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segunda-feira, 29 de junho de 2020

Alexis-Félix Arvers: Nesta vida há mistério e na alma, o irrevelado, . . . [soneto]

Resultado de imagem para pequena antologia de poemas franceses de François Villon a Fernando Pessoa por Renata Cordeiro
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[traduzido por Renata Cordeiro]

Nesta vida há mistério e na alma, o irrevelado,
Um sempiterno amor num instante nascido;
É o mal sem esperança, e deve ser calado
e àquela que o causou, o mal é dessabido.

Ai! Perto dela vou passar despercebido,
Com ela, o eterno só, jamais acompanhado;
e até ao fim do meu caminho aqui trilhado
nada ousarei pedir, sem nada ter obtido.

Embora por Deus boa e terna, vai seguir
Seu rumo, distraída, e sem jamais ouvir
Meu murmúrio de amor que aos seus pés se erguerá;

dirá, pia fiel ao austero dever,
lendo estes versos só repletos do seu ser,
“Que mulher será esta?”, e nada entenderá.

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Sonnet

Mon âme a son secret, ma vie a son mystère;
Un amour éternel en un moment conçu;
Le mal est sans espoir, aussi j’ai dû le taire,
Et celle qui l’a fait n’en a jamais rien su.

Hélas! J’aurai passé près d’elle inaperçu
Toujours à ses côtés et toujours solitaire;
et j’aurai jusqu’au bout fait mon temps sur la terre,
n’osant rien demander, et n’ayant rien reçu.

Pour elle, quoique Dieu l’ait faite bonne et tendre,
Elle ira son chemin, distraite, et sans entendre
Ce murmure d’amour elevé sur ses pas;

à l’austère devoir pieusement fidèle,
Elle dira, lisant ces vers tout remplis d’elle,
“Quelle est donc cette femme?” et ne comprendra pas.
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Pequena Antologia de Poemas Franceses: De François Villon a Fernando Pessoa — Concepção, Seleção, Tradução e Notas de Renata Maria Parreira  Cordeiro, 2002, Landy Livraria Editora e Distribuidora Ltda., São Paulo — SP; Aléxis-Félix Arvers (1806 1850), francês e parisiense, estudou Direito, foi funcionário de cartório e perseguiu o desejo de ser poeta e escritor; fez sucesso com uma peça teatral, uma comédia que caiu no esquecimento, e levou uma vida de dandy por Paris; um seu poema, conhecido como ‘Soneto de Arvers’ e aqui transcrito, despertou grande polêmica nos meios literários à época, com todos curiosos em descobrir quem teria sido sua musa inspiradora, ‘Quelle est donc cette femme?’, ‘Quem será essa mulher?’; o ‘Soneto de Arvers’ foi amplamente traduzido para os mais diversos idiomas, inclusive para o esperanto; em língua portuguesa contam-se em dezenas os tradutores, entre os quais Guilherme de Almeida, Olegário Mariano, José Oiticica, Gondim da Fonseca, J. G. de Araújo Jorge, José Lino Grünewald, Lúcio de Mendonça, Benedicto Lopes, Bastos Tigre, além de ter inspirado outras criações em resposta ou citando o soneto famoso; Félix Arvers escreveu e publicou Minhas horas perdidas (Mês heures perdues, poesias, 1833), com o referido soneto incluso.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Félix Arvers: Tenho um mistério na alma e um segredo na vida: . . . [soneto]

Resultado de imagem para Mello Nóbrega O Sonêto de Arvers
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[traduzido por Olegário Mariano]

Tenho um mistério na alma e um segredo na vida:
Eterno amor que, num momento, apareceu.
Mal sem remédio, é dor que conservo escondida
E aquela que o inspirou nem sabe quem sou eu.

A seu lado serei sempre a sombra esquecida
De um pobre homem de quem ninguém se apercebeu.
E hei de esse amor levar ao fim da humana lida,
Certo de que dei tudo e ele nada me deu.

E ela que Deus formou terna, pura e distante,
Passa sem perceber o murmúrio constante
Do amor que, a acompanhar-lhe os passos, seguirá.

Fiel ao dever que a fez tão fria quanto bela,
Perguntará, lendo estes versos cheios dela:
“Que mulher será esta?” E não compreenderá.

