Mostrando postagens com marcador Ivo Barroso. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ivo Barroso. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 11 de março de 2026

Ivo Barroso: É preciso

 
____________________
É preciso ser duro
como a pedra
como a pedra que parte
como a parte da pedra
que penetra a parede
e a parte
Como a rede que não vaza
como o vaso que não quebra
como a pedra que fende
o paredão da casa
E é preciso ser fraco
é preciso ter siso
e simulacro É preciso
todos os dias vencer
os deuses pigmeus/golias
É preciso ter cara
e ter coragem
É cada vez mais raro
quem assim reage
É preciso ser duro
como o murro
como o muro
e é preciso ser doce
como se anteparo
de vidro
o muro fosse

É cada vez mais raro
ser duro e doce
cada vez mais torpe
ser apenas duro
cada vez mais nulo
ser apenas doce
cada vez mais duro
ser o muro e a nuvem
como se um só fossem.

(A caça virtual — 2001)

____________________
A caça virtual e outros poemas: antologia — Ivo Barroso, Prefácio de Eduardo Portella, 2001, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Ivo do Nascimento Barroso (1929 2021), mineiro de Ervália, formado em Direito pela então Universidade da Guanabara [hoje UERJ], e em Línguas e Literatura Neolatinas pela Faculdade Nacional do Rio de Janeiro [hoje UFRJ], foi escritor, poeta, tradutor e jornalista; traduziu mais de quarenta livros para o português, entre os quais, obras de Rimbaud, Shakespeare, T. S. Eliot, Ítalo Calvino, Erik Axel Karlfeldt, Eugenio Montale, Hermann Hesse, Umberto Eco, etc.; como jornalista, foi editor-adjunto do Suplemento Literário do Jornal do Brasil [Rio de Janeiro], um dos criadores da revista de cultura Senhor [primeira versão], redator da revista Seleções Reader’s Digest [em Lisboa Portugal]; escreveu e publicou Nau dos Náufragos (poesia, 1981), Visitações de Alcipe (poesia, 1991), A caça virtual e outros poemas — antologia (2001); O Corvo e suas traduções (ensaio, acerca da obra de Poe, 2000), Poesia ensinada aos jovens (2010) e outros títulos; o poeta Ivo Barroso trabalhou no Banco do Brasil por trinta e cinco anos, licenciando-se mais de uma vez para o exercício de outros ofícios, e ali aposentou-se após ter transitado por agências do Rio de Janeiro, Lisboa, Londres e Estocolmo, além de ter sido adido comercial do Brasil na Holanda; premiações recebidas: Prêmio Jabuti de tradução (1998, por Prosa poética: Uma estadia no inferno, Iluminações, Um coração sob a sotaina, Os desertos do amor, Prosas evangélicas, de Rimbaud), Prêmio Jabuti de tradução (1992, por Os Gatos, de T. S. Eliot), Prêmio de Tradução da Academia Brasileira de Letras (2005, por Teatro completo, também de Eliot) ...

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Ivo Barroso: Exórdio

____________________
À memória de Dona Leonor de Almeida Portugal
Lorena  e Lencastre* no sesquicentenário da sua morte

Porque falar-vos quero, a cabeleira,
Marquesa, empôo, como usava outrora
fazer-se não de talco, mas de tempo
que já cuidou de ma tornar grisalha.

Antes haja uma pátina no timbre
das palavras triviais que vos dirijo
qual vós mesma fazíeis ao fingir-vos
de improvável pastora num palácio.

Aqui sob este teto onde algum dia
o peito vos sangrou, mas onde o riso
também vos alvejou a flor da boca,
evoco a vossa imagem como alguém
que desejasse celebrar um rito:

ao mesmo tempo um desafio à sombra
que vos envolve e a crença que permite
imaginar transpormos o limite.


* Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página deixa registrado que a portuguesa e lisboeta Dona Leonor de Almeida Portugal, ou Marquesa de Alorna (1750 — 1839), ou ainda Alcipe [seu pseudônimo literário], pertenceu à nobreza e foi poetisa; com a família perseguida e alguns tendo sido executados pelo Marquês de Pombal, desde a infância viveu parte de sua vida encarcerada no convento São Félix, Chelas, Lisboa, com sua mãe e irmã, enquanto o pai esteve preso na Torre de Belém e no Forte de Junqueira; na reclusão, tomou contato com obras de Voltaire, Rousseau, Montesquieu, conheceu a Enciclopédia D’Alembert e Diderot, tornou-se estudiosa, dedicou-se à poesia, aprendeu outras línguas e também traduziu; deixou publicado vários livros e é tida como um dos nomes femininos mais importante da literatura e das artes em Portugal; parte de sua vida também passou no exílio.
____________________
A caça virtual e outros poemas: antologia — Ivo Barroso, Prefácio de Eduardo Portella, 2001, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Ivo do Nascimento Barroso (1929 2021), mineiro de Ervália, formado em Direito pela então Universidade da Guanabara [hoje UERJ], e em Línguas e Literatura Neolatinas pela Faculdade Nacional do Rio de Janeiro [hoje UFRJ], foi escritor, poeta, tradutor e jornalista; traduziu mais de quarenta livros para o português, entre os quais, obras de Rimbaud, Shakespeare, T. S. Eliot, Ítalo Calvino, Erik Axel Karlfeldt, Eugenio Montale, Hermann Hesse, Umberto Eco, etc.; como jornalista, foi editor-adjunto do Suplemento Literário do Jornal do Brasil [Rio de Janeiro], um dos criadores da revista de cultura Senhor [primeira versão], redator da revista Seleções Reader’s Digest [em Lisboa Portugal]; escreveu e publicou Nau dos Náufragos (poesia, 1981), Visitações de Alcipe (quatro tocatas para clavicórdio e sintetizador, poesias, 1991), A caça virtual e outros poemas — antologia (2001); O Corvo e suas traduções (ensaio, acerca da obra de Poe, 2000), Poesia ensinada aos jovens (2010) e outros títulos; o poeta Ivo Barroso trabalhou no Banco do Brasil por trinta e cinco anos, licenciando-se mais de uma vez para o exercício de outros ofícios, e ali aposentou-se após ter transitado por agências do Rio de Janeiro, Lisboa, Londres e Estocolmo, além de ter sido adido comercial do Brasil na Holanda; premiações recebidas: Prêmio Jabuti de tradução (1998, por Prosa poética: Uma estadia no inferno, Iluminações, Um coração sob a sotaina, Os desertos do amor, Prosas evangélicas, de Rimbaud), Prêmio Jabuti de tradução (1992, por Os Gatos, de T. S. Eliot), Prêmio de Tradução da Academia Brasileira de Letras (2005, por Teatro completo, também de Eliot) ...

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Erik Axel Karlfeldt: Nada melhor do que a espera

 
____________________
[traduzido por Ivo Barroso]

Nada melhor do que a espera,
cheias da primavera, tempo dos botões,
os dias de maio não são tão claros
como os clarões dos de abril.
Vem sobre o último gelo do caminho;
a floresta nos dá seu frescor adormecido
com seu profundo murmúrio.
Daria satisfeito a volúpia do estio
pelas primeiras vergônteas que começam a luzir
na sombra do vale sob os pinheiros,
e o primeiro canto do melro.

Nada se compara a esse tempo de langor,
anos de espera, tempo de bodas.
Não há primavera com tal claridade
que a de um amor secreto.
Ver-se raramente, separar-se às pressas,
sonhar delícias e os perigos
que a vida no seio traz!
Que os impacientes colham os frutos dourados,
eu quero demorar, renunciar,
velar em meu jardim
enquanto desabrocham os brotos.

Erik Axel Karlfeldt

Intet Är Som Väntanstider

Intet är som väntanstider,
vårflodsveckor, knoppningstider,
ingen maj en dager sprider
som den klarnande april.
Kom på stigens sista halka,
skogen ger sin dävna svalka
och sitt djupa sus därtill.
Sommarns vällust vill jag skänka
för de första strån, som blänka
i en dunkel furusänka,
och den första trastens drill.

Intet är som längtanstider,
väntansår, trolovningstider.
Ingen vår ett skimmer sprider
som en hemlig hjärtanskär.
Sällan mötas, skiljas snarligt,
drömma om allt ljuvt och farligt
livet i sitt sköte bär!
Gyllne frukt må andra skaka;
jag vill dröja och försaka,
i min lustgård vill jag vaka,
medan träden knoppas där.

