quinta-feira, 30 de junho de 2022

Tristan Corbière: O Cachimbo do poeta

 
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[traduzido por Marcos Antônio Siscar]

Sou o Cachimbo de um poeta,
Sua ama: que a Besta lhe aquieta.

Quando um sonho cego apanha
A fronte em seu louco trajeto,
Fumego… e ele, no seu teto,
Já não vê as teias de aranha.

…Eu dou-lhe um céu de paisagens:
Nuvens, mar, deserto, miragens;
Seu olho morto ali se perde…

E quando a névoa se faz pesada
Crê ver uma sombra passada,
E minha boquilha ele morde…

Outra tormenta desabrida
Solta-lhe alma, corrente e vida!
… Sinto-me que apago. Ele dorme

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Dorme, pois dorme a Besta lassa.
Traga do sonho o conteúdo…
Pobre amigo!… a fumaça é tudo.
 Se é certo que tudo é fumaça.

Paris. — Janeiro.

Tristan Corbière

La Pipe au poète*

Je suis la Pipe d’un poète,
Sa nourrice, et: j’endors sa Bête.

Quand ses chimères éborgnées
Viennent se heurter à son front,
Je fume… Et lui, dans son plafond,
Ne peut plus voir les araignées**.

… Je lui fais un ciel, des nuages,
La mer, le désert, des mirages;
Il laisse errer là son œil mort…

Et, quand lourde devient la nue,
Il croit voir une ombre connue,
Et je sens mon tuyau qu’il mord…

Un autre tourbillon délie
Son âme, son carcan, sa vie!
… Et je me sens m’éteindre. Il dort

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Dors encor: la Bête est calmée,
File ton rêve jusqu’au bout…
Mon Pauvre!… la fumée est tout.
S’il est vrai que tout est fumée…

Paris. — Janvier***.

Notas do tradutor Marcos Antônio Siscar:
* Variação sobre um poema de Baudelaire (“La Pipe”). ([traduções de] NA [Nelson Ascher] e RB [Régis Bonvicino], em Corpo Extranho, nº 3);
** — Jogo de palavras com a expressão “avoir des araignées dans le plafond”; Na Introdução deste Os Amores amarelos vemos: . . . “No alto, uma aranha tece sua teia. É bastante curiosa a forma como essa obra pictórica torna visual o movimento de linguagem preferido pelo poeta. Em francês, “avoir des araignées dans le plafond” designa a loucura, alteração psíquica  que o registro familiar dota de um tom irônico. “Ter macaquinhos no sótão" seria a expressão correspondente em português. . . .;
*** “Paris. — Janeiro” — Lembra a idéia de conforto do cachimbo ao pé do fogo, durante o inverno. De fato, “tudo é fumaça”, inclusive sobre os tetos da cidade de Paris, naquela época.
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Os Amores amarelos — Tristan Corbière, Introdução, Tradução e Notas de Marcos Antônio Siscar, edição bilíngue, 1996, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Tristan Corbière, ou Édouard-Joachim Corbière (1845 1875), francês de Morlaix Finistère-Bretagne, estudou em regime de internato num liceu de Saint-Brieuc e em regime de externato num liceu de Nantes, foi poeta simbolista e caricaturista; de sua biografia consta que seus primeiros poemas e caricaturas vieram à luz durante o período em que foi aluno interno e que seu mais antigo poema, com data de 1860, satiriza um professor de história; escreveu e publicou um único livro em vida, Les Amours jaunes (Os Amores amarelos, 1873) e a revista La Vie Parisienne registra alguns de seus poemas; o livro é considerado um fracasso total e não obteve reconhecimento público; o poeta só teve seu trabalho valorizado após Paul Verlaine o citar em Les Poètes maudits, 1883; consta que tal recomendação bastou para trazer Tristan Corbière ao público e firmá-lo como um dos mestres reconhecidos do Simbolismo; sua poética é considerada precursora do Surrealismo; de saúde frágil, morreu de tuberculose aos 29 anos de idade; em 1891, pelas mãos do editor Léon Vanier, vem a público a 2ª edição de Os Amores amarelos e, desta vez, foi absorvida e benquista nos meios literários; depois, vieram outras edições e reimpressões.

