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[traduzido por Marcos Antônio
Siscar]
Sou o Cachimbo de um poeta,
Sua ama: que a Besta lhe aquieta.
Quando um sonho cego apanha
A fronte em seu louco trajeto,
Fumego… e ele, no seu teto,
Já não vê as teias de aranha.
…Eu dou-lhe um céu de paisagens:
Nuvens, mar, deserto, miragens;
— Seu olho morto ali se perde…
E quando a névoa se faz pesada
Crê ver uma sombra passada,
— E minha boquilha ele morde…
— Outra tormenta desabrida
Solta-lhe alma, corrente e vida!
… Sinto-me que apago. — Ele dorme —
. . . . . . . . . . . . . . . . . .
. .
— Dorme, pois dorme a Besta lassa.
Traga do sonho o conteúdo…
Pobre amigo!… a fumaça é tudo.
— Se é certo que tudo é fumaça.
Paris. — Janeiro.
La Pipe au poète*
Je suis la Pipe d’un poète,
Sa nourrice, et: j’endors sa Bête.
Quand ses chimères éborgnées
Viennent se heurter à son front,
Je fume… Et lui, dans son plafond,
Ne peut plus voir les araignées**.
… Je lui fais un ciel, des nuages,
La mer, le désert, des mirages;
— Il laisse errer là son œil mort…
Et, quand lourde devient la nue,
Il croit voir une ombre connue,
— Et je sens mon tuyau qu’il mord…
— Un autre tourbillon délie
Son âme, son carcan, sa vie!
… Et je me sens m’éteindre. — Il dort —
. . . . . . . . . . . . . . . . . .
. .
— Dors encor: la Bête est
calmée,
File ton rêve jusqu’au bout…
Mon Pauvre!… la fumée est tout.
— S’il est vrai que tout est fumée…
Paris. — Janvier***.
Notas do tradutor Marcos Antônio
Siscar:
* Variação sobre um poema de Baudelaire
(“La Pipe”). ([traduções de] NA [Nelson Ascher] e RB [Régis Bonvicino], em
Corpo Extranho, nº 3);
** — Jogo de palavras com a
expressão “avoir des araignées dans le plafond”; Na Introdução deste Os Amores
amarelos vemos: . . . “No alto, uma aranha tece sua teia. É bastante curiosa a
forma como essa obra pictórica torna visual o movimento de linguagem preferido
pelo poeta. Em francês, “avoir des araignées dans le plafond” designa a
loucura, alteração psíquica que o
registro familiar dota de um tom irônico. “Ter macaquinhos no sótão" seria a
expressão correspondente em português. . . .;
*** “Paris. — Janeiro” — Lembra a
idéia de conforto do cachimbo ao pé do fogo, durante o inverno. De fato, “tudo
é fumaça”, inclusive sobre os tetos da cidade de Paris, naquela época.
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Os Amores amarelos — Tristan
Corbière, Introdução, Tradução e Notas de Marcos Antônio Siscar, edição
bilíngue, 1996, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Tristan Corbière, ou
Édouard-Joachim Corbière (1845 — 1875), francês de Morlaix —
Finistère-Bretagne, estudou em regime de internato num liceu de Saint-Brieuc e
em regime de externato num liceu de Nantes, foi poeta simbolista e caricaturista;
de sua biografia consta que seus primeiros poemas e caricaturas vieram à luz
durante o período em que foi aluno interno e que seu mais antigo poema, com
data de 1860, satiriza um professor de história; escreveu e publicou um único
livro em vida, Les Amours jaunes (Os Amores amarelos, 1873) e a revista La Vie
Parisienne registra alguns de seus poemas; o livro é considerado um fracasso
total e não obteve reconhecimento público; o poeta só teve seu trabalho
valorizado após Paul Verlaine o citar em Les Poètes maudits, 1883; consta que
tal recomendação bastou para trazer Tristan Corbière ao público e firmá-lo como
um dos mestres reconhecidos do Simbolismo; sua poética é considerada precursora
do Surrealismo; de saúde frágil, morreu de tuberculose aos 29 anos de idade; em
1891, pelas mãos do editor Léon Vanier, vem a público a 2ª edição de Os Amores
amarelos e, desta vez, foi absorvida e benquista nos meios literários; depois,
vieram outras edições e reimpressões.

