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quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

Rubens Rodrigues Torres Filho: Ciúme & Cá, entre nós

 
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Ciúme

Aquele no espelho a quem me assemelho
 um pouco mais novo, um pouco mais velho 
arrumado até os dentes, que a escova palmilha,
o tabaco amarela,
                         que me diz bom-dia
apesar do que me revela
e que sem cerimônia me olha familiar
sem ver como me espanta com seu ser e com seu ar
será, de repente, o rival indecente
que interessa a ela?

Poros (1989)

— o —

Cá, entre nos

Você me olhou. Só que isso,
você já sabe, me deixa gago
                            ernbaraçado.
Feito a meada de que perco o fio.
Quanto mais encontrar agora a frase certa
e alerta
para tocar-te, sem perder o humor. Como acertar
o gesto, o dito que entre nos estabeleça
aquela transparência de corações
que seria algo tão bom, tão oportuno
neste momento, para algum
dos dois?

Poros (1989)

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Antologia Poética da Geração 60 — Organizadores: Álvaro Alves de Faria e Carlos Felipe Moisés, e, a título de Posfácio, o texto ‘A Cidade, os Poetas, a Poesia’, de Cláudio Willer; 2000, Nankin Editorial, São Paulo — SP; Rubens Rodrigues Torres Filho, nascido em 1942, paulista de Botucatu, formado em Filosofia pela FFLCH Universidade de São Paulo, é poeta, filósofo, professor e tradutor; em poesia, escreveu e publicou Investigação do olhar (1963), O voo circunflexo (ganhador do Prêmio Jabuti, 1981), A letra descalça (1985), Poros (1989), Retrovar (1993), Novolume (1997); em prosa, produziu e publicou O espírito e a letra: a crítica da imaginação pura em Fichte (1975), Ensaios de filosofia ilustrada (1987), 'Redondezas do divino' em Filosofemas (1987), 'Por que estudamos?', na Revista da USP Nº 10 (1991), e outros textos; traduziu Kant, Fichte, Schelling, Nietzsche, Adorno, para a coleção 'Os Pensadores' (Abril/Nova Cultural), Novalis, etc., além de ter exercido outras atividades na área de filosofia; lecionou História da Filosofia Moderna e Filosofia Clássica Alemã na Universidade de São Paulo.

domingo, 11 de dezembro de 2022

Rubens Rodrigues Torres Filho: Cantigas de amor e roda (1)

 
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Batatinha quando nasce
derrama um verde no chão.
Meu amor, se está dormindo,
é um navio, na dimensão

onde tudo é pouco a pouco
e a lua vem aprender
a sua calma enrolada
naquele duplo viver.

Pego meu violão sem corda
que é para não a acordar
dessa espécie de enseada
que é o sono, nesse vagar,

e passo a cantar sem nada
pedir nem nada dizer,
sendo que pousa uma rosa
em tudo que não disser,

para ajudar que ela tenha
um sono de mansa lã
que seja a mais amorosa
preparação de manhã.

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Antologia Poética da Geração 60 — Organizadores: Álvaro Alves de Faria e Carlos Felipe Moisés, e, a título de Posfácio, o texto ‘A Cidade, os Poetas, a Poesia’, de Cláudio Willer; 2000, Nankin Editorial, São Paulo — SP; Rubens Rodrigues Torres Filho, nascido em 1942, paulista de Botucatu, formado em Filosofia pela FFLCH Universidade de São Paulo, é poeta, filósofo, professor e tradutor; em poesia, escreveu e publicou Investigação do olhar (1963), O voo circunflexo (ganhador do Prêmio Jabuti, 1981), A letra descalça (1985), Poros (1989), Retrovar (1993), Novolume (1997); em prosa, produziu e publicou O espírito e a letra: a crítica da imaginação pura em Fichte (1975), Ensaios de filosofia ilustrada (1987), 'Redondezas do divino' em Filosofemas (1987), 'Por que estudamos?', na Revista da USP Nº 10 (1991), e outros textos; traduziu Kant, Fichte, Schelling, Nietzsche, Adorno, para a coleção 'Os Pensadores' (Abril/Nova Cultural), entre outras atividades na área de filosofia; lecionou História da Filosofia Moderna e Filosofia Clássica Alemã na Universidade de São Paulo.