quarta-feira, 29 de junho de 2022

Giosuè Carducci: Ideal

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[tradução/transcriação de Haroldo de Campos]

Depois que um vapor de ambrosia, sereno,
difuso de tua copa derramaste-me,
ó Hebe com passo de deusa
transvoando sorridente te avias;

não mais do tempo a sombra e dos cuidados
álgidos, sinto pesar-me à fronte, sinto,
ó Hebe, que a helênica vida
tranquila por minhas veias flui.

E declive-abaixo, os arruinados
da idade lúgubre dias retornam,
ó Hebe, em teu dulçor de luz,
agônicos de revivescência;

e os vindouros anos da caligem
voluntariosos alçam a testa,
ó Hebe, ao teu raio que, trêmulo,
aponta e roseando já os saúda.

A uns e outros tu sorris, estrela
nítida, lá de cima. Assim nos góticos
delubros, entre negras e cândidas
cúspides precípites irrompendo

com dúplice ao céu escolta marmórea
plácida no último pinác’lo está
a doce menina de Jesse
toda-envolta em pontiúnculos de ouro.

Vilas, campos verdes de argentinos
rios irrigados, aérea ela contempla
as ondejantes searas nos plainos,
as irradiantes sobre os alpes neves;

em torno dela nuvens circum-voam;
fora das nuvens, ela ri, fulgente,
às albas de maio, estação florida,
aos de novembro fúnebres ocasos.

Giosuè Carducci

Ideale

Poi che un sereno vapor d'ambrosia
da la tua coppa diffuso avvolsemi,
o Ebe con passo di dea
trasvolata sorridendo via;

non piú del tempo l'ombra o de l'algide
cure su 'l capo mi sento; sentomi,
o Ebe, l'ellenica vita
tranquilla ne le vene fluire.

E i ruinati giú pe 'l declivio
de l'età mesta giorni risursero,
o Ebe, nel tuo dolce lume
agognanti di rinnovellare;

e i novelli anni da la caligine
volenterosi la fronte adergono,
o Ebe, al tuo raggio che sale
tremolando e roseo li saluta.

A gli uni e gli altri tu ridi, nitida
stella, da l'alto. Tale ne i gotici
delúbri, tra candide e nere
cuspidi rapide salienti

con doppia al cielo fila marmorea,
sta su l'estremo pinnacol placida
la dolce fanciulla di Jesse
tutta avvolta di faville d'oro.

Le ville e il verde piano d'argentei
fiumi rigato contempla aerea,
le messi ondeggianti ne' campi,
le raggianti sopra l'alpe nevi:

a lei d'intorno le nubi volano;
fuor de le nubi ride ella fulgida
a l'albe di maggio fiorenti,
a gli occasi di novembre mesti.
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Entremilênios — Haroldo de Campos, Organização e Nota de Carmen de P. Arruda Campos, 2009, 1ª edição e 1ª reimpressão, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Giosuè Alessandro Giuseppe Carducci ou Joshua Carducci (1835 1907), italiano de Valdicastello di Pietrasanta, estudou na Scuola Normale de Pisa, formou-se em Filosofia e Filologia, lecionou Literatura italiana na Universidade de Bolonha, foi poeta e crítico; obras: Rime (poesias, 1857), Levia Gravia (1868), Poesie (1871), Primavere elleniche (1872), Nuove poesie (1873), Odi barbare (1877), Juvenilia (1880), e tantas outras edições e re-edições; em 1906 foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura.

terça-feira, 28 de junho de 2022

William Shakespeare: Quando vejo nas crônicas antigas . . . [soneto]

 
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[traduzido por Ivo Barroso]

106

Quando vejo nas crônicas antigas
A descrição dos seres mais perfeitos,
E o belo a embelezar velhas cantigas
Em honra à dama e aos paladins eleitos,
No blasonar da formosura rara
Que em mãos, pés, lábios, olhos, face aflora,
Sinto que a musa antiga decantara
Mesmo a beleza que deténs agora.
Não passa tal louvor de profecia
Do nosso tempo, e já te prefigura;
Mas como só na mente é que te via,
Não pôde o teu valor cantar à altura.
    E hoje, que temos olhos pra ver,
    Verbo nos falta para enaltecer.

