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sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Wisława Szymborska: No rio de Heráclito

 
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[traduzido por Regina Przybycien]

No rio de Heráclito
um peixe pesca os peixes,
um peixe corta um peixe com um peixe afiado,
um peixe constrói um peixe, um peixe mora num peixe,
um peixe foge de um peixe sitiado.

No rio de Heráclito
um peixe ama um peixe,
teus olhos diz brilham como os peixes no céu,
quero nadar contigo até o mar comum,
ó tu, a mais bela do cardume.

No rio de Heráclito
um peixe imaginou o peixe dos peixes,
um peixe se ajoelha ante um peixe, um peixe canta para um peixe,
e pede ao peixe um nado mais leve.

No rio de Heráclito
eu peixe único, eu peixe separado
(ao menos do peixe árvore e do peixe pedra)
escrevo, em momentos isolados, pequenos peixes
de escamas tão fugazmente prateadas
que talvez a escuridão pisque de embaraço.

(Sal 1962)

Wisława Szymborska

W rzece Heraklita

W rzece Heraklita
ryba łowi ryby,
ryba ćwiartuje rybę ostrą rybą,
ryba buduje rybę, ryba mieszka w rybie,
ryba ucieka z oblężonej ryby.

W rzece Heraklita
ryba kocha rybę,
twoje oczy powiada lśnią jak ryby w niebie,
chcę płynąć razem z tobą do wspólnego morza,
o najpiękniejsza z ławicy.

W rzece Heraklita
ryba wymyśliła rybę nad rybami,
ryba klęka przed rybą, ryba śpiewa rybie,
prosi rybę o lżejsze pływanie.

W rzece Heraklita
ja ryba pojedyncza, ja ryba odrębna
(choćby od ryby drzewa i ryby kamienia)
pisuję w poszczególnych chwilach małe ryby
w łusce srebrnej tak krótko,
że może to ciemność w zakłopotaniu mruga?

(Sól 1962)
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Wisława Szymborska: Um amor feliz [poemas], bilíngue — Seleção, Tradução e Prefácio por Regina Przybycien, 1ª edição, 2016, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Maria Wisława Anna Szymborska (1923 2012), polonesa de Kórnik, fez seus estudos escolares iniciais em Toruń, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, prosseguiu nos estudos de forma clandestina e passou a trabalhar em uma ferrovia, o que a livrou de ser deportada para território nazista, ora ocupado pelo Terceiro Reich, foi poeta, crítica literária e tradutora; de sua biografia, consta que Topielec. Poemat epiczny w II pieśniach, seu poema mais antigo, é datado de 28.02.1942; assim, Wisława deu início a seu processo criativo: em Cracóvia, trabalhou como editora assistente na revista quinzenal Świetlica Krakowska, criou suas primeiras ilustrações para livros (um manual para estudar inglês) e iniciou-se na literatura, com alguns contos e poemas; em 1945, com o fim da guerra, também em Cracóvia, a poeta foi parte importante na vida literária local, participou do grupo literário Ao Contrário, deu início ao curso de Filologia Polaca na Universidade Jaguelônica, depois mudou para Sociologia, desistiu dos estudos, casou, divorciou, colaborou com a revista Kultura (de literatura e política, publicada em Paris por emigrantes polacos), foi membro do Partido Comunista; suas obras: Dlatego żyjemy (Por isso vivemos, 1952), Pytania zadawane sobie (Pergunta que me faço, 1954), Wołanie do Yeti (Chamando por Yeti, 1957), Sól (Sal, 1962), Sto pociech (Muito divertido, 1967), Wszelki wypadek (Todo o caso, 1972), Wielka liczba (Um grande número, 1976), Ludzie na moście (Gente na ponte, 1986), Koniec i początek (Fim e começo, 1993), Chwila (Instante, 2002), Rymowanki dla dużych dzieci (Riminhas para crianças grandes, 2005), Dwukropek (Dois pontos, 2006), Tutaj (Aqui, 2009), Wystarczy (Chega, 2012) ...; seus livros foram traduzidos para 36 línguas, sendo a poeta polonesa que mais recebeu traduções no exterior; premiações: Prêmio Literário da Cidade de Cracóvia (Nagrodę Literacką Miasta Krakowa 1954, pelas obras Dlatego żyjemy e Pytania zadawane sobie), Prêmio Goethe (1991), Prêmio Nobel de Literatura (1996), Prêmio Niki de Literatura (2006), ...

domingo, 22 de novembro de 2020

Afonso Henriques Neto: Em Heráclito, com Borges

Afonso Henriques Neto - Coleção Ciranda da Poesia - 9788575112601 ...
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Heráclito desliza na manhã
em Nova York. O músculo do tráfego
(para dizer assim, vento prosaico)
no seu sonho relê sentença eterna
de que o mesmo rio duas vezes
nenhuma imagem verá
em suas águas. E esta gema de absoluto
(verdade, ficção da ironia?)
reverdescendo velhos poemas
é diadema urdido no poeta, flama e
destino, sangue do espírito, delírio
à mesa de Borges (negra Genebra),
punhal de um floral agosto,
irrevogável. Oh tigre cintilante
do sol-posto! Heráclito, nada
mas já espelho, Borges, infinito,
máscara a mastigar o próprio rosto.

