Mostrando postagens com marcador Raul Bopp. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Raul Bopp. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Raul Bopp: Urucungo

____________________
Pai-João, de tarde, no mocambo, fuma
E as sombras afundam-se no seu olhar.
Preto velho afoga no cachimbo a lembrança dos anos de trabalho que
[lhe gastaram os músculos.

Perto dali, no largo pátio da fazenda,
umbigando e corpeando em redor da fogueira,
começa a dança nostálgica dos negros,
num soturno bate-bate de atabaque de batuque.

Erguem-se das solidões da memória
coisas que ficaram no outro lado do mar.

Preto velho nunca mais teve alegria.

Às vezes pega no urucungo
e põe no longo tom das cordas vozes que ele escutou pelas florestas
[africanas.

Dói-lhe ainda no sangue uma bofetada de nhô-branco.
O feitor dava-lhe às vezes uma ração de sol para secar as feridas.

Perto dali, enchendo a tarde lúgubre e selvagem,
a toada dos negros continua:

Mamá Cumandá
Eh Bumba.
Acubabá Cubebé
Eh Bumba.

Poesia Completa  1998

Resultado de imagem para raul bopp
____________________
Roteiro da Poesia Brasileira — Anos 30, Seleção e Prefácio de Ivan Junqueira, Direção de Edla Van Steen, Editora Global, 2006, São Paulo — SP; Raul Bopp (1898  1984), gaúcho do distrito de Vila Pinhal  — Santa Maria, hoje município de Itaara, formado em Direito, exerceu a diplomacia e o jornalismo, foi poeta, memorialista e folclorista; por força de sua função diplomática, viveu em diversas capitais brasileiras e também nos Estados Unidos, Peru e Suiça; conheceu a Amazônia, o que foi fundamental para elaborar a sua obra-prima Cobra Norato, considerada uma das mais importantes do Modernismo e do Movimento Antropofágico; participou da Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo; colaborou no Jornal do Comércio e Diário de São Paulo, revistas Máscara, Paratodos, Revista de Antropofagia e em outras publicações do país e do exterior; obra poética: Cobra Norato (1931), Urucungo (poemas negros, 1932), Antologia Poética (1967), Putirum (1969), Mironga e outros poemas (1978) e Poesia Completa (1998); prosa: América, Movimentos Modernistas no Brasil: 1922/1928, Vida e Morte da Antropofagia, Longitudes e outros.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Raul Bopp: Caboclo

____________________
Caboclo triste, de cara enrugada,
fica sentado à porta do rancho.

Fuma.
Não conversa com a mulher.

Os olhos endureceram
naquela solidão da linha do mato
mutilado a machado.

O escuro apaga as árvores.
Fogo desanimou na cozinha.
Mia um gatinho magro no terreiro:
M-i-s-é-r-i-a

Queixam-se os sapos
naquele silêncio enorme.
Nada lhe adoça os pensamentos apagados
 alma copiada pela geografia.

Cresce a área das derrubadas:
áspera,
eriçada de tocos de árvores.

Caboclo cisma
dentro do seu horizonte limitado pela linha do mato.
Fuma o cigarro lento.
Miséria

1927
Poesia completa — 1998

Resultado de imagem para raul bopp
____________________
Roteiro da Poesia Brasileira — Anos 30, Seleção e Prefácio de Ivan Junqueira, Direção de Edla Van Steen, Editora Global, 2006, São Paulo —  SP; Raul Bopp (1898  1984), gaúcho do distrito de Vila Pinhal  Santa Maria, hoje município de Itaara, formado em Direito, exerceu a diplomacia e o jornalismo, foi poeta, memorialista e folclorista; por força de sua função diplomática, viveu em diversas capitais brasileiras e também nos Estados Unidos, Peru e Suiça; conheceu a Amazônia, o que foi fundamental para elaborar a sua obra-prima Cobra Norato, tido como uma das mais importantes do Modernismo e do Movimento Antropofágico; participou da Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo; colaborou no Jornal do Comércio Diário de São Paulo, revistas MáscaraParatodos, Revista de Antropofagia e em outras publicações do país e do exterior; obra poética: Cobra Norato (1931), Urucungo (poemas negros, 1932), Antologia Poética (1967), Putirum (1969), Mironga e outros poemas (1978) Poesia Completa (1998); prosa: América, Movimentos Modernistas no Brasil: 1922/1928Vida e Morte da AntropofagiaLongitudes e outros.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Raul Bopp: Mãe-preta


____________________
 Mãe-preta conte uma história.
 Então feche os olhos filhinho:

Longe muito longe
era uma vez o Congo…

Por toda parte o mato grande.
Muito sol batia o chão.

De noite
chegavam os elefantes.
Então o barulho do mato crescia.

Quando o rio ficava brabo
inchava.

Brigava com as árvores.
Carregava  com tudo, águas abaixo,
até chegar na boca do mar
 um mar de malem
xumaré
momulú de aluê du querê
O lê-lê

Depois…

Os olhos da preta pararam.
Acordaram-se as vozes do sangue
glu-glus de água engasgada
naquele dia do nunca-mais.

Era uma praia vazia
uns riscos brancos de areia
e batelões carregando escravos.

Então
começou  o porão negreiro.
Era um mar que não acabava mais.

depois…

 Ué mãezinha,
por que você não conta o resto da história?


('Cobra Norato "?"' ... e outros poemas)
____________________
Português no colégio  primeiro e segundo anos dos cursos clássico, científico, normal e para a iniciação às Faculdades de Filosofia, de Raul Moreira Léllis, 14a. edição, 1970, Companhia Editora Nacional, São Paulo SP; Raul Bopp (1898 1984), gaúcho de Santa Maria, além de poeta foi memorialista e folclorista; obra poética: Cobra Norato (1931), Urucungo (poemas negros, 1932), Antologia Poética (1967), Putirum (1969), Mironga e outros poemas (1978) e Poesia Completa (1998).

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Raul Bopp: Dona Chica


A negra serviu o café.
 A sua escrava tem uns dentes bonitos dona Chica.
 Ah o senhor acha?

Ao sair
a negra demorou-se com um sorriso na porta da varanda.

Foi entoando uma cantiga casa a dentro:

Ai do céu caiu um galho
Bateu no chão. Desfolhou.

Dona Chica não disse nada.
Acendeu ódios no olhar.

Foi lá dentro. Pegou a negra.
Mandou metê-la no tronco.
 Iaiá Chica não me mate!
 Ah! Desta vez tu me pagas.

Meteu um trapo na boca.
Depois
quebrou os dentes dela com um martelo.


 Agora
junte esses cacos numa salva de prata
e leve assim mesmo,
babando sangue,
pr'aquele moço que está na sala, peste!
Poesia Completa (1998)
____________________
Roteiro da Poesia Brasileira  Anos 30, Seleção e Prefácio de Ivan Junqueira, Direção de Edla Van Steen, Editora Global, 2006, São Paulo  SP; Raul Bopp (1898  1984), gaúcho de Santa Maria, além de poeta foi memorialista e folclorista; obra poética: Cobra Norato (1931), Urucungo (poemas negros, 1932), Antologia Poética (1967), Putirum (1969), Mironga e outros poemas (1978) e Poesia Completa (1998).