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sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Anna Akhmátova: Aprendi a viver com simplicidade, com juízo, . . .

 
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[traduzido por Lauro Machado Coelho]

Aprendi a viver com simplicidade, com juízo,
a olhar o céu, a fazer minhas orações,
a passear sozinha até a noite,
até ter esgotado esta angústia inútil.

Enquanto no penhasco murmuram as bardanas
e declina o alaranjado cacho da sorveira,
componho versos bem alegres
sobre a vida caduca, caduca e belíssima.

Volto para casa. Vem lamber a minha mão
o gato peludo, que ronrona docemente,
e um fogo resplandecente brilha
no topo da serraria, à beira do lago.

Só de vez em quando o silêncio é interrompido
pelo grito da cegonha pousando no telhado.
Se vieres bater à minha porta,
é bem possível que eu sequer te ouça.

1912
(Rosário [ou, literalmente, Contas],
São Petersburgo, 1914)

Anna Akhmátova

Я научилась просто, мудро жить, . . .

Я научилась просто, мудро жить,
Смотреть на небо и молиться Богу,
И долго перед вечером бродить,
Чтоб утомить ненужную тревогу.

Когда шуршат в овраге лопухи
И никнет гроздь рябины желто-красной,
Слагаю я веселые стихи
О жизни тленной, тленной и прекрасной.

Я возвращаюсь. Лижет мне ладонь
Пушистый кот, мурлыкает умильней,
И яркий загорается огонь
На башенке озерной лесопильни.

Лишь изредка прорезывает тишь
Крик аиста, слетевшего на крышу.
И если в дверь мою ты постучишь,
Мне кажется, я даже не услышу.

1912 г.
(Чётки — ‘Tchiôtcki’, 1914)
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Antologia Poética: Anna Akhmátova, Seleção, Tradução do russo, Apresentação e Notas de Lauro Machado Coelho, Coleção L&PM Pocket, volume 751, 1ª edição em fevereiro de 2009 e reimpressão em agosto de 2022, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Ana Akhmatóva (1889 1966), ou Ana Andréevna Gorenko, ou Anna Andrêievna Gorienko, ucraniana nascida num subúrbio de Odessa, Bolshôi Fontán, antigo Império Russo, foi poetisa, tradutora e biógrafa; após iniciar seus estudos, inscreveu-se na Faculdade de Direito de Kiev e, mais tarde, transferindo-se para Petersburgo, estudou Literatura e História; escreveu seus primeiros versos no inverno de 1905, aos dezesseis anos; participou da criação do Tsékh Poétov (Oficina dos Poetas) e do Acmeísmo movimento literário de reação ao Simbolismo [escola moscovita, da qual faziam parte os poetas Vladímir Maiakóvski e Velimír Khlébnikov, além de Aleksandr Blok], publicou seus poemas nas revistas petersburguesas Apollon e Guiperbória; suas obras: Вечер (Noite, 1912), Чётки (Rosário ou, literalmente, Contas, 1914), Белая Стая (Revoada Branca, 1917), Podorójnik (Tanchagem, ou Capim, 1921), Anno Domini MCMXXI (1922), De Seis Livros (antologia de poemas já publicados e novos poemas, 1940), Poemas 1909—1960 (a obra Poemas, que fora censurada anteriormente, foi publicada em 1961), Реквием — поэма (Réquiem — poemas, 1963), Бег Времени (O voo do tempo, 1965), e outros títulos, além de reedições; a poetisa, que optou por nunca sair da então União Soviética, aliás, que sempre chamou de Rússia, jamais quis emigrar, sofreu expurgo na era stalinista, teve obras censuradas e vetadas para circulação e foi forçada a fazer deslocamentos dentro da própria União Soviética; nos períodos mais difíceis de sua vida social e literária, embora continuasse a produzir poemas, traduziu obras de Victor Hugo, Rabindranath Tagore e Giacomo Leopardi e “realizou trabalhos acadêmicos sobre Pushkin e Dostoiévski; em 1956 deu-se o início de sua reabilitação e, a partir daí, Ana Akhmátova pode viajar para o exterior e receber premiações literárias.

