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domingo, 19 de abril de 2026

Rimbaud: Cinco Horas da Tarde

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[traduzido, metrificado e rimado por Milton Lins]

Passada uma semana, as botinas furadas
nas pedras do caminho, em Charleroi entrei.
E no Cabaré Verde: eu quis comer torradas
com manteiga, e pernil, que, frios, reclamei.

E coloquei, feliz, as pernas sob a mesa
verde; vi com cuidado as formas inocentes
gravadas no tapete. Achei uma beleza,
quando uma moça viva, os dois peitos pendentes,

aquela não temia o ardor de ser beijada
alegre me serviu, bem quente, uma torrada
e pôs o pernil morno em prato colorido,

presunto rosa e branco em alho perfumado
e o copo me inundou, com seu chope espumado
dourado pelo sol, num raio desferido.

Casa Forte, 3 de setembro de 1997.

Arthur Rimbaud

Cinq Heures du Soir

(Au Cabaret Vert, cinq heures du soir)

Depuis huit jours, j’avais déchiré mes bottines
Aux cailloux des chemins. J’entrai à Charleroi,
Au Cabaret-Vert: je demandai des tartines
De beurre et du jambon qui fût à moitié froid.

Bienheureux, j’allogeai les jambes sous la table
Verte; je contemplai les sujets très naïfs
De la tapisserie. Et ce fut adorable,
Quand la fille aux tétons énormes, aux yeux vifs,

Celle-là, ce n’est pas un baiser qui l’épeure!
Rieuse, m’apporta des tartines de beurre,
Du jambon tiède, dans un plat colorié,

Du jambon rose et blanc parfumé d’une gousse
D’ail, et m’emplit la chope immense, avec sa mousse
Que dorait un rayon de soleil arriéré.

Oc. 1870
Cahier de Douai
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Rimbaud em Metro e Rima: edição bilíngue, Tradução e Texto-Apresentação de Milton Lins, Prefácio de Mário Márcio de Almeida Santos e Posfácio de Edmir Domingues, 1998, Editora Gráfica UPE  Universidade de Pernambuco, Recife — PE; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), francês de Charleville, estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; recebeu influências de Victor Hugo, Georges Izambard seu professor de retórica , Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura e retomou à vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 1873 1875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations, com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud morreu cinco anos depois, em 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Jules Laforgue: Lamento da Boa Defunta

 
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[paráfrase* de Régis Bonvicino]

Pela avenida ela fugia,
Iluminada eu a seguia,
Adivinhei! O olho dizia,
Hélas! Eu a reconhecia!

Iluminada eu a seguia,
Boca ingênua, nada via,
Oh! sim eu a reconhecia,
Ou sonhaborto ela seria?

Boca murcha, olho-fantasia;
Branco cravo, azul esvaía;
O sonhaborto amanhecia!
Ela em morta se convertia.

Jaz, cravo, de azul esvaía,
A vida humana prosseguia
Sem ti, defunta em demasia.
Oh! já em casa, boca vazia!

Claro, eu não a conhecia.

Jules Laforgue

Complainte de la bonne défunte

Elle fuyait par l'avenue,
Je la suivais illuminé,
Ses yeux disaient: "J'ai deviné 
Hélas! que tu m'as reconnue!"

Je la suivis illuminé!
Yeux désolés, bouche ingénue,
Pourquoi l'avais-je reconnue,
Elle, loyal rêve mort-né?

Yeux trop mûrs, mais bouche ingénue;
OEillet blanc, d'azur trop veiné;
Oh! oui, rien qu'un rêve mort-né,
Car, défunte elle est devenue.

Gis, oeillet, d'azur trop veiné,
La vie humaine continue
Sans toi, défunte devenue.
Oh! je rentrerai sans dîner!

Vrai, je ne l'ai jamais connue.

