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sábado, 18 de julho de 2020

Gilberto Freyre: Canta, canta, meu surrão

Livro: Talvez Poesia - Gilberto Freyre | Estante Virtual
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Era uma vez a menina
que tinha a madrasta ruim.
Era uma vez... A menina
foi tomar banho no rio.
Tirou os brincos de ouro
botou em cima da pedra.
Chegando em casa notou
a falta dos brincos de ouro.
Valha-me Nossa Senhora!
Onde estão meus brincos de ouro?
A minha madrasta ruim
por causa deles me mata!

Voltou à pedra do rio
para procurar os brincos,
os brincos do coração.
Mas, quando chegou ao rio,
quem havia de encontrar?
Um negro velho botou
a menina no surrão.

Por onde chegava o velho
botava o surrão no chão.
E dizia: “Canta, canta,
canta, canta, meu surrão,
senão te dou com o bordão.”
E o surrão cantava logo
com sua vozinha doce:

“Neste surrão me meteram,
no surrão hei de morrer
por causa dos brincos de ouro
que no riacho deixei.”

O povo todo gostava
de ouvir a voz do surrão
e dava dinheiro ao velho
mal ele estendia a mão.

Um dia ele foi à casa
da madrasta da menina.
Lá foi convidado para
comer, beber e dormir.
Mas as irmãs da menina
já tinham desconfiado
da voz doce do surrão.
E de madrugada, quando
o velho pegou no sono,
as moças foram, tiraram
a menina do surrão.

A menina estava magra,
muito fraca, coitadinha!
O negro velho só tinha
lhe dado para comida
sola de sapato velho.
Em vez da menina, as moças
encheram o surrão do
negro velho de cocô.

Sem dar pela coisa, o negro
velho bem cedo acordou.
Tomou café, foi-se embora,
mais adiante parou
e o surrão cantar mandou:
“Canta, canta, meu surrão.”
Mas o surrão não cantou.
Que a menina ainda dormia
o negro velho pensou.
Meteu o pau no surrão
mas este se arrebentou
e a cara do negro velho
ficou suja de cocô.

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Gilberto Freyre: Talvez Poesia — Prefaciada pelo autor, com Apresentação de Lêdo Ivo e Biobibliografia de Edson Nery da Fonseca, 2ª edição ampliada, 2012, Global Editora, São Paulo SP; Gilberto de Mello Freyre (1900 1987), pernambucano de Recife, formado pela Universidade de Baylor Texas e na Universidade de Columbia, ambas nos Estados Unidos, foi sociólogo, antropólogo, ensaísta, historiador, professor, escritor, pintor e também poeta; ainda na infância, estudou no Colégio Americano Girealth, em Recife, aprendeu latim (com o pai) e teve aulas particulares de francês; bibliografia: Casa Grande & Senzala (1933), Sobrados e Mocambos (1936), Açúcar Uma Sociologia do Doce, com receitas de bolos e doces do Nordeste do Brasil (1939), Talvez Poesia (1962), Vida social no Brasil nos meados do século XIX (1964) e vários outros títulos; colaborou com veículos da imprensa, tanto no Brasil como no exterior, e teve seus textos amplamente divulgados; recebeu premiações por sua obra.

terça-feira, 16 de junho de 2020

Gilberto Freyre: História Social: Mercados de Escravos

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Entre negros esverdeados
pelas doenças, se exibiam
os corpos de bela plástica
dos animais cujos dentes
de tão alvos pareciam
de dentadura postiça.
Negras lustrosas e moças,
um femeaço de boas
formas, lotes de molecas
passivamente deixando
se apalpar por compradores,
ante as exigências, moles,
saltando, mostrando a língua,
estendendo o pulso como
bonecos desses que guincham.
Havia ainda os moleques
franzinos. Nada valiam
porque se davam de quebra
aos compradores de "lotes".

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Gilberto Freyre: Talvez Poesia — Prefaciada pelo autor, com Apresentação de Lêdo Ivo e Biobibliografia de Edson Nery da Fonseca, 2ª edição ampliada, 2012, Global Editora, São Paulo SP; Gilberto de Mello Freyre (1900 1987), pernambucano de Recife, formado pela Universidade de Baylor Texas e na Universidade de Columbia, ambas nos Estados Unidos, foi sociólogo, antropólogo, ensaísta, historiador, professor, escritor, pintor e também poeta; ainda na infância, estudou no Colégio Americano Girealth, em Recife, aprendeu latim (com o pai) e teve aulas particulares de francês; bibliografia: Casa Grande & Senzala (1933), Sobrados e Mocambos (1936), Açúcar Uma Sociologia do Doce, com receitas de bolos e doces do Nordeste do Brasil (1939), Talvez Poesia (1962), Vida social no Brasil nos meados do século XIX (1964) e vários outros títulos; colaborou com veículos da imprensa, tanto no Brasil como no exterior, e teve seus textos amplamente divulgados; recebeu premiações por sua obra.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Gilberto Freyre: Sempre Quixote?

