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segunda-feira, 21 de abril de 2025

Alfonsina Storni: Tu me queres branca

 
____________________
[traduzido por Thiago de Mello]

Tu me queres alva,
me queres de espumas,
me queres de nácar.
Que seja açucena,
mais que todas, casta.
De perfume tênue.
Corola cerrada.

Nem um raio de lua
filtrado me toque.
Nem uma margarida
minha irmã se diga.
Tu me queres nívea,
tu me queres branca,
tu me queres alva.

Tu, que as minhas taças
tiveste nas mãos,
de frutos e méis
os lábios morados.
Tu, que no banquete
coberto de pâmpanos,
as carnes deixaste
festejando a Baco.
Tu que nos jardins
escuros do Engano
vestindo vermelho
correste ao Estrago.

Tu que no esqueleto
conservas intato
não sei bem por quê,
nem por qual milagre
me pretendes branca
(Deus que te perdoe),
me pretendes casta
(Deus que te perdoe),
me pretendes alva!

Foge para os bosques;
vai para a montanha;
limpa a tua boca;
vive nas cabanas;
toca com as mãos
a terra molhada;
alimenta o corpo
com raiz amarga;
bebe então das pedras;
dorme sobre escarcha;
renova tecidos
com salitre e água;
fala com os pássaros
e alcança a alvorada.
Quando as tuas carnes
te estejam de volta,
e quando nelas tenhas
limpa e profunda a alma
que pelas alcovas
deixaste enredada,
aí então, bom homem,
pretende-me branca,
pretende-me nívea,
pretende-me casta.

(El dulce daño — 1918)

Alfonsina Storni

Tú me quieres blanca

Tú me quieres alba,
me quieres de espumas,
me quieres de nácar.
Que sea azucena
Sobre todas, casta.
De perfume tenue.
Corola cerrada.

Ni un rayo de luna
filtrado me haya.
Ni una margarita
se diga mi hermana.
Tú me quieres nívea,
tú me quieres blanca,
tú me quieres alba.

Tú que hubiste todas
las copas a mano,
de frutos y mieles
los labios morados.
Tú que en el banquete
cubierto de pâmpanos
dejaste las carnes
festejando a Baco.
Tú que en los jardines
negros del Engaño
vestido de rojo
corriste al Estrago.

Tú que el esqueleto
conservas intacto
no sé todavia
por cuáles milagros,
me pretendes blanca
(Dios te lo perdone),
me pretendes casta
(Dios te lo perdone),
¡me pretendes alba!

Huye hacia los bosques,
vete a la montaña;
límpiate la boca;
vive en las cabañas;
toca con las manos
la tierra mojada;
alimenta el cuerpo
con raíz amarga;
bebe de las rocas;
duerme sobre escarcha;
renueva tejidos
con salitre y agua:
Habla con los pájaros
y lévate al alba.
Y cuando las carnes
te sean tornadas,
y cuando hayas puesto
en ellas el alma
que por las alcobas
se quedó enredada,
entonces, buen hombre,
preténdeme blanca,
preténdeme nívea,
preténdeme casta.