* Nota do tradutor Régis Bonvicino:Esta tradução é, de fato, uma paráfrase. A alternância rímica está toda modificada. Mantive a métrica de oito sílabas.
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Litanias da lua: Jules Laforgue Organização, Nota Introdutória, Notícia Biográfica e Tradução de Régis Bonvicino, edição bilíngue + Ensaios de Laforgue: Notas sobre Baudelaire (traduzido por Heloisa Braz de Oliveira Prieto e Régis Bonvicino), Um estudo sobre Corbière, Fragmento sobre Rimbaud e Fragmento sobre Mallarmé (os três, pela tradução de Heloisa B. O. Prieto) e Ensaios sobre Laforgue: Jules Laforgue, uma figura uruguaia (de Lisa Block de Bear, traduzido por Heloisa Prieto), Sob o Signo da Lua (de Nelson Ascher) e Anarquia, Verso Livre (de Régis Bonvicino), 1989, Iluminuras, São Paulo SP; Julio Laforgue ou Jules Laforgue (1860 1887), nascido em Montevidéu Uruguai, mas desde os seis anos de idade residindo na França, terra de seus pais, fez os estudos iniciais em Tarbes, no Lycée Théophile Gautier, concluindo-os em Paris no Lycée Fontanes (atual Lycée Condorcet), depois passou pela École des beaux-arts (Escola de Belas Artes) também em Paris, foi poeta, romancista, ensaísta, contista e tradutor; o poeta franco-uruguaio teve sua vida literária associada ao Decadentismo e ao Simbolismo francês; em 1879, produziu resenhas, críticas e desenhos legendados em sete edições da revista La Guêpe, em Toulouse, editada por ex-alunos de Tarbes, também contribuiu para a primeira edição da L’Enfer [revue], de curta duração; em 1880 publicou seus três primeiros poemas na revue La Vie moderne; em 1881 escreveu Stéphane Vassiliew, uma novela; consta de sua biografia ter escrito cerca de duas centenas de poemas, além de prosa criativa e prosa crítica; e que sua poética influenciou fortemente T. S. Eliot, Ezra Pound e Marcel Duchamp; traduziu Walt Whitman; Laforgue foi um dos primeiros poetas franceses a escrever em versos livres, sendo o primeiro a fazê-lo sistematicamente; suas obras: publicou em vida apenas quatro livros, Les Complaintes (1885), L’Imitation de Notre Dame de la Lune, Le Concile Féerique (ambos em 1886) e Moralités légendaires (1887); em Paris, teve artigos publicados no Le Figaro e na Revue Indépendantepostumamente editaram-se os livros Derniers Vers (1890), Mélanges Posthumes (1903), Stéphane Vassiliew (novela escrita em 1881 e publicada en 1943) ...; a maior parte de sua obra só veio à luz após a morte do autor; na fase final de sua curta vida, desde 1881, Jules Laforgue exerceu ofício em Berlim, Alemanha foi ledor/professor da Imperatriz Augusta [von Sachsen-Weimar-Eisenach], casada com Guilherme I, “lia, em francês, páginas de romances franceses e artigos de jornais como os da Revue des deux Mondes"; durante o período em Berlim, escreveu textos sobre a cidade e a corte imperial os quais foram publicados na Gazette des Beaux-Arts e na revista Lutèce, francesas; adoecido, o poeta deixou o cargo de professor em 1886; no Brasil, sua poética “fertilizou” Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade; morreu aos 27 anos, de tuberculose.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Arthur Rimbaud: Vênus Anadiômene

 
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[traduzido por Augusto de Campos]

Como de um verde túmulo em latão o vulto
De uma mulher, cabelos brunos empastados,
De uma velha banheira emerge, lento e estulto,
Com delícias bastante mal dissimulados;

Do colo graxo e gris saltam as omoplatas
Amplas, o dorso curto que entra e sai no ar;
Sob a pele a gordura cai em folhas chatas,
E o redondo dos rins como a querer voar...

O dorso é avermelhado e em tudo há um sabor
Estranhamente horrível; notam-se, a rigor,
Particularidades que demandam lupa...

Nos rins dois nomes só gravados: CLARA VÊNUS;
E todo o corpo move e estende a ampla garupa
Bela horrorosamente, uma úlcera no ânus.

