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Dona Sônia
Sim, Rose
Eu vim dizer pra senhora que não tem tempero pra temperar a comida da
merenda.
Ah, tá! Eu vou encomendar
Então, é que eu avisei à senhora há duas semanas. Disse que precisava
providenciar, pois já tinha pouco e logo acabaria.
É, eu sei Rose, mas eu me esqueci.
E agora, dona Sônia? Porque acabou tudo, não tem óleo, nem cebola...
Ah Rose, faz sem mesmo.
Mas dona Sônia, outro dia a senhora me mandou fazer o purê de batata com
água, porque não tinha leite. E os alunos não comeram, a comida foi todinha para
o lixo. Era eu colocar no prato, eles experimentarem aquele purê insosso,
aguado e a comida ia direto para o lixo. Me deu tanta dó.
Ah, Rose, pare com esse sentimentalismo, se jogaram fora é porque não
estavam com fome. Essa gente pensa que é quem? Nem tem comida em casa e querem
banquete na escola?
Mas dona Sônia, a situação hoje é pior, acabou até o sal. A senhora já
pensou purê de batata sem leite e sem sal? Batata e água? E sem sal?
É o que tem pra hoje, Rose. Vou tentar não me esquecer de fazer o pedido
desses temperos.
Eu posso pelo menos fazer menos comida, porque eu sei que eles não vão
comer e assim diminui o desperdício, dona Sônia.
Nem pensar, Rose, faça a quantidade certa para todos os alunos da
escola, não tem problema que vá para o lixo. Tem problema, pra mim, se não
sirvo a merenda. Se eles não comem, o problema é deles.
Eu fico com vergonha, dona Sônia, de oferecer essa merenda, assim desse
jeito para os alunos. Eu faço a comida com gosto, bem temperada, pra eles
comerem bem. Muitos alunos só tem essa refeição servida na escola. Eu fico tão
feliz quando eles comem, abrem o sorrisão de satisfação e diz: quero mais, tia!
Tá pensando que é Madre Tereza de Calcutá, Rose? Essa gente não merece
tanta consideração não, povo mal acostumado, a culpa disso é desse governo assistencialista.
Escola é lugar de estudar, não é restaurante não.
Mas eles estudam melhor com a barriga cheia, a senhora não acha?
Acho sim, por isso faça o seu melhor com o que tem, e eles se quiserem
estudar de barriga cheia, vão comer o que é servido, nem vão se importar se o
purê é feito com água. Que eu saiba esse povo nem sabe o que é leite.
Mas o governo não manda dinheiro pra senhora comprar o leite pra fazer o
purê, dona Sônia?
Manda sim, Rose, mas eu tenho muitas coisas pra fazer, pra me preocupar,
a Secretaria de Educação solicita muitas coisas, e essas são prioridades para
mim, afinal eu não posso me indispor com meus superiores. Eu não sou diretora
efetiva, Rose, se os meus superiores se aborrecem comigo, perco o meu posto de
diretora, e aí terei que voltar pra sala de aula. Deus me livre, aí terei que
conviver diariamente com esses alunos mortos de fome.
Não fala assim dona Sônia. Deus tá vendo.
Já falei pra você parar com esse sentimentalismo, Rose. Eu estudei,
Rose, fiz pedagogia, mesmo achando desnecessário. Mas fiz, tenho o título que
me dá o direito de ficar aqui onde estou, no conforto de uma sala, só mandando
os outros fazerem. Não preciso fazer o que se deve fazer, basta colocar no
papel que foi feito.
Bom, a senhora é quem sabe, dona Sônia, como disse, a senhora é
estudada, e bem por isso deveria ser mais humana. Eu vou lá fazer o purê. Purê de
batata com água e sem sal. Nossa mãe! Acho que nem no tempo das senzalas os
negros eram tão maltratados.
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Antologia volume IV — Coletivo Cultural Poesia na Brasa [uma penca de poetas],
Apresentação do Coletivo, Prefácio de Flavia Bischain Rosa, 2012, Vila Brasilândia,
São Paulo — SP; Célia Reis é historiadora e educadora em escolas públicas de
São Paulo; além da foto acima, é o que consta do conto que a autora escreveu para esta Antologia do Coletivo Cultural Poesia na Brasa; em pesquisa
googleana, o blogueiro deste Verso e Conversa foi infeliz na busca e mais nada encontrou a respeito da historiadora e educadora Célia Reis, nem acerca do seu texto-conto Merenda escolar; este Verso e Conversa fica no aguardo de possíveis
contribuições dos visitadores e leitores, e, já de antemão, agradece; a fotografia de Célia Reis é de autoria da fotógrafa Sonia Bischain.
