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[traduzido por Emilio Carrera
Guerra]
Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de
bichos,
apareça
numa alameda do zoo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
que, por certo, hão de
ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o enxame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então,
de todo amor não
terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de
estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te
esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo
quotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me
cabe!
Para que o amor não seja mais
escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os
leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo
inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado,
mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
— Camaradas!
atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que
doravante
a família
seja
o pai,
pelo menos o Universo;
a mãe,
pelo menos a Terra.
(1923)
[ . . . ]
Любовь
Может,
может быть,
когда-нибудь
дорожкой зоологических аллей
и она —
она зверей любила —
тоже ступит в сад,
улыбаясь,
вот такая,
как на карточке в столе.
Она красивая —
её, наверно, воскресят.
Ваш
тридцатый век
обгонит стаи
сердце раздиравших мелочей.
Нынче недолюбленное
наверстаем
звёздностью бесчисленных
ночей.
Воскреси
хотя б за то,
что я
поэтом
ждал тебя,
откинул будничную чушь!
Воскреси меня
хотя б за это!
Воскреси —
своё дожить хочу!
Чтоб не было любви — служанки
замужеств,
похоти,
хлебов.
Постели прокляв,
встав с лежанки,
чтоб всей вселенной шла
любовь.
Чтоб день,
который горем старящ,
не христарадничать, моля.
Чтоб вся
на первый крик:
— Товарищ! —
оборачивалась земля.
Чтоб жить
не в жертву дома дырам.
Чтоб мог
в родне
отныне
стать
отец,
по крайней мере, миром,
землёй по крайней мере — мать.
(1923)
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Maiacovski — Antologia Poética, Prefácio [datado de 30.11.1956], Estudo biográfico
e Tradução de Emilio Carrera Guerra, 3ª edição [1ª pela Max Limonad], 1981, Editora
Max Limonad, São Paulo — SP; Vladímir Vladimirovitch Maiakóvski (1893 — 1930), nascido
em Baghdati, Geórgia (Império Russo), considerado um dos expoentes da poesia do
século XX, foi poeta, dramaturgo e teórico; aos 15 anos de idade filiou-se ao partido
bolchevique, foi preso algumas vezes e “no cárcere começou a escrever poemas e
se dedicou à leitura de romances e poesia russa”; seu primeiro poema, Noite,
data de 1912; em 1911, iniciava seus estudos na Escola de Pintura, Escultura e
Arquitetura de Moscou e, aluno, fez parte do grupo artístico fundador do então chamado
cubo-futurismo russo, tornando-se “célebre por sua atitude irreverente e por
suas polêmicas”; em 1914, o poeta sofreu expulsão da escola, “por sua ligação
com o movimento futurista”; após serem expulsos, ele e outros alunos do grupo, viajaram
pela Rússia objetivando difundir suas concepções artísticas; em 1915, em temporada
na Finlândia, concluiu Nuvem de calças, o primeiro de seus poemas longos, tal obra
o consagrou em definitivo entre seus pares e no ambiente literário russo; teve presença
ativa no movimento revolucionário russo de 1917; durante a Guerra Civil, o poeta
dedicou-se a criar desenhos e legendas para cartazes de propaganda e, no início
do novo Estado, exaltou campanhas sanitárias, fez publicidade de produtos diversos,
etc.; participou ativamente de conferências, recitais e debates; colaborou com os
jornais Izvestia, Pravda, O Trabalho, com seus textos sendo divulgados diariamente
em jornais e revistas; em 1923, fundou a revista LEF (de Liévi Front, Frente de
Esquerda), na qual agrupava escritores e artistas com a intenção de aliar a forma
revolucionária a um conteúdo de renovação social; por razões estéticas, e na defesa
de suas concepções artístico-literárias, polemizou com outros grupos de intelectuais
e também com a burocracia do governo que se iniciava; suas obras: livros de poesia,
de viagens e memórias, A Flauta Vertebrada (1915), A Nuvem de Calças (1916), O Homem
(1917), Guerra e Paz (1918), 150 Milhões (1920), Amo (1922), Sobre Isto (1923),
Lênin (1925), Muito Bem! (1927), A Plenos pulmões (1930), longos poemas líricos
e épicos, cada qual formando, por si só, um livro; para o teatro, publicou Eu (1913),
O Mistério Bufo (1921), O Percevejo (1928), O Banho (1929), e tantos outros textos,
além de trabalhos para circo, argumentos para cinema e mais de mil páginas de poesia
para crianças; suicidou-se em 14 de abril de 1930.