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Estás
inofensivo, estás vazio,
Velho
caixão malvado,
Que
trazias de Roma, consignado
Às
multidões beatas
O
preconceito estúpido e sombrio
E o dogma
bestial, de quatro patas.
Tu nunca
foste compassivo e terno:
Ao pobre,
quase nu,
Que lhe
dizias tu?
Os
terrores dramáticos do inferno!
Por todos
os três lados,
Blasfemavas
feroz contra o “Progresso”,
Que foi
93? Foi um possesso,
Crivado
de pecados;
A
Liberdade, um sonho sedicioso;
A
Ciência, uma cínica atrevida;
Só a
Religião é que é a vida,
E a reza,
o largo porto bonançoso.
Da
Imprensa tu disseste mais horrores
Do que
Mafoma disse do toucinho...
É o
pestífero ninho
Dos
abutres do mal e da impiedade,
Covil de
pecadores
Que têm
de arder por toda a eternidade.
Hoje,
caída em ruínas a capela,
Estás à
chuva e ao vento e ao sol aberto...
Estás
melhor, decerto.
Hoje, em
lugar do círio, vês a estrela.
Do mau
cheiro de incenso desinfeto,
Agora
perfumou-te
A viva
aragem fresca da campina;
E tens
por vasto, esplendoroso teto
A cúpula
divina,
A
constelada abóbada da noite.
Em vez do
órgão fanhoso, ouves agora
O cântico
das aves,
As
músicas da aurora.
E sobre
as tuas traves,
Donde
escorria a onda das asneiras,
Gemem de
amor as pombas forasteiras.
Novo
padre Jacinto, sacudiste
O teu
jugo católico romano,
E em vez
de velho púlpito tão triste,
És um
digno caixão, livre e profano.
E, pois
te restituíste
À grande
comunhão da natureza,
Acharás,
com certeza,
Um fim
mais nobre, donde te provenha
De ser
útil a esplêndida alegria:
Acabarás
em lenha
Para
aquecer de um pobre a noite fria.
[1882]
[Murmúrios e Clamores — poesias completas
(1902)]
* Nota de Yara Aun Khoury, historiadora e autora do Texto/Documento A Poesia Anarquista,
neste Sociedade & Cultura — Revista Brasileira de História Nº 15: Publicado
em “A Lanterna", São Paulo, 15/11/1913; no texto/documento A Poesia Anarquista [págs
215-247 da referida revista] no qual a historiadora apresenta 40 poemas de
vários autores libertários, lê-se o seguinte: ... “Na construção diária da
revolução, seguindo tantos caminhos quantos forem os indícios da opressão e da
exploração e quantas forem as saídas encontradas, os militantes cruzam e
interseccionam suas ações com as de outros sujeitos sociais com os quais identificam
propósitos comuns. Muitos deles permeiam a arte e a poesia e são expressos por
elas. Com sua sensibilidade o poeta apercebe-se da dor humana e a expressa em
versos; celebra a natureza, as riquezas e as possibilidades de vida e dos
homens. Comprometido ou não com as lutas sociais, ao exprimir a injustiça, a
tirania, a opressão, os desejos e as ansiedades humanas, é considerado um
combatente pelos libertários. Segundo eles, muitas passagens da História são
expressões da luta dos homens pela liberdade, ou em nome dela, e a poesia as
canta.” ...
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Sociedade & Cultura — Revista Brasileira de História Nº 15 — Órgão da ANPUH — Associação
Nacional dos Professores Universitários de História, Volume 8, setembro de 1987
/ fevereiro de 1988, vários autores, Editora Marco Zero — São Paulo — SP; Lúcio Eugênio de
Meneses e Vasconcelos Drummond Furtado de Mendonça (1854 — 1909), fluminense de
Piraí, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo — atual USP do Largo de São
Francisco —, foi advogado, magistrado, jornalista, contista e poeta; colaborou em
diversos periódicos da época, entre os quais O Ipiranga e A Província, de São Paulo,
A República, do Rio de Janeiro e Colombo, de Campanha — MG; escreveu e publicou
Névoas Matutinas (1872), Alvoradas (1875), O Marido da Adúltera (1882), Visões do
Abismo (1888), Esboços e Perfis (1889), Vergastas (poesia, 1889), Canções de Outono
(1896), Horas do bom tempo (1901), Murmúrios e Clamores — poesias completas (1902),
Páginas Jurídicas (1903), A Caminho (1903); Lúcio de Mendonça foi o “pai” da idéia
de criação de uma academia de letras, levando-a a efeito; como um dos fundadores
da Academia Brasileira de Letras, coube-lhe a cadeira nº 11, cujo patrono é o poeta
Fagundes Varela.