terça-feira, 1 de novembro de 2022

Rubens Rodrigues Torres Filho: Um toque & Imagem

 
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Imagem

Sou tarado por você. Nossa! Isso sim é tesão.
Só pensar, viro menino
masturbador, que nasce pelo na mão.
Me amarro nos teus peitinhos,
xoxota que sai caldinho,
                                asas da imaginação!
Só porque digo em poesia
é exagero? Não é não.

Retrovar (1993)

 o 

Um toque

Estive
algumas vezes só
como um rochedo
batido pelas bestas ondas verdes
do mar adjacente. Só
é como estar ausente
no centro exato. Limita por dentro.
O céu redondo, capa impermeável
ou sobretudo lírico, acrescenta
um toque de ironia
ou de clemência: ave,
algumas vezes chuva,
no mínimo uma estrela.

Retrovar (1993)

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Antologia Poética da Geração 60 — Organizadores: Álvaro Alves de Faria e Carlos Felipe Moisés, e, a título de Posfácio, o texto ‘A Cidade, os Poetas, a Poesia’, de Cláudio Willer; 2000, Nankin Editorial, São Paulo — SP; Rubens Rodrigues Torres Filho, nascido em 1942, paulista de Botucatu, formado em Filosofia pela FFLCH Universidade de São Paulo, é poeta, filósofo, professor e tradutor; em poesia, escreveu e publicou Investigação do olhar (1963), O voo circunflexo (ganhador do Prêmio Jabuti, 1981), A letra descalça (1985), Poros (1989), Retrovar (1993), Novolume (1997); em prosa, produziu e publicou O espírito e a letra: a crítica da imaginação pura em Fichte (1975), Ensaios de filosofia ilustrada (1987), 'Redondezas do divino' em Filosofemas (1987), 'Por que estudamos?', na Revista da USP Nº 10 (1991), e outros textos; traduziu Kant, Fichte, Schelling, Nietzsche, Adorno, para a coleção 'Os Pensadores' (Abril/Nova Cultural), Novalis, etc., além de ter exercido outras atividades na área de filosofia; lecionou História da Filosofia Moderna e Filosofia Clássica Alemã na Universidade de São Paulo.

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

Lindolf Bell: Passam os cavalos do tempo

 
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Passam os cavalos do tempo
a cavalo passam.
E tu és a viagem
que algum dia
alguém deixou de fazer,
não por perder o navio
mas por perder-se.

Tudo passa
mas tudo fica.
E se outra vez as estações florescem
entre partir e chegar,
antes era o mar de teu derramamento
tramado nas ramas de annamar.

Estrela visceral,
alarga as velas de pouso,
alarga as avenidas,
alarga as alas-alamedas,
o coração é largo quando é largo o pranto,
quem lavra a terra lavra a dor.

Passam os cavalos do tempo
a cavalo passam.
A idade absurda
onde não se colhe
o que se planta,
é o tempo que ilumina
e elimina.