(Texto colhido em Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, de 23.12.1951.
Publicado, antes, em Letras e Artes, suplemento de A Manhã, em 10.6.51.)

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Félix Arvers

Sonnet

Mon âme a son secret, ma vie a son mystère;
Un amour éternel en un moment conçu:
Le mal est sans espoir, aussi j’ai dû le taire,
Et celle qui l’a fait n’en a jamais rien su.

Hélas! j’aurai passé près d’elle inaperçu,
Toujours à ses côtés, et pourtant solitaire,
Et j’aurai jusqu’au bout fait mon temps sur la terre,
N’osant rien demander, et n’ayant rien reçu.

Pour elle, quoique Dieu l’ait faite douce et tendre.
Elle ira son chemin, distraite, et sans entendre
Ce murmure d’amour elevé sur ses pas;

À l’austère devoir pieusement fidèle,
Elle dira, lisant ces vers tout remplis d’elle:
“Quelle est donc cette femme?” et ne comprendra pas.
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O Soneto de Arvers — Mello Nóbrega — 1957, 2ª edição, Livraria São José, Rio de Janeiro — RJ; Aléxis-Félix Arvers (1806  1850), francês e parisiense, estudou Direito, foi funcionário de cartório e perseguiu o desejo de ser poeta e escritor; fez sucesso com uma peça teatral, uma comédia que caiu no esquecimento, e levou uma vida de dandy por Paris; um seu poema, conhecido como ‘Soneto de Arvers’ e aqui transcrito, despertou grande polêmica nos meios literários à época, com todos curiosos em descobrir quem teria sido sua musa inspiradora, ‘Quelle est donc cette femme?’, ‘Quem será essa mulher?’; o ‘Soneto de Arvers’ foi amplamente traduzido para os mais diversos idiomas, inclusive para o esperanto; em língua portuguesa contam-se em dezenas os tradutores, entre os quais Guilherme de Almeida, Olegário Mariano, José Oiticica, Gondim da Fonseca, J. G. de Araújo Jorge, José Lino Grünewald, Lúcio de Mendonça, Benedicto Lopes, Bastos Tigre, além de ter inspirado outras criações em resposta ou citando o soneto famoso; Félix Arvers escreveu e publicou Minhas horas perdidas (Mes heures perdues, poesias, 1833), com o referido soneto incluso.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Félix Arvers: Tenho na alma um segredo e um mistério na vida: . . . [soneto]

Resultado de imagem para Mello Nóbrega O Sonêto de Arvers
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[traduzido por Guilherme de Almeida]

Tenho na alma um segredo e um mistério na vida:
Um amor que nasceu, eterno, num momento.
É sem remédio a dor; trago-a pois escondida,
E aquela que a causou nem sabe o meu tormento.

Por ela hei de passar, sombra inapercebida,
Sempre a seu lado, mas num triste isolamento,
E chegarei ao fim da existência esquecida
Sem nada ousar pedir e sem um só lamento.

E ela, que entanto Deus fez terna e complacente,
Há de, por seu caminho, ir surda e indiferente
Ao murmúrio de amor que sempre a seguirá.

A um austero dever piedosamente presa,
Ela dirá, lendo estes versos, com certeza:
"Que mulher será esta?" e não compreenderá.

(Poetas de França, 2ª edição, São Paulo, 1944.)

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Félix Arvers

Sonnet

Mon âme a son secret, ma vie a son mystère;
Un amour éternel en un moment conçu:
Le mal est sans espoir, aussi j’ai dû le taire,
Et celle qui l’a fait n’en a jamais rien su.

Hélas! j’aurai passé près d’elle inaperçu,
Toujours à ses côtés, et pourtant solitaire,
Et j’aurai jusqu’au bout fait mon temps sur la terre,
N’osant rien demander, et n’ayant rien reçu.

