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Existiu uma mulher
Chamada de Eva Maria
Quitandeira talentosa
Que um dia mostraria
Sua força exemplar
Sua garra pra lutar
Sem descanso noite e
dia.
Sendo ela escrava forra
Conseguiu sua liberdade
Mas a marca do racismo
Não mudou sua verdade
Pois trabalho era tanto
Só ralando em todo canto
Sempre na dificuldade.
Para assim sobreviver
Na quitanda ela vendia
Todo tipo de hortaliça
E de fruta que exibia
Fosse a couve pra comer
A banana a oferecer
Na calçada ela estaria.
O seu nome foi ligado
Ao lugar de Bonsucesso
Sendo no Rio de Janeiro
Hoje faço seu regresso
Na memória da discórdia
Rua da Misericórdia
Onde o povo tinha
acesso.
Foi no século dezenove
Julho, dia dezesseis
Mil oitocentos e onze
Quando algo grande fez
Pela garra de lutar
Do direito conquistar
Com tamanha sensatez.
Nesse dia de trabalho
Arrumou seu tabuleiro
Com as frutas e verduras
Para conseguir dinheiro
Mas um bicho apareceu
Foi aí que aconteceu
Todo seu desenroleio.
Uma cabra correu solta
E as bananas agarrou
Foi saindo na carreira
Mas a Eva se arretou
E já foi saindo atrás
Bem nervosa por demais
Pela cabra que a roubou.
Segurando numa vara
Eva a cabra perseguiu
Mas puxou foi o nervoso
De um branco que isso
viu
Sendo o dono do animal
Quis sair de maioral
Mas a Eva reagiu.
José Inácio de Sousa
Era o nome do senhor
Que sentiu de achar ruim
Sem fazer nenhum pudor
Resolveu lhe estapear
Sem ao menos perguntar
O motivo causador.
Quando recebeu o tapa
Eva logo se mexeu
Deu o troco rapidinho
No senhor então bateu
Foi levada pra polícia
A danada da milícia
Que só branco defendeu.
Acontece que eram trinta
As pessoas que assistiam
E que vendo o ocorrido
Sem demora falariam
Em favor de Eva Maria
E da sua ousadia
A mulher defenderiam.
Olhe bem pra esse caso
Que negócio interessante
Pois o homem sendo
branco
Sendo rico e dominante
Já achou que ganharia
E que a Eva prenderia
Num estalo de instante.
Só que tanta gente junta
Teve força de falar
E pela favor de Eva
Foram sim testemunhar
Eva ainda abriu a boca
Diz até que ficou rouca
Pelo forte discursar.
Se você acha que é isso
E no fim que vai
pensando
Saiba que tem muito mais
Do que aqui vou te
falando
Preste muita atenção
Veja a baita da emoção
Que eu agora vou contando.
Como fosse muito pouca
Eva não ter sido presa
O desfecho foi maior
Do que só sair ilesa
Foi o branco
enclausurado
Por bater foi condenado
Na mais dura da certeza.
Imagina a raridade
Dum desfecho desse jeito
Porque nesse tempo torto
Branco que tinha direito
Sendo o preto renegado
Espancado e injustiçado
Sem favor de ser eleito.
A justiça brasileira
Nesse caso foi certeira
E por três meses prendeu
Sem considerar besteira
O senhor que era
agressor
Sem espaço pra valor
Sem respeito de
fronteira.
Depois que passou o
tempo
Ele então foi libertado
Mas na História do
Brasil
Isso sim ficou marcado
Como um caso de união
E de mobilização
Que nós temos memorado.
Imagine que coragem
Que essa Eva possuía
Por lutar pelo direito
Pelo que constituía
Sua fé na liberdade
Sua força na verdade
Que jamais ela escondia.
No passado do Brasil
No tempo da escravidão
Uma história como essa
Era sim revolução
Mas é fato que existiu
E que todo o povo viu
Mesmo sendo uma exceção.
É por isso que eu digo
Que ela teve um heroísmo
Pois sem medo de lutar
Enfrentou foi o racismo
Por saber que estava
certa
Se manteve sempre alerta
E peitou o vil machismo.
Ela foi Eva Maria
Pulso de trabalhadora
Por direito de viver
Incansável lutadora
Ela deu foi um exemplo
Que rompeu o véu do
tempo
E lhe fez mais
redentora.
Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis — Jarid Arraes, Prefácio de
Jaqueline Gomes de Barros, 1ª edição, selo Seguinte, Editora Schwarcz — São Paulo — SP; Jarid Arraes, nascida em
1991, cearense de Juazeiro do Norte, região do Cariri, é escritora, cordelista
e poeta; a cordelista Jarid, que recebeu influência do pai e também do avô,
ambos poetas de cordel e xilogravuristas, aos 20 anos teve seus textos
divulgados no blog Mulher Dialética; bibliografia: As Lendas de Dandara (prosa,
2015), Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis (2017), Um buraco em meu nome
(poesia, 2018) e Redemoinho em dia quente (contos, premiado pela Associação
Paulista de Críticos de Arte, 2019), além de dezenas de livretos de literatura
de cordel e cordéis para o público infantil; fixando residência em São Paulo, a
poeta criou o Clube da Escrita para Mulheres, foi colunista da revista Fórum e
passou a colaborar com as páginas Blogueiras Feministas e Blogueiras Negras;
Jarid Arraes teve sua obra As Lendas de Dandara traduzida para o idioma francês
e divulgada naquele país (Dandara et les esclaves libres, 2018).