SIP (Ser infinitas palavras 2001) [Avenida Eros], p. 133

Afonso Herinques Neto dialoga com heterônimo de Fernando Pessoa em ...
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Afonso Henriques Neto (Coleção Ciranda da Poesia), Estudo/Ensaio e Entrevista por Marcelo Santos, 2012, Editora UERJ — Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Guimaraens Neto, nascido em 1944, mineiro de Belo Horizonte, formado em Direito pela Universidade de Brasília (UnB), com doutorado na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), participante ativo do movimento político-cultural conhecido como poesia marginal da década de 1970, é professor, ensaísta, tradutor e poeta; morou e atuou em Brasília DF e atualmente vive no Rio de Janeiro; bibliografia: O misterioso ladrão de Tenerife (1ª edição em 1972), Restos & estrelas & fraturas (1ª edição em 1975), Ossos do paraíso (1981), Tudo nenhum (1985), Avenida Eros (1992), Piano mudo (1992), Abismo com violinos (1995), Eles devem ter visto o caos (1998), Ser infinitas palavras (2001), Cidade vertigem (ensaio poético, 2005), Fogo Alto: Catulo, Villon, Blake, Rimbaud, Huidobro, Lorca, Ginsberg (traduções, 2009), Uma cerveja no dilúvio (2011) e outros; participou de antologias.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Adelaide Petters Lessa: Heráclita

Resultado de imagem para quase poética do meu próximo adelaide petters lessa
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Orfã, cresceu com sua avó
francesa, desligada, nonchalante,
a placidez das plácidas.
Tout casse, tout lasse, tout passe.
O tempo era a carruagem
da tolerância. Laissez-faire, laissez aller.

Um bicho carpinteiro, o avô luso
sentia horror às mãos vadias:
 Se não tens o que fazer
a saia descostures e tornes a cosê-la.

Penélope de Portugal, a jovenzinha
passou de roca-e-fuso a um tear elétrico
e a um micro digital, plug and play, delete,
que o ir e vir da Nasa é retorno santo.

O namorado, sobre a ponte, fez notar
que rio nenhum é o mesmo, onda nenhuma
se eleva e cai igual à outra
para nenhum surfista.

Então ela se vai
de namorado em namorado,
cíclica, ardendo como buscapé,
que o ir e vir da Lua é trabalho
para a maré.

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Quase poética do meu próximo — Adelaide Petters Lessa, 2000, Escrituras Editora, São Paulo — SP; Adelaide Petters Lessa, nascida em 1926, paulista e paulistana, licenciada em Pedagogia e doutora em Ciências Humanas (ambas pela USP-SP), é educadora, psicóloga clínica, professora universitária, tradutora e poeta; escreveu e publicou, em poesia, Badalo (1949), Amoressência (1970), O Jogo do Êxtase (1995), Augusto (1999), Quase Poética do meu Próximo (2000), Deus — o Sol da Meia-Noite e, em prosa, Precognição, Paragnose do Futuro, Videntes de Cristo...

