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sexta-feira, 27 de março de 2026

William Carlos Williams: Primavera e o mais

 
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[traduzido por José Paulo Paes]

A caminho do hospital de isolamento
sob as vagas de nuvens mosqueadas
de azul que chegam impelidas
do nordeste um vento frio. Além, o
ermo de extensos campos lamacentos
pardos de erva ressequida, em pé ou aparada

nesgas de água parada
dispersão de árvores altas

Ao longo do caminho todo, ruivos, roxos
bifurcados, erectos, ramalhudos
os arbustos e arvoredos com
folhas de vide, pardas, mortas a seu pé
sem vides

Sem vida aparente, a vagarosa
e tonta primavera se aproxima

Eles entram o novo mundo nus,
friorentos, inseguros de tudo,
salvo que entram. À sua volta sempre
o vento frio, já conhecido

Hoje a relva, amanhã a tesa folha
espiralada da cenoura brava
Um por um os objetos se definem
Mais depressa: luz, perfil de folha

Eis agora porém a hirta dignidade da
entrada Entanto, a mudança profunda
acometeu-os: arraigados, eles
aferram-se ao chão e começam a acordar

(Primavera e o mais 1923)

William Carlos Williams

Spring and all

By the road to the contagious hospital
under the surge of the blue
mottled clouds driven from the
northeast a cold wind. Beyond, the
waste of broad, muddy fields
brown with dried weeds, standing and fallen

patches of standing water
the scattering of tall trees

All along the road the reddish
purplish, forked, upstanding, twiggy
stuff of bushes and small trees
with dead, brown leaves under them
leafless vines

Lifeless in appearance, sluggish
dazed spring approaches

They enter the new world naked,
cold, uncertain of all
save that they enter. All about them
the cold, familiar wind

Now the grass, tomorrow
the stiff curl of wildcarrot leaf
One by one objects are defined
It quickens: clarity, outline of leaf

But now the stark dignity of
entrance Still, the profound change
has come upon them: rooted, they
grip down and begin to awaken

(Spring and all —  1923)
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Poemas: William Carlos Williams — [edição bilíngue], Seleção, Tradução, Estudo crítico e Notas de José Paulo Paes, 1987, Companhia das Letras, São Paulo — SP; William Carlos Williams (1883 1963), estadunidense de Rutherford, New Jersey, formou-se pela Faculdade de Medicina da Universidade da Pensilvânia, foi médico pediatra e clínico geral, romancista, ensaísta e poeta do modernismo e do imagismo estadunidense; Williams, antes mesmo de aprender o inglês, aprendeu o espanhol, visto que sua mãe, de origem basca, nascera em Porto Rico, Caribe, e em casa seus pais conversavam neste idioma; suas obras: Poems (1909), Kora in Hell: Improvisations (poema-prosa, 1920), The Great American Novel (novela, 1923), Spring and all (Primavera e o mais, 1923), Novelette and Other Prose (1932), An early martyr and other poems (Um mártir precoce e outros poemas, 1935), White Mule (novela, 1937), Life along the Passaic River (contos, 1938), The Complete Collected Poems of William Carlos Williams 1906—1938 (Poemas reunidos completos, 1938), The Wedge (A cunha, poesias, 1944), Paterson — Books I, II, III, IV and V (1946 1958), Autobiography (1951), The Desert Music and Other Poems (A música do deserto e outros poemas, 1954), Selected Essays (1954), Pictures from Brueghel and Other Poems (Quadros de Brueghel e outros poemas, 1962), Many Loves and Other Plays: The Collected Plays of William Carlos Williams (drama, 1962) e outros textos em verso e prosa; William Carlos Williams recebeu premiações por sua obra, entre as quais o National Book Award for Poetry, o Prêmio Bollingen e, postumamente, o Pulitzer de Poesia, por Pictures from Brueghel and Other Poems.