Arthur Rimbaud

Vênus Anadyomène

Comme d’un cercueil vert en fer blanc, une tête
De femme à cheveux bruns fortement pommadés
D’une vieille baignoire émerge, lente et bête,
Avec des déficits assez mal ravaudés;

Puis le col gras et gris, les larges omoplates
Qui saillent; le dos court qui rentre et qui ressort;
Puis les rondeurs des reins semblent prendre l’essor;
La graisse sous la peau paraît en feuilles plates:

L’échine est un peu rouge, et le tout sent un goût
Horrible étrangement; on remarque surtout
Des singularités qu’il faut voir à la loupe…

Les reins portent deux mots gravés: CLARA VENUS;
Et tout ce corps remue et tend sa large croupe
Belle hideusement d’un ulcère à l’anus.

[27 de julho de 1870]
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Verso Reverso Controverso: Augusto de Campos estudos críticos e poemas bilíngue de várias autorias, Apresentação, Tradução dos poemas, Informação bibliográfica e Notas de Augusto de Campos, 2ª edição revista, 1998, Editora Perspectiva, São Paulo SP; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), francês de Charleville, estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; recebeu influências de Victor Hugo, Georges Izambard seu professor de retórica , Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura e retomou a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 18731875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations, com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud morreu cinco anos depois, em 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Arthur Rimbaud: À Música

 
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[traduzido por Ivo Barroso]

Praça da estação, em Charleville1

Na praça rtetalhada em canteiros mesquinhos,
Onde tudo é correto, as árvores e as flores,
Burgueses ofegando asmáticos calores
Passeiam, quinta-feira à noite, os colarinhos.

A orquestra militar, em meio da pracinha,
Balança seus bonés na Valsa dos Flautins;2
À volta a se exibir na frente, o “almofadinha”;3
O notário que cai dos berloques chinfrins.4

Agiotas de lornhon sublinham notas fracas;5
Vão gordos escrivães levando de arrastão
Grossas damas, iguais a atenciosos cornacas,6
Dessas cujo trajar cheira à remarcação.7

Nos bancos verdes vêem-se, em grupo, aposentados
Hortelãos, futucando a bengala na areia,8
Discutem seriamente os últimos tratados,
Depois tomam rapé e rematam: “Pois creia!...”

No banco esparramando as nádegas obesas,
Um burguês, os botões brancos da pança inflando,
Saboreia o cachimbo onde pendem acesas9
Iscas de fumo sim, fumo de contrabando;10

Pelas aléias riem-se os malandrins e as putas;11
Põe o som do trombone os corações em chamas,
E, fumando uma “rosa”,12 ingênuos, os recrutas13
Vão bulir com os bebés para embair as amas...

E eu ali estouvado estudante, fingindo
Não ver que as moças vão sob as árvores quietas;
Mas elas sabem bem, e me dirigerm rindo
Em carregado olhar de coisas indiscretas.

Não consigo falar: mas mudo, em meus assombros,
Vejo a carne de um colo entre cachos macios;
Sigo sob o corpete e os frágeis atavios
Um dorso divinal na curva de seus ombros.

Com pouco lhes suprimo as botinhas, as meias...14
Os corpos reconstruo ardendo em febre louca.
Achando-me um bobão, põem-se a falar a meias...
E sinto um beijo vir chegando à minha boca.

Arthur Rimbaud

A la musique

Place de la gare, à Charleville.

Sur la place taillée en mesquines pelouses,
Square où tout est correct, les arbres et les fleurs,
Tous les bourgeois poussifs qu’étranglent les chaleurs
Portent, les jeudis soirs, leurs bêtises jalouses.

L’orchestre militaire, au milieu du jardin,
Balance ses schakas dans la Valse des fifres:
Autour, aux premiers rangs, parade le gandin;
Le notaire pend à ses breloques à chiffres.

Des rentiers à lorgnons soulignent tous les couacs:
Les gros bureaux bouffis traînent leurs grosses dames
Auprès desquelles vont, officieux cornacs,
Celles dont les volants ont des airs de réclames;

Sur les bancs verts, des clubs d’épiciers retraités
Qui tisonnent le sable avec leur canne à pomme,
Fort sérieusement discutent les traités,
Puis prisent en argent, et reprennent: »En somme!…»

Épatant sur son banc les rondeurs de ses reins,
Un bourgeois à boutons clairs, bedaine flamande,
Savoure son onnaing d’où le tabac par brins
Déborde vous savez, c’est de la contrebande;

Le long des gazons verts ricanent les voyous;
Et, rendus amoureux par le chant des trombones,
Très naïfs, et fumant des roses, les pioupious
Caressent les bébés pour enjôler les bonnes…

Moi, je suis, débraillé comme un étudiant,
Sous les marronniers verts les alertes fillettes:
Elles le savent bien, et tournent en riant,
Vers moi, leurs yeux tout pleins de choses indiscrètes.

