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[traduzido por Regina
Przybycien]
No rio de Heráclito
um peixe pesca os peixes,
um peixe corta um peixe com um peixe afiado,
um peixe constrói um peixe, um peixe mora num peixe,
um peixe foge de um peixe sitiado.
No rio de Heráclito
um peixe ama um peixe,
teus olhos — diz — brilham como os peixes no céu,
quero nadar contigo até o mar comum,
ó tu, a mais bela do cardume.
No rio de Heráclito
um peixe imaginou o peixe dos peixes,
um peixe se ajoelha ante um peixe, um peixe canta para um peixe,
e pede ao peixe um nado mais leve.
No rio de Heráclito
eu peixe único, eu peixe separado
(ao menos do peixe árvore e do peixe pedra)
escrevo, em momentos isolados, pequenos peixes
de escamas tão fugazmente prateadas
que talvez a escuridão pisque de embaraço.
(Sal — 1962)
W rzece Heraklita
W rzece Heraklita
ryba łowi ryby,
ryba ćwiartuje rybę ostrą rybą,
ryba buduje rybę, ryba mieszka w rybie,
ryba ucieka z oblężonej ryby.
W rzece Heraklita
ryba kocha rybę,
twoje oczy — powiada — lśnią jak ryby w niebie,
chcę płynąć razem z tobą do wspólnego morza,
o najpiękniejsza z ławicy.
W rzece Heraklita
ryba wymyśliła rybę nad rybami,
ryba klęka przed rybą, ryba śpiewa rybie,
prosi rybę o lżejsze pływanie.
W rzece Heraklita
ja ryba pojedyncza, ja ryba odrębna
(choćby od ryby drzewa i ryby kamienia)
pisuję w poszczególnych chwilach małe ryby
w łusce srebrnej tak krótko,
że może to ciemność w zakłopotaniu mruga?
(Sól — 1962)
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Wisława Szymborska: Um amor feliz [poemas], bilíngue — Seleção, Tradução e Prefácio
por Regina Przybycien, 1ª edição, 2016, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Maria
Wisława Anna Szymborska (1923 — 2012), polonesa
de Kórnik,
fez seus estudos escolares iniciais em Toruń, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial,
prosseguiu nos estudos de forma clandestina e passou a trabalhar em uma ferrovia,
o que a livrou de ser deportada para território nazista, ora ocupado pelo Terceiro
Reich, foi poeta, crítica literária e tradutora; de sua biografia, consta que Topielec.
Poemat epiczny w II pieśniach, seu poema mais antigo, é datado de 28.02.1942; assim,
Wisława deu início a seu processo
criativo: em Cracóvia, trabalhou como editora assistente na revista quinzenal Świetlica
Krakowska, criou suas primeiras ilustrações para livros (um manual para estudar inglês)
e iniciou-se na literatura, com alguns contos e poemas; em 1945, com o fim da guerra,
também em Cracóvia, a poeta foi parte importante na vida literária local, participou
do grupo literário Ao Contrário, deu início ao curso de Filologia Polaca na Universidade
Jaguelônica, depois mudou para Sociologia, desistiu dos estudos, casou, divorciou,
colaborou com a revista Kultura (de literatura e política, publicada em Paris por
emigrantes polacos), foi membro do Partido Comunista; suas obras: Dlatego żyjemy (Por isso vivemos, 1952), Pytania
zadawane sobie (Pergunta que me faço, 1954), Wołanie do Yeti (Chamando por
Yeti, 1957), Sól (Sal, 1962), Sto pociech (Muito divertido, 1967), Wszelki wypadek
(Todo o caso, 1972), Wielka liczba (Um grande número, 1976), Ludzie na moście (Gente na ponte, 1986), Koniec i początek
(Fim e começo, 1993), Chwila (Instante, 2002), Rymowanki dla dużych dzieci (Riminhas
para crianças grandes, 2005), Dwukropek (Dois pontos, 2006), Tutaj (Aqui, 2009),
Wystarczy (Chega, 2012) ...; seus livros foram traduzidos para 36 línguas, sendo
a poeta polonesa que mais recebeu traduções no exterior; premiações: Prêmio
Literário da Cidade de Cracóvia (Nagrodę Literacką Miasta Krakowa — 1954, pelas obras Dlatego żyjemy e Pytania zadawane sobie), Prêmio Goethe (1991),
Prêmio Nobel de Literatura (1996), Prêmio Niki de Literatura (2006), ...





