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Por uma tempestade da
costa de Inglaterra.
Adeus! Eu parto, mas
volto, breve,
A tua casa que deixei lá!
Leva-me o Outono (não
tarda a neve)
Leva-me o Outono (não
tarda a neve)
No meu regresso, que sol
fará!
Adeus! Na ausência meses
são anos,
Dias são meses, que aí são
ais;
Ah tu tens sonhos, eu
tenho enganos,
Eu sou sozinho, tu tens
teus Pais.
Adeus! Nas velas o Vento
toca
“Aves” e “Paters” de
imensa dor.
Enquanto rezas, fia na
roca
Enquanto rezas, fia na
roca
O linho branco do nosso
amor.
Adeus! Paquete, que vais
fugido
Com um Poeta lá dentro a
orar!
Ai que destino tão
parecido,
Andar aos ventos, ó Mar! ó
Mar!
Adeus! Mar, quero que me
respondas,
Aguas tão altas! dizei,
dizei:
Quais mais salgadas? as
vossas ondas
Quais mais salgadas? as
vossas ondas
Ou as que eu choro, que eu
chorarei?
Adeus! (Que é isto? treme
o Paquete!)
Fiel me seja teu Coração;
Não que eu fechei-o num aloque-te
*
E a chave é de oiro,
trago-a na mão!
Adeus! O Vento soluça e
geme,
O Mar, é negro, mas “lá” é
azul...
Francês tão moço, que vais
ao leme,
Francês tão moço, que vais
ao leme,
Ah se pudesses voltar ao
Sul!
Adeus (Piloto, que nuvens
essas
Façamos juntos o “pio
sinal!”),
Menina e Moça, nunca me
esqueças,
Que eu tenho os olhos em
Portugal!
Adeus! Um brigue de pano
roto
Vede que passa, faz-nos
sinais:
Tenha piedade, Sr. Piloto,
Tenha piedade, Sr. Piloto,
Seja pelas almas dos
nossos Pais...
Adeus! “St. Jacques”, vai
depressinha...
Meu Anjo, a esta hora, tu
que farás?
O Mar faz medo (Salve,
Rainha...)
E tu, meu Anjo, tão longe
estás!
Adeus! Tão longe, tão
longe a terra!
Longe de tudo, longe de
ti!
A trinta milhas, fica a
Inglaterra,
A trinta milhas, fica a
Inglaterra,
A uma (ou menos) a Morte,
ali...
Adeus! Na hora de me
deixares,
Já pressentias o meu
porvir:
“Meu Deus!” disseste,
mostrando os ares...
Mas era urgente partir!
partir!
Adeus! Já faltam os
mantimentos,
Falta-nos água, falta-nos
luz!
Morrer, à lua, sem
sacramentos,
Morrer, à lua, sem
sacramentos,
Morrer tão novo, Jesus!
Jesus!
Adeus! E os dias nascem e
morrem;
Tanta água e falta para
beber!
E já puseram (rumores
correm)
Sola de molho para comer.
**
Adeus! — Bons dias, meu
Comandante,
A nossa sorte... morrer,
talvez...
E o rude velho segue pra
diante:
E o rude velho segue pra
diante:
— Morrer, meu Amo, só uma
vez!
Adeus! — Gajeiro! — boa
criança!
Que vais em cima no
mastaréu,
Vê lá se avistas terras de
França...
— Ah nada avisto, só água
e céu!
Adeus! Ó Lua, Lua dos
Meses,
Lua dos Mares, ora por
nós!...
O Mar antigo dos
Portugueses,
O Mar antigo dos
Portugueses,
O Mar antigo dos meus
Avós!
Adeus! Ai triste de quem
embarca
Sem ver a sorte que o
espera ao fim!
Façamos vela prá
Dinamarca,
Que Hamlet espera no Cais por mim.
Adeus! À Vida sinto-me
preso,
(Morrer não custa) pelas
paixões...
Vamos ao fundo, meu Anjo,
ao peso
Vamos ao fundo, meu Anjo,
ao peso
Das minhas trinta
desilusões!
Adeus! Que estranha Visão
é aquela
Que vem andando por sobre
o mar?
Todos exclamam de mãos
para ela:
“Nossa Senhora! que vens a
andar!”
Adeus! A Virgem com um
afago,
Pôs manso o Oceano, que
assim o quis:
O Mar agora parece um
lago,
O Mar agora parece um lago...
O rio Lima do meu País!
Adeus! Menina, que estás
rezando,
Desceu a Virgem e já te
ouviu:
Agora, quero ver-te
cantando,
A Santa Virgem já me
acudiu.
Adeus! Os Ventos são
meigas brisas
E brilha a Lua como um
farol!
Ponde nas vergas vossas
camisas,
Ponde nas vergas vossas
camisas,
Ó Marinheiros, que a Lua é
o Sol!
Adeus! “St. Jacques”
lá entra a barra,
Nossa Senhora vai indo a
pé:
Com o seu cabelo fez uma
amarra,
Lá vai puxando, que boa
ela é!
Adeus! Eu parto, mas
volto, breve,
A tua casa que deixei lá!
Leva-me o Outono (não tarda a neve)
Leva-me o Outono (não tarda a neve)
No meu regresso, que sol fará!
A tua casa que deixei lá!
Leva-me o Outono (não tarda a neve)
Leva-me o Outono (não tarda a neve)
No meu regresso, que sol fará!
(Paris, 1893)
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Notas de Luís da Câmara Cascudo:
* Aloquete: Cadeado, ferrolho;
** Sola de molho: Reminiscência do romance Nau Catarineta.
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António Nobre — Poesia, Coleção Nossos Clássicos nº 41, por
Luís da Câmara Cascudo, 1967, 2ª edição, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro
— RJ; António Pereira Nobre (1867 — 1900), português
do Porto, licenciado em Ciências Políticas pela École Libre des Sciences
Politiques, de Paris, foi poeta decadentista e simbolista; colaborou com suas
poesias nas revistas A Mocidade de Hoje e Boémia Nova, além de nos
periódicos Branco e Negro, A Imprensa, A Leitura e Revista
de turismo; escreveu e publicou Só (1892), sua única obra
poética editada em vida e que consta constituir-se num dos marcos da poesia
portuguesa do século XIX.