As Annamárias, 1971

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Antologia Poética da Geração 60 — Organizadores: Álvaro Alves de Faria e Carlos Felipe Moisés, e, a título de Posfácio, o texto ‘A Cidade, os Poetas, a Poesia’, de Cláudio Willer; 2000, Nankin Editorial, São Paulo — SP; Lindolf Bell (1938 1998), catarinense de Timbó, filho de lavradores, formado pela Escola de Arte Dramática de São Paulo, foi poeta, contador, professor e crítico de artes; liderou o Movimento Catequese Poética, o qual tinha a iniciativa de conduzir poesia às ruas, através de recitais e cantorias, o que o tornou reconhecido no Brasil e também no exterior; obras: Os Póstumos e as Profecias (1962), Os Ciclos (1964), Convocação (1965), Curta Primavera (1966), A Tarefa (1966), Antologia Poética de Lindolf Bell (1967), Antologia da Catequese Poética (Lindolf Bell e outros poetas, 1968), As Annamárias (1971/1979), Incorporação (1974), As Vivências Elementares (1980), O Código das Águas (premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Artes APCA, 1984), Setenário (1985), Texto e Imagem (1987), Iconographia (1993), Réquiem (1994); o poeta teve textos editados em Angola África, além de ter sido traduzido em edições de revistas e antologias (italiano, belga, inglês e espanhol).

sábado, 1 de outubro de 2022

Rubens Rodrigues Torres Filho: Considerações da infância

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Habitas a dor da hora,
menino deste planeta,
em que se aninham os ratos
nas raízes da ciência
e o espaço, aberto, salta,
devora teu pensamento.
O teu silêncio nas pedras
é sem rancor nem memória,
menino dentro da hora.
Teu pai te falou em danças
e em orgias atômicas
e tu escavaste a cabeça
para entender o momento
de espera dilacerada.
Fugiste nas madrugadas
no dorso de ásperos ventos,
sonhando os risos mais puros
e entregando movimentos
aos dentes do amargo tempo.
Teu rosto tem traços de ácido
e a morte vem, amarela,
com seus cabelos aquáticos,
acariciar docemente
teu sono inquieto e redondo.
Escapas do seu abraço
para caíres, sem peso,
no poço de cada dia.
Nada revelas. Os frutos
armam ciladas de encanto
e matemáticas flores
desvendam seu claro engano.

Investigação do olhar (1963)

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Antologia Poética da Geração 60 — Organizadores: Álvaro Alves de Faria e Carlos Felipe Moisés, e, a título de Posfácio, o texto ‘A Cidade, os Poetas, a Poesia’, de Cláudio Willer; 2000, Nankin Editorial, São Paulo — SP; Rubens Rodrigues Torres Filho, nascido em 1942, paulista de Botucatu, formado em Filosofia pela FFLCH Universidade de São Paulo, é poeta, filósofo, professor e tradutor; em poesia, escreveu e publicou Investigação do olhar (1963), O voo circunflexo (ganhador do Prêmio Jabuti, 1981), A letra descalça (1985), Poros (1989), Retrovar (1993), Novolume (1997); em prosa, vieram O espírito e a letra: a crítica da imaginação pura em Fichte (1975), Ensaios de filosofia ilustrada (1987), 'Redondezas do divino' em Filosofemas (1987), 'Por que estudamos?', na Revista da USP Nº 10 (1991), e outros textos; traduziu Kant, Fichte, Schelling, Nietzsche, Adorno, para a coleção 'Os Pensadores' (Abril/Nova Cultural), Novalis, etc., além de ter exercido outras atividades na área de filosofia; lecionou História da Filosofia Moderna e Filosofia Clássica Alemã na Universidade de São Paulo.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Carlos Vogt: Arqueologia

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Com um silêncio alugado 
feito de poros e arcos 
instala-se a noite versada 
nas manhãs da solidão 

é uma noite alongada 
terna de furos e arestas 
contida não no ser antes 
tampouco no ser porém 
ir sendo aquilo que resta 
noite enjaulada em macacos 
bichos no sótão 
 balança  
o tempo pendido na cauda 
do bicho preguiça que avança 