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

William Carlos Williams: O direito de passagem

 
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[traduzido por José Paulo Paes]

Transitando com a idéia posta
em nada deste mundo

a não ser o direito de passagem
eu desfruto a estrada por

efeito de lei
vi

um homem de idade
que sorriu e desviou o olhar

para o norte, além de uma casa
uma mulher de azul

que estava rindo e se
inclinando para a frente

a fim de olhar o rosto meio
voltado do homem

e um menino de uns oito anos que
olhava para o meio da

barriga do homem
para uma corrente de relógio

A suprema importância
deste inominado espetáculo

fez com que eu acelerasse
ao passar por eles sem palavra

Por que me importaria o rumo?
e lá fui rodando sobre as

quatro rodas do meu carro
pela estrada molhada até

que vi uma moça com uma perna sobre
o parapeito de um balcão

(Primavera e o mais 1923)


The right of way

In passing with my mind
on nothing in the world

but the right of way
I enjoy on the road by

virtue of the law
I saw

an elderly man who
smiled and looked away

to the north past a house
a woman in blue

who was laughing and
leaning forward to look up

into the man’s half
averted face

and a boy of eight who was
looking at the middle of

the man’s belly
at a watchcham

The supreme importance
of this nameless spectacle

sped me by them
without a word

Why bother where I went?
for I went spinning on the

four wheels of my car
along the wet road until

I saw a girl with one leg
over the rail of a balcony.

(Spring and all —  1923)
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Poemas: William Carlos Williams — [edição bilíngue], Seleção, Tradução, Estudo crítico e Notas de José Paulo Paes, 1987, Companhia das Letras, São Paulo — SP; William Carlos Williams (1883 1963), estadunidense de Rutherford, New Jersey, formou-se pela Faculdade de Medicina da Universidade da Pensilvânia, foi médico pediatra e clínico geral, romancista, ensaísta e poeta do modernismo e do imagismo estadunidense; Williams, antes mesmo de aprender o inglês, aprendeu o espanhol, visto que sua mãe, de origem basca, nascera em Porto Rico, Caribe, e em casa seus pais conversavam neste idioma; suas obras: Poems (1909), Kora in Hell: Improvisations (poema-prosa, 1920), The Great American Novel (novela, 1923), Spring and all (Primavera e o mais, 1923), Novelette and Other Prose (1932), An early martyr and other poems (Um mártir precoce e outros poemas, 1935), White Mule (novela, 1937), Life along the Passaic River (contos, 1938), The Complete Collected Poems of William Carlos Williams 1906—1938 (Poemas reunidos completos, 1938), The Wedge (A cunha, poesias, 1944), Paterson — Books I, II, III, IV and V (1946 1958), Autobiography (1951), The Desert Music and Other Poems (A música do deserto e outros poemas, 1954), Selected Essays (1954), Pictures from Brueghel and Other Poems (Quadros de Brueghel e outros poemas, 1962), Many Loves and Other Plays: The Collected Plays of William Carlos Williams (drama, 1962) e outros textos em verso e prosa; William Carlos Williams recebeu premiações por sua obra, entre as quais o National Book Award for Poetry, o Prêmio Bollingen e, postumamente, o Pulitzer de Poesia, por Pictures from Brueghel and Other Poems.

quinta-feira, 17 de julho de 2025

William Carlos Williams: Morte

 
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[traduzido por José Paulo Paes]

Ele está morto
o cão não terá mais
de dormir sobre as batatas
dele para evitar
que congelem

está morto
o velho bastardo
É um bastardo porque

já não há mais nada
de legítimo
nele
  está morto
de dar nojo

       é
uma velharia
esquecida de Deus sem
nenhum sopro de vida

Não é coisíssima alguma
  está morto
pele só

  Ponham-lhe a cabeça
numa cadeira e os
pés em outra e ele
ficará ali esticado
feito um acrobata

O amor batido. Por
ele. Eis por que
é insuportável
       porque
ali jaz carecido
de barbear-se no peito
um uivo estrangulado
de amor e derrota

Ele saltou para fora
do homem e deixou
o homem se ir embora
                                       o farsante

Morto
         de olhos
revirados no branco
sem luz um escárnio

                                     que
o amor já não pode tocar

enterrem-no e escondam-lhe
logo o rosto
de vergonha.

