Em casa de Laís, Demóstenes entrara:
como Atenas inteira, o supremo orador
vinha comprar também, nuns minutos de amor,
o corpo escultural dessa beleza rara.
Quase a possuíra já, de tanto que a sonhara:
e ao ver, gloriosa e nua, em todo o seu esplendor,
cingido o strophion* de ouro aos dois seios em flor,
essa linda mulher que se vendeu tão cara,
tímido perguntou: — "Um só beijo fugaz,
por quanto o vendes, grega?" E ela, num gesto lento:
— "Conta mil dracmas, velho, e tu me possuirás!”
— "Quê? Pagar por tanto ouro o beijo de um momento?
Dar mil dracmas por ti? Não, mulher; fica em paz:
eu não compro tão caro um arrependimento".
* Nota do organizador Sergio Faraco: Em latim, strophion, faixa usada pelas mulheres para segurar os
seios.
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Livro das Cortesãs,
1500 — 1900 (Poetas Portugueses e Brasileiros), Seleção, Organização e Notas de
Sergio Faraco, Volume 59 da Coleção L&PM Pocket, 2004 (reimpressão), L&PM
Editores, Porto Alegre — RS; Júlio Dantas
(1876 — 1962), português de Lagos — Algarve, formado em Medicina pela Escola Médico-Cirúrgica
de Lisboa, foi médico, político, diplomata, jornalista, dramaturgo, escritor polígrafo,
tradutor e poeta; colaborou em inúmeros periódicos portugueses e estrangeiros, dentre
os quais Diário Ilustrado, Novidades, Correio da Manhã e Renascença, nas revistas
Branco e Negro, Serões, Azulejos Atlântida, todos de Portugal, no Correio da Manhã,
do Rio de Janeiro e no La Nación, de Buenos Aires; bibliografia: em poesia, Nada
(1896), Sonetos (1916), em prosa, Outros Tempos (1909), Figuras de Ontem e de Hoje
(1914), O Amor em Portugal no Século XVIII (1915), Mulheres (1916), Arte de Amar
(1922), O Heroísmo, a Elegância, o Amor (conferência, 1923) etc., em dramaturgia,
O Que Morreu de Amor (1899), A Severa (1901), A Ceia dos Cardeais (1902), Crucificados
(1902), Rosas de Todo Ano (1907), O Reposteiro Verde (1921) e outros; traduziu Shakespeare
(Rei Lear), Edmond Rostand (Cyrano de Bergerac), Paul Saunière (O Azougue), Jean
Richepin (O Caminheiro).