sábado, 20 de setembro de 2025

Anna Akhmátova: A mulher de Lot

 
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[traduzido por Lauro Machado Coelho]

A mulher de Lot, que o seguia, olhou para trás
e transformou-se numa estátua de sal.
Gênesis

E o homem justo seguiu o enviado de Deus,
alto e brilhante, pelas negras montanhas.
Mas a angústia falava bem alto à sua mulher:
"Ainda não é tarde demais; ainda dá tempo de olhar

as rubras torres da tua Sodoma natal,
a praça onde cantavas, o pátio onde fiavas,
as janelas vazias da casa elevada
onde deste filhos ao homem amado".

Ela olhou e paralisada pela dor mortal ,
seus olhos nada mais puderam ver.
E converte-se o corpo em transparente sal
e os ágeis pés no chão se enraizaram.

Quem há de chorar por essa mulher?
Não é insignificante demais para que a lamentem?
E, no entanto, meu coração nunca esquecerá
quem deu a própria vida por um único olhar.

24/2/1924

Anna Akhmátova

Лотова жена

Жена же Лотова оглянулась позади его
и стала соляным столпом.
Книга Бытия

И праведник шел за посланником Бога,
Огромный и светлый, по черной горе,
Но громко жене говорила тревога:
Не поздно, ты можешь еще посмотреть

На красные башни родного Содома,
На площадь, где пела, на двор, где пряла,
На окна пустые высокого дома,
Где милому мужу детей родила.

Взглянула и, скованы смертною болью,
Глаза ее больше смотреть не могли;
И сделалось тело прозрачною солью,
И быстрые ноги к земле приросли.

Кто женщину эту оплакивать будет,
Не меньшей ли мнится она из утрат?
Лишь сердце мое никогда не забудет
Отдавшую жизнь за единственный взгляд.

21 февраля 1924
Петербург, Казанская, 2
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Antologia Poética: Anna Akhmátova, Seleção, Tradução do russo, Apresentação e Notas de Lauro Machado Coelho, Coleção L&PM Pocket, volume 751, 1ª edição em fevereiro de 2009 e reimpressão em agosto de 2022, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Ana Akhmatóva (1889 1966), ou Ana Andréevna Gorenko, ou Anna Andrêievna Gorienko, ucraniana nascida num subúrbio de Odessa, Bolshôi Fontán, antigo Império Russo, foi poetisa, tradutora e biógrafa; após iniciar seus estudos, inscreveu-se na Faculdade de Direito de Kiev e, mais tarde, transferindo-se para Petersburgo, estudou Literatura e História; escreveu seus primeiros versos no inverno de 1905, aos dezesseis anos; participou da criação do Tsékh Poétov (Oficina dos Poetas) e do Acmeísmo movimento literário de reação ao Simbolismo [escola moscovita, da qual faziam parte os poetas Vladímir Maiakóvski e Velimír Khlébnikov, além de Aleksandr Blok], publicou seus poemas nas revistas petersburguesas Apollon e Guiperbória; suas obras: Вечер (Noite, 1912), Чётки (Rosário ou, literalmente, Contas, 1914), Белая Стая (Revoada Branca, 1917), Подорожник, ‘Podorójnik(Tanchagem, ou Capim, 1921), Anno Domini MCMXXI (1922), De Seis Livros (antologia de poemas já publicados e novos poemas, 1940), Poemas 1909—1960 (a obra Poemas, que fora censurada anteriormente, foi publicada em 1961), Реквием — поэма (Réquiem — poemas, 1963), Бег Времени (O voo do tempo, 1965), e outros títulos, além de reedições; a poetisa, que optou por nunca sair da então União Soviética, aliás, que sempre chamou de Rússia, jamais quis emigrar, sofreu expurgo na era stalinista, teve obras censuradas e vetadas para circulação e foi forçada a fazer deslocamentos dentro da própria União Soviética; nos períodos mais difíceis de sua vida social e literária, embora continuasse a produzir poemas, traduziu obras de Victor Hugo, Rabindranath Tagore e Giacomo Leopardi e “realizou trabalhos acadêmicos sobre Pushkin e Dostoiévski; em 1956 deu-se o início de sua reabilitação e, a partir daí, Ana Akhmátova pode viajar para o exterior e receber premiações literárias.