Je ne dis pas un mot: je regarde toujours
La chair de leurs cous blancs brodés de mèches folles:
Je suis, sous le corsage et les frêles atours,
Le dos divin après la courbe des épaules.

J’ai bientôt déniché la bottine, le bas…
Je reconstruis les corps, brûlé de belles fièvres.
Elles me trouvent drôle et se parlent tout bas…
Et je sens les baisers qui me viennent aux lèvres…

(Poésies, 1870-1871)

Notas do tradutor Ivo Barroso:
1. Deliciosa composição em que R. [Rimbaud] posa de pubescente e encabulado diante das meninas namoradeiras na pracinha de Charleville, durante uma retreta da banda de música. Invoca o local em que Vitalie Cuif, a mãe do poeta, conheceu o capitão Frédéric Rimbaud, seu pai. Mas o tom aparentemente bucólico já está impregnado do espírito sarcástico rimbaldiano e há imagens de agudo senso crítico expondo ao ridículo a burguesia da província;
2. Shakos. Espécie de barretina militar, alta, de feitio cilíndrico, da qual pendia uma borla, aqui traduzido simplesmente por bonés, de mais imediata compreensão pelo leitor brasileiro;
3. Le gandin é o janota, o peralvilho, o homem “chic” do interior. Usamos “almofadinha”, que lhe é sinônimo e, por estar em desuso, se aplica perfeitamente ao efeito cediço buscado por R.;
4. Imagem criadora de R. Em vez de dizer que o notário (tabelião) vem carregado (pesado) de berloques, diz que ele cai de seus penduricalhos;
5. Couac significa nota desafinada. É palavra-chave em R. que a utiliza na abertura de Une saison en enfer;
6. Cornacas são os guias de elefantes na Ìndia;
7. Air de reclame, literalmente: ar de saldo, de oferta especial, de produto em promoção a preço convidativo. Preferimos usar “remarcação”, que acentua o caráter usuráriuo dos maridos;
8. Futucar é regionalismo, com o significado de cotucar. R. emprega com frequência palavras de sua região ardenesa. O verbo usado por ele é tisonner (atiçar), indicativo da ação de avivar o fogo da lareira, de pouca expressividade para um leitor brasileiro;
9. Onnaing é o nome de um povoado próximo de Valenciennes, onde se fabricam cachimbos esculpidos;
10. De contrabando. Pela proximidade de Charleville com a fronteira belga, o contrabando de tabaco era coisa frequente;
11. Voyous são os vadios, os garotos de rua, para efeito de rima e reforço do verso acrescentamos “e as putas”;
12. Rose (“rosa”) era uma marca de cigarro barato e serve aqui para o trocadilho;
13. Pioupious era o nome popular que se dava aos soldados rasos de infantaria, meganha;
14. R. rima les bas (meias femininas) com tout bas (em voz baixa), tipo de rima opulenta que buscamos reproduizir em “meias” e “a meias”
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Arthur Rimbaud — Poesia Completa, Edição Bilíngüe Comemorativa do sesquicentenário, Tradução, Prefácio, Organização e Comentários de Ivo Barroso, e Apresentação [orelha do livro] de José Mario Pereira, 1995, 3ª edição definitiva, Topbooks Editora, Rio de Janeiro — RJ; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), francês de Charleville, estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; em 1869, iniciou-se na produção de seus primeiros versos e encaminhou o poema Les Étrennes des Orphelins [A consoada dos órfãos] à Revue pour tous, "que o estampa em seu número de 2 de janeiro de 1870"; recebeu influências de Victor Hugo, Georges Izambard seu professor de retórica , Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros, e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura e retomou a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 18731875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations, com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud morreu cinco anos depois, em 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Rimbaud: Canção da Mais Alta Torre

 
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[traduzido por Augusto de Campos]

Inútil beleza
A tudo rendida,
Por delicadeza
Perdi minha vida.
Ah! que venha o instante
Que as almas encante.