William Shakespeare

CVI

When in the chronicle of wasted time
I see descriptions of the fairest wights,
And beauty making beautiful old rime,
In praise of ladies dead and lovely knights,
Then, in the blazon of sweet beauty’s best,
Of hand, of foot, of lip, of eye, of brow,
I see their antique pen would have express’d
Even such a beauty as you master now.
So all their praises are but prophecies
Of this our time, all you prefiguring;
And for they look’d but with divining eyes,
They had not skill enough your worth to sing:
   For we, which now behold these present days,
   Have eyes to wonder, but lack tongues to praise.
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50 Sonetos — William Shakespeare, Tradução e Apresentação de Ivo Barroso, Prefácio de Antônio Houaiss e Posfácio/Estudo de Nehemias Gueiros, edição bilíngue, 2015, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; William Shakespeare (1564 1616), nascido em Stratford-upon-Avon, poeta e dramaturgo inglês, é tido como o mais influente dramaturgo do mundo; de Shakespeare, consta que restaram até nossos dias 38 peças, 3154 sonetos, dois longos poemas narrativos e diversos outros poemas; suas peças foram traduzidas para os principais idiomas do globo e são revisitadas e interpretadas frequentemente pelo teatro, televisão, cinema e literatura que o digam Romeu e Julieta e Hamlet, por exemplo; principais obras: escreveu comédias (Sonho de Uma Noite de Verão, O Mercador de Veneza, A Comédia de Erros, A Megera Domada, A Tempestade, Cimbelino, e tantas outras), tragédias (Tito Andrônico, Romeu e Julieta, Júlio César, Macbeth, Coriolano, Rei Lear, Otelo — O Mouro de Veneza, Hamlet etc.), dramas históricos (Rei João, Ricardo II, Ricardo III, Henrique IV — partes 1 e 2, Henrique V, Henrique VI — partes 1, 2 e 3, Henrique VIII e Eduardo III).

segunda-feira, 27 de junho de 2022

Waldemar Lopes: Soneto do olvido

 
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XXII

Ante a nave do tempo as misteriosas
ilhas de solidão. Sombra hesitante
em obscura sondagem: mortas rosas
junto aos deuses imêmores. Adiante,

os presságios do olvido, as enganosas
senhas de lenda para o sonho andante,
posto restaure o canto, ainda piedosas,
as dádivas do acaso, em seu instante

fugaz, sopro e semente de poesia;
ressoe no escuro bojo a hora reversa
da aventura perdida; e a nostalgia

colha na asa da noite a sombra leve:
a luz dura da vida jaz submersa
entre a flor desflorida e a estrela breve.

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Sonetos do Tempo Perdido — Waldemar Lopes, Introdução de Aurélio Buarque de Holanda, 1970, Editorial Palmares, Rio de Janeiro — RJ; Waldemar Freire Lopes (1911 2006), pernambucano de Quipapá, foi jornalista, literato, poeta e atuou também nas áreas de economia, administração pública e direito público internacional junto às instituições IBGE e OEA (Organização dos Estados Americanos); no jornalismo, atuou no Jornal do Commercio (Recife), n’A Noite (Rio de Janeiro), na Folha Carioca, na Tribuna de Imprensa e em outros jornais e revistas especializadas; obras: Legenda (poesias, 1929), Sonetos do Tempo Perdido (1970), Inventário do Tempo (1974), Os Pássaros da Noite (1974), Sonetos da Despedida (1976), Sonetos do Natal (1977), Elegia a Joaquim Cardozo (1978), O Jogo Inocente (1979), Memória do Tempo (1981), Sonetos de Portugal (1984, 1994 e 2005), As Dádivas do Crepúsculo (1996), Austro-Costa no centenário do seu nascimento (1999), Cinza de Estrelas (2001); participou de várias instituições técnicas e culturais no Brasil e no exterior.

domingo, 26 de junho de 2022

Camilo Pessanha: Crepuscular

 
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Há no ambiente um murmúrio de queixume,
De desejos de amor, d’ais comprimidos...
Uma ternura esparsa de balidos,
Sente-se esmorecer como um perfume.

