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sábado, 11 de outubro de 2025

Coventry Patmore: Brinquedos

 
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[traduzido por Oswaldino Marques]

Meu filhinho, de olhos cismarentos,
Que andava e falava com um jeito manso de gente grande,
Por haver contrariado, pela sétima vez, a minha lei,
Conheceu o rigor do meu braço, após o que despedi-o
Com ríspidas palavras e sem o beijo de sempre,
Pois, sua mãe, que era paciente, já se fora dentre os vivos.
Receoso, depois, de que a mágoa lhe frustrasse o sono,
Fui vê-lo, no leito,
Mas o encontrei a dormir profundamente,
As olheiras acentuadas, as pestanas ainda
Orvalhadas do pranto recente.
E eu, entre queixas,
A beijá-lo para apagar-lhe as lágrimas,
Ia-lhe esparzindo outras, das minhas próprias órbitas.
É que, numa mesa arrastada para junto da cabeceira,
Ele pusera, ao alcance da mão,
Um estojo de fichas, uma pedra de veios sanguíneos,
Uma folha de relva macerada pelo pêssego,
Seis ou sete conchas.
Uma garrafa com campânulas azuis
E duas moedas francesas, de cobre,
Tudo disposto com escrupulosa arte,
Para confortar seu coração pesaroso.
Assim, nessa noite, ao elevar a Deus
Minhas preces, chorei, e disse:
Ah, quando, afinal, estivermos a expirar, como em transe,
Já, no regaço da morte, não mais. Te aperreando,
E Te acudirem à memória os brinquedos
Que fizeram a nossa alegria,
E como imperfeitamente compreendemos
O supremo bem de Teus mandamentos,
Então, não menos paternal
Do que eu, por Tuas mãos modelado com a argila,
Deixarás de lado a Tua ira e dirás:
“Coitadinhos por suas criancices.”


The Toys

My little son, who look'd from thoughtful eyes
And moved and spoke in quiet grown-up wise,
Having my law the seventh time disobey'd,
I struck him, and dismiss'd
With hard words and unkiss'd,
His mother, who was patient, being dead
Then, fearing lest his grief should hinder sleep,
I visited his bed,
But found him slumbering deep,
With darken'd eyelids, and their lashes yet
From his late sobbing wet.
And I, with moan,
Kissing away his tears, left others of my own;
For, on a table drawn beside his head,
He had put, within his reach,
A box of counters, and a red-vein'd stone,
A piece of grass abraded by the peach,
And six or seven shells,
A bottle with bluebells,
And two French copper coins, ranged there with careful art,
To comfort his sad heart.
So when that night I pray'd
To God, I wept, and said:
Ah, when at last we lie with trancèd breath,
Not vexing Thee in death,
And Thou rememberest of what toys
We made our joys,
How weakly understood,
Thy great commanded good,
Then, fatherly not less
Than I whom Thou hast moulded from the clay,
Thou'lt leave Thy wrath, and say,
“I will be sorry for their childishness.”
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Poemas Famosos de Língua Inglesa [diversas autorias], edição bilíngue, Compilação, Tradução, Prefácios das 1ª e 2ª edições e Notas de Oswaldino Marques, Coleção Antologia de Poetas Universais — volume 599, 1968, Edições de Ouro, Rio de Janeiro — RJ; Coventry Kersey Dighton Patmore (1823 1896), inglês de Woodford, Essex, nascido em “família literária”, foi poeta do período vitoriano, crítico e ensaísta de artes, participante do grupo dos pré-rafaelitas e colaborador do The Germ [periódico do grupo]; trabalhou por 19 anos na Biblioteca do Museu Britânico em Londres, suas obras: Poems (livro de estréia, 1844), Tamerton Church Tower (Torre da Igreja de Tamerton, 1853), The Angel in the House (O anjo na casa, 4 volumes: The Betrothal [O Noivado, 1854], The Espousals [Os Esponsais, 1856], Faithful for Ever [Fiéis para Sempre, 1860] e The Victories of Love [As Vitórias do Amor, 1862]), The Unknown Eros and Other Odes (O Eros desconhecido e outras odes, 1877), Amelia [+ essay on English Metrical Law] (Amelia + ensaio sobre a métrica inglesa, 1878), Principles in Art (ensaios, Princípios na Arte, 1889), Religio Poetae (ensaios, A Religião do Poeta, 1893), The Rod, the Root, and the Flower (coletânea de aforismos: A Vara, A Raiz e a Flor, 1895); Coventry Patmore se converteu ao catolicismo romano em 1864; suas obras poéticas foram reunidas e lançadas em 1886, incluindo “um apêndice sobre a métrica inglesa”.