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quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Jorge de Sena: Envoi

 
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Depois de morto o quê? Queimado, não.
E também não fechado num caixão,
sempre padeci de claustrofobia. Quero
se possível  secar ao sol e à chuva,
sem ser enterrado. Certo que hão-de pôr-me
debaixo da terra nalguma parte,
senão me engavetarem num jazigo.
Não quero regressar à terra maternal,
que não me atrai como memória de útero,
nem me quero arquivado em lata de conserva.
Posso pedir, por exemplo, que me deitem ao mar:
Não deitarão. Será que me enterravam
numa praia, na areia, aonde as águas viessem?
Se têm de me enterrar, que seja assim.
Mas não vestido, nem penteado, nem lavado.
Nu. Que me penteie o mar molhando a areia,
e eu de mim escorra as águas que me lavem.
Nas grandes marés vivas ondas recurvadas
virâo estrondear por sobre mim, rapando
em espuma rechinante a areia que me cobre.
Nada ouvirei, nem sentirei, carcassa,
emerge um pé daqui, além um braço,
e mais acima uma caveira rindo.
Se o mar me não levar, enterrem-me depois
como quiserem, descarnado e limpo.
Terei assim, ao menos por um tempo,
o sol, a areia, o mar por minha conta
como quem vai deitar-se numa praia
e nu, olhando o céu, sonha de si
e de outros corpos nus na areia ardendo
que o som das águas cobre como amor que molha
num refrescar da pele acariciada ao vento.

18/12/[19]71

(Quarenta Anos de Servidão — 1979, póstumo)

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Jorge Cândido de Sena (1919 1979), português e lisboeta, fez seus estudos iniciais no Colégio Vasco da Gama e no Liceu Camões, ingressou na Escola Naval, de onde logo foi excluído, licenciou-se em Engenharia Civil pela Universidade do Porto, foi engenheiro, poeta, escritor, crítico, ensaísta, dramaturgo, tradutor e professor universitário; escreveu desde os dezesseis anos e, em 1940, sob o pseudônimo Teles de Abreu, publicou seus primeiros poemas na revista Cadernos de Poesia; colaborou na revista Mundo Literário, Litoral e Atlântico (revista luso-brasileira) e outras; em 1959, para escapar das perseguições políticas do “Estado Novo” português, a ditadura salazarista, devido estar envolvido no frustrado “golpe da Sé”, o poeta exilou-se no Brasil; aqui, em Araraquara SP, doutorou-se em Letras pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da cidade, naturalizou-se brasileiro e obteve a Livre-Docência; em 1965, mudou-se para os Estados Unidos, foi nomeado professor catedrático da University of Wisconsin, Madison, e transitou pela University of California, Santa Bárbara, onde dirigiu o Departamento de Espanhol e Português e do Programa de Literatura Comparada; traduziu poesias “da Antiguidade Clássica aos Modernismos do século XX, num total de 225 poetas e 985 poemas, e antologias de Kavafis e Emily Dickinson (dois poetas que deu a conhecer em Portugal), a traduções de ficção (Falkner, Hemingway, Graham Greene, entre 18 autores), de teatro (com destaque para Eugene O’Neill) e ensaio ([Léon] Chestov).”; suas obras: em poesia: Perseguição (1942), Coroa da Terra (1946), Pedra filosofal (1950), As evidências (poema em 21 sonetos, 1955), apreendido pela PIDE, polícia salazarista, sob a acusação de “subversivo” e “pornográfico”, Fidelidade (1958), Metamorfoses (1963), Arte de Música (1968), Exorcismos (1972), Conheço o sal ... e outros poemas (1974), 40 anos de servidão (póstumo, 1979), em prosa: Fernando Pessoa — Páginas de Doutrina Estética (estudos, 1947), Andanças do demônio (contos, 1960), Novas andanças do demônio (contos, 1966), Peregrinatio ad loca Infecta (‘”esparsos diários” dos seus exílios’, 1969), A estrutura de ‘Os Lusíadas’ (estudos, 1970), Os Grão-Capitães (contos, 1976), O físico prodigioso (novela, 1977), Dialéticas Teóricas da Literatura (1977), Sinais de Fogo (romance, 1978), em dramaturgia: O Indesejado: António, rei (tragédia em versos, 1951), Amparo de mãe (1951), Ulisseia adúltera (1952), e outros tantos títulos em verso e prosa e para teatro; o multiliterato Jorge de Sena teve sua obra construída com “a vasta experiência, longamente marcada pelo exílio”.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

Jorge de Sena: Quem muito viu . . .

 
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Quem muito viu, sofreu, passou trabalhos,
mágoas, humilhações, tristes surpresas;
e foi traído, e foi roubado, e foi
privado em extremo da justiça justa;

e andou terras e gentes, conheceu
os mundos e submundos; e viveu
dentro de si o amor de ter criado;
quem tudo leu e amou, quem tudo foi

não sabe nada, nem triunfar lhe cabe
em sorte como a todos os que vivem.
Apenas não viver lhe dava tudo.

Inquieto e franco, altivo e carinhoso,
será sempre sem pátria. E a própria morte,
quando o buscar, há-de encontrá-lo morto.

