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Há 2 uma cousa que se esquece muito no Brasil: — é a sorte do povo que não é o grande proprietário, o capitalista riquíssimo, o nobre improvisado, o bacharel, o homem de posição. Fala-se todo o dia de política, canta-se a liberdade, faz-se de mil modos a história contemporânea, maldiz-se dos ministérios e evoca-se a constituição do seu túmulo de pedra. Ora-se a propósito de tudo, menos a propósito do povo. Escreve-se a respeito de Roma e Grécia, da França e Inglaterra, mas não se escreve acerca do povo. Enviam-se os sábios do país a estudar a língua dos autóctones, a entomologia das borboletas e a geologia dos sertões, mas não se manda explorar o mundo em que vivemos, não se observam os entes que nos rodeiam, não se abrem inquéritos acerca da sorte do povo.Queixava-se Bastiat, aquele homem de coração, de que os jornais importantes em 1849 se agarrassem exclusivamente à política militante e estéril dos partidos, e se esquecessem de agitar as questões de fundo, as questões sociais. Eu dirijo a mesma queixa à imprensa e aos homens do nosso tempo.
Desçamos, meu amigo, às mais baixas camadas. Penetremos na escuridão. Avivemos uma esperança no coração do oprimido e acendamos um farol nas trevas do seu futuro.
Mas parece-me ouvir que se duvida da nossa sinceridade ou que se desconhece o mundo onde vos peço que me acompanheis. Em que é o povo oprimido e de que se pode queixar nesta boa terra do Brasil? Perguntar-me-ão talvez. Eu respondo 3, lembrando o modo porque se organiza a força pública, desde o recrutamento até a guarda-nacional. Eu cito a ignorância dos sertões com a sua barbaridade e os seus potentados, e a miséria prematura das cidades com a sua prostituição.Eu aponto para uma chaga que invade mais e mais o corpo social. E não está dito tudo. Há ainda, abaixo do homem livre o homem escravo; há ainda, depois do miserável que se possui, o miserável africano, livre de nome somente.
Vede 4 bem, o assunto é vasto, e mais grave ainda do que vasto. Penetrando nessas glórias 5, por assim dizer, subterrâneas; descendo a essas minas de miséria, falta o ar aos pulmões, e o pensamento parece envolver-se numa nuvem pesada de tristeza e de desânimo.
Com a anergia de um estóico, porém, com a solicitude religiosa de um nobre inglês, cumpramos a nossa missão. Comecemos pelo quadro que parece mais tristonho: Comecemos pela sorte dos negros. É justo, meu amigo, que nos lembremos primeiro daqueles que são mais infelizes, daqueles para quem justamente se escreveram estas palavras de fogo 6.
Lasciaste ogni speranza... 7
(Transcrito de Cartas do Solitário, por
João Ribeiro, em Autores Contemporâneos
Excerptos de escriptores brazileiros e portugueses
contemporâneos, 25 a. edição refundida, annotada
e actualizada, pp. 107 — 109, Livraria Francisco
Alves, 1937, Rio de Janeiro e São Paulo)
Notas:
1 Conferido com Cartas do Solitário, Dr. A. C. Tavares Bastos. Typographia da Actualidade, 2a. edição, Rio, 1863, 2a. série, Carta VIII, pp. 85 — 86.
2 Sim há em vez de Há
3 respondo-vos em vez de respondo
4 Vedes em vez de Vede
5 galerias em vez de glórias
6 Na obra consultada há mais um parágrafo.
7 Datado: 1861: outubro, 28
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2 Sim há em vez de Há
3 respondo-vos em vez de respondo
4 Vedes em vez de Vede
5 galerias em vez de glórias
6 Na obra consultada há mais um parágrafo.
7 Datado: 1861: outubro, 28
Antologia de Antologias — prosadores
brasileiros "revisitados", organização de Magaly Trindade
Gonçalves, Zélia Thomaz de Aquino e Zina Bellodi Silva, apresentação de Plínio
Doyle e prefácio de Fábio Lucas, Musa Editora 1996, São Paulo — SP;
Aureliano Cândido de Tavares Bastos (1839 — 1875), alagoano
da ex-Cidade de Alagoas, hoje Marechal Deodoro, formado em Direito,
jornalista e político, interessou-se pelas questões econômicas, o comércio
livre do Amazonas, a escravidão e todos os problemas sociais do seu tempo; escreveu
e publicou Cartas do Solitário (1862), A Província (1870), O
Vale do Amazonas (1860) etc.