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[traduzido por Rogério Tomaz Jr.]
— Entre as suas lembranças, há um funileiro que te marcou
e te ensinou diversas coisas.
— Sim, seu nome era dom Vitoriano López. Eu era um
menino, quase uma criança, e o conheci quando tinha onze ou doze anos, por aí.
Os mais velhos contavam que ele havia chegado ao bairro e comprado um pequeno
terreno à beira de um balneário. E ali fez uma casinha de madeira, que naquele
tempo era forrada com chapa. Era funileiro, estrava construindo o seu terreno.
Ele havia sido peão de manutenção de uma fábrica, La Uruguayana Avante, como soldador e mecânico. Ele veio já como um homem
muito maduro, chegou velho. Já tinha se separado e tinha outra mulher, uma
galega. Tinha uma oficina bacana, as arruelas em potes de vidro. E era o
funileiro do bairro. Naquela época, uma panela era cara, quando ela furava você
tinha que consertar e trocar o fundo. Assim, havia muitas coisas para se
consertar e aquele homem fazia um trabalho bárbaro. Ele fazia umas soldas que
pareciam cirurgia e, quando te entregava o trabalho, sorria como se dissesse:
“Olha, guri, olha que qualidade”. Acontece que ele sabia de tudo. Lá em casa,
por exemplo, tinha uma bomba velha que um dia não quis tirar mais água, mas dom
Vitoriano não saía para trabalhar fora e teríamos que levar ela para ele lá.
Mas ele disse: “Bem, vou ver se consigo passar por aí e vê-la”. Ele veio, olhou
e disse: “Isso é uma Marelli, perceba que a estrela que bombeia a água está
desgastada. Desmonte aqui e leve para mim que eu conserto, depois eu monto”.
Com certeza, ele encheu a estrela com solda. Ele veio, montou e lembro que
colocou umas arruelas de couro que apertavam a bomba. Ficou perfeita e ele riu.
Depois, ainda tínhamos controle de importações, uma escassez bárbara de peças
de reposição, não havia nada. Tinha um carro velho, um Chevrolet 28 de quatro
cilindros, que tinha o tanque atrás, mas, em vez de bomba, tinha uma coisa
chamada vácuo, que criava vácuo e sugava, mas funcionava mal. Então eu disse a
ele: “Não seria bom colocar uma bombinha elétrica?”, e ele olha para mim e diz:
“Sabe de uma coisa? Quem inventou isso sabia mais do que você e eu, isso deve
estar sugando ar”. Na verdade, ele tinha razão. Aí descobriu que o carro estava
um desastre, estava fundido. Não havia metais e ele me disse: “Olha, vá de
bicicleta até uma concessionária, pegue os metais velhos que foram arrancados
dos motores e traga-os para mim”. Colocou o virabrequim em uma morsa e, com um
maçarico de querosene, começou a derreter os metais velhos e a preencher as
peças. Depois virava e desmontava outra vez, e ficou perfeito. Ele fez isso mil
vezes na vizinhança. Agora, uns anos depois, um dia o encontrei no ponto de
ônibus com o macacão todo rasgado e lhe disse: “Aonde você vai, Vitoriano?”. E
ele me diz: “Sabe de uma coisa? Vou morrer logo e tenho que deixar para a
velha, que tanto me acompanha, uma boa casa. Compro materiais de empresas de
demolição e me visto assim porque baixam o preço, entende?”. E, sabe, ele
construiu uma casa para ela com velhos tijolos franceses, antigos. Ainda acho
que consigo ver a mulher enchendo os baldes com mistura e ele num andaime
fazendo as paredes. Uma linda casa. Ele tinha uma hortinha aqui, eram os
melhores tomates do bairro. Fazia vinho porque tinha um parreiral. Criava coelhos
para comer carne. Ele estudou como é o ninho natural dos coelhos no chão e fez
para eles um ninho de concreto com o mesmo formato, enterrado, onde o esterco
vai para um lado e a urina para o outro, acredita? Fazia doces. A mulher teve
um problema na perna, sabe? Ela era uma veterana, então ele inventou um solado
com uma mola. Ficava assim e tac, o salto se acomodava sozinho, não precisava
levantar a perna. Ele era um cara brilhante, brilhante no seu ofício, e eu
dizia a mim mesmo: “Ele deve ter sido um engenheiro desperdiçado”. Um cara tão
talentoso, tão criativo, percebe? O cara é impactante e virou uma espécie de
símbolo para mim porque era um trabalhador eficiente, com habilidade manual,
com múltiplos ofícios. O conhecimento que a diversidade gera, porque usava uma
solda como usava um torno ou uma bússola.
— Como na época dos grandes inventores, caras que
criavam...
— Sim, sim, por isso que estou lhe contando. Seu nome era
dom Vitoriano López, nunca esqueci seu nome. Um personagem inesquecível do meu
bairro.
(Conversas com Pepe Mujica... pág. 110)
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Palavras para depois: Conversas com Pepe Mujica — Fabián Restivo,
Tradução de Rogério Tomaz Jr., texto da quarta-capa por Olívio Dutra, 1ª edição,
outono de 2024, Editora Coragem, Porto Alegre — RS; Fabíán Restivo, nascido em 1961,
argentino, ‘autointitulado “um fotógrafo que escreve”’, é jornalista, escritor,
fotógrafo, documentarista e cineasta; frequentou a Universidad Mayor de San Andrés
— La Paz, Bolívia, escreve para o jornal argentino Página 12; o autor deste Palavras
para depois: Conversas com Pepe Mujica tem “mais de 40 anos de carreira e obras
publicadas internacionalmente”, foi fotógrafo do documentário Adiós, comandante
Che (dirigido e roteirizado por Edgardo Cabeza, 1997) e também dirigiu o documentário
Conversas com Pepe Mujica (2024); Fabián Restivo ainda realizou outros trabalhos
"nos mais variados formatos, inclusive direção de teatro ou programas de canais
de televisão".
José Alberto “Pepe” Mujica Cordano, nascido em 1935, uruguaio
de Paso de La Artena — Montevidéo, é político e agricultor, foi presidente do Uruguai
(2010 — 2015), senador (2015 — 2018), combatente contra a ditadura militar uruguaia,
guerrilheiro e membro do então Movimiento de Libertación Nacional — Tupamaros, na
década de 1960 — 1970, época em que foi preso algumas vezes, na última permanecendo
recluso por 13 anos, tendo sido libertado em 1985, ao ser anistiado no final do
período ditatorial; foi presidente pro tempore do Mercosul em 2013, reside em Rincón
del Cerro, Montevidéo — Uruguai; Pepe Mujica já havia sido deputado por Montevidéo
(1994), senador (1999), ministro da Agricultura, Pecuária e Pesca (2005).