Pour elle, quoique Dieu l’ait faite douce et tendre.
Elle ira son chemin, distraite, et sans entendre
Ce murmure d’amour elevé sur ses pas;

À l’austère devoir pieusement fidèle,
Elle dira, lisant ces vers tout remplis d’elle:
“Quelle est donc cette femme?” et ne comprendra pas.
____________________
O Soneto de Arvers — Mello Nóbrega — 1957, 2ª edição, Livraria São José, Rio de Janeiro — RJ; Aléxis-Félix Arvers (1806 1850), francês e parisiense, estudou Direito, foi funcionário de cartório e perseguiu o desejo de ser poeta e escritor; fez sucesso com uma peça teatral, uma comédia que caiu no esquecimento, e levou uma vida de dandy por Paris; um seu poema, conhecido como ‘Soneto de Arvers’ e aqui transcrito, despertou grande polêmica nos meios literários à época, com todos curiosos em descobrir quem teria sido sua musa inspiradora, ‘Quelle est donc cette femme?’, ‘Quem será essa mulher?’; o ‘Soneto de Arvers’ foi amplamente traduzido para os mais diversos idiomas, inclusive para o esperanto; em língua portuguesa contam-se em dezenas os tradutores, entre os quais Guilherme de Almeida, Olegário Mariano, José Oiticica, Gondim da Fonseca, J. G. de Araújo Jorge, José Lino Grünewald, Lúcio de Mendonça, Benedicto Lopes, Bastos Tigre, além de ter inspirado outras criações em resposta ou citando o soneto famoso; Félix Arvers escreveu e publicou Minhas horas perdidas (Mes heures perdues, poesias, 1833), com o referido soneto incluso.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Vera Costa Vianna: Diverte-me pensar, meu caro, em teu mistério . . . [soneto]

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Diverte-me pensar, meu caro, em teu mistério,
No teu imenso amor, nascido num momento.
A tua ingenuidade é quase um sopro etéreo,
Pois, muito antes de ti, percebi teu tormento.

Podias, me adorando, esconder com critério,
A meu lado, este amor, sem trair teu lamento?
Dependia de ti encontrar refrigério
Se exigisses de mim todo meu pensamento!

Não se engana a mulher, que é toda coração.
Compreendo que é inútil encobrir teu sofrer
Na promessa de amor que se deve esquecer!

Serei sempre fiel ao dever, na união.
E como vê amigo, eu te entendo realmente.
Quem nada sabe és tu, que minh’alma não sente.
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O Soneto de Arvers Mello Nóbrega, 1957, 2ª edição, Livraria São José, Rio de Janeiro — RJ; sobre Vera Costa Vianna ou Vera da Costa Vianna, este Verso e Conversa conseguiu apenas um registro em precária pesquisa feita na internet: a poeta escreveu e publicou Na Presença da Vida (Editora do Autor, poesias, 1970); assim, fica a dica: quem souber e quiser complementar com mais informações e/ou quiser colaborar é só entrar em contato com o blogue que a divulgação será feita.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Martins Fontes: Primavera

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Moças do coração de minha Terra,
Se a dizer vossos nomes não me atrevo,
Por vós, sabeis, minha saudade encerra
O mais contínuo e fascinante enlevo.

Qualquer de vós, seja onde for, não erra
Se se vir retratada no que escrevo,
Porque a poesia é um véu que se descerra,
Para a imagem mostrar-vos em relevo.

Em meus versos se espelha o vosso rosto:
Dá-se convosco exatamente o oposto
Do Soneto lindíssimo de Arvers.

Lendo-me, pensareis:  Sou eu! Pressinto,
Há muito, o seu amor! Sei, por instinto,
Que é impossível ser outra esta mulher!

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O Soneto de Arvers — Mello Nóbrega — 1957, 2ª edição, Livraria São José, Rio de Janeiro — RJ; José Martins Fontes (1884  1937), paulista de Santos, foi médico sanitarista, poeta, conferencista e jornalista; escreveu para os jornais A GazetaDiário Popular, de São Paulo, Diário de Santos, Cidade de Santos e também para outros periódicos e revistas; deixou-nos extensa produção literária em verso e prosa e também outras de caráter científico; algumas de suas obras: Granada (poema, 1899), O Lezado (1908), Chicouuu (versos, 1917), A Gripe em Iguape (1920), Arlequinada (fantasia, 1922), Boêmia galante (versos, 1923), Rosicler (versos (1923), Prometeu (versos, 1924), Partida para Cítera (teatro, 1925), Volúpia (versos, 1925), Decameron (contos, 1925), O céu verde (versos, 1926), O Colar Partido (prosa, 1927), A flauta encantada (poesias, 1931) e tantos outros títulos.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Cruz e Sousa: Eterno Sonho *

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Quelle est donc cette femme?
Je ne comprendrai pas.
 FÉLIX ARVERS

TALVEZ ALGUÉM estes meus versos lendo 
Não entenda que amor neles palpita, 
nem que saudade trágica, infinita 
por dentro dele sempre está vivendo.