quarta-feira, 30 de julho de 2025

Anna Akhmátova: Eu visitei o poeta

 
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[traduzido por Lauro Machado Coelho]

Para Aleksandr Blok

Eu visitei o poeta
ao meio-dia em ponto. Domingo.
Quietude no amplo quarto
e, fora das janelas, o frio

e um sol cor de amoras silvestres,
envolto em névoa hirsuta e azulada...
Com que olhar aguçado o taciturno
anfitrião olhava para mim!

Tinha olhos daquele tipo
de que a gente nunca se esquece;
melhor seria, cuidadosa,
eu não devolver seu olhar.

Mas me lembrarei sempre da conversa,
do meio-dia nevoento, domingo,
naquela casa alta e cinzenta,
junto aos portões do Nevá para o mar.

Janeiro de 1914

Anna Akhmátova

Я пришла к поэту в гости...

Александру Блоку

Я пришла к поэту в гости.
Ровно полдень. Воскресенье.
Тихо в комнате просторной,
А за окнами мороз.

И малиновое солнце
Над лохматым сизым дымом...
Как хозяин молчаливый
Ясно смотрит на меня!

У него глаза такие,
Что запомнить каждый должен,
Мне же лучше, осторожной,
В них и вовсе не глядеть.

Но запомнится беседа,
Дымный полдень, воскресенье
В доме сером и высоком
У морских ворот Невы.

Январь 1914
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Antologia Poética: Anna Akhmátova, Seleção, Tradução do russo, Apresentação e Notas de Lauro Machado Coelho, Coleção L&PM Pocket, volume 751, 1ª edição em fevereiro de 2009 e reimpressão em agosto de 2022, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Ana Akhmatóva (1889 1966), ou Ana Andréevna Gorenko, ou Anna Andrêievna Gorienko, ucraniana nascida num subúrbio de Odessa, Bolshôi Fontán, antigo Império Russo, foi poetisa, tradutora e biógrafa; após iniciar seus estudos, inscreveu-se na Faculdade de Direito de Kiev e, mais tarde, transferindo-se para Petersburgo, estudou Literatura e História; escreveu seus primeiros versos no inverno de 1905, aos dezesseis anos; participou da criação do Tsékh Poétov (Oficina dos Poetas) e do Acmeísmo movimento literário de reação ao Simbolismo [escola moscovita, da qual faziam parte os poetas Vladímir Maiakóvski e Velimír Khlébnikov, além de Aleksandr Blok], publicou seus poemas nas revistas petersburguesas Apollon e Guiperbória; suas obras: Вечер (Noite, 1912), Чётки (Rosário ou, literalmente, Contas, 1914), Белая Стая (Revoada Branca, 1917), Podorójnik (Tanchagem, ou Capim, 1921), Anno Domini MCMXXI (1922), De Seis Livros (antologia de poemas já publicados e novos poemas, 1940), Poemas 1909—1960 (a obra Poemas, que fora censurada anteriormente, foi publicada em 1961), Реквием — поэма (Réquiem poemas, 1963), Бег Времени (O voo do tempo, 1965), e outros títulos, além de reedições; a poetisa, que optou por nunca sair da então União Soviética, aliás, que sempre chamou de Rússia, jamais quis emigrar, sofreu expurgo na era stalinista, teve obras censuradas e vetadas para circulação e foi forçada a fazer deslocamentos dentro da própria União Soviética; nos períodos mais difíceis de sua vida social e literária, embora continuasse a produzir poemas, traduziu obras de Victor Hugo, Rabindranath Tagore e Giacomo Leopardi e “realizou trabalhos acadêmicos sobre Pushkin e Dostoiévski; em 1956 deu-se o início de sua reabilitação e, a partir daí, Ana Akhmátova pode viajar para o exterior e receber premiações literárias.

