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domingo, 11 de janeiro de 2026

Manuel António Pina: Teoria das cordas

 
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Não era isso que eu queria dizer,
queria dizer que na alma
(tu é que falaste na alma),
no fundo da alma e no fundo
da ideia de alma, há talvez
alguma vibrante música física
que só a Matemática ouve,
a mesma música simétrica que dançam
o quarto, o silêncio,
a memória, a minha voz acordada,
a tua mão que deixou tombar o livro
sobre a cama, o teu sonho, a coisa sonhada;
e que o sentido que tudo isto possa ter
é ser assim e não diferentemente,
um vazio no vazio, vagamente ciente
de si, não haver resposta
nem segredo.

(Atropelamento e fuga — 2001)

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Manuel António Pina: O coração pronto para o roubo — poemas escolhidos, Seleção, Organização e Posfácio de Leonardo Gandolfi e Apresentação [orelha da capa] de Tarso de Melo, 1ª edição, 2018, Editora 34, São Paulo — SP; Manuel António Pina (1943 2012), português de Sabugal, formou-se em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, foi advogado, jornalista, dramaturgo, poeta, cronista e autor de livros infantis; trabalhou por três décadas no Jornal de Notícias, no Porto, cidade onde viveu desde a idade de dezessete anos; também colaborou com o Jornal de Música e com a revista Notícias Magazine; suas obras: em poesia, Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calmo é apenas um pouco tarde (1974), Aquele que quer morrer (1978), A lâmpada do quarto? A criança? (1981), O pássaro da cabeça (1983), Nenhum sítio (1984), O caminho de casa (1989), Um sítio onde pousar a cabeça (1991), Farewell happy fields (1993), Cuidados intensivos (1994), Nenhuma palavra e nenhuma lembrança (1999), Atropelamento e fuga (2001), Os livros (2003), Como se desenha uma casa (2011) etc., em prosa, Os papéis de K (novela, 2003), O anacronista (crônicas, 1994), Porto, modo de dizer (crônicas, 2002), Dito em voz alta (coletânea de entrevistas concedidas pelo poeta, 2007), Por outras palavras & mais crônicas de jornal (2010), Crónica, saudade da literatura (antologia, publicação póstuma, 2013), para teatro e literatura infantil, O país das pessoas de pernas para o ar (1973), Gigões & Anantes (1974), O inventão (1987), entre outros textos em verso e prosa; teve sua obra difundida em diversos países e idiomas: França (francês e corso), Estados Unidos, Espanha (espanhol, galego e catalão), Dinamarca, Alemanha, Países Baixos, Rússia, Croácia e Bulgária; foi premiado diversas vezes, tendo sido laureado, em 2011, com o Prêmio Camões, a maior honraria para autores em língua portuguesa.

terça-feira, 12 de agosto de 2025

Manuel António Pina: Na morte de Mao

 
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De onde vêm as lágrimas justas, o cansaço
de Wang Hai-jung durante as reuniões de domingo?
A guerra gera as coisas boas,
a pura paz espera os soldados.

As lágrimas caem do céu? Não.
Quando acaba a contradição entram em casa a morte,
as flores, as lágrimas das mulheres.
Aquele que morreu não o saberá nunca.

A morte é propriedade dos vivos,
aquele que morreu já não vive nem está morto.
O processo antigo está terminado e inicia-se o novo:
movimento mecânico, som, luz, calor, electricidade, decomposição,
combinação, etc.

