
Era uma vez a menina
que tinha a madrasta ruim.
Era uma vez... A menina
foi tomar banho no rio.
Tirou os brincos de ouro
botou em cima da pedra.
Chegando em casa notou
a falta dos brincos de ouro.
Valha-me Nossa Senhora!
Onde estão meus brincos de
ouro?
A minha madrasta ruim
por causa deles me mata!
Voltou à pedra do rio
para procurar os brincos,
os brincos do coração.
Mas, quando chegou ao rio,
quem havia de encontrar?
Um negro velho botou
a menina no surrão.
Por onde chegava o velho
botava o surrão no chão.
E dizia: “Canta, canta,
canta, canta, meu surrão,
senão te dou com o bordão.”
E o surrão cantava logo
com sua vozinha doce:
“Neste surrão me meteram,
no surrão hei de morrer
por causa dos brincos de ouro
que no riacho deixei.”
O povo todo gostava
de ouvir a voz do surrão
e dava dinheiro ao velho
mal ele estendia a mão.
Um dia ele foi à casa
da madrasta da menina.
Lá foi convidado para
comer, beber e dormir.
Mas as irmãs da menina
já tinham desconfiado
da voz doce do surrão.
E de madrugada, quando
o velho pegou no sono,
as moças foram, tiraram
a menina do surrão.
A menina estava magra,
muito fraca, coitadinha!
O negro velho só tinha
lhe dado para comida
sola de sapato velho.
Em vez da menina, as moças
encheram o surrão do
negro velho de cocô.
Sem dar pela coisa, o negro
velho bem cedo acordou.
Tomou café, foi-se embora,
mais adiante parou
e o surrão cantar mandou:
“Canta, canta, meu surrão.”
Mas o surrão não cantou.
Que a menina ainda dormia
o negro velho pensou.
Meteu o pau no surrão
mas este se arrebentou
e a cara do negro velho
ficou suja de cocô.
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Gilberto Freyre: Talvez
Poesia —
Prefaciada pelo autor, com Apresentação
de Lêdo Ivo e Biobibliografia de Edson Nery da Fonseca, 2ª edição ampliada,
2012, Global Editora, São Paulo — SP; Gilberto
de Mello Freyre (1900 — 1987),
pernambucano de Recife, formado pela Universidade de Baylor — Texas e na Universidade de Columbia, ambas
nos Estados Unidos, foi sociólogo, antropólogo, ensaísta, historiador,
professor, escritor, pintor e também poeta; ainda na infância, estudou no
Colégio Americano Girealth, em Recife, aprendeu latim (com o pai) e teve aulas
particulares de francês; bibliografia: Casa Grande & Senzala (1933),
Sobrados e Mocambos (1936), Açúcar — Uma Sociologia
do Doce, com receitas de bolos e doces do Nordeste do Brasil (1939), Talvez
Poesia (1962), Vida social no Brasil nos meados do século XIX (1964) e vários
outros títulos; colaborou com veículos da imprensa, tanto no Brasil como no
exterior, e teve seus textos amplamente divulgados; recebeu premiações por sua
obra.