domingo, 11 de maio de 2025

Anna Akhmátova: À Musa

 
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[traduzido por Lauro Machado Coelho]

Quando, à noite, espero a tua chegada,
a vida me parece suspensa por um fio.
Que importam juventude, glória, liberdade,
quando enfim aparece a hóspede querida
trazendo nas mãos a sua rústica flauta?
Ei-la que vem. Soergue o seu véu,
olha para mim atentamente.
E lhe pergunto: “Foste tu quem a Dante
ditou as páginas do Inferno?” E ela: “Sim, fui eu”.

1924

Anna Akhmátova

Муза

Когда я ночью жду ее прихода,
Жизнь, кажется, висит на волоске.
Что почести, что юность, что свобода
Пред милой гостьей с дудочкой в руке.

И вот вошла. Откинув покрывало,
Внимательно взглянула на меня.
Ей говорю: «Ты ль Данту диктовала
Страницы Ада?» Отвечает: «Я!».

1924 г.
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Antologia Poética: Anna Akhmátova, Seleção, Tradução do russo, Apresentação e Notas de Lauro Machado Coelho, Coleção L&PM Pocket, volume 751, 1ª edição em fevereiro de 2009 e reimpressão em agosto de 2022, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Ana Akhmatóva (1889 1966), ou Ana Andréevna Gorenko, ou Anna Andrêievna Gorienko, ucraniana nascida num subúrbio de Odessa, Bolshôi Fontán, antigo Império Russo, foi poetisa, tradutora e biógrafa memorialista; após iniciar seus estudos, inscreveu-se na Faculdade de Direito de Kiev e, mais tarde, transferindo-se para Petersburgo, estudou Literatura e História; escreveu seus primeiros versos no inverno de 1905, aos dezesseis anos; participou da criação do Tsékh Poétov (Oficina dos Poetas) e do Acmeísmo movimento literário de reação ao Simbolismo [escola moscovita, da qual faziam parte os poetas Vladímir Maiakóvski e Velimír Khlébnikov, além de Aleksandr Blok], publicou seus poemas nas revistas petersburguesas Apollon e Guiperbória; suas obras: Вечер (Noite, 1912), Чётки (Rosário ou, literalmente, Contas, 1914), Белая Стая (Revoada Branca, 1917), Podorójnik (Tanchagem, ou Capim, 1921), Anno Domini MCMXXI (1922), De Seis Livros (antologia de poemas já publicados e novos poemas, 1940), Poemas 1909—1960 (a obra Poemas, que fora censurada anteriormente, foi publicada em 1961), Реквием — поэма (Réquiem poemas, 1963), Бег Времени (O voo do tempo, 1965), e outros títulos, além de reedições; a poetisa, que optou por nunca sair da então União Soviética, aliás, que sempre chamou de Rússia, jamais quis emigrar, sofreu expurgo na era stalinista, teve obras censuradas e vetadas para circulação e foi forçada a fazer deslocamentos dentro da própria União Soviética; nos períodos mais difíceis de sua vida social e literária, embora continuasse a produzir poemas, traduziu obras de Victor Hugo, Rabindranath Tagore e Giacomo Leopardi e “realizou trabalhos acadêmicos sobre Pushkin e Dostoiévski; em 1956 deu-se o início de sua reabilitação e, a partir daí, Ana Akhmátova pode viajar para o exterior e receber premiações literárias.

sábado, 23 de abril de 2022

Ana Akhmátova: Introdução [do livro Réquiem]

 
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[em tradução livre por Aurora Fononi Bernardini e Hadasa Cytrynowikz]

Aconteceu quando a sorrir
Eram só os mortos: contentes pela paz.
E, inútil sobra, pendia
Em volta de suas celas, Leningrado.
E quando, loucas de dor,
Já marchavam as legiões dos condenados,
E os silvos do trem cantavam
Um breve canto de adeus.
As estrelas da morte sobrestavam
À Rússia inocente, se crespando
Sob as botas de sangue
E a sola dos negros camburões*.

