Enfim, tinha uma pedra

No meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
(Drummond, Alguma Poesia, 1930)
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
(Drummond, Alguma Poesia, 1930)
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Carlos Drummond de Andrade: — Vamos ver o soneto de João Alfhonsus. Mas você mesma é que o lerá.
Lya Cavalcanti: — "No meio do caminho sem sentido
em que a minha retina se cansava,
em face ao meu espírito perdido
naquela lassidão estranha e escrava,
no meio do caminho sem sentido,
só uma pedra... Nada mais restava!
Que tudo se perdeu no amortecido,
morto marasmo de vulcão sem lava...
Que tudo se perdeu na estrada infinda...
Só a pedra ficou sob o meu passo
e na retina se conserva ainda!
Nem coração, furor, ódio, carinho,
nada restou senão este cansaço,
a pedra, a pedra, a pedra no caminho!"
Lya Cavalcanti: — "No meio do caminho sem sentido
em que a minha retina se cansava,
em face ao meu espírito perdido
naquela lassidão estranha e escrava,
no meio do caminho sem sentido,
só uma pedra... Nada mais restava!
Que tudo se perdeu no amortecido,
morto marasmo de vulcão sem lava...
Que tudo se perdeu na estrada infinda...
Só a pedra ficou sob o meu passo
e na retina se conserva ainda!
Nem coração, furor, ódio, carinho,
nada restou senão este cansaço,
a pedra, a pedra, a pedra no caminho!"
Drummond: — Pois é. Quando este soneto saiu na Folha da Manhã, de São Paulo, em 25 de outubro de 1942, pensei, candidamente, que estava resolvido o problema de incompreensão pública relativa aos meus versinhos da pedra. Que nada. Os leitores procuraram João Alphonsus para felicitá-lo: "Seu soneto está ótimo. Entende-se perfeitamente. Mas o tinha uma pedra no meio do caminho, isso, faça-me o favor, só dando com a pedra no bestunto do poeta." De sorte que João Alphonsus, em vez de me ajudar, me atrapalhou ainda mais. Pouca gente estava a par da poesia avançada que se fazia na Europa, daí um motivo a mais para condenar um suposto produto poético muito menos escandaloso do que, por exemplo, o poema de Aragon, divulgado exatamente na mesma época, 1925. Esse poema consistia em repetir 19 vezes em sete linhas a palavra persienne, sem pontuação. Só no final aparecia um ponto de interrogação. E Aragon, que me conste, não era doido. Mas eu era.
Lya: — Todos nós somos um pouco. Ou somos mais do que parecemos.
Drummond: — Talvez. Mas o que mais me tocou nessa longa história de um poema que não chega a ser poema foi o que ouvi de uma amiga, e amiga que se tornou tal precisamente por causa dele. Posso dar o nome dessa pessoa, que já não vive: Lúcia Branco. Pianista notável, depois formadora de pianistas como Artur Moreira Lima, Lúcia era culta e sensível. Detestava cordialmente minha pedra no caminho. Para distrair um garoto, seu sobrinho, que estava doente, ela repetia a cantilena do "tinha uma pedra", e esperava tirar disto um efeito cômico, que fizesse o menino rir. Ele não riu e observou: "A senhora acha isso engraçado? Eu acho sério, me faz sentir uma coisa..." Não explicou que coisa era, mas Lúcia deixou de se divertir com a pedra e passou a me distinguir com sua simpatia, porque eu havia despertado aquela reação no garoto.
Lya: — Valeu a pena.
Drummond: — Valeu. Ganhei uma amiga de qualidade excepcional. Mas valeu também por outro motivo. Meu calhau continuou despertando ecos contraditórios, na maioria hostis. De todas as zombarias, de todo o barulho produzido por ele, tirei a lição evidente. O renome literário pode fundar-se nas circunstâncias mais caprichosas e menos relevantes. Passei boa parte da vida apontado como autor de um único poema de dez linhas (ou versos?) tido por pura maluquice, principalmente por pessoas de juízo que nunca o leram, pois ele corria de boca em boca deturpado, com palavras a mais ou a menos. Uma coisinha escrita aos 21 anos era o corpo de delito que decidiu o julgamento. Se na juventude eu houvesse cometido um assassinato e fugido para a Guiana Holandesa, meu crime estaria prescrito no fim de tanto tempo, mas para delito poético não havia prescrição. O lado negativo seria triste se não houvesse o lado compensatório das pessoas que, para surpresa minha, mesmo não achando nenhuma obra de arte na pedra, começaram a gostar de mim porque viam no poeminha alguma coisa que bulia com elas, como a representação paisagística — pobre paisagem — de um sentimento de frustração, obstrução, inviabilidade, experimentado por elas. Ganhei um prêmio que não fizera por alcançar e, mesmo, que não merecia. O caso de Lúcia Branco.
Lya: — Modéstia, charminho...
Drummond: — Não. O que há de mais importante na literatura, sabe? é a aproximação, a comunhão que ela estabelece entre seres humanos, mesmo à distância, mesmo entre mortos e vivos. O tempo não conta para isso. Somos contemporâneos de Shakespeare e de Virgílio. Somos amigos pessoais deles. Se alguém perto de mim falar mal de Verlaine, eu o defendo imediatamente; todas as misérias de sua vida são resgatadas pela música de seus versos. Como defenderia um amigo pessoal. Um dia, a pintora Maria Teresa Vieira me disse uma coisa linda: que tem inúmeros amantes noturnos, de Van Gogh a Fernando Pessoa. O maior prêmio de Estocolmo ou dos Estados Unidos não vale o telegrama de amor que alguém desconhecido, e que não conheceremos nunca, nos manda lá do Pará porque leu uma coisa nossa e ficou comovido e rendido. O telegrama não é para nós, é para a nossa vaidade. É uma voz do coração e do espírito, solta no ar, que nos atinge e repercute em nós. Dito assim, fica meio grandiloquente, mas não sei dizer melhor, você entenderá. Quem já sentiu isso compreende sem explicação. Funciona. É. E constitui uma das grandes alegrias da vida. Palavra, música, arte de todas as formas: essas coisas têm sua magia. Ai de quem não a sente.
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Tempo Vida Poesia — confissões no rádio — Carlos Carlos
Drummond de Andrade, 1986, Editora Record, Rio de
Janeiro — RJ; Drummond (1902 — 1987), poeta, contista
e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado
incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e
revistas: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento
do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas,
crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos
Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola
de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro
do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa
& A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de
Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A
Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O
Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino
Antigo — Boitempo II (1973); De Noticias & Não Notícias
faz-se a Crônica (1974), Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981), Boca de Luar, crônicas (1984), Tempo Vida Poesia — confissões no rádio (1986); e tantos outros...