9 de setembro de 1976
Slim da Silva [heterônimo do poeta]
(Aquele que quer morrer — 1978)

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Manuel António Pina: O coração pronto para o roubo — poemas escolhidos, Seleção, Organização e Posfácio de Leonardo Gandolfi e Apresentação [orelha da capa] de Tarso de Melo, 1ª edição, 2018, Editora 34, São Paulo — SP; Manuel António Pina (1943 2012), português de Sabugal, formou-se em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, foi advogado, jornalista, dramaturgo, poeta, cronista e autor de livros infantis; trabalhou por três décadas no Jornal de Notícias, no Porto, cidade onde viveu desde a idade de dezessete anos; também colaborou com o Jornal de Música e com a revista Notícias Magazine; suas obras: em poesia, Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calmo é apenas um pouco tarde (1974), Aquele que quer morrer (1978), A lâmpada do quarto? A criança? (1981), O pássaro da cabeça (1983), Nenhum sítio (1984), O caminho de casa (1989), Um sítio onde pousar a cabeça (1991), Farewell happy fields (1993), Cuidados intensivos (1994), Nenhuma palavra e nenhuma lembrança (1999), Atropelamento e fuga (2001), Os livros (2003), Como se desenha uma casa (2011) etc., em prosa, Os papéis de K (novela, 2003), O anacronista (crônicas, 1994), Porto, modo de dizer (crônicas, 2002), Dito em voz alta (coletânea de entrevistas concedidas pelo poeta, 2007), Por outras palavras & mais crônicas de jornal (2010), Crónica, saudade da literatura (antologia, publicação póstuma, 2013), para teatro e literatura infantil, O país das pessoas de pernas para o ar (1973), Gigões & Anantes (1974), O inventão (1987), entre outros textos em verso e prosa; teve sua obra difundida em diversos países e idiomas: França (francês e corso), Estados Unidos, Espanha (espanhol, galego e catalão), Dinamarca, Alemanha, Países Baixos, Rússia, Croácia e Bulgária; foi premiado diversas vezes, tendo sido laureado, em 2011, com o Prêmio Camões, a maior honraria para autores em língua portuguesa.

terça-feira, 15 de julho de 2025

Manuel António Pina: Já não é possível

 
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Já tudo é tudo. A perfeição dos
deuses digere o próprio estômago.
O rio da morte corre para a nascente.
O que é feito das palavras senão as palavras?

O que é feito de nós senão
as palavras que nos fazem?
Todas as coisas são perfeitas de
nós até ao infinito, somos pois divinos.

Já não é possível dizer mais nada
mas também não é possível ficar calado.
Eis o verdadeiro rosto do poema.
Assim seja feito: a mais e a menos.

(Ainda não é o fim nem o princípio do mundo
calma é apenas um pouco tarde — 1974)

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Manuel António Pina: O coração pronto para o roubo — poemas escolhidos, Apresentação [orelha da capa] de Tarso de Melo e Seleção e Posfácio de Leonardo Gandolfi, 1ª edição, 2018, Editora 34, São Paulo — SP; Manuel António Pina (1943 2012), português de Sabugal, formado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, foi advogado, jornalista, dramaturgo, poeta, cronista e autor de livros infantis; trabalhou por três décadas no Jornal de Notícias, no Porto, cidade onde viveu desde a idade de dezessete anos; também colaborou com o Jornal de Música e com a revista Notícias Magazine; suas obras: em poesia, Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calmo é apenas um pouco tarde (1974), Aquele que quer morrer (1978), A lâmpada do quarto? A criança? (1981), O pássaro da cabeça (1983), Nenhum sítio (1984), O caminho de casa (1989), Um sítio onde pousar a cabeça (1991), Farewell happy fields (1993), Cuidados intensivos (1994), Nenhuma palavra e nenhuma lembrança (1999), Atropelamento e fuga (2001), Os livros (2003), Como se desenha uma casa (2011) etc., em prosa, Os papéis de K (novela, 2003), O anacronista (crônicas, 1994), Porto, modo de dizer (crônicas, 2002), Por outras palavras & mais crônicas de jornal (2010), para teatro e literatura infantil, O país das pessoas de pernas para o ar (1973), Gigões & Anantes (1974), O inventão (1987), entre outros textos em verso e prosa; teve sua obra difundida em diversos países e idiomas: França (francês e corso), Estados Unidos, Espanha (espanhol, galego e catalão), Dinamarca, Alemanha, Países Baixos, Rússia, Croácia e Bulgária; foi premiado diversas vezes, tendo sido laureado, em 2011, com o Prêmio Camões, a maior honraria para autores em língua portuguesa.