Ana Akhmátova

ВСТУПЛЕНИЕ

Это было, когда улыбался
Только мертвый, спокойствию рад.
И ненужным привеском болтался
Возле тюрем своих Ленинград.
И когда, обезумев от муки,
Шли уже осужденных полки,
И короткую песню разлуки
Паровозные пели гудки.
Звезды смерти стояли над нами,
И безвинная корчилась Русь
Под кровавыми сапогами
И под шинами черных марусь.

* Nota dos tradutores: camburões — Ou literalmente marússias, como eram chamados, em Leningrado, os furgões da polícia na época de Stálin.
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Réquiem — Ana Akhmátova, Tradução livre e Notas de Aurora Fononi Bernardini e Hadasa Cytrynowicz e Prefácio de Leo Gilson Ribeiro, edição bilíngue, Coleção Toda Poesia 10, 1991, Art Editora, São Paulo — SP; Ana Akhmatóva (1889 1966), ou Ana Andréevna Gorenko, ucraniana de Odessa, antigo Império Russo, foi poetisa, tradutora e biógrafa; após iniciar seus estudos, inscreveu-se na Faculdade de Direito de Kiev e, mais tarde, transferindo-se para Petersburgo, estudou Literatura e História; obras: Entardecer (1912), Rosário (1914), Rebanho branco (1917), Capim (1921), Anno Domini MCMXXI (1922), De Seis Livros (antologia de poemas já publicados e novos poemas, 1940), Poemas 1909—1960 (a obra Poemas, que fora censurada anteriormente, foi publicada em 1961), Réquiem (1963), O vôo do tempo (1965), e outros títulos; a poetisa sofreu expurgo na era stalinista, teve obras censuradas e vetadas para circulação e foi forçada a fazer deslocamentos dentro da própria União Soviética; em 1956 deu-se o início de sua reabilitação e, a partir daí, Ana Akhmátova pode viajar para o exterior e receber premiações literárias.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

Ana Akhmátova: Em lugar de prefácio [do livro Réquiem]

 
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[em tradução livre por Aurora Fononi Bernardini e Hadasa Cytrynowikz]

          Nos anos terríveis de ejóvchina* eu passei dezessete meses nas filas da prisão de Leningrado.
          Uma vez alguém me “identificou”. Então uma mulher de lábios azuis que estava atrás de mim e que nunca, é claro, ouvira o meu nome, despertou do torpor peculiar a todos nós e me perguntou no ouvido (lá todos sussurravam):
           E isso você é capaz de contar?
          E eu disse:
           Sou**.
          Então algo como um sorriso passou por aquilo que outrora foi seu rosto.

1º de abril de 1957. Leningrado.

Ana Akhmátova

ВМЕСТО ПРЕДИСЛОВИЯ

          В страшные годы ежовщины я провела семнадцать месяцев в тюремных очередях в Ленинграде. Как-то раз кто-то «опознал» меня. Тогда стоящая за мной женщина с голубыми губами, которая, конечно, никогда не слыхала моего имени, очнулась от свойственного нам всем оцепенения и спросила меня на ухо (там все говорили шепотом):
           А это вы можете описать?
          И я сказала:
           Могу.
          Тогда что-то вроде улыбки скользнуло по тому, что некогда было ее лицом.

1 апреля 1957 года. Ленинград.