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Eu busco os absurdos impossíveis
Não me basta a doçura dos possíveis
Nem as doçuras nem as vãs certezas
São para mim da vida o que é maior

Não me seduz o fácil na esperança
Como se o fácil fosse a só bonança
Viver é para mim mais um buscar
Que um ditoso encontrar de fáceis bens

Mas que será de quem tanto procura
Se não alcança nunca esta ventura
Que de tanto fugir é desventura?

Quero encontrar um dia a procurada
Ouvir a voz difícil dessa amada
Dizendo talvez sim a quem a busca.

Natal — 1971

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Gilberto Freyre: Talvez Poesia — Prefaciada pelo autor, com Apresentação de Lêdo Ivo e Biobibliografia de Edson Nery da Fonseca, 2ª edição ampliada, 2012, Global Editora, São Paulo SP; Gilberto de Mello Freyre (1900 1987), pernambucano de Recife, formado pela Universidade de Baylor Texas e na Universidade de Columbia, ambas nos Estados Unidos, foi sociólogo, antropólogo, ensaísta, historiador, professor, escritor, pintor e também poeta; ainda na infância, estudou no Colégio Americano Girealth, em Recife, aprendeu latim (com o pai) e teve aulas particulares de francês; bibliografia: Casa Grande & Senzala (1933), Sobrados e Mocambos (1936), Açúcar Uma Sociologia do Doce, com receitas de bolos e doces do Nordeste do Brasil (1939), Talvez Poesia (1962), Vida social no Brasil nos meados do século XIX (1964) e vários outros títulos; colaborou com veículos da imprensa, tanto no Brasil como no exterior, e teve seus textos amplamente divulgados; recebeu premiações por sua obra.

terça-feira, 28 de abril de 2020

Gilberto Freyre: Jangada triste

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Ao longe, mui longe, no horizonte,
além, muito além daquele monte,
como ave que voa desdenhada,
flutua tristemente uma jangada.

Nos zangados soluços do oceano,
quase desaparece o canto humano
de quem no mar e céu inda confia
porque em terra tudo lhe é melancolia.

Isso de terra firme e mar traiçoeiro
nem sempre é certo para o jangadeiro
mais preso ao fiel sal que à incerta areia.

Mistura ao grande azul as suas mágoas
e encontra no vaivém das verdes águas
consolo às negras dores cá da terra.

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Gilberto Freyre: Talvez Poesia — Prefaciada pelo autor, com Apresentação de Lêdo Ivo e Biobibliografia de Edson Nery da Fonseca, 2ª edição ampliada, 2012, Global Editora, São Paulo SP; Gilberto de Mello Freyre (1900 1987), pernambucano de Recife, formado pela Universidade de Baylor Texas e na Universidade de Columbia, ambas nos Estados Unidos, foi sociólogo, antropólogo, ensaísta, historiador, professor, escritor, pintor e também poeta; ainda na infância, estudou no Colégio Americano Girealth, em Recife, aprendeu latim (com o pai) e teve aulas particulares de francês; bibliografia: Casa Grande & Senzala (1933), Sobrados e Mocambos (1936), Açúcar Uma Sociologia do Doce, com receitas de bolos e doces do Nordeste do Brasil (1939), Talvez Poesia (1962), Vida social no Brasil nos meados do século XIX (1964) e vários outros títulos; colaborou com veículos da imprensa, tanto no Brasil como no exterior, e teve seus textos amplamente divulgados; recebeu premiações por sua obra.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Gilberto Freyre: Menino de luto

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Foi quase um, Brasil sem menino
o dos nossos avós e bisavós.
Aos oito anos o menino
dizia de cor os nomes
das capitais da Europa,
dos três inimigos da alma
somava, multiplicava,
diminuía, dividia.
Estudava Gramática
Latina, Retórica
e Francês. Só saía
de colarinho alto,
sobrecasaca escura,
chapéu duro, gravata
preta e em passo de enterro.
Só saía de luto
da própria meninice.

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Gilberto Freyre: Talvez Poesia — Prefaciada pelo autor, com Apresentação de Lêdo Ivo e Biobibliografia de Edson Nery da Fonseca, 2ª edição ampliada, 2012, Global Editora, São Paulo SP; Gilberto de Mello Freyre (1900 1987), pernambucano de Recife, formado pela Universidade de Baylor Texas e na Universidade de Columbia, ambas nos Estados Unidos, foi sociólogo, antropólogo, ensaísta, historiador, professor, escritor, pintor e também poeta; ainda na infância, estudou no Colégio Americano Girealth, em Recife, aprendeu latim (com o pai) e teve aulas particulares de francês; bibliografia: Casa Grande & Senzala (1933), Sobrados e Mocambos (1936), Açúcar Uma Sociologia do Doce, com receitas de bolos e doces do Nordeste do Brasil (1939), Talvez Poesia (1962), Vida social no Brasil nos meados do século XIX (1964) e vários outros títulos; colaborou com veículos da imprensa, tanto no Brasil como no exterior, e teve seus textos amplamente divulgados; recebeu premiações por sua obra.