Talvez que ela não fique percebendo 
a paixão que me enleva e que me agita, 
como de uma alma dolorosa, aflita 
que um sentimento vai desfalecendo. 

E talvez que ela ao ler-me, com piedade, 
diga, a sorrir, num pouco de amizade, 
boa, gentil e carinhosa e franca:

Ah! bem conheço o teu afeto triste... 
E se em minha alma o mesmo não existe,
é que tens essa cor e é que eu sou branca!

Cruz e Sousa


* Nota de Andrade Muricy: Inédito.
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Cruz e Sousa, Obra Completa  Edição Comemorativa do Centenário, Introdução Geral de Andrade Muricy, 1961, Editora José Aguilar Ltda., Rio de Janeiro  RJ; João da Cruz e Sousa (1861 1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, estudou e foi educado nas melhores escolas da região; com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e foi obrigado a trabalhar; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público, por ser negro; já no Rio de Janeiro, em 1890, manteve contato com a poesia simbolista francesa, colaborou em alguns jornais e publicou Missal (poemas em prosa, 1893) e Broquéis (poemas, 1893); em 1885, já publicara Tropos e Fantasias (poemas em prosa), em conjunto com Virgílio Várzea; no Rio, mesmo bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego miserável, como arquivista, na Estrada de Ferro Central (do Brasil); foram editados postumamente Evocações (1898), Faróis (1900) e Últimos Sonetos (1905).

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

J. G. de Araújo Jorge: Eu . . . e Arvers


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Hás de ler estes versos algum dia
e mais ou menos pensarás assim:

 ele ainda sofre muito, e esta poesia
escreveu-a, bem sei, pensando em mim...

Sou a mulher que a inspira e que a anima,
pensava em mim no instante em que compôs,
e na incógnita sutil de cada rima
há um pedaço da história de nós dois...
Sinto-me em cada verso, em cada frase,
e as palavras que leio são as minhas...
 sou eu essa mulher!... Vejo-me quase
na expressiva mudez das entrelinhas...”

E sorrirás... Eu sei que sorrirás
ante a certeza do meu sofrimento,
 é o teu prazer, sorrir desse tormento
que me causaste... e que não finda mais...
Ah! Feliz foi Arvers, bem mais do que eu!
Ao menos, essa a quem ele escrevia,
perguntou certa vez depois que o leu:
 “que mulher será esta...”
                                                          e não sorria...

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O Soneto de Arvers — Mello Nóbrega, 1957, 2ª edição, Livraria São José, Rio de Janeiro — RJ; J. G. de Araújo Jorge (1914 1987), acreano de Tarauacá, foi poeta, locutor, redator de programas radiofônicos, professor de História e Literatura e político; estudou nos colégios Anglo-Americano e Pedro II, no Rio de Janeiro, e formou-se pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, atual Faculdade de Direito UFRJ; escrevendo poemas desde os tempos ginasianos, teve seus textos divulgados pelos periódicos cariocas Correio da Manhã e Almanaque Bertrand; colaborou também nos jornais A Manhã, Tribuna da Imprensa, A Nação e nas revistas Carioca, Vamos Ler, etc.; escreveu e publicou Meu Céu Interior (1934), Bazar de Ritmos (1935), Cântico dos Cânticos (1937), Amo! (1938), Poesias (1938), Cântico do Homem Prisioneiro (1941), Um Besouro contra a Vidraça (1942), Eterno Motivo (1943), O Canto da Terra (1945), Festa de Imagens, Harpa Submersa e outros títulos, além de ter gravado 3 LPs poéticos: Poemas de Amor, Amor e A Sós.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Luísa de Oliveira: Tenho n'alma um segredo e um mistério na vida; [soneto]

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Tenho n’alma um segredo e um mistério na vida:
 Um afeto eternal num momento nascido;
Calarei este amor, que a esperança é perdida
E quem me faz sofrer não me tem entendido...