William Carlos Williams

Death

He’s dead
the dog won’t have to
sleep on his potatoes
any more to keep them
from freezing

he’s dead
the old bastard
He’s a bastard because

there’s nothing
legitimate in him any
more
  he’s dead
He’s sick-dead

        he’s
a godforsaken curio
without
any breath in it

He’s nothing at all
  he’s dead
shrunken up to skin

  Put his head on
one chair and his
feet on another and
he’ll lie there
like an acrobat

Love's beaten. He
beat it. That's why
he's insufferable
        because
he's here needing a
shave and making love
an inside howl
of anguish and defeat

He's come out of the man
and he's let
the man go
                     the liar

Dead
        his eyes
rolled up out of
the light a mockery

                                   which
love cannot touch

just bury it
and hide its face
for shame.

(Collected poems 1921-1931 — 1934)
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Poemas: William Carlos Williams — [edição bilíngue], Seleção, Tradução, Estudo crítico e Notas de José Paulo Paes, 1987, Companhia das Letras, São Paulo — SP; William Carlos Williams (1883 1963), estadunidense de Rutherford, New Jersey, formou-se pela Faculdade de Medicina da Universidade da Pensilvânia, foi médico pediatra e clínico geral, romancista, ensaísta e poeta do modernismo e do imagismo estadunidense; Williams, antes mesmo de aprender o inglês, aprendeu o espanhol, visto que sua mãe, de origem basca, nascera em Porto Rico, Caribe, e em casa seus pais conversavam neste idioma; suas obras: Poems (1909), Kora in hell: improvisations (poema-prosa, 1920), The great american novel (novela, 1923), Spring and all (Primavera e o mais, 1923), Novelette and other prose (1932), Collected poems — 1921-1931 (Poemas reunidos, 1934), An early martyr and other poems (Um mártir precoce e outros poemas, 1935), White mule (novela, 1937), Life along the Passaic River (contos, 1938), The complete collected poems of William Carlos Williams 1906—1938 (Poemas reunidos completos, 1938), The wedge (A cunha, poesias, 1944), Paterson — books I, II, III, IV and V (1946 1958), Autobiography (1951), The desert music and other poems (A música do deserto e outros poemas, 1954), Selected essays (1954), Pictures from Brueghel and other poems (Quadros de Brueghel e outros poemas, 1962), Many loves and other plays: the collected plays of William Carlos Williams (drama, 1962) e outros textos em verso e prosa; William Carlos Williams recebeu premiações por sua obra, entre as quais o National Book Award for Poetry, o Prêmio Bollingen e, postumamente, o Pulitzer de Poesia, por Pictures from Brueghel and other poems.

sexta-feira, 6 de junho de 2025

William Carlos Williams: A parábola dos cegos

 
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[traduzido por José Paulo Paes]

IX

Esta horrível mas soberba tela
a parábola dos cegos
sem vermelho algum

na composição mostra um bando
de mendigos um a
guiar o outro atravessando

diagonalmente o quadro
desde um lado
para tropeçar enfim num charco

onde a pintura
e a composição terminam atrás
do qual nenhum homem vidente

é representado os rostos
sem barbear dos in-
digentes com seus poucos

e miseráveis pertences vê-se
uma bacia de lavar numa casinha
campônia e a ponta de uma torre de igreja

as faces estão erguidas
como que para a luz
não há nenhum detalhe estranho

à composição cada um
segue os outros bordão
na mão triunfante até o desastre

(Quadros de Brueghel e outros poemas — 1962)

William Carlos Williams

The parable of the blind

IX

This horrible but superb painting
the parable of the blind
without a red

in the composition shows a group
of beggars leading
each other diagonally downward

across the canvas
from one side
to stumble finally into a bog

where the picture
and the composition ends back
of which no seeing man

is represented the unshaven
features of the des-
titute with their few

pitiful possessions a basin
to wash in a peasant
cottage is seen and a church spire

the faces are raised
as toward the light
there is no detail extraneous

to the composition one
follows the others stick in
hand triumphant to disaster

(Pictures from Brueghel and other poems — 1962)

