Mostrando postagens com marcador Alberto de Oliveira. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Alberto de Oliveira. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Alberto de Oliveira: A mão


____________________
Se a mão falasse, a minha mão diria:
“Pude apertar a sua mão tão leve!
Ah! que perfume o que essa flor trazia
Em suas cinco pétalas de neve!”

E se escrevesse a mão, como isto escreve,
Mas por si, sem lhe ser preciso guia,
Vontade, impulso, inspiração que a leve,
Talvez a minha mão escreveria:

"Versos, ide-me assim, sem lei nem arte.
Pois não por vós, mas por mais pura e linda
Forma fugaz eu me debato em vão!

Nem sei negar-te pena e às musas dar-te.
Que ébrio me arrasto, respirando ainda
Ó aroma virginal de sua mão!"

____________________
Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Organização e Seleção de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; Antonio Mariano Alberto de Oliveira (1857 1937), fluminense de Palmital de Saquarema, farmacêutico e professor, foi poeta e figura de destaque do Parnasianismo; em sua carreira literária colaborou em jornais e revistas cariocas (Gazetinha, A Semana, Diário do Rio de Janeiro, Mequetrefe, Combate, Gazeta da Noite, Tribuna de Petrópolis, Revista Brasileira, Correio da Manhã, Revista do Brasil, Revista de Portugal, Revista da Língua Portuguesa), organizou e selecionou poemas e autores para Páginas de Ouro da Poesia Brasileira (1911) e para Os Cem Melhores Sonetos Brasileiros (1932) entre outras participações no campo da poesia e da literatura; escreveu e publicou Canções românticas (1878), Meridionais (introdução de Machado de Assis, 1884), Sonetos e poemas (1885), Versos e Rimas (1895), que reuniu em Poesias — primeira série (1900), e mais Poesias — segunda série (1906), Poesias — terceira série (1913) e Poesias — quarta série (1927), etc.; Alberto de Oliveira, com Raimundo Correia e Olavo Bilac, constituiu a tríade do Parnasianismo no Brasil.

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Furnandes Albaralhão: A bingança da porta *

                    
____________________
Ao culéga Alverto d’Ulibeira

Era um custume vesta que ele tinha
intrar vatendo a porta: "Antão Manéle!
lhe dizia a mulhére, que papéle!
não me faças romôre! Olha a bizinha!"

E todo dia era essa ladainha!
Sujaito deshumano, pai cruéle,
dizia-lhe: Si tains amôre à pele
daixa-me sussigado, ó mulherzinha!"

Uma noite em que bâiu desse jaito,
a pinitrar cum falta de ruspaito
na casa em que amvos eles dois residem,

avrindo a porta a punta-pés, zangado,
biu pulo chão, uma de cada lado,
a mulhére inguiçada e a filha idem!

Furnandes Albaralhão e o Caldo Berde – Recanto das Palavras

* Nota deste Verso e Conversa: Para efeito de comparação, este aprendiz de blogueiro transcreve o soneto que deu origem à paródia: A vingança da porta  Era um hábito antigo que ele tinha: / Entrar dando com a porta nos batentes. / — Que te fez esta porta? a mulher vinha / E interrogava... Ele, cerrando os dentes: // — Nada! Traze o jantar." — Mas à noitinha / Calmava-se; feliz, os inocentes / Olhos revê da filha e a cabecinha / Lhe afaga, a rir, com as rudes mãos trementes. // Uma vez, ao tornar à casa, quando / Erguia a aldraba, o coração lhe fala: / — Entra mais devagar... Pára, hesitando... // Nisso nos gonzos range a velha porta, / Ri-se, escancara-se. E ele vê na sala / A mulher como doida e a filha morta! (Alberto de Oliveira)
____________________
Humor e Humorismo — Poesias e Versos e Paródias de Poemas Famosos — Antologia, Organização de Idel Becker, 1961, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Furnandes Albaralhão, pseudônimo de Horácio Mendes Campos (1902 1964), fluminense e carioca, foi poeta satírico e de paródias, escritor, libretista de teatro de revistas, violonista e compositor; publicou o livro de humor Caldo Berde (1ª edição impressa em 1930), no qual apresenta sátiras, paródias de sonetos famosos e pensamentos com linguagem macarrônica, bem à moda do pré-modernista Juó Bananére; Horácio Campos foi um dos muitos colaboradores quase ignorados de uma das várias fases de A Manha, jornal humorístico e satírico do Barão de Itararé o Aporelly; ao autor de Caldo Berde coube cuidar, com muita arte, do suplemento lusitano de A Manha, escrevendo paródias de poetas portugueses e brasileiros e composições de sua inteira inspiração; trechos de seu livro foram republicados na revista A Pomba (década de 60).