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[traduzido por Lauro Machado Coelho]
Aprendi a viver com
simplicidade, com juízo,
a olhar o céu, a fazer minhas
orações,
a passear sozinha até a noite,
até ter esgotado esta angústia
inútil.
Enquanto no penhasco murmuram
as bardanas
e declina o alaranjado cacho
da sorveira,
componho versos bem alegres
sobre a vida caduca, caduca e
belíssima.
Volto para casa. Vem lamber a
minha mão
o gato peludo, que ronrona
docemente,
e um fogo resplandecente
brilha
no topo da serraria, à beira
do lago.
Só de vez em quando o silêncio
é interrompido
pelo grito da cegonha pousando
no telhado.
Se vieres bater à minha porta,
é bem possível que eu sequer
te ouça.
1912
(Rosário [ou, literalmente, Contas],
São Petersburgo, 1914)
Я научилась
просто, мудро жить, . . .
Я научилась просто, мудро
жить,
Смотреть на небо
и молиться Богу,
И долго перед вечером
бродить,
Чтоб утомить ненужную тревогу.
Когда шуршат в овраге
лопухи
И никнет гроздь рябины
желто-красной,
Слагаю я веселые стихи
О жизни тленной, тленной
и прекрасной.
Я возвращаюсь. Лижет мне
ладонь
Пушистый кот, мурлыкает
умильней,
И яркий загорается огонь
На башенке озерной
лесопильни.
Лишь изредка прорезывает тишь
Крик аиста, слетевшего
на крышу.
И если в дверь мою
ты постучишь,
Мне кажется, я даже
не услышу.
1912 г.
(Чётки — ‘Tchiôtcki’, 1914)
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Antologia Poética: Anna
Akhmátova, Seleção, Tradução do russo, Apresentação e Notas de Lauro Machado
Coelho, Coleção L&PM Pocket, volume 751, 1ª edição em fevereiro de 2009 e
reimpressão em agosto de 2022, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Ana Akhmatóva
(1889 — 1966), ou Ana Andréevna Gorenko, ou Anna Andrêievna Gorienko, ucraniana
nascida num subúrbio de Odessa, Bolshôi Fontán, antigo Império Russo, foi poetisa,
tradutora e biógrafa; após iniciar seus estudos, inscreveu-se na Faculdade de Direito
de Kiev e, mais tarde, transferindo-se para Petersburgo, estudou Literatura e História;
escreveu seus primeiros versos no inverno de 1905, aos dezesseis anos;
participou da criação do Tsékh Poétov (Oficina dos Poetas) e do Acmeísmo —
movimento literário de reação ao Simbolismo [escola moscovita, da qual faziam
parte os poetas Vladímir Maiakóvski e Velimír Khlébnikov, além de Aleksandr
Blok], publicou seus poemas nas revistas petersburguesas Apollon e Guiperbória;
suas obras: Вечер (Noite, 1912), Чётки (Rosário ou, literalmente, Contas, 1914),
Белая Стая (Revoada Branca, 1917), Podorójnik (Tanchagem, ou Capim, 1921), Anno
Domini MCMXXI (1922), De Seis Livros (antologia de poemas já publicados e novos
poemas, 1940), Poemas 1909—1960 (a obra Poemas, que fora censurada anteriormente,
foi publicada em 1961), Реквием — поэма (Réquiem — poemas, 1963), Бег Времени
(O voo do tempo, 1965), e outros títulos, além de reedições; a poetisa, que
optou por nunca sair da então União Soviética, aliás, que sempre chamou de
Rússia, jamais quis emigrar, sofreu expurgo na era stalinista, teve obras censuradas
e vetadas para circulação e foi forçada a fazer deslocamentos dentro da própria
União Soviética; nos períodos mais difíceis de sua vida social e literária,
embora continuasse a produzir poemas, traduziu obras de Victor Hugo,
Rabindranath Tagore e Giacomo Leopardi e “realizou trabalhos acadêmicos sobre
Pushkin e Dostoiévski; em 1956 deu-se o início de sua reabilitação e, a partir daí,
Ana Akhmátova pode viajar para o exterior e receber premiações literárias.