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Guta Girolamo: Heráclito

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          O elevador para, a porta se abre muito devagar, indecisa, cuidadosa. Por fim, deixa a nova visitante entrar nos mistérios do nono andar. A menina dá um passo adiante e, quase imediatamente, o imenso salão se ilumina. Uma abóbada gigantesca ao centro deixa os raios dourados do sol entrar.
          As paredes ao redor e as milhares de estantes muito altas estão atoladas de livros de todos os tipos e tamanhos. Não há nenhuma classificação aparente. É um livro após o outro, após o outro, após o outro. Manuela percorre o espaço entre as estantes com a surpresa do olhar ingênuo, maravilhando-se com a beleza das encadernações, das luzes que saem de alguns livros, do movimento que eles fazem nas prateleiras e dos sons baixinhos que produzem.
          Ela segue cada vez mais para o interior deste grande hall, guiada mais pela curiosidade do que pela prudência. As estantes estão cada vez mais altas, mais curvas e mais estreitas, formando corredores e mais corredores dos quais não se vê o fim. Através da abóbada, o dia que agoniza colore o ambiente de um amarelo violento e de um roxo ensandecido. Ouve-se um choro, um lamento, uma risada. Um vulto passa ora aqui, ora ali.
          Aos poucos, a abóbada revela, no céu noturno, o brilhante Vênus, o avermelhado Marte, o Cruzeiro do Sul. Uma gigantesca lua derrama seu brilho intenso como um pesado manto azul e prateado sobre o monstruoso império de livros. Não há caminho possível, não há saída, não há direita e esquerda, em cima e embaixo, perto e longe, hoje, ontem, amanhã. E a menina finalmente a vê. É uma mulher muito alta e magra, com um pescoço umas seis vezes maior do que deveria ser, de braços longuíssimos, trajando um vestido muito justo e longo que esconde seus pés. Ela não anda, flutua. Esta mulher, já muito velha, percorre lentamente os corredores, passando suavemente a mão sobre os livros que vão se iluminando ao toque de seus dedos longos e grossos. A velha lamenta, chora, ri, gargalha e volta a lamentar.
          Manu se aproxima ainda mais. Olha-a de frente e o que vê são olhos grandes e profundos circundados por uma pele cheia de vincos. São translúcidos, mudam de cor e contam milhares de histórias ao mesmo tempo, felizes, tristes, misteriosas, doces, amargas. É uma visão atordoante e prazerosa e dos olhos da menina rolam longas lágrimas salgadas. A Velha passa a mão sobre seu rosto. “Olhos virgens.” E continua seu caminho. Manu a segue por esse labirinto cuja posição das estantes está sempre mudando.
          De repente, um trovão. Na abóbada cai uma cortina de pingos, águas que as nuvens revoltas expulsam de si mesmas. Ela abaixa os olhos e vê, no meio de tudo, u m imenso espaço vazio, um buraco frio e preto, fundo e largo, que gira furiosamente, causando uma leve ventania enquanto engole os livros das estantes mais próximas, um a um. A Velha está ao seu lado e, de supetão, joga-se no buraco. Flutua, gira... O buraco vai se fechando. Ela lança um livro para Manu, dá um sorriso úmido, e deixa-se afundar neste curioso abismo.
          Um rompante de luz traz a atenção de Manu de volta para cima. Um sol ainda tímido lança seus primeiros raios do dia. Ela volta a olhar para baixo e, onde havia o buraco, há agora um extravagante jardim muito verde, com muitos arbustos, flores de todo tipo, bancos de madeira, outros de mármore e, no centro, um pequeno lago. Manu ajoelha-se na grama, diante do lago, abre o livro que a Velha lhe jogou e lê, na primeira folha, escrito à mão, em letras muito antigas, “na mesma biblioteca entramos e não entramos, somos e não somos”. Aperta o livro contra o peito. De onde está sentada percebe que as estantes do labirinto se movem novamente e deixam entrever o elevador distante. Abraçada ao livro, Manu olha-se no lago, procurando em seu reflexo alguma resposta. “Somos e não somos” ressoa em sua mente. Fixa o olhar no espelho d’água e... parece que seus olhos estão maiores, seu rosto mais fino, seus cabelos mais longos. “Procuro-me a mim mesma”. A decisão foi tomada. As estantes do labirinto voltam a se mover e desaparece a visão do elevador.
          Manu levanta, caminha para fora deste oásis verde para entrar no oásis labiríntico, multicolorido e multiatmosférico das estantes dessa biblioteca infinita. Anda tranquila, abandonando-se ao prazer de passar suas mãos languidamente sob os livros repousados em seus nunca definitivos lugares. Ela percebe que está agora muito mais alta. De fato, tão alta que consegue alcançar, com seus braços compridíssimos, os livros das prateleiras mais distantes. O pescoço alongou-se imensamente e seus dedos agora são grossos e fortes, com vincos, como se o tempo houvesse passado muito velozmente nos últimos minutos. Mas são igualmente jovens, espertos, sem marcas de nenhum tipo. Estranho, inebriante.
                    Manu está passeando por aquele corredor, com as mãos acarinhando os livros. Súbito, sente cócegas e ri. Uma imagem muito engraçada vem à sua mente. Toca outro livro mais detidamente, crimes hediondos. Outro, felicidade inesperada, gestos, falas, lugares, fatos. Tudo o que deveria vir só muito lentamente vem num átimo, num sopro, como um vento forte, um gozo profundo. Um livro está coberto por uma névoa. É a morte que se avizinha. “Morte de terra é tornar-se água, morte de água é tornar-se ar, de ar fogo, e vice-versa.” Em outro, matemática, os segredos do universo. Manu dá uma gargalhada larga e preguiçosa. Em um deles ela se detém por mais tempo, fecha os olhos e chora. “Lutar contra o coração é difícil, pois o que ele quer compra-se a preço de alma”.
                    Manu já é bastante velha, bastante jovem, um bebê. Ela sente seu coração bater no peito, no pé, nos braços, sua circulação, sua mente, suas ideias. Tudo ela perscruta, tudo vê e não vê, sente... talvez, sabe e não sabe, é e não é.

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Um Circo de Percalços Falsos: guia para a bibliotecária das galáxias, (Coletivo As Lontras Daquela Hora), Coordenador: Luiz Bras, 2016, Editora Aspas, São Paulo — SP; Guta Girolamo, apaixonada por filosofia e literatura, pesquisadora e mestranda na USP, está descrito nos minitraços biobibliográficos deste Circo de Percalços Falsos, ‘é uma estrela cadente em ascensão. Guerreira amazona, dispara suas flechas supersônicas e sai pendurada nelas por toda a Via Láctea, sua morada, procurando lugares inexplorados, de onde tira a matéria-prima de suas histórias, seus amores, danças e desejos nunca domesticados.”.