Paisagem doméstica, 1984

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Antologia Poética da Geração 60 — Organizadores: Álvaro Alves de Faria e Carlos Felipe Moisés, e, a título de Posfácio, o texto ‘A Cidade, os Poetas, a Poesia’, de Cláudio Willer; 2000, Nankin Editorial, São Paulo — SP; Carlos Alberto Vogt, nascido em 1943, paulista de Sales de Oliveira, formado em Letras pela USP, com mestrado em Letras Modernas, na Universidade de Besançon França e doutorado em Ciências na Unicamp, Campinas SP, poeta, professor, tradutor, também exerceu diversas funções e cargos nas áreas de educação, cultura e da ciência; sua bibliografia: O intervalo semântico (1977), Linguagem, pragmática e ideologia (1980), Cantografia — o itinerário do carteiro cartógrafo (poemas, 1982), Paisagem doméstica (poemas, 1984), Geração (poemas, 1985), Metalurgia (poemas, 1991), Os Melhores Poemas de Guilherme de Almeida Seleção e Comentários (1993), Mascarada (poemas, 1997), Ilhas Brasil (poemas, 2002) e outros títulos, além de ter publicado artigos e ensaios em jornais e revistas, e em órgãos especializados nacionais e estrangeiros; traduziu textos de Marcel Proust e de Algernon Charles Swinburne (poeta inglês da época vitoriana).

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Lindolf Bell: O poeta descobre-se no sebo

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O poeta, ansioso, silencioso, vaidoso
como sempre,
caminha no centro da cidade.

Em busca de si mesmo, considera o poeta,
em busca de mim
e também do povo
que tanto precisa de mim.

Encontra o sebo:
no mesmo lugar
o sebo de sempre
no mesmo lugar.
O sebo que liquida livros de poesia
como sempre,
como sempre anuncia o cartaz
escrito a pincel atômico
que a luz consome.

Quer dizer: o sebo liquida duplamente
a poesia,
pensa o poeta,
sem revolta
nem meta.

O poeta abre caminho entre os títulos.
Polvo de curiosidade.
Mil dedos
entre mil páginas.
E o poeta, herdeiro dos deuses,
hierático, enigmático como sempre
mas de suor frio na testa,
entre tantos livros empilhados
pilhou-se no flagrante
folheando o próprio livro.

Leu comovido a dedicatória.
O que sobra de um tempo feliz, pensa.
Em íntima dedicatória, amiga, íntegra entrega:
ofereço essas palavras
para que a ponte da amizade
cresça perfeita em nós
seres humanos.

O poeta deixa o sebo
o sente o ruidoso bafo da vida.
E neste instante começa a escrever
o próprio epitáfio.

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Antologia Poética da Geração 60 — Organizadores: Álvaro Alves de Faria e Carlos Felipe Moisés, e, a título de Posfácio, o texto ‘a Cidade, Os Poetas, a Poesia’, de Cláudio Willer; 2000, Nankin Editorial, São Paulo — SP; Lindolf Bell (1938 1998), catarinense de Timbó, filho de lavradores, formado pela Escola de Arte Dramática de São Paulo, foi poeta; liderou o Movimento Catequese Poética, o qual tinha a iniciativa de conduzir poesia às ruas, através de recitais e cantorias, o que o tornou reconhecido no Brasil e também no exterior; sua bibliografia: Os Póstumos e as Profecias (1962), Os Ciclos (1964), Convocação (1965), Curta Primavera (1966), A Tarefa (1966), Antologia Poética de Lindolf Bell (1967), Antologia da Catequese Poética (Lindolf Bell e outros poetas, 1968), As Annamárias (1971/1979), Incorporação (1974), As Vivências Elementares (1980), O Código das Águas (premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Artes APCA, 1984), Setenário (1985), Texto e Imagem (1987), Iconographia (1993), Requiem (1994);  o poeta teve textos editados em Angola África, além de ter sido traduzido em edições  de revistas e antologias (italiano, belga, inglês e espanhol).

sábado, 26 de agosto de 2017

Carlos Vogt: Soneto de ocasião

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Se de lembrar não fosse tempo agora
nem de outros frutos estação aqui 
se não passasse a chuva fina espora 
da longa espera de esperar por ti 

certo haveria acaso novidade 
tardes tranqüilas filas dolorosas 
insinuações de amor fragilidade 
torcidos homens torturadas rosas 

portas de aço a solidão por dentro 
riso ternura trampolim da sorte 
o antigo medo a procurar um centro 

hoje a viagem a despedida o pranto 
corta a memória aprofundando o corte 
na dor insiste o velho amor e quanto