As madressilvas murcham nos silvados
E o aroma que exalam pelo espaço,
Tem delíquios de gozo e de cansaço,
Nervosos, femininos, delicados.

Sentem-se espasmos, agonias d’ave,
Inapreensíveis, mínimas, serenas...
Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas,
O meu olhar no teu olhar suave.

As tuas mãos tão brancas d’anemia...
Os teus olhos tão meigos de tristeza...
É este enlanguescer da natureza,
Este vago sofrer do fim do dia.

Clepsidra — 1920

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Poesia Simbolista — Literatura Portuguesa [vários poetas], Seleção, Introdução, Traços Biobibliográficos e Notas de Álvaro Cardoso Gomes, 1986, Global Editora, São Paulo — SP; Camilo de Almeida Pessanha (1867 1926), português coimbrão, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, ingressou na magistratura, foi professor de Filosofia e poeta; ao longo do seu período acadêmico publicou poemas (o primeiro, 'Lúbrica', datado de 1895) em revistas e jornais como A Crítica, de Coimbra, Novo Tempo, periódico de Mangualde, e A Gazeta, de Coimbra; devido seu ofício de magistrado viveu em diversas regiões de Portugal; em 1894 partiu para Macau após ter sido aprovado em concurso e nomeado professor de Filosofia no recém criado Liceu de Macau; pelas mãos da escritora Ana de Castro Osório e a partir de autógrafos recolhidos e recortes de jornais, publicou-se em vida apenas uma obra do poeta, Clepsidra (1920), várias vezes reeditada; foi desse modo que os versos de Pessanha, considerado um dos poetas mais importantes do Simbolismo português, se salvaram do esquecimento.

sábado, 25 de junho de 2022

Novalis: Cada palavra é uma palavra de conjuro. & outros fragmentos

 
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[traduzido por Rubens Rodrigues Torres Filho]

[Fragmentos logológicos]

          1. <A História da Filosofia até agora nada é, senão uma história das tentativas de descobrimento de filosofar. Tão logo se filosofa nascem filosofemas, e a genuína ciência natural dos filosofemas é a filosofia.>
          2. <Estas múltiplas perspectivas de meus anos de formação filosóficos podem talvez entreter aquele que encontra sua alegria na observação da natureza em devir e não ser inúteis àquele que está ainda ele mesmo envolvido nesses estudos.>

          [ . . . ]

          4. <Um problema é uma massa sólida, sintética, que mediante a faculdade de pensar penetrante é decomposta. Assim é inversamente o fogo a faculdade de pensar da natureza e cada corpo um problema.>
          5. <É preciso saber distinguir em cada filosofia o contingente do essencial. Faz parte desse contingente o seu lado polêmico. Em tempos posteriores a fadiga desperdiçada na refutação e eliminação de opiniões precedentes aparece como bastante estranha Propriamente é essa polêmica ainda um auto-combate de vez que o pensador que não cabe mais no seu tempo é no entanto ainda desassossegado, pelos preconceitos de seus anos acadêmicos um desassossego, do qual em tempos mais claros não se pode mais ter noção nenhuma, porque não se sente nenhuma necessidade de pôr-se em segurança contra ele.>
          6. <Cada palavra é uma palavra de conjuro. Qual espírito chama um tal aparece.>

          [ . . . ]

Novalis

[Logologische Fragmente]

          1. <Die bisherige Geschichte der Philosophie ist nichts, als eine Geschichte der Entdeckungsversuche des Philosophirens. Sobald philosophirt wird entstehn Philosopheme und die ächte Naturlehre der Philosopheme ist die Philosophie.>
          2. <Diese mannichfachen Ansichten aus meinen philosophischen Bildungsjahren können vielleicht denjenigen unterhalten, der sich aus der Beobachtung der werdenden Natur eine Freude macht, und demjenigen nicht unnütz seyn, der selbst noch in diesen Studien begriffen ist.>