Eu me digo: cessa,
Que ninguém te veja:
E sem a promessa
Do que quer que seja.
Não te impeça nada,
Excelsa morada.

De tanta paciência
Para sempre esqueço:
Temor e dolência
Aos céus ofereço,
E a sede sem peias
Me escurece as veias.

Assim esquecidas
Vão-se as Primaveras
Plenas e floridas
De incenso e de heras
Sob as notas foscas
De cem feias moscas

Ah! Mil viuvezas
Da alma que chora
E só tem tristezas
De Nossa Senhora!
Alguém oraria
À Virgem Maria?

Inútil beleza
A tudo rendida,
Por delicadeza
Perdi minha vida.
Ah! que venha o instante
Que as almas encante!

Maio 1872

Arthur Rimbaud

Chanson de la Plus Haute Tour

Oisive jeunesse
À tout asservie,
Par délicatesse
J'ai perdu ma vie.
Ah! Que le temps vienne
Où les coeurs s'éprennent.

Je me suis dit: laisse,
Et qu'on ne te voie:
Et sans la promesse
De plus hautes joies.
Que rien ne t'arrête,
Auguste retraite.

J'ai tant fait patience
Qu'a jamais j'oublie;
Craintes et souffrances
Aux cieux sont parties.
Et la soif malsaine
Obscurcit mes veines.

Ainsi la Prairie
À l'oubli livrée,
Grandie, et fleurie
D' encens et d'ivraies
Au bourdon farouche
De cent sales mouches.

Ah! Mille veuvages
De la si pauvre âme
Qui n'a que l'image
De la Notre-Dame!
Est-ce que l'on prie
La Vierge Marie?

Oisive jeunesse
À tout asservie,
Par délicatesse
J'ai perdu ma vie.
Ah! Que le temps vienne
Où les coeurs s'éprennent!

Mai 1872.
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Rimbaud livre, Introdução e Traduções de Augusto de Campos, edição bilíngue, com “iluminações” computadorizadas de Augusto de Campos & Arnaldo Antunes, 2ª edição da 2ª reimpressão de 1993, 2009, Coleção Signos, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), francês de Charleville, estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; recebeu influências de Victor Hugo, Georges Izambard seu professor de retórica , Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura e retomou a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 18731875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations, com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud morreu cinco anos depois, em 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.

quinta-feira, 8 de maio de 2025

Rimbaud: Os Corvos

 
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[traduzido por Augusto de Campos]

Senhor, quando os campos são frios
E nos povoados desnudos
Os longos ângelus são mudos...
Sobre os arvoredos vazios
Fazei descer dos céus preciosos
Os caros corvos deliciosos.

Hoste estranha de gritos secos,
Ventos frios varrem vossos ninhos!
Vós, ao longo dos rios maninhos,
Sobre os calvários e seus becos,
Sobre as fossas, sobre os canais,
Dispersais-vos e ali restais.

Aos milhares, nos campos ermos,
Onde há mortos recém-sepultos,
Girai, no inverno, vossos vultos
Para cada um de nós vos vermos,
Sede a consciência que nos leva,
Ó funerais aves da treva!

Mas, anjos do ar, no alto da fronde,
Mastros sem fim que os céus encantam,
Deixai os pássaros que cantam
Aos que no breu do bosque esconde,
Lá, onde o escuro é mais escuro,
Uma derrota sem futuro.

Arthur Rimbaud

Les Corbeaux

Seigneur, quand froide est la prairie,
Quand dans les hameaux abattus,
Les longs angelus se sont tus…
Sur la nature défleurie
Faites s’abattre des grands cieux
Les chers corbeaux délicieux.

Armée étrange aux cris sévères,
Les vents froids attaquent vos nids!
Vous, le long des fleuves jaunis,
Sur les routes aux vieux calvaires,
Sur les fossés et sur les trous
Dispersez-vous, ralliez-vous!

