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[traduzido por Kurt Scharf e Armindo Trevisan]
Havia, porém, milhares num porão
ou um sozinho consigo ou dois
e lutavam entre si um contra o outro
Um era quem dizia A Mais-Valia
e não pensava em si e não queria saber
nada de nós recitava A Doutrina
O Proletariado e a Revolução
Palavras cultas na sua boca como pedras
E também levantava as pedras
e as jogava E tinha razão
Não é verdade E era o outro
que o dizia Amo apenas a ti
e não a todas Que fria está minha mão
E a dor devoradora no teu fígado
não consta nas senhas Não
morremos ao mesmo tempo Quem
terá razão quando estamos contentes? E tinha razão
Mas E assim continuava o outro Doravante
não posso por atrás o teu
pé Quem sabe tanto quanto nós
não se ajudará tão facilmente a si mesmo e Eu
não conto mais Por isso
entre no partido etc. Mesmo se
não tivermos razão E tinha razão
Desde sempre sabia que aquilo
que tu mesmo não crês
Dizia o outro Diante de nós
Como uma faca levas Porém aqui
já está cravada até o cabo
na tua carne A faca
A faca real E tinha razão
E então morreram um e outro
também Mas não ao mesmo tempo
E morreram todos E então
gritavam e lutavam uns contra os outros
e se amavam e se alegravam
e oprimiam-se uns aos outros
Milhares num porão
Ou um sozinho consigo mesmo ou dois
E se ajudavam E tinham razão
Não se podiam ajudar um ao outro
Das wirkliche Messer
Es waren aber Abertausend in einem Zimmer
oder einer allein mit sich oder zwei
und sie kämpften gegen sich miteinander
Der eine war der der Der Mehrwert sagte
und dachte an sich nicht und wollte von uns
nichts wissen Die Lehre sagte er her
Das Proletariat und Die Revolution
Fremdwörter waren in seinem Mund wie Steine
Und auch die Steine hob er auf
und warf sie Und er hatte recht
Das ist nicht wahr Und es war der andere
der dies sagte Ich liebe nur dich
und nicht alle Wie kalt meine Hand ist
Und der fressende Schmerz in deiner Leber
kommt nicht vor in den Losungen Wir
sterben nicht gleichzeitig Wer erst
hat wenn wir uns freuen recht? Und er hatte recht
Aber Und so fuhr der andere fort Fortan
kann ich deinen Fuss nicht zurück
setzen Wer soviel wie wir weiss
hilft sich so leicht nicht und Ich
komme nicht mehr in Betracht Also komm
in die Partei und so fort Auch wenn
wir nicht recht haben Und er hatte recht
Das wusste ich immer schon dass du das
was du selber nicht glaubst
Das sagte der andere Vor uns hin
Wie ein Messer schleppst Doch hier.
steckt es schon bis zum Heft
in deinem Fleisch Das Messer
Das wirkliche Messer Und er hatte recht
Und dann starb der eine und der andere
auch Aber nicht gleichzeitig
Und sie starben alle Und dann
schrieen sie und kämpften gegeneinander
mit sich und liebten und freuten
und unterdrückten sich
Abertausend in einem Zimmer
Oder einer mit sich allein oder zwei
Und sie halfen sich Und sie hatten recht
Und sie konnten einander nicht helfen
(Gedichte 1955 — 1970: Davor)
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Eu falo dos que não falam — Antologia, Poesia de Hans Magnus Enzensberger,
edição bilíngue, Seleção dos Textos: Kurt Scharf, com tradução de Kurt Scharf e
Armindo Teixeira, Prefácio: Bärbel Gutzat, com tradução de Betty Margarida Kunz,
1985, Editora Brasiliense e Instituto Goethe, São Paulo — SP; Hans Magnus Enzensberger
(1929 — 2022), alemão de Kaufbeuren, Baviera, estudou literatura (com doutorado)
e filosofia nas universidades de Erlangen, Freiburg, Hamburgo, além da Sorbonne,
em Paris, foi poeta, ensaísta, tradutor, escritor e editor; foi ainda redator na
rádio Süddeutscher Rundfunk, em Stuttgart, e docente para Arte Poética na Universidade
de Frankfurt; criou a revista Kursbuch e editou a série literária Die andere Bibliothek;
suas obras: Verteidingung der Wölfe (Defendendo os Lobos, poemas, 1957), Landessprache
(Fala Nacional, poesia, 1960), Allerleirauh (poemas, 1961), Gedichte, wie entsteht
ein Gedicht (1962), Blindenschrift (Braille — escrita para cegos, poesia, 1964),
Deutschland, Deutschland unter anderm (Alemanha, Alemanha, entre outros, ensaio,
1967), Der kurze Sommer der Anarchie: Buenaventura Durrutis Leben und Tod (O curto
verão da anarquia: Buenaventura Durrutis vida e morte, prosa, 1972), Palaver (Bajulação,
ensaio, 1974), Mausoleum (Mausoléu, poemas, 1975), Der Untergang der Titanic (O
naufrágio do Titanic, poema épico, 1978), Die Furie des Verschwindens (A fúria do
sumiço, poesias, 1980), Zukunftsmusik (Futuro Música, poesia, 1991), Die Tochter
der Luft (A filha do ar, ficção, 1992) e outros títulos; em seus escritos também
fez uso dos pseudônimos Linda Quitt, Andreas Yhalmayr, Elisabeth Ambras e Serenus
M. Brezengang; recebeu premiações por sua obra.