(El dulce daño — 1918)
____________________
Poetas da América de Canto Castelhano [várias autorias]: Introdução, Seleção, Tradução e Notas de Thiago de Mello, e Apresentação de Roberto Fernández Retamar, 1ª edição, 2011, Global Editora, São Paulo — SP; Alfonsina Storni Martignoni (1892 1938), nascida em Sala Capriasca Suíça, filha de pais argentinos, foi poeta, atriz e professora; aos 4 anos de idade retornou à Argentina, tendo, a partir daí, levado uma vida com dificuldades financeiras e, para o sustento da família, trabalhou como costureira e operária; já aos 12 anos, Alfonsina escreveu seus primeiros versos, e, logo depois, como operária em fábrica de gorros, se destacou por seu humor e participação “na luta pelas reivindicações sociais, engajada nas fileiras anarquistas”; também teve destaque em experiências como atriz em companhia teatral e, em turnê que durou um ano, se apresentou em várias localidades do país; estudou na Escuela Normal Mixta de Maestros Rurales de Coronda, onde também trabalhou, depois de formada mudou-se para Rosário e ali exerceu o ofício de professora, colaborou regularmente nas revistas Mundo Rosarino e Monas y Monadas, tornando-se dirigente do Comitê Feminista de Santa Fé; já em Buenos Aires, agora trabalhando em farmácia e também como vendedora de loja, logo tornou-se “corresponsal psicológico”, na empresa Freixas Hermanos, importadora de azeite de oliva; estreou com seu primeiro livro (La inquietud del rosal), fez suas primeiras colaborações literárias nas revistas Caras y Caretas, Fray Mocho, El Hogar, Mundo Argentino, La Nota, estabeleceu vínculos com o grupo intelectual da revista Nosotros, participou de saraus, passou a recitar seus poemas em bibliotecas, prosseguiu com a militância em grupos feministas e socialistas; depois, colaborou com o jornal La Nacion, fazendo uso do pseudônimo Tao-Lao; continando no desempenho da atividade de professora, lecionou em várias escolas: Colegio Marcos Paz, Escuela de Niños Débiles del parque Chacabuco, Instituto de Teatro Infantil Labardén, Escuela Normal de Lenguas vivas, Conservatório de Música y Declamación e Escuela de Adultos Bolivar, onde, em aulas noturnas, ensinou “castellano y aritmética”; suas obras: La inquietud del rosal (1916), El Dulce daño (1918), Irremediablemente (1919), Languidez (1920), Ocre (1925), Poemas de Amor (poemas em prosa, 1926), Mundo de siete pozos (1934), Mascarilla y trébol (1938) e outros títulos em prosa e verso e peças teatrais; com suas atitudes inovadoras, as mulheres do seu tempo, umas a admiravam e outras a viam como perigosa e, com a publicação do poema La Loba, Alfonsina causou escândalo; recebeu premiações por sua obra; consta que a poeta suicidou-se caminhando para dentro do mar, e tal ato foi registrado poeticamente na canção ‘Alfonsina y el mar’ gravada pela cantora Mercedes Sosa (1935 2009); teve seu corpo resgatado do oceano no dia 25 de outubro de 1938; três dias antes de suicidar-se enviou para publicação em um jornal o soneto ‘Voy a dormir’.

quarta-feira, 27 de novembro de 2024

Alfonsina Storni *: A súplica


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[traduzido por Oswaldo Orico]

Senhor, Senhor, há muito tempo, um dia,
sonhei o amor, como ninguém houvera
ainda sonhado, amor que fosse e que era
a vida toda todo uma poesia.

Passa o inverno e esse amor não chegaria,
passaria também a primavera;
o verão persistente volveria...
E o outono ainda me encontra à sua espera.

Ó Senhor, sobre minha espádua nua,
faze estalar, por mão que seja crua,
o látego que mandas aos perversos,

que já anoitece sobre minha vida
e esta paixão ardente e desmedida
eu a gastei, Senhor, fazendo versos!

Alfonsina Storni

Súplica

Señor, Señor, hace ya tiempo, un día,
Soñé un gran amor como jamás pudiera
Soñarlo nadie; algún amor que fuera
La vida toda, toda la poesía.

Y pasaba el invierno e no venía
Y volvía a llegar la primavera,
Y el verano de nuevo persistia
Y me hallaba el otoño con mi espera.

Señor, Señor, mi espalda está desnuda;
Hay retallos allí con mano ruda
Del látigo que sangras a los perversos!

Que está la tarde ya sobre mi vida
Y esta pasión ardiente y desmedida
la he perdido, Señor, haciendo versos!...