Par milliers, sur les champs de France,
Où dorment des morts d’avant-hier,
Tournoyez, n’est-ce pas, l’hiver,
Pour que chaque passant repense!
Sois donc le crieur du devoir,
Ô notre funèbre oiseau noir!

Mais, saints du ciel, en haut du chêne,
Mât perdu dans le soir charmé,
Laissez les fauvettes de mai
Pour ceux qu’au fond du bois enchaîne,
Dans l’herbe d’où l’on ne peut fuir,
La défaite sans avenir.

[Poésies — 1871]
____________________
Rimbaud livre, Introdução e Traduções de Augusto de Campos, edição bilíngue, com “iluminações” computadorizadas de Augusto de Campos & Arnaldo Antunes, 2ª edição da 2ª reimpressão de 1993, 2009, Coleção Signos, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), francês de Charleville, estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; recebeu influências de Victor Hugo, Georges Izambard seu professor de retórica , Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura e retomou a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 18731875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations, com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud morreu cinco anos depois, em 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.

sábado, 4 de janeiro de 2025

Rimbaud: O Barco Bêbado

 
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[traduzido por Augusto de Campos]

Quando eu atravessava os Rios impassíveis,
Senti-me libertar dos meus rebocadores.
Cruéis peles-vermelhas com uivos terríveis
Os espetaram nus em postes multicores.

Eu era indiferente à carga que trazia,
Gente, trigo flamengo ou algodão inglês.
Morta a tripulação e finda a algaravia,
Os Rios para mim se abriram de uma vez.

Imerso no furor do marulho oceânico,
No inverno, eu, surdo como um cérebro infantil,
Deslizava, enquanto as Penínsulas em pânico
Viam turbilhonar marés de verde e anil.

O vento abençoou minhas manhãs marítimas.
Mais leve que uma rolha eu dancei nos lençóis
Das ondas a rolar atrás de suas vítimas,
Dez noites, sem pensar nos olhos dos faróis!

Mais doce que as maçãs parecem aos pequenos,
A água verde infiltrou-se no meu casco ao léu
E das manchas azulejantes dos venenos
E vinhos me lavou, livre de leme e arpéu.

Então eu mergulhei nas águas do Poema
Do Mar, sarcófago de estrelas, latescente,
Devorando os azuis, onde às vezes — dilema
Lívido — um afogado afunda lentamente;

Onde, tingindo azulidades com quebrantos
E ritmos lentos sob o rutilante albor,
Mais fortes que o álcool, mais vastas que os nossos prantos,
Fermentam de amargura as rubéolas do amor!

Conheço os céus crivados de clarões, as trombas,
Ressacas e marés: conheço o entardecer,
A Aurora em explosão como um bando de pombas,
E algumas vezes vi o que o homem quis ver!

Eu vi o sol baixar, sujo de horrores místicos,
Iluminando os longos glaciais;
Como atrizes senis em palcos cabalísticos,
Ondas rolando ao longe os frêmitos de umbrais!

Sonhei que a noite verde em neves alvacentas
Beijava, lenta, o olhar dos mares com mil coros,
Soube a circulação das seivas suculentas
E o acordar louro e azul dos fósforos canoros!

Por meses eu segui, tropel de vacarias
Histéricas, o mar estuprando as areias,
Sem esperar que aos pés de ouro das Marias
Esmorecesse o ardor dos Oceanos sem peias!

Cheguei a visitar as Flóridas perdidas
Com olhos de jaguar florindo em epidermes
De homens! Arco-íris tensos como bridas
No horizonte do mar de glaucos paquidermes.

Vi fermentarem pântanos imensos, ansas
Onde apodrecem Leviatãs distantes!
O desmoronamento da água nas bonanças
E abismos a se abrir no caos, cataratantes!

Geleiras, sóis de prata, ondas e céus cadentes!
Naufrágios abissais na tumba dos negrumes,
Onde, pasto de insetos, tombam as serpentes
Dos curvos cipoais, com pérfidos perfumes!