          [ . . . ]

          4. <Ein Problem ist eine feste, synthetische Masse, die mittelst der durchdringenden Denkkraft zersezt wird. So ist umgekehrt das Feuer die Denckkraft der Natur und jeder Körper ein Problem.>
          5. <Man muß bey jeder Philosophie das Zufällige von dem Wesentlichen zu unterscheiden wissen. Zu diesem Zufälligen gehört ihre polemische Seite. In spätern Zeiten erscheint die an Widerlegung und Beseitigung vorhergegangener Meynungen verschwendete Mühe seltsam genug . Eigentlich ist diese Polemik noch eine Selbstbekämpfung indem der seiner Zeit entwachsene Denker doch noch von den Vorurtheilen seiner academischen Jahre beunruhigt wird eine Beunruhigung, von der man sich in hellern Zeiten keinen Begriff mehr machen kann, weil man kein Bedürfniß fühlt sich dagegen in Sicherheit zu setzen.>
          6. <Jedes Wort ist ein Wort der Beschwörung. Welcher Geist ruft ein solcher erscheint.>

          [ . . . ]
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Pólen — Fragmentos, diálogos, monólogos: Novalis, Tradução, Apresentação e Notas de Rubens Rodrigues Torres Filho, 2001, 2ª edição, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Novalis (1772 1801) ou Freiher von Hardenberg, ou ainda Georg Phillip Friedrich von Hardenberg, alemão de Wiederstedt, Saxônia, estudou Direito na Universidade de Jena, completou seus estudos jurídicos em Wittenberg, foi poeta, escritor e filósofo; o poeta sofreu influências de Goethe, Fichte e de outros pensadores de sua época; parte de sua obra foi publicada no periódico Der Neue teutsche Merkur e na revista Athenäum; obras: Klageneines Jünglings (Lamento de um jovem, 1791), Blumen (Flores, 1798), Blüthenstaub (textos filosóficos, Pólen, 1798), Hymnen an die Nacht (Hinos à noite, 17991800), Sammlung von Fragmenten und Studien (Coletânea de Fragmentos e Estudos, 17991800), Geistliche Lieder (Canções espirituais, 1802) e outros textos em verso e prosa e filosóficos os quais, devido a sua morte prematura, muitos vieram à luz de forma incompleta e/ou inacabada.

Ana Cruz: Retinta

 
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Mãe preta, bonita, sorriso longo, completo.
Nem parece que passou por tantas.
Deu um duro danado entre a roça e os bordados.
Virou ao avesso para não desbotar.
Dizia, não com soberba: esfrego chão dessas Senhoras.
Essa gente coloniza.
Se a pessoa não tiver orgulho de ser assim Zulu
fica domesticada.
Sem opinião. Se autodeprecia, adoece.

Guardados da memória — 2008

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Antologia de Poesia Afro-Brasileira — 150 anos de consciência negra no Brasil, Organização de Zilá Bernd, Coorganização de Emilene Corrêa Souza e Plínio Carlos Souza Corrêa Junior, 2011, Mazza Edições, Belo Horizonte — MG; Ana Cruz, nascida em 1965, mineira de Visconde do Rio Branco, é jornalista e poeta; estreou na literatura com a obra E... feito de luz (1997), depois vieram Com o perdão da palavra (1999), Mulheres Q' Rezam (2001), e Guardados da memória (2008); criou e coordenou o caderno literário Jornal mural de mina (edições em 1998 e 2003), com textos de vários autores e também seus, além de críticas; lançou o projeto Mulheres Bantas, Vozes de Minhas Antepassadas (2011), incluindo um seminário sobre literatura afro-brasileira e leitura de seus poemas em DVD; atualmente reside em Niterói RJ.

sexta-feira, 24 de junho de 2022

Else Lasker-Schüler: Jerusalem

 
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[tradução “quase textual” oferecida por Juliana P. Perez]

Deus construiu de Sua espinha: Palestina
De um único osso: Jerusalém.

