domingo, 31 de maio de 2015

Guimarães Rosa *: Reportagem

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O trem estacou, na manhã fria,
num lugar deserto, sem casa de estação:
a parada do Leprosário...

Um homem saltou, sem despedidas,
deixou o baú à beira da linha,
e foi andando. Ninguém lhe acenou...

Todos os passageiros olharam ao redor,
com medo de que o homem que saltara
tivesse viajado ao lado deles...

Gravado no dorso do bauzinho humilde,
não havia nome ou etiqueta de hotel:
só uma estampa de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro...

O trem se pôs logo em marcha apressada,
e no apito rouco da locomotiva
gritava o impudor de uma nota de alívio...

Eu quis chamar o homem, para lhe dar um sorriso,
mas ele ia já longe, sem se voltar nunca,
como quem não tem frente, como quem só tem costas...




* Nota deste aprendiz de blogueiro:
O livro Magma, de Guimarães Rosa, participou de um concurso de poesia promovido pela Academia Brasileira de Letras, em 1936, e foi premiado em 1.º lugar. Assim se referiu à obra o poeta Guilherme de Almeida, relator do concurso:

'...
"Neste, como em qualquer outro torneio, tal obra mereceria sempre um primeiro prêmio. E tão altamente distanciada paira ela sobre as demais, que não me parece possível a concessão, a qualquer outra, de um aproximador segundo prêmio."
...
"Pura, esplêndida poesia."
...
"É, pois, meu parecer que seja o 1.º prêmio do Concurso de Poesia de 1936 concedido ao livro Magma, de João Guimarães Rosa; e que não seja a ninguém, neste torneio, conferido o 2.º prêmio, tão distanciados estão do primeiro premiado os demais concorrentes."
...
São Paulo, 22 de novembro de 1936. Guilherme de Almeida, Relator.'
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Magma  João Guimarães Rosa, Parecer  a título de prefácio  de Guilherme de Almeida e Desenhos de Poty, 1997, 2ª. Impressão em 2006, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro  RJ; João Guimarães Rosa (1908  1967), mineiro de Cordisburgo, formado em Medicina, foi diplomata, escritor e também poeta; seu único livro de poesias, Magma (1936), participou de um concurso poético promovido pela Academia Brasileira de Letras, também nesse ano, e, mesmo tendo sido premiado com louvor em primeiríssimo lugar, permaneceu inédito até a década de 90, sessenta anos após; Guimarães Rosa, além de Magma, escreveu e publicou Sagarana (contos, 1946), Corpo de Baile (ciclo novelesco, 2 volumes, 1956), Manuelzão e Miguilim (1964), Noites do Sertão (1965), Grande sertão: Veredas (romance, 1956), Primeiras estórias (contos, 1962), Campo geral (1964), Tutameia Terceiras estórias (contos, 1967), os postumamente editados Estas estórias (contos, 1969) e Ave, palavra (diversos, 1970) etc.; colaborou no Correio da Manhã, no suplemento Letras e Artes de A Manhã, n’O Globo e na revista Pulso; seus livros foram traduzidos no exterior (França, Itália, Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Espanha, Polônia, Holanda e Checoslováquia).

sábado, 30 de maio de 2015

Da Costa e Silva: A Moenda

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Na remansosa paz da rústica fazenda,
À luz quente do sol e à fria luz do luar,
Vive, como a expiar uma culpa tremenda,
O engenho de madeira a gemer e a chorar,

Ringe e range, rouquenha, a rígida moenda;
E ringindo e rangendo, a cana a triturar,
Parece que tem alma, adivinha e desvenda
A ruína, a dor, o mal que vai, talvez, causar...

Movida pelos bois tardos e sonolentos
Geme, como a exprimir, em doridos lamentos,
Que as desgraças por vir, sabe-as todas de cor.

Ai! dos teus tristes ais! ai! moenda arrependida!
— Álcool para esquecer os tormentos da vida
E cavar, sabe Deus, um tormento maior!