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Manuel António Pina: O regresso

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Como quem, vindo de países distantes fora de
si, chega finalmente aonde sempre esteve
e encontra tudo no seu lugar,
o passado no passado, o presente no presente,
assim chega o viajante à tardia idade
em que se confundem ele e o caminho.

Entra então pela primeira vez na sua casa
e deita-se pela primeira vez na sua cama.
Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças,
cidades, estações do ano.
E come agora por fim um pão primeiro
sem o sabor de palavras estrangeiras na boca.

Como se desenha uma casa — 2011

Poesia, saudade da prosa – de Manuel António Pina (Parte III)
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Manuel António Pina: O coração pronto para o roubo — poemas escolhidos, Seleção e Posfácio de Leonardo Gandolfi, 2018, 1ª edição, Editora 34, São Paulo — SP; Manuel António Pina (1943 2012), português de Sabugal, licenciado em Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, foi advogado, jornalista, dramaturgo, poeta, cronista e autor de livros infantis; trabalhou por três décadas no Jornal de Notícias, do Porto, cidade onde viveu desde a idade de dezessete anos; colaborou com o Jornal de Música e com a revista Notícias Magazine; bibliografia: em poesia, Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calmo é apenas um pouco tarde (1974), Aquele que quer morrer (1978), A lâmpada do quarto? A criança? (1981), O pássaro da cabeça (1983), Nenhum sítio (1984), O caminho de casa (1989), Um sítio onde pousar a cabeça (1991), Farewell happy fields (1993), Cuidados intensivos (1994), Nenhuma palavra e nenhuma lembrança (1999), Atropelamento e fuga (2001), Os livros (2003), Como se desenha uma casa (2011) etc., em prosa, Os papéis de K (novela, 2003), O anacronista (crônicas, 1994), Porto, modo de dizer (crônicas, 2002), Por outras palavras & mais crônicas de jornal (2010), para teatro e literatura infantil, O país das pessoas de pernas para o ar (1973), Gigões & Anantes (1974), O Inventão (1987), entre outros textos em verso e prosa; teve sua obra difundida em diversos países e idiomas: França (francês e corso), Estados Unidos, Espanha (espanhol, galego e catalão), Dinamarca, Alemanha, Países Baixos, Rússia, Croácia e Bulgária; foi premiado diversas vezes, tendo sido laureado, em 2011, com o Prêmio Camões, a maior honraria para autores em língua portuguesa.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Manuel António Pina: As coisas

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Há em todas as coisas uma mais-que-coisa
fitando-nos como se dissesse: "Sou eu",
algo que já lá não está ou se perdeu
antes da coisa, e essa perda é que é a coisa.
Em certas tardes altas, absolutas,
quando o mundo por fim nos recebe
como se também nós fôssemos mundo,
a nossa própria ausência é uma coisa.
Então acorda a casa e os livros imaginam-nos
do tamanho da sua solidão.
Também nós tivemos um nome
mas, se alguma vez o ouvimos, não o reconhecemos.