Eu vago como entre mausoléus
Pétrea, nossa cidade santa.
As pedras descansam nos leitos dos mortos mares seus.
No lugar de seda, águas que lá brincavam: vêm e passam.

Duros os solos fixam o viajante
E ele afunda em suas noites fixas.
Sinto um medo que eu não posso superar

Mas se tu viesses.....
Envolto em lúcido manto alpino
E de meu dia o crepúsculo levasses
Meu braço te seria moldura, santa imagem auxiliadora.

Como antes, quando eu sofria no escuro do meu coração
Pois teus olhos ambos: nuvens azuis.
Eles me levaram da minha melancolia.

Mas se tu viesses
À terra dos antepassados
Tu me exortarias como uma criancinha:
Jerusalém ressuscite!

Saúdam-nos
As vivas bandeiras do ‘único Deus’
Mãos verdejantes, que semeiam o sopro da vida.

Else Lasker-Schüler

Jerusalem

Gott baute aus Seinem Rückgrat: Palästina
aus einem einzigen Knochen: Jerusalem.

Ich wandele wie durch Mausoleen
Versteint ist unsere Heilige Stadt.
Es ruhen Steine in den Betten ihrer toten Seen
Statt Wasserseiden, die da spielten: kommen und vergehen.

Es starren Gründe hart den Wanderer an
Und er versinkt in ihre starren Nächte.
Ich habe Angst, die ich nicht überwältigen kann.

Wenn du doch kämest.....
Im lichten Alpenmantel eingehüllt
Und meines Tages Dämmerstunde nähmest
Mein Arm umrahmte dich, ein hilfreich Heiligenbild.

Wie einst wenn ich im Dunkel meines Herzens litt
Da deine Augen beide: blaue Wolken.
Sie nahmen mich aus meinem Trübsinn mit.

Wenn du doch kämest
In das Land der Ahnen
Du würdest wie ein Kindlein mich ermahnen:
Jerusalem erfahre Auferstehen!

Es grüssen uns
Des »Einzigen Gotts« lebendige Fahnen,
Grünende Hände, die des Lebens Odem säen.
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Poetas mulheres que pensaram o século XX [várias poetas, vários ensaios, vários ensaístas] — Apresentação e Organização de Regina Przybycien e Cleusa Gomes, 2008, Editora UFPR, Curitiba — PR; Elisabeth Lasker-Schüler ou Else Lasker-Schüler (1869 1945), alemã de Elberfeld, foi poeta, escritora e artista plástica; seus primeiros poemas foram publicados na revista Die Gesellschaft (A Sociedade), em 1899, dando início à sua participação no círculo literário de Berlim; foi uma das fundadoras da revista expressionista Der Sturm, em 1910; obras: Styx (poesias, 1902), Meine Wunder (poesias, 1911), Hebräische Balladen (Baladas Hebraicas, 1913), Mein Blaues Klavier (O meu piano azul, 1943) e outros títulos; Else Lasker-Schüler, que ilustrava seus próprios livros, considerada a grande musa da geração expressionista, teve como uma de suas paixões o poeta Gottfried Benn, a quem ela chamava de Giselheer, nos poemas; de 1894 a 1933 a poeta viveu em Berlim e, depois, com a ascensão do nazismo e de Hitler ao poder, exilou-se em Jerusalém; em 1932, Else Lasker-Schüler recebeu o Prêmio Kleist, prêmio literário alemão concedido pela última vez antes da tomada de poder pelos nacional-socialistas [nazistas].

quinta-feira, 23 de junho de 2022

Dalton Trevisan: Loira, magra, pálida. Olhinho verde. . . .