Ah! se as crianças vissem o dourar das ondas,
Áureos peixes do mar azul, peixes cantantes...
— As espumas em flor ninaram minhas rondas
E as brisas da ilusão me alaram por instantes.

Mártir de pólos e de zonas misteriosas,
O mar a soluçar cobria os meus artelhos
Com flores fantasmais de pálidas ventosas
E eu, como uma mulher, me punha de joelhos...

Quase ilha a balouçar entre borras e brados
De gralhas tagarelas com olhar de gelo,
Eu vogava, e por minha rede os afogados
Passavam, a dormir, descendo a contrapelo.

Mas eu, barco perdido em baías e danças,
Lançado no ar sem pássaros pela torrente,
De quem os Monitores e os arpões das Hansas
Não teriam pescado o casco de água ardente;

Livre, fumando em meio às virações inquietas,
Eu que furava o céu violáceo como um muro
Que mancham, acepipe raro aos bons poetas,
Líquens de sol e vômitos de azul escuro;

Prancha louca a correr com lúnulas e faíscas
E hipocampos de breu, numa escolta de espuma,
Quando os sóis estivais estilhaçam em riscas
O céu ultramarino e seus funis de bruma;

Eu que tremia ouvindo, ao longe, a estertorar,
O cio dos Behemóts e dos Maelstroms febris,
Fiandeiro sem fim dos marasmos do mar,
Anseio pela Europa e os velhos peitoris!

Eu vi os arquipélagos astrais! e as ilhas
Que o delírio dos céus desvela ao viajor:
É nas noites sem cor que te esqueces e te ilhas,
Milhão de aves de ouro, ó futuro Vigor?

Sim, chorar eu chorei! São mornas as Auroras!
Toda lua é cruel e todo sol, engano:
O amargo amor opiou de ócios minhas horas.
Ah! que esta quilha rompa! Ah! que me engula o oceano!

Da Europa a água que eu quero é só o charco
Negro e gelado onde, ao crepúsculo violeta,
Um menino tristonho arremesse o seu barco
Trêmulo como a asa de uma borboleta.

No meu torpor, não posso, ó vagas, as esteiras
Ultrapassar das naves cheias de algodões,
Nem vencer a altivez das velas e bandeiras,
Nem navegar sob o olho torvo dos pontões.

Arthur Rimbaud

Le Bateau Ivre

Comme je descendais des Fleuves impassibles,
Je ne me sentis plus guidé par les haleurs:
Des Peaux-Rouges criards les avaient pris pour cibles,
Les ayant cloués nus aux poteaux de couleurs.

J'étais insoucieux de tous les équipages,
Porteur de blés flamands ou de cotons anglais.
Quand avec mes haleurs ont fini ces tapages,
Les Fleuves m'ont laissé descendre où je voulais.

Dans les clapotements furieux des marées,
Moi, l'autre hiver, plus sourd que les cerveaux d'enfants,
Je courus! Et les Péninsules démarrées
N'ont pas subi tohu-bohus plus triomphants.

La tempête a béni mes éveils maritimes.
Plus léger qu'un bouchon j'ai dansé sur les flots
Qu'on appelle rouleurs éternels de victimes,
Dix nuits, sans regretter l'oeil niais des falots!

Plus douce qu'aux enfants la chair des pommes sures,
L'eau verte pénétra ma coque de sapin
Et des taches de vins bleus et des vomissures
Me lava, dispersant gouvernail et grappin.

Et dès lors, je me suis baigné dans le Poème
De la Mer, infusé d'astres, et lactescent,
Dévorant les azurs verts; où, flottaison blême
Et ravie, un noyé pensif parfois descend;

Où, teignant tout à coup les bleuités, delires
Et rythmes lents sous les rutilements du jour,
Plus fortes que l'alcool, plus vastes que nos lyres,
Fermentent les rousseurs amères de l'amour!

Je sais les cieux crevant en éclairs, et les trombes
Et les ressacs et les courants: Je sais le soir,
L'Aube exaltée ainsi qu'un peuple de colombes,
Et j'ai vu quelquefois ce que l'homme a cru voir!

J'ai vu le soleil bas, taché d'horreurs mystiques,
Illuminant de longs figements violets,
Pareils à des acteurs de drames très-antiques
Les flots roulant au loin leurs frissons de volets!