[Fridolins Visor — 1898]
____________________
Poesias: Erik Axel Karlfeldt, Tradução de Ivo Barroso, Estudo Introdutivo e Vida e Obra de Erik Axel Karlfeldt, por Gunnar Brandell, Ilustrações de Postma e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Erik Axel Karlfeldt, por Kjell Strömberg — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1973, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Erik Axel Karlfeldt (1864 1931), sueco de Karlbo, província de Dalekarlia, de família empobrecida e endividada, com descendência de mineradores, teve o pai preso, estudou em Karlbo e em Västerås, depois na Universidade de Uppsala, e, entre outros ofícios, foi bibliotecário da Academia Agrícola e da Biblioteca Real de Estocolmo, membro e secretário da Academia Sueca, professor e poeta lírico simbolista; teve que interromper os estudos na Universidade de Uppsala, por absoluta falta de dinheiro, ocupou-se com alguns trabalhos, experienciou o desemprego, foi contratado como jornalista experimental no Aftonbladet, em Djursholm; com a melhora de sua situação miserável, e com o apoio financeiro do editor-chefe e dono do jornal, voltou aos estudos em Uppsala e, concluindo-os, bacharelou-se em 1892; para isso, obteve aprovação em Latim, Línguas Germânicas, Línguas Nórdicas, Mineralogia e Geologia, Filosofia teórica e Estética, Literatura e História da Arte; já estreante na poesia, Karlfeldt, no início de 1890, fez contato com o crítico literário e editor do Svensk tidskrift, e ali, em 1891, teve quatro de seus poemas publicados e assinados pela primeira vez com o próprio nome; ainda em 1892, atuou na direção da Djursholmsbolaget construtora de casas, fez parte do conselho escolar da Enskilda Läroverk de Djursholm, foi professor de Sueco, Inglês e Alemão; suas obras: Vildmarks — Och Karleksvisor (Canções dos Bosques e Canções de Amor, 1895), Fridolins Visor (Canções de Fridolin, 1898), Fridolins Lustgard och Dalmalningar Pa Rim (O Éden de Fridolin e Quadros Dalecarlianos em Versos, 1901), Flora och Pomona (Flora e Pomona, 1906), Skalden Lucidor (O Poeta Lucidor, Estudo sobre o poeta Lars Johansson Lucidor [1638 — 1674], 1914), Flora och Bellona (Flora e Belona — Poesias, 1918), Carl Fredrik Dahlgren (Retrato de um romântico sueco de há cem anos, 1924), Hösthorn (Trompa Ocidental — Poesias, 1927), Skrifter (Obras poéticas — Edição comemorativa em 5 volumes, 1931); Erik Axel Karlfeldt, o poeta lírico [da lavra simbolista, panteísta disfarçado de regionalista] que morrera em 08 de abril de 1931, em indicação excepcional e póstuma, foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura a 8 de outubro daquele ano.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Ivo Barroso: Balzaquiana

 
____________________
Vous êtes trop belle pour être
une honnête femme
Balzac (Les Chouans)

Uma ânfora copiou-lhe as curvas da cintura
E a arrogância do seio o côncavo da taça.
Seu olhar de mistério inebria e procura
Absorver para sempre o momento que passa.

Uma graça outonal em seu porte, uma graça
De crepúsculos vem beijando-lhe a figura.
Na finura do riso a ironia perpassa;
Na firmeza do passo a elegância perdura.

Entre o sol que se eleva aos alvores do dia
E a noite que vem longe, é a tarde azul que empresta
À branda luz do poente as cores que irradia.

Essa, a quem o Tempo a graça derradeira,
É bonita demais para mulher honesta
Sendo mulher demais para mulher solteira!

(Nau dos Náufragos — poesia, 1981)