 
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Conto 54

          Loira, magra, pálida. Olhinho verde. Faz o curso de normalista em Curitiba, pronto adoece do peito. Volta para casa se tratar com repouso e comida farta. De noite à janela, almofada no peitoril, se distrai com o movimento na praça.
          João começa a subir e descer a rua. Ela não sai da janela. Na quinta ou sexta noite, ele ganha coragem: “Boa noite.” Ela acena de leve. Na volta, ele para. Assim inicia o namoro. Com aprovação da mãe que se afasta quando ele surge na esquina.
          Grande vexame a avozinha caduca, guardada longe das visitas. De repente salta a cabecinha branca na janela do sótão e berra o palavrão medonho. Os dois pretendem não ouvir. A moça olha fixamente as luzes piscantes na porta do cinema.
          Um mês de namoro sob a janela. Depois ele entra na sala. É quando o tio médico o aborda na praça:
           João, sabe a doença que ela tem, não é? Ela se apaixona por você, e daí? Você compromete a moça, que não pode casar. Serão os dois infelizes.
          Perturbado, roído de culpa, se despede da namorada. Já lhe devolvendo os presentes: um retratinho 3x4, outro colorido, tamanho postal. Mais a fitinha rósea de cabelo. Motivo: uma longa viagem de estudo.
          Arrependidíssimo volta para casa, chutando pomba na calçada e se chamando rato piolhento com gravatinha-borboleta e tudo.
          Nove da noite, ao cruzar a praça, dá com a moça à janela. Amor, pena e remorso, aproxima-se. ela, voz chorosa:
           Veio me dizer o que esqueceu ontem?
          No peito sete agulhas fininhas de gelo.
           Não. vim dizer que te amo. E não quero te perder. Você me perdoa?
          Eis a cabecinha branca da velhota na janela do sótão:
           Pu-ta-que-me-pa-riu!
          Reconciliados, os dois riem com gosto.
          Conselho médico, ela deve passar toda manhã respirando o ar puro do campo — ele ao seu lado, mãos dadas. Lívida e linda, na face uma pétala de carmim de febre, tossicando no lencinho rendado. Convencidos, ele mais que ela, que para tão grande amor tão pouca é a tísica.
          Sem aviso a família decide mudar para Curitiba. Eles passam a se cartear: “Quando me deixou, ai João... pensei de ir para a cama... nunca mais levantar... agora deitada ficarei... me levem de volta para você...”
          Mal sabe a pobre que desta vez. Na carta seguinte, a última, um anel de cabelo: seria loiro? ai não, branco seria?
          Tão saudoso, com tamanha aflição, deitada lá longe, ele salta correndo no primeiro trem. Na tarde florida de sol, à sombra de uma árvore, espia a casa de veneziana verde. Pra lá pra cá, por duas horas, na louca esperança de uma luva de crochê acenando da janela.
           Por que não bateu?
           Não tinha liberdade para isso.
          Dia seguinte a notícia da morte no sono. Meses depois, a mãe vai à casa de João pedir de volta cartas e retratos. Ele remexe no bauzinho e entrega o seu tesouro mais precioso.
           Mas não devolvi todas. Uma eu guardo até hoje.

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Pico na Veia, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ, 2002; Dalton Jérson Trevisan, nascido em 1925, paranaense e curitibano, formou-se pela Faculdade de Direito do Paraná (atual UFPR Universidade Federal do Paraná), foi advogado, jornalista e é escritor e contista; obras: Sonata ao Luar (contos, 1945) e Sete Anos de Pastor (1948), ambos posteriormente renegados pelo autor, Novelas Nada Exemplares (1959), Cemitério de Elefantes (1964), O Vampiro de Curitiba (1965), Desastres de Amor (1968), A Guerra Conjugal (1969), A Trombeta do Anjo Vingador (1977), A Polaquinha (romance, 1985), Pico na Veia (2002), além de mais uma vintena de obras; Pico na Veia é composto, em sua maior parte, por microcontos (minicontos ou nanocontos), uma das especialidades do escritor; o eterno curitibano Dalton Trevisan editou entre abril de 1946 e dezembro de 1948, fora do eixo cultural Rio São Paulo, a Joaquim — revista mensal de arte em homenagem a todos os joaquins do Brasil, porta-voz de uma geração de escritores, críticos e poetas nacionais e que reunia ensaios assinados por Antonio Candido, Mário de Andrade e Otto Maria Carpeaux, poemas até então inéditos como "O caso do vestido" de Carlos Drummond de Andrade, além de trazer traduções originais de Joyce, Proust, Kafka, Sartre, Gide e ilustrações de artistas como Poty, Di Cavalcanti e Heitor dos Prazeres; em 2002, os vinte e um números da Joaquim foram reeditados em edição fac-similar pela Imprensa Oficial do Paraná, patrocinados pela Secretaria da Justiça e da Cidadania do Governo do Paraná; o contista teve obras publicadas nos idiomas alemão, espanhol, francês, inglês, holandês, polonês, e participou com contos em antologias alemãs, argentinas, americanas, polonesas, sueca, venezuelana, dinamarquesa e portuguesa; seu livro A Guerra Conjugal serviu de base para o filme de mesmo nome, com histórias e diálogos do autor, e com roteiro e direção do cineasta Joaquim Pedro de Andrade, em 1975; Dalton Trevisan foi várias vezes premiado pela sua atividade literária: o Prêmio Camões (Instituto Camões, Lisboa Portugal), o Prêmio Machado de Assis (Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra), ambos em 2012, diversos prêmios Jabuti de Literatura e outros.