Cantografia, 1982

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Antologia Poética da Geração 60 — Organizadores: Álvaro Alves de Faria e Carlos Felipe Moisés, e, a título de Posfácio, o texto ‘A Cidade, os Poetas, a Poesia’, de Cláudio Willer; 2000, Nankin Editorial, São Paulo — SP; Carlos Alberto Vogt, nascido em 1943, paulista de Sales de Oliveira, formado em Letras pela USP, com mestrado em Letras Modernas, pela Universidade de Besançon França e doutorado em Ciências pela Unicamp, Campinas SP, poeta, professor, tradutor, também exerceu diversas funções e cargos nas áreas de educação, cultura e da ciência; sua bibliografia: O intervalo semântico (1977), Linguagem, pragmática e ideologia (1980), Cantografia  o itinerário do carteiro cartógrafo (poemas, 1982), Paisagem doméstica (poemas, 1984), Geração (poemas, 1985), Metalurgia (poemas, 1991), Os Melhores Poemas de Guilherme de Almeida Seleção e Comentários (1993), Mascarada (poemas, 1997), Ilhas Brasil (poemas, 2002) e outros títulos, além de ter publicado artigos e ensaios em jornais e revistas, e em órgãos especializados nacionais e estrangeiros; traduziu textos de Marcel Proust e de Algernon Charles Swinburne (poeta inglês da época vitoriana).

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Rubens Rodrigues Torres Filho: Por exemplo

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Ao que se chama oceano: ponto,
pego, ambiguidade
ou simplesmente mar, nas horas densas,

ao que se diz das coisas invisíveis,
a saber, choro e vento, tempestade
dentro do abraço.

ao que se espera quando a noite é lenta
e se alimenta de pássaros suicidas

somo
esta notícia:
de teu nome gravado nas laranjas
e outros hábitos maiores.

Por exemplo sentar-se com gerânios
e a água que isso inaugura nos teus olhos.

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Antologia Poética da Geração 60 — Organizadores: Álvaro Alves de Faria e Carlos Felipe Moisés, 2000, Nankin Editorial, São Paulo — SP; Rubens Rodrigues Torres Filho, nascido em 1942, paulista de Botucatu, formado em Filosofia pela FFLCH Universidade São Paulo, é poeta, filósofo, professor e tradutor; em poesia, escreveu e publicou Investigação do olhar (1963), O voo circunflexo (ganhador do Prêmio Jabuti, 1981), A letra descalça (1985), Poros (1989), Retrovar (1993), Novolume (1997); em prosa, produziu e publicou O espírito e a letra: a crítica da imaginação pura em Fichte (1975), Ensaios de filosofia ilustrada (1987), 'Redondezas do divino' em Filosofemas (1987), 'Por que estudamos?', na Revista da USP Nº. 10 (1991), e outros textos; traduziu Kant, Fichte, Schelling, Nietzsche, Adorno, para a coleção 'Os Pensadores' (Abril/Nova Cultural), entre outras atividades na área de filosofia; lecionou História da Filosofia Moderna e Filosofia Clássica Alemã na Universidade de São Paulo.

quinta-feira, 30 de março de 2017

Álvaro Alves de Faria: O trem

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O trem avança destruindo
cancelas palavras abraços
corpos lábios e poemas.
O trem avança distante
ausente completo incômodo
com passageiros inertes
em poltronas velhas como a idade
dos retratos.
O trem corta trilhos
pedras horas estações
cidades homens o gesto
a minúscula paisagem do nada
que interfere como um tiro
e intercepta a bala
a arma o furo na pele.
O trem é penetrante
e entra na fotografia
como um criminoso que invade a casa.
O trem é devasso
e arranca a placa
que indica o fim da linha.