____________________
A caça virtual e outros poemas: antologia — Ivo Barroso, Prefácio de Eduardo Portella, 2001, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Ivo do Nascimento Barroso (1929 2021), mineiro de Ervália, formado em Direito pela então Universidade da Guanabara [hoje UERJ], e em Línguas e Literatura Neolatinas pela Faculdade Nacional do Rio de Janeiro [hoje UFRJ], foi escritor, poeta, tradutor e jornalista; traduziu mais de quarenta livros para o português, entre os quais, obras de Rimbaud, Shakespeare, T. S. Eliot, Ítalo Calvino, Erik Axel Karlfeldt, Eugenio Montale, Hermann Hesse, Umberto Eco, etc.; como jornalista, foi editor-adjunto do Suplemento Literário do Jornal do Brasil [Rio de Janeiro], um dos criadores da revista de cultura Senhor [primeira versão], redator da revista Seleções Reader’s Digest [em Lisboa Portugal]; escreveu e publicou Nau dos Náufragos (poesia, 1981), Visitações de Alcipe (poesia, 1991), A caça virtual e outros poemas — antologia (2001); O Corvo e suas traduções (ensaio, acerca da obra de Poe, 2000), Poesia ensinada aos jovens (2010) e outros títulos; o poeta Ivo Barroso trabalhou no Banco do Brasil por trinta e cinco anos, licenciando-se mais de uma vez para o exercício de outros ofícios, e ali aposentou-se após ter transitado por agências do Rio de Janeiro, Lisboa, Londres e Estocolmo, além de ter sido adido comercial do Brasil na Holanda; premiações recebidas: Prêmio Jabuti de tradução (1998, por Prosa poética: Uma estadia no inferno, Iluminações, Um coração sob a sotaina, Os desertos do amor, Prosas evangélicas, de Rimbaud), Prêmio Jabuti de tradução (1992, por Os Gatos, de T. S. Eliot), Prêmio de Tradução da Academia Brasileira de Letras (2005, por Teatro completo, também de Eliot) ...

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Ivo Barroso: Acalanto

____________________
Hoje dormirás a noite dos rios silenciosos
fluindo no tempo
as mornas águas do verão desfiando
os cabelos noturnos
por entre os velhos paredões da ponte.

A noite descerá dos eucaliptos
prenunciada pelas primeiras folhas
devolvidas ao solo.

Mas não haverá serenatas:
isso implicaria o passado
e a voz que tece aos teus ouvidos
vem mais da certeza do amanhã
que de murmúrios confundidos
em tramas de luar e vozes tristes.

Onde estarei em tua noite,
morta que foi a última estrela?
Onde estarei depois dos longos caminhos,
se me obstino em ter o rosto voltado para a frente?

A rua da província corre com o vento
para os altos descampados;
e este poste que fura um túmulo de luz
na noite sem mistérios
devolve a minha sombra aos teus domínios lentos
quase desfeitos na névoa do sono
que te cobre.

(Nau dos Náufragos — poesia, 1981)

____________________
A caça virtual e outros poemas: antologia — Ivo Barroso, Prefácio de Eduardo Portella, 2001, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Ivo do Nascimento Barroso (1929 2021), mineiro de Ervália, formado em Direito pela então Universidade da Guanabara [hoje UERJ], e em Línguas e Literatura Neolatinas pela Faculdade Nacional do Rio de Janeiro [hoje UFRJ], foi escritor, poeta, tradutor e jornalista; traduziu mais de quarenta livros para o português, entre os quais, obras de Rimbaud, Shakespeare, T. S. Eliot, Ítalo Calvino, Erik Axel Karlfeldt, Eugenio Montale, Hermann Hesse, Umberto Eco, etc.; como jornalista, foi editor-adjunto do Suplemento Literário do Jornal do Brasil [Rio de Janeiro], um dos criadores da revista de cultura Senhor [primeira versão], redator da revista Seleções Reader’s Digest [em Lisboa Portugal]; escreveu e publicou Nau dos Náufragos (poesia, 1981), Visitações de Alcipe (poesia, 1991), A caça virtual e outros poemas — antologia (2001); O Corvo e suas traduções (ensaio, acerca da obra de Poe, 2000), Poesia ensinada aos jovens (2010) e outros títulos; o poeta Ivo Barroso trabalhou no Banco do Brasil por trinta e cinco anos, licenciando-se mais de uma vez para o exercício de outros ofícios, e ali aposentou-se após ter transitado por agências do Rio de Janeiro, Lisboa, Londres e Estocolmo, além de ter sido adido comercial do Brasil na Holanda; premiações recebidas: Prêmio Jabuti de tradução (1998, por Prosa poética: Uma estadia no inferno, Iluminações, Um coração sob a sotaina, Os desertos do amor, Prosas evangélicas, de Rimbaud), Prêmio Jabuti de tradução (1992, por Os Gatos, de T. S. Eliot), Prêmio de Tradução da Academia Brasileira de Letras (2005, por Teatro completo, também de Eliot) ...