Notas dos tradutores:
* De Ejóv, comissário do povo e chefe de polícia da Rússia de Stálin cujo nome permanece associado aos inúmeros expurgos e deportações que marcaram a época.
** Referência implícita a Dante, que, como fonte privilegiada de Akhmátova, aparecerá em várias passagens da coletânea [Réquiem]. Aqui, o fato de declarar ser capaz de descrever o mundo de pesadelo da ejóvchina à mulher despersonalizada e sem identidade remete ao Canto 34 do Inferno:

Non demander, Lettor, ch’io non lo scrivo.
Però ch’ogni parlar sarebbe poco.
Io non morii, e non rimasi vivo:
Pensa oramai per te, s’hai fior d’ingegno
Qual io divenni, d’uno e d’altro privo.
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Réquiem — Ana Akhmátova, Tradução livre e Notas de Aurora Fononi Bernardini e Hadasa Cytrynowicz e Prefácio de Leo Gilson Ribeiro, edição bilíngue, Coleção Toda Poesia 10, 1991, Art Editora, São Paulo — SP; Ana Akhmatóva (1889 1966), ou Ana Andréevna Gorenko, ucraniana de Odessa, antigo Império Russo, foi poetisa, tradutora e biógrafa; após iniciar seus estudos, inscreveu-se na Faculdade de Direito de Kiev e, mais tarde, transferindo-se para Petersburgo, estudou Literatura e História; obras: Entardecer (1912), Rosário (1914), Rebanho branco (1917), Capim (1921), Anno Domini MCMXXI (1922), De Seis Livros (antologia de poemas já publicados e novos poemas, 1940), Poemas 1909—1960 (a obra Poemas, que fora censurada anteriormente, foi publicada em 1961), Réquiem (1963), O vôo do tempo (1965), e outros títulos; a poetisa sofreu expurgo na era stalinista, teve obras censuradas e vetadas para circulação e foi forçada a fazer deslocamentos dentro da própria União Soviética; em 1956 deu-se o início de sua reabilitação e, a partir daí, Ana Akhmátova pode viajar para o exterior e receber premiações literárias.

domingo, 21 de novembro de 2021

Ana Akhmátova: Tranquilo corre o Don silencioso, . . .

 
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2.

[em tradução livre por Aurora Fononi Bernardini e Hadasa Cytrynowikz]

Tranquilo corre o Don silencioso,
Amarela, a lua entra em casa,

Entra, o boné de viés,
Vê uma sombra, amarela, a lua.

Essa mulher está enferma,
Essa mulher está só,

Marido na cova, filho no xadrez,
Rogai por mim.

[1938]

Ana Akhmátova

II

Тихо льется тихий Дон,
Желтый месяц входит в дом.

Входит в шапке набекрень.
Видит желтый месяц тень.

Эта женщина больна,
Эта женщина одна.

Муж в могиле, сын в тюрьме,
Помолитесь обо мне.

[1938]
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Réquiem — Ana Akhmátova, Tradução livre e Notas de Aurora Fononi Bernardini e Hadasa Cytrynowicz e Prefácio de Leo Gilson Ribeiro, edição bilíngue, Coleção Toda Poesia 10, 1991, Art Editora, São Paulo — SP; Ana Akhmatóva (1889 1966), ou Ana Andréevna Gorenko, ucraniana de Odessa, antigo Império Russo, foi poetisa, tradutora e biógrafa; após iniciar seus estudos, inscreveu-se na Faculdade de Direito de Kiev e, mais tarde, transferindo-se para Petersburgo, estudou Literatura e História; obras: Entardecer (1912), Rosário (1914), Rebanho branco (1917), Capim (1921), Anno Domini MCMXXI (1922), De Seis Livros (antologia de poemas já publicados e novos poemas, 1940), Poemas 1909—1960 (a obra Poemas, que fora censurada anteriormente, foi publicada em 1961) Réquiem (1963) O vôo do tempo (1965), e outros títulos; a poetisa sofreu expurgo na era stalinista, teve obras censuradas e vetadas para circulação e foi forçada a fazer deslocamentos dentro da própria União Soviética; em 1956 deu-se o início de sua reabilitação e, a partir daí, Ana Akhmátova pode viajar para o exterior e receber premiações literárias.