(Zodíaco, 1917, Oficina Tipográfica
Apolo, Rio, pág. 69 a 71)

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Panorama da Poesia Brasileira, Volume V — Pré-Modernismo, por Fernando Góes, 1960, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Antonio Francisco Da Costa e Silva (1885 1950), piauiense de Amarante, licenciado em Direito pela Faculdade de Recife PE, funcionário concursado do Ministério da Fazenda, foi poeta assentado em dois períodos literários o Simbolismo e o Parnasianismo, e teve seus primeiros poemas divulgados desde 1901; obra poética: Sangue (1908), Zodíaco (1917), Verhaeren (1917), Pandora (1919), Verônica (1927), Antologia (seleção dos livros anteriores, 1934), Poesias Completas (coletânea póstuma e inéditos inacabados, 1950); consta que nos seus últimos 17 anos de vida teve a mente perturbada.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Eduardo de Oliveira: Negra é a cor da minha pele

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Nada fui! Nada sou! Nada serei,
só porque negra é a cor da minha pele!
Mesmo que tudo eu dê, pouco terei
nesta Sodoma, em que a ambição a impele!

Diante destes racistas é que eu hei
de amar o bem, antes que a dor revele
que, por ser negro, ainda sustentarei
seu império que, a tempos, me repele!

Eu represento a espécie sofredora
de indivíduos anônimos, de párias,
atores de uma história aterradora!

Pobre do negro! Pobre de quem sonha
como eu, que dentre as almas solitárias,
somente pude ser a mais tristonha...

In: Túnica de ébano: sonetos e trovas  1980

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Antologia de Poesia Afro-Brasileira — 150 anos de consciência negra no Brasil, Prefácio de Eduardo de Assis Duarte, Organização de Zilá Bernd, Coorganização de Emilene Corrêa Souza e Plínio Carlos Souza Corrêa Junior, 2011, Mazza Edições, Belo Horizonte — MG; Eduardo de Oliveira (1926  2012), paulista e paulistano, foi advogado, jornalista, professor, poeta e ativista do Movimento Negro; participou de edições dos Cadernos negros (primeiro número em 1978) e organizou a obra Quem é quem na negritude brasileira (1998); escreveu e publicou Além do pó (1958), Ancoradouro  sonetos ( 1960), O Ébano (1961), Banzo (1965), Gestas líricas da negritude (1967), Evangelho da solidão: dez anos de poesia 1958  1968 (1970), Túnica de Ébano — sonetos e trovas (1980), A cólera dos generosos: retrato da luta do negro para o negro (1988), Carrossel de sonetos (1994); o poeta, autor da letra e música do Hino treze de maio  cântico da Abolição, oficializado pelo Congresso Nacional, foi vereador na capital paulista, membro da Associação Cultural do Negro, da Casa de Cultura Afro-Brasileira e da União Brasileira dos Escritores.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Augusto Frederico Schmidt: Poema da Inveja

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Inveja dos que desejam pertencer à Academia de Letras,
Dos que amam as honrarias.
Dos incansáveis,
Dos que adormecem sem medo
E despertam sempre dispostos para a conquista do mundo.

Inveja dos que caminham firmes,
Como se o chão fosse sólido.
Como se tudo estivesse certo e ordenado.
Inveja dos que não se lembram de que só há um destino.
E que estamos suspensos sobre o abismo.
Inveja dos seres para quem a esperança
Não é uma frágil ponte sobre o nada.

Inveja dos que não carregam sempre e interminavelmente,
Por onde vão e em todas as horas,
O fardo de seus mortos.
Inveja dos que não guardam
As imagens perdidas, as folhas secas.
A poeira da vida,
E sacodem qualquer melancolia e avançam leves e contentes.

Inveja dos que podem recordar sorrindo
As alegrias efêmeras.
E não se dão conta de que o amargo
Delimita e bordeja todos os caminhos.

Inveja dos que contemplam, impassíveis,
As flores murchas, os berços vazios,
As mão frias em cruz,
Os rostos devastados pelo tempo,
E o tédio dos que se amaram um dia.

Poesia Completa  1995

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Roteiro da Poesia Brasileira — Modernismo, Seleção e Prefácio de Walnice Nogueira Galvão, Direção de Edla Van Steen, Editora Global, 2008, São Paulo — SP; Augusto Frederico Schmidt (1906 1965), foi poeta, editor e livreiro, além de empresário de sucesso; escreveu e publicou Canto do Brasileiro (1928), Navio Perdido (1929), Cantos do Liberto A.F.S. (1929), Pássaro Cego (1930), Desaparição da Amada (1931), Canto da Noite (1934), Estrela Solitária (1940), Mar Desconhecido (1942), Fonte Invisível (1949), Os Reis (1953), Poesias Completas (1956), Caminho do Frio (1964); editor e livreiro, dono da Livraria Schmidt Editora, lançou autores de maior relevância, como Graciliano Ramos, Gilberto Freyre e Jorge Amado, entre outros; foi fundador da Panair, empresa brasileira em voos internacionais e da Disco, primeira rede de supermercados no Rio; também ocupou cargos de assessoria no Governo de Juscelino Kubitschek.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Artur Azevedo: Não Morras

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Muitas vezes sorrindo me perguntas:
Se eu morrer hoje, meu querido amigo,
Fazes-me uns versos, fazes-me um artigo?
E eu te respondo: As duas coisas juntas.