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Ivo Barroso: O céu dos velhos

 
____________________
No céu dos velhos o conforto predomina:
algodões de nuvens doces ou salgadas
que se desfazem no céu da boca já sem dentes
colchões de nimbos que se amoldam à lembrança do corpo
nádegas de cúmulos alimentando a nostalgia do sexo
Os velhos se espreguiçam nas varandas do céu
espiam lá embaixo suas vidas pregressas
a memória é curta e não há rostos conhecidos
ou as faces se transverberam recortadas contra a luz
Mais que em vida o seu tempo desbaratam
na inércia e no abandono dos músculos e da mente
esperam distraídos ou conformados
uma segunda morte que lhes apague para sempre
a sensação de absoluta inutilidade.

(A caça virtual — 2001)

____________________
A caça virtual e outros poemas: antologia — Ivo Barroso, Prefácio de Eduardo Portella, 2001, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Ivo do Nascimento Barroso (1929 2021), mineiro de Ervália, formado em Direito pela então Universidade da Guanabara [hoje UERJ], e em Línguas e Literatura Neolatinas pela Faculdade Nacional do Rio de Janeiro [hoje UFRJ], foi escritor, poeta, tradutor e jornalista; traduziu mais de quarenta livros para o português, entre os quais, obras de Rimbaud, Shakespeare, T. S. Eliot, Ítalo Calvino, Erik Axel Karlfeldt, Eugenio Montale, Hermann Hesse, Umberto Eco, etc.; como jornalista, foi editor-adjunto do Suplemento Literário do Jornal do Brasil [Rio de Janeiro], um dos criadores da revista de cultura Senhor [primeira versão], redator da revista Seleções Reader’s Digest [em Lisboa Portugal]; escreveu e publicou Nau dos Náufragos (poesia, 1981), Visitações de Alcipe (poesia, 1991), A caça virtual e outros poemas — antologia (2001); O Corvo e suas traduções (ensaio, acerca da obra de Poe, 2000), Poesia ensinada aos jovens (2010) e outros títulos; o poeta Ivo Barroso trabalhou no Banco do Brasil por trinta e cinco anos, licenciando-se mais de uma vez para o exercício de outros ofícios, e ali aposentou-se após ter transitado por agências do Rio de Janeiro, Lisboa, Londres e Estocolmo, além de ter sido adido comercial do Brasil na Holanda; premiações recebidas: Prêmio Jabuti de tradução (1998, por Prosa poética: Uma estadia no inferno, Iluminações, Um coração sob a sotaina, Os desertos do amor, Prosas evangélicas, de Rimbaud), Prêmio Jabuti de tradução (1992, por Os Gatos, de T. S. Eliot), Prêmio de Tradução da Academia Brasileira de Letras (2005, por Teatro completo, também de Eliot) ...

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Arthur Rimbaud: À Música

 
____________________
[traduzido por Ivo Barroso]

Praça da estação, em Charleville1

Na praça rtetalhada em canteiros mesquinhos,
Onde tudo é correto, as árvores e as flores,
Burgueses ofegando asmáticos calores
Passeiam, quinta-feira à noite, os colarinhos.

A orquestra militar, em meio da pracinha,
Balança seus bonés na Valsa dos Flautins;2
À volta a se exibir na frente, o “almofadinha”;3
O notário que cai dos berloques chinfrins.4

Agiotas de lornhon sublinham notas fracas;5
Vão gordos escrivães levando de arrastão
Grossas damas, iguais a atenciosos cornacas,6
Dessas cujo trajar cheira à remarcação.7

Nos bancos verdes vêem-se, em grupo, aposentados
Hortelãos, futucando a bengala na areia,8
Discutem seriamente os últimos tratados,
Depois tomam rapé e rematam: “Pois creia!...”

No banco esparramando as nádegas obesas,
Um burguês, os botões brancos da pança inflando,
Saboreia o cachimbo onde pendem acesas9
Iscas de fumo sim, fumo de contrabando;10

Pelas aléias riem-se os malandrins e as putas;11
Põe o som do trombone os corações em chamas,
E, fumando uma “rosa”,12 ingênuos, os recrutas13
Vão bulir com os bebés para embair as amas...

E eu ali estouvado estudante, fingindo
Não ver que as moças vão sob as árvores quietas;
Mas elas sabem bem, e me dirigerm rindo
Em carregado olhar de coisas indiscretas.

Não consigo falar: mas mudo, em meus assombros,
Vejo a carne de um colo entre cachos macios;
Sigo sob o corpete e os frágeis atavios
Um dorso divinal na curva de seus ombros.