quarta-feira, 22 de junho de 2022

Jules Laforgue: Litanias dos quartos crescentes da lua

 
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[traduzido por Régis Bonvicino]

Lua bendita,
De selenitas,

Medalhão branco
De Endimião

Astro argila
Que tudo exila,

Tumba mantô
De Salambô,

Cais aéreo
Todo Mistério,

Madona, Miss
Diana-Artemis

Santa Vigia
Dessas orgias

Jetaturá
Do bacará

Dama bem lassa
De nossas praças,

Filtro perfume
De vagalumes,

Rosácea-palma
Últimos salmos,

Olho de gata
Que nos resgata,

Seja ambulância
De nossas ânsias,

Seja edredão
Do grão perdão!

Jules Laforgue

Litanies des premiers quartiers de la lune

Lune bénie
Des insomnies,

Blanc médaillon
Des Endymions,

Astre fossile
Que tout exile,

Jaloux tombeau
De Salammbô,

Embarcadère
Des grands Mystères,

Madone et miss
Diane-Artémis,

Sainte Vigie
De nos orgies

Jettatura
Des baccarats,

Dame très-lasse
De nos terrasses,

Philtre attisant
Les vers luisants,

Rosace et dôme
Des derniers psaumes,

Bel œil-de-chat
De nos rachats,

Sois l'Ambulance
De nos croyances!

Sois l'édredon
Du Grand-Pardon!
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Litanias da lua: Jules Laforgue Organização, Nota Introdutória, Notícia Biográfica e Tradução de Régis Bonvicino, edição bilíngue, 1989, Iluminuras, São Paulo SP; Julio Laforgue ou Jules Laforgue (1860 1887), nascido em Montevidéu Uruguai, mas desde os seis anos de idade residindo na França, terra de seus pais, foi poeta, romancista, ensaísta e tradutor franco-uruguaio; fez seus estudos iniciais em Tarbes, concluindo-os em Paris, no hoje Liceu Condorcet, depois passou pela Escola de Belas Artes, também em Paris, e em 1879 publicou sua primeira poesia; escreveu cerca de duas centenas de poemas, além de prosa criativa e prosa crítica; de sua biografia consta que sua poética influenciou fortemente T. S. Eliot, Ezra Pound e Marcel Duchamp; traduziu Walt Whitman; Jules Laforgue foi um dos primeiros poetas franceses a escrever em versos livres, o primeiro a fazê-lo de forma sistemática; obras: publicou em vida apenas quatro livros, Les Complaintes (1885), L’Imitation de Notre Dame la Lune, Concile Féerique (ambos em 1886) e Moralidades Lendárias (1887); postumamente vieram à luz Derniers Vers (1890), Mélanges Posthumes (1903), a maior parte de sua obra só foi publicada postumamente; no Brasil, sua poética fertilizou Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade; morreu aos 27 anos, de tuberculose.