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Ana Akhmátova: Voam leves as semanas, . . .

 
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[em tradução livre por Aurora Fononi Bernardini e Hadasa Cytrynowikz]

6.

Voam leves as semanas,
O que se passou, não entendo.
Como te olhavam, filhinho,
Na prisão as noites brancas,
E como te olham ainda
Seus olhos quentes de gavião,
E falam da tua cruz
Alta e da tua morte.

(1939.)

Ana Akhmátova

VI

Легкие летят недели,
Что случилось, не пойму.
Как тебе, сынок, в тюрьму
Ночи белые глядели,
Как они опять глядят
Ястребиным жарким оком,
О твоем кресте высоком
И о смерти говорят.

[Весна (1939.) г.]
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Réquiem — Ana Akhmátova, Tradução livre e Notas de Aurora Fononi Bernardini e Hadasa Cytrynowicz e Prefácio de Leo Gilson Ribeiro, edição bilíngue, Coleção Toda Poesia 10, 1991, Art Editora, São Paulo — SP; Ana Akhmatóva (1889 1966), ou Ana Andréevna Gorenko, ucraniana de Odessa, antigo Império Russo, foi poetisa, tradutora e biógrafa; após iniciar seus estudos, inscreveu-se na Faculdade de Direito de Kiev e, mais tarde, transferindo-se para Petersburgo, estudou Literatura e História; suas obras: Entardecer (1912), Rosário (1914), Rebanho branco (1917), Capim (1921), Anno Domini MCMXXI (1922), De Seis Livros (antologia de poemas já publicados e novos poemas, 1940), Poemas 1909—1960 (a obra Poemas, que fora censurada anteriormente, foi publicada em 1961) Réquiem (1963) O vôo do tempo (1965), e outros títulos; a poetisa sofreu expurgo na era stalinista, teve obras censuradas e vetadas para circulação e foi forçada a fazer deslocamentos dentro da própria União Soviética; em 1956 deu-se o início de sua reabilitação e, a partir daí, Ana Akhmátova pode viajar para o exterior e receber premiações literárias.

sábado, 14 de agosto de 2021

Ana Akhmátova: Torci os dedos sob a manta escura . . .

 
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[traduzido por Augusto de Campos]

Torci os dedos sob a manta escura...
"Por que tão pálida?" ele indaga.
 Porque eu o fiz beber tanta amargura
Que o deixei bêbado de mágoa

Como esquecer? Ele saiu sem reação,
A boca retorcida, em agonia...
Desci correndo, sem tocar no corrimão,
E o encontrei no portão, quando saía.

"É tudo brincadeira, por favor,
Não parta, eu morro se você se for.
E ele, com um sorriso frio, isento,
Me disse apenas: "Não fique ao relento"

1911


Сжала руки под тёмной вуалью...

Сжала руки под тёмной вуалью...
"Отчего ты сегодня бледна?"
 Оттого, что я терпкой печалью
Напоила его допьяна.

Как забуду? Он вышел, шатаясь,
Искривился мучительно рот...
Я сбежала, перил не касаясь,
Я бежала за ним до ворот.

Задыхаясь, я крикнула: "Шутка
Всё, что было. Уйдешь, я умру."
Улыбнулся спокойно и жутко
И сказал мне: "Не стой на ветру".