Com pouco lhes suprimo as botinhas, as meias...14
Os corpos reconstruo ardendo em febre louca.
Achando-me um bobão, põem-se a falar a meias...
E sinto um beijo vir chegando à minha boca.

Arthur Rimbaud

A la musique

Place de la gare, à Charleville.

Sur la place taillée en mesquines pelouses,
Square où tout est correct, les arbres et les fleurs,
Tous les bourgeois poussifs qu’étranglent les chaleurs
Portent, les jeudis soirs, leurs bêtises jalouses.

L’orchestre militaire, au milieu du jardin,
Balance ses schakas dans la Valse des fifres:
Autour, aux premiers rangs, parade le gandin;
Le notaire pend à ses breloques à chiffres.

Des rentiers à lorgnons soulignent tous les couacs:
Les gros bureaux bouffis traînent leurs grosses dames
Auprès desquelles vont, officieux cornacs,
Celles dont les volants ont des airs de réclames;

Sur les bancs verts, des clubs d’épiciers retraités
Qui tisonnent le sable avec leur canne à pomme,
Fort sérieusement discutent les traités,
Puis prisent en argent, et reprennent: »En somme!…»

Épatant sur son banc les rondeurs de ses reins,
Un bourgeois à boutons clairs, bedaine flamande,
Savoure son onnaing d’où le tabac par brins
Déborde vous savez, c’est de la contrebande;

Le long des gazons verts ricanent les voyous;
Et, rendus amoureux par le chant des trombones,
Très naïfs, et fumant des roses, les pioupious
Caressent les bébés pour enjôler les bonnes…

Moi, je suis, débraillé comme un étudiant,
Sous les marronniers verts les alertes fillettes:
Elles le savent bien, et tournent en riant,
Vers moi, leurs yeux tout pleins de choses indiscrètes.

Je ne dis pas un mot: je regarde toujours
La chair de leurs cous blancs brodés de mèches folles:
Je suis, sous le corsage et les frêles atours,
Le dos divin après la courbe des épaules.

J’ai bientôt déniché la bottine, le bas…
Je reconstruis les corps, brûlé de belles fièvres.
Elles me trouvent drôle et se parlent tout bas…
Et je sens les baisers qui me viennent aux lèvres…

(Poésies, 1870-1871)

Notas do tradutor Ivo Barroso:
1. Deliciosa composição em que R. [Rimbaud] posa de pubescente e encabulado diante das meninas namoradeiras na pracinha de Charleville, durante uma retreta da banda de música. Invoca o local em que Vitalie Cuif, a mãe do poeta, conheceu o capitão Frédéric Rimbaud, seu pai. Mas o tom aparentemente bucólico já está impregnado do espírito sarcástico rimbaldiano e há imagens de agudo senso crítico expondo ao ridículo a burguesia da província;
2. Shakos. Espécie de barretina militar, alta, de feitio cilíndrico, da qual pendia uma borla, aqui traduzido simplesmente por bonés, de mais imediata compreensão pelo leitor brasileiro;
3. Le gandin é o janota, o peralvilho, o homem “chic” do interior. Usamos “almofadinha”, que lhe é sinônimo e, por estar em desuso, se aplica perfeitamente ao efeito cediço buscado por R.;
4. Imagem criadora de R. Em vez de dizer que o notário (tabelião) vem carregado (pesado) de berloques, diz que ele cai de seus penduricalhos;
5. Couac significa nota desafinada. É palavra-chave em R. que a utiliza na abertura de Une saison en enfer;
6. Cornacas são os guias de elefantes na Ìndia;
7. Air de reclame, literalmente: ar de saldo, de oferta especial, de produto em promoção a preço convidativo. Preferimos usar “remarcação”, que acentua o caráter usuráriuo dos maridos;
8. Futucar é regionalismo, com o significado de cotucar. R. emprega com frequência palavras de sua região ardenesa. O verbo usado por ele é tisonner (atiçar), indicativo da ação de avivar o fogo da lareira, de pouca expressividade para um leitor brasileiro;
9. Onnaing é o nome de um povoado próximo de Valenciennes, onde se fabricam cachimbos esculpidos;
10. De contrabando. Pela proximidade de Charleville com a fronteira belga, o contrabando de tabaco era coisa frequente;
11. Voyous são os vadios, os garotos de rua, para efeito de rima e reforço do verso acrescentamos “e as putas”;
12. Rose (“rosa”) era uma marca de cigarro barato e serve aqui para o trocadilho;
13. Pioupious era o nome popular que se dava aos soldados rasos de infantaria, meganha;
14. R. rima les bas (meias femininas) com tout bas (em voz baixa), tipo de rima opulenta que buscamos reproduizir em “meias” e “a meias”
____________________
Arthur Rimbaud — Poesia Completa, Edição Bilíngüe Comemorativa do sesquicentenário, Tradução, Prefácio, Organização e Comentários de Ivo Barroso, e Apresentação [orelha do livro] de José Mario Pereira, 1995, 3ª edição definitiva, Topbooks Editora, Rio de Janeiro — RJ; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), francês de Charleville, estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; em 1869, iniciou-se na produção de seus primeiros versos e encaminhou o poema Les Étrennes des Orphelins [A consoada dos órfãos] à Revue pour tous, "que o estampa em seu número de 2 de janeiro de 1870"; recebeu influências de Victor Hugo, Georges Izambard seu professor de retórica , Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros, e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura e retomou a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 18731875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations, com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud morreu cinco anos depois, em 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.