No entanto fel ao meu pecado ajuntas *
Se assim te pões a gracejar comigo.
Não poderia ver o teu jazigo,
Como o jazigo vi de mil defuntas! **

Ai! não, não morras, pálida formosa,
Porque a morte, inimiga escura e fria,
Fora indiscreta, fora temerosa!

Se tu morresses, eu também morria,
E a minha dor acerba e escandalosa,
O teu cadáver comprometeria!

(Rimas , págs. 299  300)



Notas do Organizador:
* Há vírgula depois de fel.
** Está defuntos, gralha evidente.
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Panorama da Poesia Brasileira, Volume III — Parnasianismo, por Péricles Eugênio da Silva Ramos 1959, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo (1855 1908), maranhense de São Luís, foi jornalista, romancista, comediógrafo, contista, poeta e uma das grandes figuras do humorismo brasileiro; escreveu e publicou Carapuças (poesia, 1871), Sonetos (1875), Uma Véspera de Reis (teatro, 1876), A Capital Federal (teatro, 1897), O Escravocrata (teatro, 1884), O Dote (teatro, 1896), Um Dia de Finados (sátira, 1880), Contos Fora da Moda (contos, 1897), Contos em Verso (1898) etc.; como jornalista, trabalhou nos principais jornais da época, no Rio de Janeiro, tendo fundado e dirigido A Gazetinha, Vida Moderna e O Álbum.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Oliveira Silveira: O negro de fogo

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O negro de fogo
que usava camisa encarnada
incendiou o futebol
incendiou o samba
                 a rumba
                 a conga
                 o espiritual
e o coração das mulheres.

O negro de fogo
enrubesceu maçã do rosto
de encabuladas moças
pintadas de ruge e batom.

O negro de fogo
de carvão e brasa
piche e sangue.

O negro de fogo
incendiou a União Sul-Africana
e lançou fósforo aceso
sobre os Estados Unidos
(que assim não era possível).

O negro de fogo
pôs labaredas (não era possível)
nos organismos internacionais.

O negro de fogo
(assim não era possível)
atou num poste e jogou na fogueira
o ditador português
e Sua Majestade Britânica.

O negro de fogo
— sempre chamado de sujo 
para ter bem-estar físico
impôs ao mundo uma higiene mental.

E assim  queimadas a gaiola, a grade
purificado o ar e limpo o céu 
entoou com voz azul
seu canto de liberdade.

[In: Banzo, saudade negra, 1970.]

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Antologia de Poesia Afro-Brasileira — 150 anos de consciência negra no Brasil, Prefácio de Eduardo de Assis Duarte, Organização de Zilá Bernd, Coorganização de Emilene Corrêa Souza e Plínio Carlos Souza Corrêa Junior, 2011, Mazza Edições, Belo Horizonte — MG; Oliveira Ferreira da Silveira (1941  2009), gaúcho de Touro Passo, distrito de Rosário do Sul, formado em Letras  Português e Francês na Universidade Federal do Rio Grande do Sul  UFRGS, foi professor, poeta, pesquisador e militante do Movimento Negro; como ativista, atuou através da revista Tição e do Grupo Semba; escreveu e publicou Germinou (1962), Poemas regionais (1968), Banzo, saudade negra (1970), Décima do negro peão (1974), Praça da palavra (1976), Pelo escuro (1977), Roteiro dos tantãs (1981), Poema sobre Palmares (1987), além de ensaios em diversas publicações; participou ainda dos Cadernos negros 3, 11 e os melhores poemas (1980, 1988 e 1998), Axé: antologia contemporânea da poesia negra brasileira (1982), Cadernos literários 19: poetas negros do Brasil (1983), A razão da chama: antologia de poetas negros brasileiros (1986), Schwarze Poesie  Poesia negra (1988), Antologia da Poesia negra brasileira: o negro em versos (2005) e outros títulos; na década de 70, no Grupo Palmares, foi um dos intelectuais afro-descendentes a propor a criação de um Dia Nacional da Consciência Negra, 20 de novembro.