Ah! passando por ela, então, despercebido
desta linda visão, todavia querida!
Eu findarei no mundo, assim, a minha vida,
Nada ousando pedir e nada tendo ouvido.

Se bem que seja terna e de carinho cheia,
Sempre a vejo ao meu lado, indiferente e alheia
Ao sussurro do amor que aos seus pés descerá.

Piedosamente fiel a um dever tão santo,
Ela dirá ao ler os versos que eu descanto:
 “Quem é esta mulher?” — mas não compreenderá...

[Colhido num artigo de Lincoln de
 Souza, em Gazeta de Notícias, do
 Rio  de Janeiro, edição de... (?)].
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O Soneto de Arvers — Mello Nóbrega, 1957, 2ª edição, Livraria São José, Rio de Janeiro — RJ; sobre a autora Luísa de Oliveira, nada foi encontrado em pesquisa.

domingo, 30 de outubro de 2016

José Oiticica: Tenho um segredo n'alma e um mistério na vida, . . . [tradução do 'Soneto de Arvers'] *

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Tenho um segredo na alma e um mistério na vida,
Este infinito amor nascido sem querer.
Ela nunca entreviu esta febre contida
Pois, sendo o mal sem cura, o melhor é esconder.

Ai! Passarei, despercebido em minha lida,
Sempre a seu lado e sempre só, a padecer,
Recalcando, até o fim, esta paixão proibida
Nada ousando implorar, sem dela nada obter.

Ela, entretanto, absorta, irá no seu caminho
Sem ouvir murmurar, em derredor, baixinho
Este arrulho de amor que, ansiante, a seguirá;

Fiel ao rude dever, erguendo a fronte bela,
Dirá, depois de ler meus versos cheios dela,
“Que mulher será essa” e não compreenderá.

José Oiticica

Sonnet


Mon âme a son secret, ma vie a son mystère;
Un amour eternel en un moment conçu:
Le mal est sans espoir, aussi j’ai dû le traire,
Et celle qui l’a fait n’en a jamais rien su.

Hélas! j’aurai passé près d’elle inaperçu,
Toujours à ses côtés, et pourtant solitaire,
Et j’aurai jusqu’au bout fait mon temps sur la terre,
N’osant rien demander et n’ayant rien reçu.

Pour elle, quoique Dieu l’ait faite douce et tendre,
Elle ira son chemin, distraite, et sans entendre
Ce murmure d’amour élevé sous ses pas;

À l’austère devoir pieusement fidèle,
Elle dira, lisant ces vers tout remplis d’elle:
"Quelle est donc cette femme?" et ne comprendra pas

Félix Arvers


* Nota de Mello Nóbrega: (Texto comunicado pelo Autor, em carta de 5 de junho de 1954, como definitivo. Variantes desta tradução podem ser lidas na coletânea de sonetos organizada por Amélia de Sampaia Arruda, 1946; e em Studia, Rio de Janeiro, ano II, nº 2, dezembro de 1951.)
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O Soneto de Arvers — Mello Nóbrega, 1957, 2ª edição, Livraria São José, Rio de Janeiro — RJ; José Rodrigues Leite e Oiticica (1882  1957), mineiro de Oliveira, fez seus primeiros estudos em Maceió  AL, e daí para o Rio de Janeiro, ingressou na Politécnica e desistiu de ser engenheiro; cursou Direito na Faculdade de Recife e no Rio, mas, bacharel, nunca se utilizou do diploma; frequentou o primeiro ano da Faculdade de Medicina no Rio, e também não concluiu; dedicando-se ao magistério e à filologia, foi professor, filólogo, foneticista, jornalista, escritor e poeta; como poeta, fez parte do grupo que, em sua época, "deu conteúdo social à arte, pois, partidário do anarquismo, seus versos refletem bem as idéias que esposou e que, por mais de uma vez, levaram-no à cadeia" relata Fernando Góes em Panorama da Poesia Brasileira, Volume V; fundou os periódicos Spartacus (co-fundador, Astrogildo Pereira, 1919), 5 de Julho (jornal clandestino, 1929) e Ação Direta (1929); divulgou textos políticos, poéticos e em prosa e colaborou com a imprensa operária libertária através dos jornais A Lanterna, Spartacus, Livre Pensador, A Plebe, e a revista A Vida; obras: Sonetos, primeira série (1911), Ode Ao Sol (1915), Estudos de Fonologia (1916), Sonetos, segunda série (1919), Princípios e Fins do Programa Comunista-Anarquista (1919), A Trama dum Grande Crime (1922), Manual de Estilo (1923), Azalan! (peça teatral, 1924), Do Método de Estudo das Línguas Sul-Americanas (1930), A Doutrina Anarquista ao Alcance de Todos (1945), Roteiro de Fonética Fisiológica, Técnica do Verso e Dicção (1955), e outros títulos.