terça-feira, 19 de agosto de 2025

Erik Axel Karlfeldt: Amor selvagem

 
____________________
[traduzido por Ivo Barroso]

Ele estava deitado sob as árvores da encosta,
a cabeça a repousar sobre o alforje, dormindo.
Era um cigano vagabundo,
e o sol por entre as bétulas
brilhava sobre o peito moreno
raramente coberto de camisa.

A saia a cair até os tornozelos,
uma rapariga da estirpe gitana,
veio a passar, fagueira e esbelta.
Vendo o rapaz, ela sorriu,
apanhou um raminho de erva
e se pôs a roçá-lo em seus lábios.

Como se fosse de mola, o moço se ergueu
mais rápido do que se fugisse aos da guarda.
E plaft! a bofetada estala!
Mas, plaft! a resposta é imediata,
Depois, em silêncio, embaraçados,
os dois se encararam demoradamente.

Estavam na primavera do amor,
na ardente primavera de junho *
que esparzia seus fogos naquelas almas incendiadas.
Eram ambos atrevidos e belos,
embora perseguidos, magros, extenuados
como os animais bravios da floresta.

Era a primeira vez que se viam,
mas como se parecessem
 cada qual tem seu igual 
bem cedo se reconciliaram.
E trocaram juramentos
sem igreja e sem juiz.

Para o banquete de núpcias, a noiva,
a bela repariga esfomeada,
esvaziou os dois alforjes:
no dele arenques e maçãs,
ração campônia, à que ela ajunta
de dote os doces da cidade.

Com um sorriso experto retirou
do bolso da saia uma garrafa
que até então não revelara.
“Que maravilha, cerveja preta!
Ó minha esposa maravilhosa!”
E ternamente se enlaçaram.

Falaram, após, das belezas da vida
quando se vai, em par, pelas estradas
a mendigar e a furtar ambos de acordo.
Falam do outono e das festas das feiras,
de viagens pela vastidão do mundo,
até o dia em que um se deixa apanhar.

Depois a garrafa sumiu no alforje
e os dois se foram para além da colina
trocando juras e risos saborosos.
No colchão perfumado de um monte de feno
ao som do vento que vai do prado para os bosques
foi que se transcorreu a curta lua-de-mel.

Erik Axel Karlfeldt

Vild kärlek

Han låg på den skogiga åsen
och sov med kinden mot påsen,
en stryker av tattarsläkt,
och soln genom björkarnas springa
sken ner på hans bruna bringa,
den sällan en skjorta väl täckt.

Med kjol som till smalbenet räckte
en slinka av tattarsläkte
kom drivande, gänglig och tunn.
När pojken hon varsnade, log hon,
ett strå ifrån marken tog hon
och kittlade sakta hans mun.

Upp sprang han, kvick som en fjäder,
som om han av länsman fått väder
surr, örfilen ven och brann;
pang, svaret kom raskt och redligt!
Se’n stodo de tyst och beskedligt
och mönstrade skamsna varann.

De voro i älskogsåren.
Den glödande junivåren
göt eld i hetsig natur.
De voro käcka och fagra,
fast jäktade, svultna och magra
som skogarnas skadedjur.

