____________________
Depois de morto o quê?
Queimado, não.
E também não fechado num
caixão,
sempre padeci de
claustrofobia. Quero
— se possível — secar ao sol e
à chuva,
sem ser enterrado. Certo que
hão-de pôr-me
debaixo da terra nalguma
parte,
senão me engavetarem num
jazigo.
Não quero regressar à terra
maternal,
que não me atrai como memória
de útero,
nem me quero arquivado em lata
de conserva.
Posso pedir, por exemplo, que me
deitem ao mar:
Não deitarão. Será que me
enterravam
numa praia, na areia, aonde as
águas viessem?
Se têm de me enterrar, que
seja assim.
Mas não vestido, nem penteado,
nem lavado.
Nu. Que me penteie o mar
molhando a areia,
e eu de mim escorra as águas que
me lavem.
Nas grandes marés vivas ondas
recurvadas
virâo estrondear por sobre
mim, rapando
em espuma rechinante a areia
que me cobre.
Nada ouvirei, nem sentirei,
carcassa,
emerge um pé daqui, além um
braço,
e mais acima uma caveira
rindo.
Se o mar me não levar,
enterrem-me depois
como quiserem, descarnado e
limpo.
Terei assim, ao menos por um
tempo,
o sol, a areia, o mar por
minha conta
como quem vai deitar-se numa
praia
e nu, olhando o céu, sonha de
si
e de outros corpos nus na
areia ardendo
que o som das águas cobre como
amor que molha
num refrescar da pele
acariciada ao vento.
18/12/[19]71
(Quarenta Anos de Servidão —
1979, póstumo)
____________________
Poesia portuguesa
contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota
inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno &
Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Jorge Cândido de Sena (1919 — 1979),
português e lisboeta, fez seus estudos iniciais no Colégio Vasco da Gama e no
Liceu Camões, ingressou na Escola Naval, de onde logo foi excluído,
licenciou-se em Engenharia Civil pela Universidade do Porto, foi engenheiro,
poeta, escritor, crítico, ensaísta, dramaturgo, tradutor e professor
universitário; escreveu desde os dezesseis anos e, em 1940, sob o pseudônimo
Teles de Abreu, publicou seus primeiros poemas na revista Cadernos de Poesia;
colaborou na revista Mundo Literário, Litoral e Atlântico (revista
luso-brasileira) e outras; em 1959, para escapar das perseguições políticas do
“Estado Novo” português, a ditadura salazarista, devido estar envolvido no
frustrado “golpe da Sé”, o poeta exilou-se no Brasil; aqui, em Araraquara — SP,
doutorou-se em Letras pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da cidade,
naturalizou-se brasileiro e obteve a Livre-Docência; em 1965, mudou-se para os
Estados Unidos, foi nomeado professor catedrático da University of Wisconsin,
Madison, e transitou pela University of California, Santa Bárbara, onde dirigiu
o Departamento de Espanhol e Português e do Programa de Literatura Comparada;
traduziu poesias “da Antiguidade Clássica aos Modernismos do século XX, num
total de 225 poetas e 985 poemas, e antologias de Kavafis e Emily Dickinson
(dois poetas que deu a conhecer em Portugal), a traduções de ficção (Falkner,
Hemingway, Graham Greene, entre 18 autores), de teatro (com destaque para
Eugene O’Neill) e ensaio ([Léon] Chestov).”; suas obras: em poesia: Perseguição
(1942), Coroa da Terra (1946), Pedra filosofal (1950), As evidências (poema em
21 sonetos, 1955), apreendido pela PIDE, polícia salazarista, sob a acusação de
“subversivo” e “pornográfico”, Fidelidade (1958), Metamorfoses (1963), Arte de
Música (1968), Exorcismos (1972), Conheço o sal ... e outros poemas (1974), 40
anos de servidão (póstumo, 1979), em prosa: Fernando Pessoa — Páginas de
Doutrina Estética (estudos, 1947), Andanças do demônio (contos, 1960), Novas
andanças do demônio (contos, 1966), Peregrinatio ad loca Infecta (‘”esparsos
diários” dos seus exílios’, 1969), A estrutura de ‘Os Lusíadas’ (estudos,
1970), Os Grão-Capitães (contos, 1976), O físico prodigioso (novela, 1977),
Dialéticas Teóricas da Literatura (1977), Sinais de Fogo (romance, 1978), em
dramaturgia: O Indesejado: António, rei (tragédia em versos, 1951), Amparo de
mãe (1951), Ulisseia adúltera (1952), e outros tantos títulos em verso e prosa
e para teatro; o multiliterato Jorge de Sena teve sua obra construída com “a
vasta experiência, longamente marcada pelo exílio”.