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[traduzido por Oswaldino Marques]
Meu filhinho, de olhos cismarentos,
Que andava e falava com um jeito
manso de gente grande,
Por haver contrariado, pela sétima
vez, a minha lei,
Conheceu o rigor do meu braço, após
o que despedi-o
Com ríspidas palavras e sem o beijo
de sempre,
Pois, sua mãe, que era paciente, já
se fora dentre os vivos.
Receoso, depois, de que a mágoa lhe
frustrasse o sono,
Fui vê-lo, no leito,
Mas o encontrei a dormir
profundamente,
As olheiras acentuadas, as pestanas
ainda
Orvalhadas do pranto recente.
E eu, entre queixas,
A beijá-lo para apagar-lhe as
lágrimas,
Ia-lhe esparzindo outras, das
minhas próprias órbitas.
É que, numa mesa arrastada para
junto da cabeceira,
Ele pusera, ao alcance da mão,
Um estojo de fichas, uma pedra de
veios sanguíneos,
Uma folha de relva macerada pelo
pêssego,
Seis ou sete conchas.
Uma garrafa com campânulas azuis
E duas moedas francesas, de cobre,
— Tudo disposto com escrupulosa
arte,
Para confortar seu coração
pesaroso.
Assim, nessa noite, ao elevar a
Deus
Minhas preces, chorei, e disse:
Ah, quando, afinal, estivermos a
expirar, como em transe,
Já, no regaço da morte, não mais.
Te aperreando,
E Te acudirem à memória os
brinquedos
Que fizeram a nossa alegria,
E como imperfeitamente compreendemos
O supremo bem de Teus mandamentos,
Então, não menos paternal
Do que eu, por Tuas mãos modelado
com a argila,
Deixarás de lado a Tua ira e dirás:
“Coitadinhos por suas criancices.”
The Toys
My little son, who look'd from thoughtful eyes
And moved and spoke in quiet grown-up wise,
Having my law the seventh time disobey'd,
I struck him, and dismiss'd
With hard words and unkiss'd, —
His mother, who was patient, being dead —
Then, fearing lest his grief should hinder sleep,
I visited his bed,
But found him slumbering deep,
With darken'd eyelids, and their lashes yet
From his late sobbing wet.
And I, with moan,
Kissing away his tears, left others of my own;
For, on a table drawn beside his head,
He had put, within his reach,
A box of counters, and a red-vein'd stone,
A piece of grass abraded by the peach,
And six or seven shells,
A bottle with bluebells,
And two French copper coins, ranged there with careful
art,
To comfort his sad heart.
So when that night I pray'd
To God, I wept, and said:
Ah, when at last we lie with trancèd breath,
Not vexing Thee in death,
And Thou rememberest of what toys
We made our joys,
How weakly understood,
Thy great commanded good,
Then, fatherly not less
Than I whom Thou hast moulded from the clay,
Thou'lt leave Thy wrath, and say,
“I will be sorry for their childishness.”
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Poemas Famosos de Língua Inglesa [diversas
autorias], edição bilíngue, Compilação, Tradução, Prefácios das 1ª e 2ª edições
e Notas de Oswaldino Marques, Coleção Antologia de Poetas Universais — volume 599,
1968, Edições de Ouro, Rio de Janeiro — RJ; Coventry Kersey Dighton Patmore (1823
— 1896), inglês de Woodford, Essex, nascido em “família literária”, foi poeta do
período vitoriano, crítico e ensaísta de artes, participante do grupo dos pré-rafaelitas
e colaborador do The Germ [periódico do grupo]; trabalhou por 19 anos na Biblioteca
do Museu Britânico em Londres, suas obras: Poems (livro de estréia, 1844), Tamerton
Church Tower (Torre da Igreja de Tamerton, 1853), The Angel in the House (O anjo
na casa, 4 volumes: The Betrothal [O Noivado, 1854], The Espousals [Os Esponsais,
1856], Faithful for Ever [Fiéis para Sempre, 1860] e The Victories of Love [As Vitórias
do Amor, 1862]), The Unknown Eros and Other Odes (O Eros desconhecido e outras odes, 1877), Amelia [+
essay on English Metrical Law] (Amelia + ensaio sobre a métrica inglesa, 1878),
Principles in Art (ensaios, Princípios na Arte, 1889), Religio Poetae (ensaios,
A Religião do Poeta, 1893), The Rod, the Root, and the Flower (coletânea de aforismos:
A Vara, A Raiz e a Flor, 1895); Coventry Patmore se converteu ao catolicismo romano
em 1864; suas obras poéticas foram reunidas e lançadas em 1886, incluindo “um apêndice
sobre a métrica inglesa”.