1911
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Poesia Russa Moderna [vários autores] — Traduções e Notas de Augusto e Haroldo de Campos e de Boris Schnaiderman, com revisão e colaboração mútuas dos tradutores, e Prefácios da 1ª e 2ª edições de Boris Schnaiderman, Coleção Signos Volume 33, 2ª reimpressão da 6ª edição, 2012, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Ana Akhmatóva (1889 1966), ou Ana Andréevna Gorenko, ucraniana de Odessa, antigo Império Russo, foi poetisa, tradutora e biógrafa; após iniciar seus estudos, inscreveu-se na Faculdade de Direito de Kiev e, mais tarde, transferindo-se para Petersburgo, estudou Literatura e História; obras: Entardecer (1912), Rosário (1914), Rebanho branco (1917), Capim (1921), Anno Domini MCMXXI (1922), De Seis Livros (antologia de poemas já publicados e novos poemas, 1940), Poemas 19091960 (a obra Poemas, que fora censurada anteriormente, foi publicada em 1961), Réquiem (1963), O vôo do tempo (1965), e outros títulos; a poetisa sofreu expurgo na era stalinista, teve obras censuradas e vetadas para circulação e foi forçada a fazer deslocamentos dentro da própria União Soviética; em 1956 deu-se o início de sua reabilitação e, a partir daí, Ana Akhmátova pode viajar para o exterior e receber premiações literárias.

segunda-feira, 5 de julho de 2021

Ana Akhmátova: À morte

 
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[em tradução livre por Aurora Fononi Bernardini e Hadasa Cytrynowikz]

8.

Vais vir mesmo, por que não agora?
Espero-te  estou muito mal.
Apaguei a luz e escancarei a porta
Para ti, tão prodigiosa e simples.
Assume para isso o aspecto que quiseres,
Penetra, envenenado projétil
Ou sorrateira aproxima-te, adestrado bandido,
Ou como a névoa do tifo* sufoca-me.
Ou então, como uma fábula por ti inventada
E conhecida de todos, até à náusea 
Faz com que eu veja a ponta de um barrete azul**
E branco de medo, o administrador.
Para mim agora tudo é indiferente. Enovela-se o Ienissei,
Fulgura a estrela do norte.
E o brilho azul dos olhos amados
O último horror encobre.

19 de agosto de 1939. Casa da Fontanka.

Ana Akhmátova

8.

К СМЕРТИ

Ты все равно придешь  зачем же не теперь?
Я жду тебя  мне очень трудно.
Я потушила свет и отворила дверь
Тебе, такой простой и чудной.
Прими для этого какой угодно вид,
Ворвись отравленным снарядом
Иль с гирькой подкрадись, как опытный бандит,
Иль отрави тифозным чадом.
Иль сказочкой, придуманной тобой
И всем до тошноты знакомой, 
Чтоб я увидела верх шапки голубой
И бледного от страха управдома.
Мне все равно теперь. Клубится Енисей,
Звезда Полярная сияет.
И синий блеск возлюбленных очей
Последний ужас застилает.

19 августа 1939, Фонтанный Дом

Notas dos tradutores:
* Durante a epidemia de tifo era hábito ferver todos os indumentos, havendo portanto muito vapor nas casas dos doentes;
** Cor do uniforme dos agentes da NKVD.
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Réquiem — Ana Akhmátova, Tradução livre e Notas de Aurora Fononi Bernardini e Hadasa, Cytrynowicz e Prefácio de Leo Gilson Ribeiro, edição bilíngue, Coleção Toda Poesia 10, 1991, Art Editora, São Paulo — SP; Ana Akhmatóva (1889 1966), ou Ana Andréevna Gorenko, ucraniana de Odessa, antigo Império Russo, foi poetisa, tradutora e biógrafa; após iniciar seus estudos, inscreveu-se na Faculdade de Direito de Kiev e, mais tarde, transferindo-se para Petersburgo, estudou Literatura e História; obras: Entardecer (1912), Rosário (1914), Rebanho branco (1917), Capim (1921), Anno Domini MCMXXI (1922), De Seis Livros (antologia de poemas já publicados e novos poemas, 1940), Poemas 1909—1960 (a obra Poemas, que fora censurada anteriormente, foi publicada em 1961), Réquiem (1963), O vôo do tempo (1965), e outros títulos; a poetisa sofreu expurgo na era stalinista, teve obras censuradas e vetadas para circulação e foi forçada a fazer deslocamentos dentro da própria União Soviética; em 1956 deu-se o início de sua reabilitação e, a partir daí, Ana Akhmátova pode viajar para o exterior e receber premiações literárias.