1961

(Peregrinatio ad loca infecta — 1969)

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Jorge Cândido de Sena (1919 1979), português e lisboeta, fez seus estudos iniciais no Colégio Vasco da Gama e no Liceu Camões, ingressou na Escola Naval, de onde logo foi excluído, licenciou-se em Engenharia Civil pela Universidade do Porto, foi engenheiro, poeta, escritor, crítico, ensaísta, dramaturgo, tradutor e professor universitário; escreveu desde os dezesseis anos e, em 1940, sob o pseudônimo Teles de Abreu, publicou seus primeiros poemas na revista Cadernos de Poesia; colaborou na revista Mundo Literário, Litoral e Atlântico (revista luso-brasileira) e outras; em 1959, para escapar das perseguições políticas do “Estado Novo” português, a ditadura salazarista, devido estar envolvido no frustrado “golpe da Sé”, o poeta exilou-se no Brasil; aqui, em Araraquara SP, doutorou-se em Letras pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da cidade, naturalizou-se brasileiro e obteve a Livre-Docência; em 1965, mudou-se para os Estados Unidos, foi nomeado professor catedrático da University of Wisconsin, Madison, e transitou pela University of California, Santa Bárbara, onde dirigiu o Departamento de Espanhol e Português e do Programa de Literatura Comparada; traduziu poesias “da Antiguidade Clássica aos Modernismos do século XX, num total de 225 poetas e 985 poemas, e antologias de Kavafis e Emily Dickinson (dois poetas que deu a conhecer em Portugal), a traduções de ficção (Falkner, Hemingway, Graham Greene, entre 18 autores), de teatro (com destaque para Eugene O’Neill) e ensaio ([Léon] Chestov).”; suas obras: em poesia: Perseguição (1942), Coroa da Terra (1946), Pedra filosofal (1950), As evidências (poema em 21 sonetos, 1955), apreendido pela PIDE, polícia salazarista, sob a acusação de “subversivo” e “pornográfico”, Fidelidade (1958), Metamorfoses (1963), Arte de Música (1968), Exorcismos (1972), Conheço o sal ... e outros poemas (1974), 40 anos de servidão (póstumo, 1979), em prosa: Fernando Pessoa — Páginas de Doutrina Estética (estudos, 1947), Andanças do demônio (contos, 1960), Novas andanças do demônio (contos, 1966), Peregrinatio ad loca Infecta (‘”esparsos diários” dos seus exílios’, 1969), A estrutura de ‘Os Lusíadas’ (estudos, 1970), Os Grão-Capitães (contos, 1976), O físico prodigioso (novela, 1977), Dialéticas Teóricas da Literatura (1977), Sinais de Fogo (romance, 1978), em dramaturgia: O Indesejado: António, rei (tragédia em versos, 1951), Amparo de mãe (1951), Ulisseia adúltera (1952), e outros tantos títulos em verso e prosa e para teatro; o multiliterato Jorge de Sena teve sua obra construída com “a vasta experiência, longamente marcada pelo exílio”.

domingo, 13 de outubro de 2024

Jorge de Sena: Conheço o sal . . .

 
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Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousada em suor noturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minhas mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.

Madrid, 16/3/[19]73

(Conheço o sal . . . e outros poemas — 1974)

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Jorge Cândido de Sena (1919 1979), português e lisboeta, fez seus estudos iniciais no Colégio Vasco da Gama e no Liceu Camões, ingressou na Escola Naval, de onde logo foi excluído, licenciou-se em Engenharia Civil pela Universidade do Porto, foi engenheiro, poeta, escritor, crítico, ensaísta, dramaturgo, tradutor e professor universitário; escreveu desde os dezesseis anos e, em 1940, sob o pseudônimo Teles de Abreu, publicou seus primeiros poemas na revista Cadernos de Poesia; colaborou na revista Mundo Literário, Litoral e Atlântico (revista luso-brasileira) e outras; em 1959, para escapar das perseguições políticas do “Estado Novo” português, a ditadura salazarista, devido estar envolvido no frustrado “golpe da Sé”, o poeta exilou-se no Brasil; aqui, em Araraquara SP, doutorou-se em Letras pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da cidade, naturalizou-se brasileiro e obteve a Livre-Docência; em 1965, mudou-se para os Estados Unidos, foi nomeado professor catedrático da University of Wisconsin, Madison, e transitou pela University of California, Santa Bárbara, onde dirigiu o Departamento de Espanhol e Português e do Programa de Literatura Comparada; traduziu poesias “da Antiguidade Clássica aos Modernismos do século XX, num total de 225 poetas e 985 poemas, e antologias de Kavafis e Emily Dickinson (dois poetas que deu a conhecer em Portugal), a traduções de ficção (Falkner, Hemingway, Graham Greene, entre 18 autores), de teatro (com destaque para Eugene O’Neill) e ensaio ([Léon] Chestov).”; suas obras: em poesia: Perseguição (1942), Coroa da Terra (1946), Pedra filosofal (1950), As evidências (poema em 21 sonetos, 1955), apreendido pela PIDE, polícia salazarista, sob a acusação de “subversivo” e “pornográfico”, Fidelidade (1958), Metamorfoses (1963), Arte de Música (1968), Exorcismos (1972), Conheço o sal ... e outros poemas (1974), 40 anos de servidão (póstumo, 1979), em prosa: Fernando Pessoa — Páginas de Doutrina Estética (estudos, 1947), Andanças do demônio (contos, 1960), Novas andanças do demônio (contos, 1966), Peregrinatio ad loca Infecta (‘”esparsos diários” dos seus exílios’, 1969), A estrutura de ‘Os Lusíadas’ (estudos, 1970), Os Grão-Capitães (contos, 1976), O físico prodigioso (novela, 1977), Dialéticas Teóricas da Literatura (1977), Sinais de Fogo (romance, 1978), em dramaturgia: O Indesejado: António, rei (tragédia em versos, 1951), Amparo de mãe (1951), Ulisseia adúltera (1952), e outros tantos títulos em verso e prosa e para teatro; o multiliterato Jorge de Sena teve sua obra construída com “a vasta experiência, longamente marcada pelo exílio”.