sábado, 29 de outubro de 2016

Félix Arvers: Tenho n'alma um segredo e um mistério na vida . . . [soneto — tradução de Gondin da Fonseca]

Livro de Ouro da Poesia de Angústia, Sofrimento e Morte: Ed. Bilíngue
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[traduzido por Gondin da Fonseca]

Tenho n’alma um segredo e um mistério na vida:
e este amor imortal gerado num momento;
sufoco-o, pois não espera alívio o meu tormento
— e não vê, quem o causa, a minha alma dorida!

Por ela,  ai! — passarei, sombra despercebida,
sempre a seu lado e sempre só, e em desalento!
E hei de findar, morrer neste martírio lento,
sem pedir, sem ousar, sem uma graça obtida.

Embora doce e terna, essa que me alanceia
irá continuando o seu caminho, alheia
a este amor que em murmúrio a segue onde ela vá.

Presa ao dever, tranqüila, honestamente bela,
talvez pergunte, ao ler versos tão cheios dela:
"que mulher será esta?" 
— e não compreenderá.

Resultado de imagem para félix arvers

Sonnet

Mon âme a son secret, ma vie a son mystère;
Un amour éternel en un moment conçu:
Le mal est sans espoir, aussi j’ai dû le taire,
Et celle qui l’a fait n’en a jamais rien su.

Hélas! j’aurai passé près d’elle inaperçu,
Toujours à ses côtés, et pourtant solitaire,
Et j’aurai jusqu’au bout fait mon temps sur la terre,
N’osant rien demander, et n’ayant rien reçu.

Pour elle, quoique Dieu l’ait faite douce et tender.
Elle ira son chemin, distraite, et sans entendre
Ce murmure d’amour elevé sur ses pas;

À l’austère devoir pieusement fidèle,
Elle dira, lisant ces vers tout remplis d’elle:
“Quelle est donc cette femme?” et ne comprendra pas.
____________________
O Livro de Ouro da Poesia de Angústia, Sofrimento e Morte edição bilíngüe (diversos autores), tradução de Gondin da Fonseca, sem data, Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Aléxis-Félix Arvers (1806  1850), francês e parisiense, estudou Direito, foi funcionário de cartório e perseguiu o desejo de ser poeta e escritor; fez sucesso com uma peça teatral, uma comédia que caiu no esquecimento, e levou uma vida de dandy por Paris; um seu poema, conhecido como ‘Soneto de Arvers’ e aqui transcrito, despertou grande polêmica nos meios literários à época, com todos curiosos em descobrir quem teria sido sua musa inspiradora, ‘Quelle est donc cette femme?’, que mulher será esta?’; o ‘Soneto de Arvers’ foi amplamente traduzido para os mais diversos idiomas, inclusive para o esperanto; em língua portuguesa contam-se em dezenas os tradutores, entre os quais Guilherme de Almeida, Olegário Mariano, José Oiticica, Gondim da Fonseca, J. G. de Araújo Jorge, José Lino Grünewald, Lúcio de Mendonça, Benedicto Lopes, Bastos Tigre, além de ter inspirado outras criações em resposta ou citando o soneto famoso; Félix Arvers escreveu e publicou Minhas horas perdidas (Mes heures perdues, poesias, 1833), com o referido soneto incluso.