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Não era isso que eu queria dizer,
queria dizer que na alma
(tu é que falaste na alma),
no fundo da alma e no fundo
da ideia de alma, há talvez
alguma vibrante música física
que só a Matemática ouve,
a mesma música simétrica que dançam
o quarto, o silêncio,
a memória, a minha voz acordada,
a tua mão que deixou tombar o livro
sobre a cama, o teu sonho, a coisa sonhada;
e que o sentido que tudo isto possa ter
é ser assim e não diferentemente,
um vazio no vazio, vagamente ciente
de si, não haver resposta
nem segredo.
(Atropelamento e fuga — 2001)
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Manuel António Pina: O coração pronto para o roubo — poemas
escolhidos, Seleção, Organização e Posfácio de Leonardo Gandolfi e Apresentação
[orelha da capa] de Tarso de Melo, 1ª edição, 2018, Editora 34, São Paulo — SP;
Manuel António Pina (1943 — 2012), português de Sabugal, formou-se em Direito
pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, foi advogado, jornalista,
dramaturgo, poeta, cronista e autor de livros infantis; trabalhou por três
décadas no Jornal de Notícias, no Porto, cidade onde viveu desde a idade de
dezessete anos; também colaborou com o Jornal de Música e com a revista
Notícias Magazine; suas obras: em poesia, Ainda não é o fim nem o princípio do
mundo calmo é apenas um pouco tarde (1974), Aquele que quer morrer (1978), A
lâmpada do quarto? A criança? (1981), O pássaro da cabeça (1983), Nenhum sítio
(1984), O caminho de casa (1989), Um sítio onde pousar a cabeça (1991), Farewell
happy fields (1993), Cuidados intensivos (1994), Nenhuma palavra e nenhuma
lembrança (1999), Atropelamento e fuga (2001), Os livros (2003), Como se
desenha uma casa (2011) etc., em prosa, Os papéis de K (novela, 2003), O
anacronista (crônicas, 1994), Porto, modo de dizer (crônicas, 2002), Dito em
voz alta (coletânea de entrevistas concedidas pelo poeta, 2007), Por outras
palavras & mais crônicas de jornal (2010), Crónica, saudade da literatura
(antologia, publicação póstuma, 2013), para teatro e literatura infantil, O
país das pessoas de pernas para o ar (1973), Gigões & Anantes (1974), O
inventão (1987), entre outros textos em verso e prosa; teve sua obra difundida
em diversos países e idiomas: França (francês e corso), Estados Unidos, Espanha
(espanhol, galego e catalão), Dinamarca, Alemanha, Países Baixos, Rússia,
Croácia e Bulgária; foi premiado diversas vezes, tendo sido laureado, em 2011,
com o Prêmio Camões, a maior honraria para autores em língua portuguesa.