De möttes för första dagen
men buro ju släktskapsdragen,
och lika barn leka bäst.
Och snart var försoningen sluten
och löftenas boja knuten
förutan lysning och präst.

Nu bröllopsmålet vart hållet,
och bruden, det glupska trollet,
i påsarna rev och slet.
Och han hade sill och potäter
och föda som bondfolk äter,
hon stadsmat och läckerhet.

Med illmarigt leende flickan
se’n håvade upp ur fickan
en flaska som hittills hon gömt.
"Det smakte, förbaska mej, mumma,
min lilla beskedliga gumma!"
De kysstes lycksaligt och ömt.

De talte om livets gamman,
då tvenne vandra tillsamman
och tigga och stjäla i lag,
om hösten och marknadsfärden,
om strövtåg vida i världen
tills, förstås, man blir fast en dag...

Se’n stucko de flaskan i påsen
och vankade bort längs åsen
under mustiga smekord och skratt.
På höladans doftande bolster
vid suset av skogsängens jolster
förrann deras korta natt.

[Vildmarks — och Karleksvisor, 1895]

* Nota do tradutor Ivo Barroso: O leitor, tendo presente a incidência do verão europeu nos meses de junho, julho e agosto, poderá estranhar que Karlfeldt se refira a esse primeiro mês como de primavera. A primavera e o verão, entretanto, no Norte da Suécia são mais tardios e curtos que no resto da Europa, o que permite ao poeta referir-se ao mês de junho ao mesmo tempo como fim da primavera e início do verão.
____________________
Poesias: Erik Axel Karlfeldt, Tradução de Ivo Barroso, Estudo Introdutivo e Vida e Obra de Erik Axel Karlfeldt, por Gunnar Brandell, Ilustrações de Postma e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Erik Axel Karlfeldt, por Kjell Strömberg — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1973, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Erik Axel Karlfeldt (1864 1931), sueco de Karlbo, província de Dalekarlia, de família empobrecida e endividada, com descendência de mineradores, teve o pai preso, estudou em Karlbo e em Västerås, depois na Universidade de Uppsala, e, entre outros ofícios, foi bibliotecário da Academia Agrícola e da Biblioteca Real de Estocolmo, membro e secretário da Academia Sueca, professor e poeta lírico simbolista; teve que interromper os estudos na Universidade de Uppsala, por absoluta falta de dinheiro, ocupou-se com alguns trabalhos, experienciou o desemprego, foi contratado como jornalista experimental no Aftonbladet, em Djursholm; com a melhora de sua situação miserável, e com o apoio financeiro do editor-chefe e dono do jornal, voltou aos estudos em Uppsala e, concluindo-os, bacharelou-se em 1892; para isso, obteve aprovação em Latim, Línguas Germânicas, Línguas Nórdicas, Mineralogia e Geologia, Filosofia teórica e Estética, Literatura e História da Arte; já estreante na poesia, Karlfeldt, no início de 1890, fez contato com o crítico literário e editor do Svensk tidskrift, e ali, em 1891, teve quatro de seus poemas publicados e assinados pela primeira vez com o próprio nome; ainda em 1892, atuou na direção da Djursholmsbolaget construtora de casas, fez parte do conselho escolar da Enskilda Läroverk de Djursholm, foi professor de Sueco, Inglês e Alemão; suas obras: Vildmarks — och Karleksvisor (Canções dos Bosques e Canções de Amor, 1895), Fridolins Visor (Canções de Fridolin, 1898), Fridolins Lustgard och Dalmalningar Pa Rim (O Éden de Fridolin e Quadros Dalecarlianos em Versos, 1901), Flora och Pomona (Flora e Pomona, 1906), Skalden Lucidor (O Poeta Lucidor, Estudo sobre o poeta Lars Johansson Lucidor [1638 — 1674], 1914), Flora och Bellona (Flora e Belona — Poesias, 1918), Carl Fredrik Dahlgren (Retrato de um romântico sueco de há cem anos, 1924), Hösthorn (Trompa Ocidental — Poesias, 1927), Skrifter (Obras poéticas — Edição comemorativa em 5 volumes, 1931); Erik Axel Karlfeldt, o poeta lírico [da lavra simbolista, panteísta disfarçado de regionalista] que morrera em 08 de abril de 1931, em indicação excepcional e póstuma, foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura a 8 de outubro daquele ano.