Como se desenha uma casa — 2011

Visão | Entrevista a Manuel António Pina
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Manuel António Pina: O coração pronto para o roubo — poemas escolhidos, Seleção e Posfácio de Leonardo Gandolfi, 2018, 1ª edição, Editora 34, São Paulo — SP; Manuel António Pina (1943 2012), português de Sabugal, licenciado em Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, foi advogado, jornalista, dramaturgo, poeta, cronista e autor de livros infantis; trabalhou por três décadas no Jornal de Notícias, do Porto, cidade onde viveu desde a idade de dezessete anos; colaborou com o Jornal de Música e com a revista Notícias Magazine; bibliografia: em poesia, Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calmo é apenas um pouco tarde (1974), Aquele que quer morrer (1978), A lâmpada do quarto? A criança? (1981), O pássaro da cabeça (1983), Nenhum sítio (1984), O caminho de casa (1989), Um sítio onde pousar a cabeça (1991), Farewell happy fields (1993), Cuidados intensivos (1994), Nenhuma palavra e nenhuma lembrança (1999), Atropelamento e fuga (2001), Os livros (2003), Como se desenha uma casa (2011) etc., em prosa, Os papéis de K (novela, 2003), O anacronista (crônicas, 1994), Porto, modo de dizer (crônicas, 2002), Por outras palavras & mais crônicas de jornal (2010), para teatro e literatura infantil, O país das pessoas de pernas para o ar (1973), Gigões & Anantes (1974), O Inventão (1987), entre outros textos em verso e prosa; teve sua obra difundida em diversos países e idiomas: França (francês e corso), Estados Unidos, Espanha (espanhol, galego e catalão), Dinamarca, Alemanha, Países Baixos, Rússia, Croácia e Bulgária; foi premiado diversas vezes, tendo sido laureado, em 2011, com o Prêmio Camões, a maior honraria para autores em língua portuguesa.

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Manuel António Pina: O retrato

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O menino que caiu da moldura do retrato
como quem tomba da varanda à rua
onde está?, em que lembrança sua
ou em que sepultura do passado,

sufocado, com a boca atafulhada ainda de sonhos?
O seu nome é agora menos um nome que uma doença rara
que te desfigurou a cara, uma doença sem nome e sem cura;
cabereis os dois na mesma sepultura?

De todos os meus sonhos o mais insone é este,
o de alguém perguntando por um estranho
algures, onde o Lexotan se tornou literatura.
Caberemos todos na mesma sepultura?

Como se desenha uma casa — 2011

Caras | Morreu Manuel António Pina
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Manuel António Pina: O coração pronto para o roubo — poemas escolhidos, Seleção e Posfácio de Leonardo Gandolfi, 2018, 1ª edição, Editora 34, São Paulo — SP; Manuel António Pina (1943 2012), português de Sabugal, licenciado em Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, foi advogado, jornalista, dramaturgo, poeta, cronista e autor de livros infantis; trabalhou por três décadas no Jornal de Notícias, do Porto, cidade onde viveu desde a idade de dezessete anos; colaborou com o Jornal de Música e com a revista Notícias Magazine; bibliografia: em poesia, Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calmo é apenas um pouco tarde (1974), Aquele que quer morrer (1978), A lâmpada do quarto? A criança? (1981), O pássaro da cabeça (1983), Nenhum sítio (1984), O caminho de casa (1989), Um sítio onde pousar a cabeça (1991), Farewell happy fields (1993), Cuidados intensivos (1994), Nenhuma palavra e nenhuma lembrança (1999), Atropelamento e fuga (2001), Os livros (2003), Como se desenha uma casa (2011) etc., em prosa, Os papéis de K (novela, 2003), O anacronista (crônicas, 1994), Porto, modo de dizer (crônicas, 2002), Por outras palavras & mais crônicas de jornal (2010), para teatro e literatura infantil, O país das pessoas de pernas para o ar (1973), Gigões & Amantes (1974), O Inventão (1987), entre outros textos em verso e prosa; teve sua obra difundida em diversos países e idiomas: França (francês e corso), Estados Unidos, Espanha (espanhol, galego e catalão), Dinamarca, Alemanha, Países Baixos, Rússia, Croácia e Bulgária; foi premiado diversas vezes, tendo sido laureado, em 2011, com o Prêmio Camões, a maior honraria para autores em língua portuguesa.

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Manuel António Pina: A ferida

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Real, real porque me abandonaste?
E, no entanto, às vezes bem preciso
De entregar nas tuas mãos o meu espírito
E que, por um momento, baste

que seja feita a tua vontade
para tudo de novo ter sentido,
não digo a vida, mas ao menos o vivido,
nomes e coisas, livre arbítrio, causalidade.