Gesto Nulo, 1998

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Antologia Poética da Geração 60 — Organizadores: Álvaro Alves de Faria e Carlos Felipe Moisés, 2000, Nankin Editorial, São Paulo — SP; Álvaro Alves de Faria, nascido em 1942, paulista e paulistano, formado em Sociologia Política com mestrado em Comunicação social, é jornalista, escritor e poeta que transitou e transita por diversos gêneros literários: poesia, novela, romance, crônica, ensaio e peça teatral; no jornalismo, a dedicação tem sido na área cultural, especialmente na crítica literária, cuja divulgação se deu e se dá em jornais, revistas, rádio e televisão; escreveu e publicou O Sermão do Viaduto (poesia, 1965), O tribunal (novela, 1971), 4 Cantos de Pavor e alguns poemas desesperados (poesia, 1973), O defunto — uma história brasileira (novela, 1976), Em legítima defesa (poesia, 1978), Motivos alheios (poesia, 1983), Gesto Nulo, Ócios do Ofício (poesia, 1998), A palavra áspera (poesia, 2002) e outros tantos títulos em verso e prosa; recebeu premiações por sua obra; tem publicado livros em Portugal; tem poemas traduzidos para os idiomas inglês, francês, italiano, espanhol, alemão, servo-croata e japonês.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Eduardo Alves da Costa: Salamargo

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Salamargo é o pão de cada dia;
pão de suor, amargonia.
Amargura por viver nesta agonia,
salamargando a tirania.

Salamargo é o tirano, segundo a segundo,
amargo sal que salga o mundo.
Assassino das manhãs, carrasco das tardes,
ladrão de todas as noites
e de seu mistério profundo;
carcereiro de seu irmão, a transmudar
a fantasia em noite de alcatrão.

Amaro é o fado de nascer escravo,
amargonauta em mar de sal,
nesta salsa-ardente irreal em que cravo
unhas e dentes, buscando viver
como um bravo entre decadentes.

Salamargo, tão amargo quanto
o mais amargo sal, é comer
o pão de cada dia sob o tacão
da tirania. Um pão amargo,
sem sal, pobre de amor e fantasia.
Salamargo existir sem poesia.

Salamargo, 1982

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Antologia Poética da Geração 60 — Organizadores: Álvaro Alves de Faria e Carlos Felipe Moisés, 2000, Nankin Editorial, São Paulo — SP; Eduardo Alves da Costa, nascido em 1936, fluminense de Niterói RJ, formado em Direito pela Universidade Mackenzie, em São Paulo, é escritor, poeta e cronista; nos anos 60 organizou as "Noites de Poesia" no Teatro Arena, em São Paulo, e participou do movimento "Os Novíssimos" da Massao Ohno, em 1962; nos anos 70 e 80, o poeta fez história quando um fragmento do seu poema ‘No caminho, com Maiakovski’ foi publicado na quarta capa do livro-ensaio Viva Eu, Viva Tu, Viva o Rabo do Tatu, do psicanalista Roberto Freire, com crédito ao autor russo Vladimir Maiakóvski e, a partir daí, o trecho do poema repercutiu em jornais, revistas e em atos políticos à época, sendo estampado em posters, cartazes e camisetas no movimento Diretas Já, contra a ditadura, ora como sendo de autoria do poeta russo e ora como sendo de Bertold Brecht; só bem mais tarde, reconheceu-se na mídia o verdadeiro autor do texto que já constara de seu primeiro livro de poesia, O Tocador de Atabaque (1a. edição em 1969); Eduardo Alves da Costa escreveu, além de O Tocador de Atabaque, Fátima e o Velho (contos), Chongas (romance, 1974), A Sala do Jogo (contos), Memórias de um Assoviador (infanto-juvenil, 1994), e outros títulos; o poeta, que trabalhou como cronista no Diário Popular, também foi publicado em antologias, escreveu peças teatrais e foi premiado.