J'ai rêvé la nuit verte aux neiges éblouies,
Baiser montant aux yeux des mers avec lenteurs,
La circulation des sèves inouïes,
Et l'éveil jaune et bleu des phosphores chanteurs!

J'ai suivi, des mois pleins, pareille aux vacheries
Hystériques, la houle à l'assaut des récifs,
Sans songer que les pieds lumineux des Maries
Pussent forcer le mufle aux Océans poussifs!

J'ai heurté, savez-vous, d'incroyables Florides
Mêlant aux fleurs des yeux de panthères à peaux
D'hommes! Des arcs-en-ciel tendus comme des brides
Sous l'horizon des mers, à de glauques troupeaux!

J'ai vu fermenter les marais énormes, nasses
Où pourrit dans les joncs tout un Léviathan!
Des écroulements d'eau au milieu des bonaces,
Et les lointains vers les gouffres cataractant!

Glaciers, soleils d'argent, flots nacreux, cieux de braises!
Échouages hideux au fond des golfes bruns
Où les serpents géants dévorés de punaises
Choient, des arbres tordus, avec de noirs parfums!

J'aurais voulu montrer aux enfants ces dorades
Du flot bleu, ces poissons d'or, ces poissons chantants.
— Des écumes de fleurs ont bercé mes dérades
Et d'ineffables vents m'ont ailé par instants.

Parfois, martyr lassé des pôles et des zones,
La mer dont le sanglot faisait mon roulis doux
Montait vers moi ses fleurs d'ombres aux ventouses jaunes
Et je restais, ainsi qu'une femme à genoux...

Presque île, balottant sur mes bords les quereles
Et les fientes d'oiseaux clabaudeurs aux yeux blonds.
Et je voguais, lorsqu'à travers mes liens frêles
Des noyés descendaient dormir, à reculons!

Or moi, bateau perdu sous les cheveux des anses,
Jeté par l'ouragan dans l'éther sans oiseau,
Moi dont les Monitors et les voiliers des Hanses
N'auraient pas repêché la carcasse ivre d'eau;

Libre, fumant, monté de brumes violettes,
Moi qui trouais le ciel rougeoyant comme un mur
Qui porte, confiture exquise aux bons poètes,
Des lichens de soleil et des morves d'azur;

Qui courais, taché de lunules électriques,
Planche folle, escorté des hippocampes noirs,
Quand les juillets faisaient crouler à coups de triques
Les cieux ultramarins aux ardents entonnoirs;

Moi qui tremblais, sentant geindre à cinquante lieues
Le rut des Béhémots et les Maelstroms épais,
Fileur éternel des immobilités bleues,
Je regrette l'Europe aux anciens parapets!

J'ai vu des archipels sidéraux! et des îles
Dont les cieux délirants sont ouverts au vogueur:
Est-ce en ces nuits sans fond que tu dors et t'exiles,
Million d'oiseaux d'or, ô future Vigueur?

Mais, vrai, j'ai trop pleuré! Les Aubes sont navrantes.
Toute lune est atroce et tout soleil amer:
L'âcre amour m'a gonflé de torpeurs enivrantes.
Ô que ma quille éclate! Ô que j'aille à la mer!

Si je désire une eau d'Europe, c'est la flache
Noire et froide où vers le crépuscule embaumé
Un enfant accroupi plein de tristesses, lâche
Un bateau frêle comme un papillon de mai.

Je ne puis plus, baigné de vos langueurs, ô lames,
Enlever leur sillage aux porteurs de cotons,
Ni traverser l'orgueil des drapeaux et des flammes,
Ni nager sous les yeux horribles des pontons.

[1871]
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Rimbaud livre, Introdução e Traduções de Augusto de Campos, edição bilíngue, com “iluminações” computadorizadas de Augusto de Campos & Arnaldo Antunes, 2ª edição da 2ª reimpressão de 1993, 2009, Coleção Signos, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), francês de Charleville, estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; recebeu influências de Victor Hugo, Georges Izambard seu professor de retórica , Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura e retomou a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 18731875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations, com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud morreu cinco anos depois, em 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.