Oh, juntar os pedaços de todos os livros
e desimaginar o mundo, descriá-lo,
amarrado ao mastro mais altivo
do passado! Mas onde encontrar um passado?

Os livros — 2003

16 poemas de Manuel António Pina by PubliLetras - issuu
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Manuel António Pina: O coração pronto para o roubo — poemas escolhidos, Seleção e Posfácio de Leonardo Gandolfi, 2018, 1ª edição, Editora 34, São Paulo — SP; Manuel António Pina (1943 2012), português de Sabugal, licenciado em Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, foi advogado, jornalista, dramaturgo, poeta, cronista e autor de livros infantis; trabalhou por três décadas no Jornal de Notícias, do Porto, cidade onde viveu desde a idade de dezessete anos; colaborou com o Jornal de Música e com a revista Notícias Magazine; bibliografia: em poesia, Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calmo é apenas um pouco tarde (1974), Aquele que quer morrer (1978), A lâmpada do quarto? A criança? (1981), O pássaro da cabeça (1983), Nenhum sítio (1984), O caminho de casa (1989), Um sítio onde pousar a cabeça (1991), Farewell happy fields (1993), Cuidados intensivos (1994), Nenhuma palavra e nenhuma lembrança (1999), Atropelamento e fuga (2001), Os livros (2003), Como se desenha uma casa (2011) etc., em prosa, Os papéis de K (novela, 2003), O anacronista (crônicas, 1994), Porto, modo de dizer (crônicas, 2002), Por outras palavras & mais crônicas de jornal (2010), para teatro e literatura infantil, O país das pessoas de pernas para o ar (1973), Gigões & Amantes (1974), O Inventão (1987), entre outros textos em verso e prosa; teve sua obra difundida em diversos países e idiomas: França (francês e corso), Estados Unidos, Espanha (espanhol, galego e catalão), Dinamarca, Alemanha, Países Baixos, Rússia, Croácia e Bulgária; foi premiado diversas vezes, tendo sido laureado, em 2011, com o Prêmio Camões, a maior honraria para autores em língua portuguesa.

domingo, 7 de junho de 2020

Manuel António Pina: Todas as palavras

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As que procurei em vão,
principalmente as que estiveram muito perto,
como uma respiração,
e não reconheci,
ou desistiram e
partiram para sempre,
deixando no poema uma espécie de mágoa
como uma marca de água impresente;
as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te
nem foram capazes de dizer-me;
as que calei por serem muito cedo,
e as que calei por serem muito tarde,
e agora, sem tempo, me ardem;
as que troquei por outras (como poderei
esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);
as que perdi, verbos e
substantivos de que
por um momento foi feito o mundo
e se foram levando o mundo.
E também aquelas que ficaram,
por cansaço, por inércia, por acaso,
e com quem agora, como velhos amantes sem
desejo, desfio memórias,
as minhas últimas palavras.

