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sábado, 30 de janeiro de 2021

Júlio Dantas: Demóstenes

 
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Em casa de Laís, Demóstenes entrara:
como Atenas inteira, o supremo orador
vinha comprar também, nuns minutos de amor,
o corpo escultural dessa beleza rara.

Quase a possuíra já, de tanto que a sonhara:
e ao ver, gloriosa e nua, em todo o seu esplendor,
cingido o strophion* de ouro aos dois seios em flor,
essa linda mulher que se vendeu tão cara,

tímido perguntou:  "Um só beijo fugaz,
por quanto o vendes, grega?" E ela, num gesto lento:
 "Conta mil dracmas, velho, e tu me possuirás!”

 "Quê? Pagar por tanto ouro o beijo de um momento?
Dar mil dracmas por ti? Não, mulher; fica em paz:
eu não compro tão caro um arrependimento".


* Nota do organizador Sergio Faraco: Em latim, strophion, faixa usada pelas mulheres para segurar os seios.
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Livro das Cortesãs, 1500 — 1900 (Poetas Portugueses e Brasileiros), Seleção, Organização e Notas de Sergio Faraco, Volume 59 da Coleção L&PM Pocket, 2004 (reimpressão), L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Júlio Dantas (1876 1962), português de Lagos Algarve, formado em Medicina pela Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, foi médico, político, diplomata, jornalista, dramaturgo, escritor polígrafo, tradutor e poeta; colaborou em inúmeros periódicos portugueses e estrangeiros, dentre os quais Diário Ilustrado, Novidades, Correio da Manhã e Renascença, nas revistas Branco e Negro, Serões, Azulejos Atlântida, todos de Portugal, no Correio da Manhã, do Rio de Janeiro e no La Nación, de Buenos Aires; bibliografia: em poesia, Nada (1896), Sonetos (1916), em prosa, Outros Tempos (1909), Figuras de Ontem e de Hoje (1914), O Amor em Portugal no Século XVIII (1915), Mulheres (1916), Arte de Amar (1922), O Heroísmo, a Elegância, o Amor (conferência, 1923) etc., em dramaturgia, O Que Morreu de Amor (1899), A Severa (1901), A Ceia dos Cardeais (1902), Crucificados (1902), Rosas de Todo Ano (1907), O Reposteiro Verde (1921) e outros; traduziu Shakespeare (Rei Lear), Edmond Rostand (Cyrano de Bergerac), Paul Saunière (O Azougue), Jean Richepin (O Caminheiro).

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Vitor Knijnik: Blog do Demóstenes

Reproduzo de Carta Capital (nº 693, de 18.04.2012) texto de Vitor Knijnik:
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Sobre Mim
Político grego. Considerado por muitos historiadores um dos maiores oradores de todos os tempos. Não parece muito, eu sei, mas em 350 a.C. orador comia gente.
Sobre o Blog
Tentativa patética e econômica de salvar a minha reputação histórica. Quero provar a todos que não tenho negócio algum com Giánnis Katarrákti e que não sou um falso moralista.
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DESAMBIGUAÇÃO
          O futebol, o Pepeu Gomes e a Baby do Brasil são pródigos em nos apresentar nomes que desafiam os ouvidos. Deivid, Richarlyson, Arianderson, Dielton, Shayder Zabelê, Nana Shara. É realmente tentador fazer graça com nomes inventados, especialmente quando a grafia tenta emular a sonoridade de um outro idioma. Não acho isso divertido. Cada um que invente a nomenclatura que quiser. Considero muito pior a mania de homenagear as grandes personalidades do passado.
          Por um simples motivo: não há como prever se o rebento honrará o nome que recebeu. Nem todos possuem a sorte de Sócrates, por exemplo. O ícone da filosofia ocidental teve um homônimo brilhando nos gramados e nas letras. Quantas pessoas devem ter se interessado pelo pensamento socrático por causa do jogador. O.k., reconheço que há ocasiões em que a homenagem não causa nenhum arranhão ao homenageado. O jogador Allan Kardec não desonra seu antecessor, mas tampouco aumenta seu nome.
          Mas não vim aqui dissertar a respeito de nomes. Vim, sim, comentar a minha falta de sorte. Nunca figurei entre os mais conhecidos pensadores, filósofos e políticos gregos. Não entrei para esse Olimpo. O grande público ignora minha existência. Eu existo para um pequeno grupo de estudantes e acadêmicos. Portanto, o primeiro e único Demóstenes que a população brasileira conhece é o amigo do Carlos Cachoeira. Vejam que tragédia para a glória de grande orador. É como se as pessoas identificassem o Beethoven como aquele cão são-bernardo e ignorassem o compositor clássico. Na real, é até pior. O cachorro atuava bem.
          Para piorar a situação, há algumas coincidências entre a minha biografia e a de Torres. Tive problemas com a Justiça. Fui condenado por facilitar a fuga de um ministro de Alexandre, o Grande. Trabalhei durante algum tempo como logógrafo, que nada mais é do que redigir discursos para particulares que iam defender suas próprias causas nos tribunais. Algo que o ex-senador do DEM praticou também, só que na via inversa. O Carlos Cachoeira escrevia e o Torres legislava.
          Desculpem o desabafo e a preocupação excessiva com a imagem. É que me encontro em situação complicada. Não sei o que fazer para impedir o eclipse de meu legado. Qualquer esforço para manter a minha ficha limpa pode aumentar ainda mais a confusão. 

Postado por Demóstenes às 8h45                               0 comentários