
____________________
( A Mário Matos)
O peixe no anzol
é kierkegaardiano.
(O pescador não sabe,
só está ufano).
O caniço é a tese,
a linha é pesquisa:
o pescador pesca
em mangas de camisa.
O rio passa,
por isso é impassível:
o que a água faz
é querer seu nível.
O pescador ao sol,
o peixe no rio:
dos dois, ele só
guarda o sangue frio.
O caniço, então,
se sente infeliz:
é o traço de união
entre dois imbecis.

* Nota deste aprendiz de blogueiro: Em alguns poemas (inéditos ou publicados em colunas nos jornais, em 1961), Guimarães Rosa, ou J. Guimarães Rosa, faz uso de nomes anagramáticos (Soares Guiamar, Sá Araújo Ségrim, Meuriss Aragão, Romaguari Sães) para dar autoria à sua criação. Tais menções constam em textos de Ave, palavra.
____________________
Ave, palavra — Guimarães Rosa, Nota
Introdutória de Paulo Rónai, 1970, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro — RJ; João Guimarães Rosa (1908 — 1967), mineiro de
Cordisburgo, formado em Medicina, foi diplomata, escritor e também poeta;
seu único livro de poesias, Magma (1936), participou de um concurso poético
promovido pela Academia Brasileira de Letras, também nesse ano, e, embora tendo
sido premiado com louvor em primeiríssimo lugar, permaneceu inédito até a
década de 90, sessenta anos após; Guimarães Rosa, além de Magma, escreveu
e publicou Sagarana (contos, 1946), Corpo de Baile (ciclo novelesco,
2 volumes, 1956), Manuelzão e Miguilim (1964), Noites do
Sertão (1965), Grande sertão: Veredas (romance, 1956), Primeiras
estórias (contos, 1962), Campo geral (1964), Tutameia —
Terceiras estórias (contos, 1967), os postumamente
editados Estas estórias (contos, 1969) e Ave,
palavra (diversos escritos: crônicas, poemas, 1970) etc.;
colaborou no Correio da Manhã, no suplemento Letras e
Artes de A Manhã, n’O Globo e na revista Pulso; seus livros
foram traduzidos no exterior (França, Itália, Estados Unidos, Canadá, Alemanha,
Espanha, Polônia, Holanda e Checoslováquia).
