,
rumor rouco
das grandes máquinas loucas que fervem,
que trabalham desesperadamente,
interminavelmente,
para fabricar silêncio...

Silêncio!
Porque tanto silêncio?...

Porque vigiar tanto a terra,
vigiar tanto os homens que pensam, que sofrem
e espreita, todos os gestos do Mistério?...

Ó céu, meu bom São Jorge,
quando terminará essa velha cruzada?

Porque tanto silêncio? tanto silêncio?...

Porque vigiar tanto a voz fraca dos homens?!...

(Túnel)

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Tácito de Almeida  Túnel e Poesias Modernistas 1922/23, Estabelecimento de texto e estudo por Telê Porto Ancona Lopez, 1987, Coleção Toda Poesia 3, Art Editora, São Paulo  SP; Carlos Tácito Alberto de Almeida Araújo (1889  1940), paulista de Campinas, formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo São Francisco), foi jurista, jornalista, escritor e poeta; contribuiu na fundação da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, onde lecionou Ciências Políticas; participou da Semana de Arte Moderna de 1922 e colaborou com a Klaxon, revista modernista, onde assinou seus textos com o pseudônimo de Carlos Alberto de Araújo, e cuja redação ficava em seu escritório; em 1923, deixou a produção poética e iniciou a produção de textos jurídicos e políticos; em 1926, porém, escreveu um conto, ‘Um homem bondoso’, publicado no primeiro número da revista modernista Terra roxa e outras terras; escreveu Túnel (poesias, 1922).