Atropelamento e fuga — 2001

Jornadas internacionais homenageiam Manuel António Pina - beira.pt
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Manuel António Pina: O coração pronto para o roubo — poemas escolhidos, Seleção e Posfácio de Leonardo Gandolfi, 2018, 1ª edição, Editora 34, São Paulo — SP; Manuel António Pina (1943 2012), português de Sabugal, licenciado em Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, foi advogado, jornalista, dramaturgo, poeta, cronista e autor de livros infantis; trabalhou por três décadas no Jornal de Notícias, do Porto, cidade onde viveu desde a idade de dezessete anos; colaborou com o Jornal de Música e com a revista Notícias Magazine; bibliografia: em poesia, Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calmo é apenas um pouco tarde (1974), Aquele que quer morrer (1978), A lâmpada do quarto? A criança? (1981), O pássaro da cabeça (1983), Nenhum sítio (1984), O caminho de casa (1989), Um sítio onde pousar a cabeça (1991), Farewell happy fields (1993), Cuidados intensivos (1994), Nenhuma palavra e nenhuma lembrança (1999), Atropelamento e fuga (2001), Os livros (2003), Como se desenha uma casa (2011) etc., em prosa, Os papéis de K (novela, 2003), O anacronista (crônicas, 1994), Porto, modo de dizer (crônicas, 2002), Por outras palavras & mais crônicas de jornal (2010), para teatro e literatura infantil, O país das pessoas de pernas para o ar (1973), Gigões & Amantes (1974), O Inventão (1987), entre outros textos em verso e prosa; teve sua obra difundida em diversos países e idiomas: França (francês e corso), Estados Unidos, Espanha (espanhol, galego e catalão), Dinamarca, Alemanha, Países Baixos, Rússia, Croácia e Bulgária; foi premiado diversas vezes, tendo sido laureado, em 2011, com o Prêmio Camões, a maior honraria para autores em língua portuguesa.

domingo, 23 de junho de 2019

Manuel António Pina: Neste preciso tempo, neste preciso lugar

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No princípio era o Verbo
(e os açúcares
e os aminoácidos).
Depois foi o que se sabe.
Agora estou debruçado
da varanda de um 3° andar
e todo o Passado
vem exactamente desaguar
neste preciso tempo, neste preciso lugar,
no meu preciso modo e no meu preciso estado!

Todavia em vez de metafísica
ou de biologia
dá-me para a mais inespecífica
forma de melancolia:
poesia nem por isso lírica
nem por isso provavelmente poesia.
Pois que faria eu com tanto Passado
senão passar-lhe ao lado,
deitando-lhe o enviesado
olhar da ironia?

Por onde vens, Passado,
pelo vivido ou pelo sonhado?
Que parte de ti me pertence,
a que se lembra ou a que esquece?
Lá em baixo, na rua, passa para sempre
gente indefinidamente presente,
entrando na minha vida
por uma porta de saída
que dá já para a memória.
Também eu (isto) não tenho história
senão a de uma ausência
entre indiferença e indiferença.

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Manuel António Pina: O coração pronto para o roubo — poemas escolhidos, Seleção e posfácio de Leonardo Gandolfi, 2018, 1ª edição, Editora 34, São Paulo — SP; Manuel António Pina (1943 2012), português de Sabugal, licenciado em Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, foi advogado, jornalista, dramaturgo, poeta, cronista e autor de livros infantis; trabalhou por três décadas no Jornal de Notícias, do Porto, cidade onde viveu desde a idade de dezessete anos; colaborou com o Jornal de Música e com a revista Notícias Magazine; bibliografia: em poesia, Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calmo é apenas um pouco tarde (1974), Aquele que quer morrer (1978), A lâmpada do quarto? A criança? (1981), O pássaro da cabeça (1983), Nenhum sítio (1984), O caminho de casa (1989), Um sítio onde pousar a cabeça (1991), Farewell happy fields (1993), Cuidados intensivos (1994), Nenhuma palavra e nenhuma lembrança (1999), Atropelamento e fuga (2001), Os livros (2003), Como se desenha uma casa (2011) etc., em prosa, Os papéis de K (novela, 2003), O anacronista (crônicas, 1994), Porto, modo de dizer (crônicas, 2002), Por outras palavras & mais crónicas de jornal (2010), para teatro e literatura infantil, O país das pessoas de pernas para o ar (1973), Gigões & Amantes (1974), O Inventão (1987), entre outros textos em verso e prosa; teve sua obra difundida em diversos países e idiomas: França (francês e corso), Estados Unidos, Espanha (espanhol, galego e catalão), Dinamarca, Alemanha, Países Baixos, Rússia, Croácia e Bulgária; foi premiado diversas vezes, tendo sido laureado, em 2011, com o Prêmio Camões, a maior honraria para autores em língua portuguesa.