De Parabel van der Blinden – 1568 [Bíblia: Mateus 15:14]
Pieter Bruegel de Oudere [1525-1530 – 1569]
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Poemas: William Carlos Williams — [edição bilíngue], Seleção, Tradução, Estudo crítico e Notas de José Paulo Paes, 1987, Companhia das Letras, São Paulo — SP; William Carlos Williams (1883 1963), estadunidense de Rutherford, New Jersey, formou-se pela Faculdade de Medicina da Universidade da Pensilvânia, foi médico pediatra e clínico geral, romancista, ensaísta e poeta do modernismo e do imagismo estadunidense; Williams, antes mesmo de aprender o inglês, aprendeu o espanhol, visto que sua mãe, de origem basca, nascera em Porto Rico, Caribe, e em casa seus pais conversavam neste idioma; suas obras: Poems (1909), Kora in hell: improvisations (poema-prosa, 1920), The great american novel (novela, 1923), Spring and all (Primavera e o mais, 1923), Novelette and other prose (1932), Collected poems — 1921-1931 (Poemas reunidos, 1934), An early martyr and other poems (Um mártir precoce e outros poemas, 1935), White mule (novela, 1937), Life along the Passaic River (contos, 1938), The complete collected poems of William Carlos Williams 1906—1938 (Poemas reunidos completos, 1938), The wedge (A cunha, poesias, 1944), Paterson — books I, II, III, IV and V (1946 1958), Autobiography (1951), The desert music and other poems (A música do deserto e outros poemas, 1954), Selected essays (1954), Pictures from Brueghel and other poems (Quadros de Brueghel e outros poemas, 1962), Many loves and other plays: the collected plays of William Carlos Williams (drama, 1962) e outros textos em verso e prosa; William Carlos Williams recebeu premiações por sua obra, entre as quais o National Book Award for Poetry, o Prêmio Bollingen e, postumamente, o Pulitzer de Poesia, por Pictures from Brueghel and other poems.

quarta-feira, 8 de maio de 2024

William Carlos Williams: Mulher diante de um banco


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[traduzido por José Paulo Paes]

O banco é uma questão de colunas,
tal como . a convenção,
e não a invenção; mas os frontões
lá estão sob o sol

para acalmar as dúvidas
de investimentos “sólidos
como rocha” sobre os quais o mundo
se firma, o mundo da finança,

o único mundo: Logo ali,
conversando com outra mulher enquanto
embala um carrinho de criança
de lá pra cá está uma mulher com um

vestido rosa de algodão, sem meias
nem chapéu; as pernas nuas
são duas colunas sustentando
seu rosto, como o de Lênin (o cabelo

frouxamente preso muito louro) ou
de Darwin, e aí
está:
mulher diante de um banco

(As Nuvens — 1948)

William Carlos Williams

A woman in front of a bank

The bank is a matter of columns,
Like . convention,
unlike invention; but the pediments
sit there in the sun

to convince the doubting of
investments “solid
as rock” upon which the world
stands, the world of finance,

the only word: Just there,
talking with another woman while
rocking a baby carriage
back and forth stands a woman in

a pink cotton dress, bare legged
and headed whose legs
are two columns to hold up
her face, like Lenin’s (her loosely

arranged hair profusely blond) or
Darwin’s and there you
have it:
a woman in front of a bank.

(The Clouds — 1948)
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Poemas: William Carlos Williams — Seleção, Tradução, Estudo crítico e Notas de José Paulo Paes, 1987, Companhia das Letras, São Paulo — SP; William Carlos Williams (1883 1963), estadunidense de Rutherford, New Jersey, formou-se pela Faculdade de Medicina da Universidade da Pensilvânia, foi médico pediatra e clínico geral, romancista, ensaísta e poeta do modernismo e do imagismo norte-americano; Williams, antes mesmo de aprender o inglês, aprendeu o espanhol, visto que sua mãe, de origem basca, nascera em Porto Rico, Caribe, e em casa seus pais conversavam neste idioma; suas obras: Poems (1909), Kora in Hell: Improvisations (poema-prosa, 1920), The Great American Novel (novela, 1923), Novelette and Other Prose (1932), An Early Martyr and Other Poems (Um mártir precoce e outros poemas, 1935), White Mule (novela, 1937), Life along the Passaic River (contos, 1938), The Complete Collected Poems of William Carlos Williams 1906—1938 (1938), The Wedge (poesias, 1944), Paterson — Books I, II, III, IV and V (1946 1958), Autobiography (1951), The Desert Music and Other Poems (1954), Selected Essays (1954), Pictures from Brueghel and Other Poems (Quadros de Brueghel e outros poemas, 1962), Many Loves and Other Plays: The Collected Plays of William Carlos Williams (drama, 1962) e outros textos em verso e prosa; William Carlos Williams recebeu premiações por sua obra, entre as quais o National Book Award for Poetry, o Prêmio Bollingen e, postumamente, o Pulitzer de Poesia, por Pictures from Brueghel and Other Poems.

quarta-feira, 6 de março de 2024

William Carlos Williams: Descender

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[traduzido por Vinicius Dantas]

O descender nos leva
como o ascender nos levara.
A memória é uma forma
de consumar-se,
um tipo de renovo
mesmo
uma iniciação, uma vez serem os espaços que
abrem novos lugares
povoados por hordas
dantes inimagináveis,
de espécimes novas
uma vez visarem seus movimentos
a objetivos novos
(mesmo que anteriormente abandonados).

Nenhuma derrota é feita tão só de derrota uma vez
ser o mundo que abre sempre um lugar
anteriormente
insuspeito. Um
mundo perdido,
um mundo insuspeito,
nos leva a novos lugares
e nenhuma brancura (perdida) é tão branca como a
memória
da brancura

Ao cair da tarde, o amor desperta
embora suas sombras
que vivem em virtude
da luz do sol
alastrem-se sonolentas e larguem
do desejo
O amor sem sombras alenta-se agora
principiando a despertar
quando a noite
avança.

O descender
feito de desesperos
e sem consumar-se
imagina um novo despertar:
o qual é o inverso
do desespero.
O que não podemos consumar, o que
é negado ao amor,
o que perdemos na antecipação
um descender prossegue,
infindo e indestrutível

[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 11.09.83

William Carlos Williams

The Descent

The descent beckons
                     as the ascent beckoned.
                                             Memory is a kind
of accomplishment,
                     a sort of renewal
                                             even
an initiation, since the spaces it opens are new places
                     inhabited by hordes
                                             heretofore unrealized,
of new kinds 
                     since their movements
                                             are toward new objectives
(even though formerly they were abandoned).

No defeat is made up entirely of defeat  since
the world it opens is always a place
                     formerly
                                             unsuspected. A
world lost,
                     a world unsuspected,
                                             beckons to new places
and no whiteness (lost) is so white as the memory
of whiteness.

With evening, love wakens
                     though its shadows
                                             which are alive by reason
of the sun shining 
                     grow sleepy now and drop away
                                             from desire.

Love without shadows stirs now
                     beginning to awaken
                                             as night
advances

The descent
                     made up of despairs
                                             and without accomplishment
realizes a new awakening:
                                             which is a reversal
of despair.
                     For what we cannot accomplish, what
is denied to love,
                     what we have lost in the anticipation 
                                             a descent follows,
endless and indestructible.

* Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro, trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura modificada através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem carioca.
____________________
Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; William Carlos Williams (1883 1963), estadunidense de Rutherford, New Jersey, formou-se pela Faculdade de Medicina da Universidade da Pensilvânia, foi médico pediatra e clínico geral, romancista, ensaísta e poeta do modernismo e do imagismo norte-americano; Williams, antes mesmo de aprender o inglês, aprendeu o espanhol, visto que sua mãe, de origem basca, nascera em Porto Rico, Caribe, e em casa seus pais conversavam neste idioma; suas obras: Poems (1909), Kora in Hell: Improvisations (poema-prosa, 1920), The Great American Novel (novela, 1923), Novelette and Other Prose (1932), An Early Martyr and Other Poems (1935), White Mule (novela, 1937), Life along the Passaic River (contos, 1938), The Complete Collected Poems of William Carlos Williams 1906—1938 (1938), The Wedge (poesias, 1944), Paterson — Book I (1946), Autobiography (1951), The Desert Music and Other Poems (1954), Selected Essays (1954), Pictures from Brueghel and Other Poems (1962), Many Loves and Other Plays: The Collected Plays of William Carlos Williams (drama, 1962) e outros textos em verso e prosa; William Carlos Williams recebeu premiações por sua obra, entre as quais o National Book Award for Poetry, o Prêmio Bollingen e, postumamente, o Pulitzer de Poesia, por Pictures from Brueghel and Other Poems.