* Nota do Organizador Vasco de Castro Lima: Embora tenha nascido na Suíça, é considerada argentina, porque na Argentina viveu toda a sua vida. Forma, com Gabriela Mistral e Juana de Ibarbourou, o trio feminino de maior inspiração poética no Continente [América do Sul, México e Caribe], em língua espanhola. Suicidou-se em Mar del Plata, apressando o fim de seu mal incurável.
____________________
O Mundo Maravilhoso do Soneto: Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Alfonsina Storni Martignoni (1892 1938), nascida em Sala Capriasca Suíça, filha de pais argentinos, foi poeta, atriz e professora; aos 4 anos de idade retornou à Argentina, tendo, a partir daí, levado uma vida com dificuldades financeiras e, para o sustento da família, trabalhou como costureira e operária; já aos 12 anos, Alfonsina escreveu seus primeiros versos, e, logo depois, como operária em fábrica de gorros, se destacou por seu humor e participação “na luta pelas reivindicações sociais, engajada nas fileiras anarquistas”; também teve destaque em experiências como atriz em companhia teatral e, em turnê que durou um ano, se apresentou em várias localidades do país; estudou na Escuela Normal Mixta de Maestros Rurales de Coronda, onde também trabalhou, depois de formada mudou-se para Rosário e ali exerceu o ofício de professora, colaborou regularmente nas revistas Mundo Rosarino e Monas y Monadas, tornando-se dirigente do Comitê Feminista de Santa Fé; já em Buenos Aires, agora trabalhando em farmácia e também como vendedora de loja, logo tornou-se “corresponsal psicológico”, na empresa Freixas Hermanos, importadora de azeite de oliva; estreou com seu primeiro livro (La inquietud del rosal), fez suas primeiras colaborações literárias nas revistas Caras y Caretas, Fray Mocho, El Hogar, Mundo Argentino, La Nota, estabeleceu vínculos com o grupo intelectual da revista Nosotros, participou de saraus, passou a recitar seus poemas em bibliotecas, prosseguiu com a militância em grupos feministas e socialistas; depois, colaborou com o jornal La Nacion, fazendo uso do pseudônimo Tao-Lao; continuando no desempenho da atividade de professora, lecionou em várias escolas: Colegio Marcos Paz, Escuela de Niños Débiles del parque Chacabuco, Instituto de Teatro Infantil Labardén, Escuela Normal de Lenguas vivas, Conservatório de Música y Declamación e Escuela de Adultos Bolivar, onde, em aulas noturnas, ensinou “castellano y aritmética”; suas obras: La inquietud del rosal (1916), El Dulce daño (1918), Irremediablemente (1919), Languidez (1920), Ocre (1925), Poemas de Amor (poemas em prosa, 1926), Mundo de siete pozos (1934), Mascarilla y trébol (1938) e outros títulos em prosa e verso e peças teatrais; com suas atitudes inovadoras, as mulheres do seu tempo, umas a admiravam e outras a viam como perigosa e, com a publicação do poema 'La Loba', Alfonsina causou escândalo; recebeu premiações por sua obra; consta que a poeta suicidou-se caminhando para dentro do mar, e tal ato foi registrado poeticamente na canção ‘Alfonsina y el mar’ gravada por Mercedes Sosa; teve seu corpo resgatado do oceano no dia 25 de outubro de 1938; três dias antes de suicidar-se enviou para publicação em um jornal o soneto ‘Voy a dormir’.

sábado, 21 de setembro de 2024

Alfonsina Storni: Lua

 
____________________
[traduzido por Thiago de Mello]

Hoje me espia a lua
branca e desmesurada.

É a mesma lua de ontem
a mesma de amanhã.

Mas é outra, que nunca
foi tão grande e tão pálida.

Tremo assim como as luzes
estremecem nas águas.

Tremo como nos olhos
sabem tremer as lágrimas.

Tremo como nas carnes
sabe tremer uma alma.

Oh! a lua moveu
seus dois lábios de prata.

Oh! a lua me disse
as três velhas palavras:

“Morte, amor e mistério”...
Minhas carnes se acabam!

E sobre as carnes mortas
a minha alma se arqueia.

Alma, gata noturna,
salta por sobre a lua.

Vai pelos céus compridos,
triste, toda encolhida.

Vai, pelos longos céus,
vai sobre a lua branca.

(de La inquietud del rosal — 1916)

Alfonsina Storni

Viaje

Hoy me mira la luna
blanca y desmesurada.

Es la misma de anoche,
la misma de mañana.

Pero es otra, que nunca
fue tan grande y tan pálida.

Tiemblo como las luces
tiemblan sobre las aguas.

Tiemblo como en los ojos
suelen temblar las lágrimas.

Tiemblo como en las carnes
sabe temblar el alma.

¡Oh! la luna ha movido
sus dos labios de plata.

¡Oh! la luna me ha dicho
las tres viejas palabras:

«Muerte, amor y misterio...»
¡Oh, mis carnes se acaban!

Sobre las carnes muertas
alma mía se enarca.

Alma gato nocturno
sobre la luna salta.

Va por los cielos largos
triste y acurrucada.

Va por los cielos largos
sobre la luna blanca.

(La inquietud del rosal — 1916)
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Poetas da América de Canto Castelhano [várias autorias]: Introdução, Seleção, Tradução e Notas de Thiago de Mello, e Apresentação de Roberto Fernández Retamar, 1ª edição, 2011, Global Editora, São Paulo — SP; Alfonsina Storni Martignoni (1892 1938), nascida em Sala Capriasca Suíça, filha de pais argentinos, foi poeta, atriz e professora; aos 4 anos de idade retornou à Argentina, tendo, a partir daí, levado uma vida com dificuldades financeiras e, para o sustento da família, trabalhou como costureira e operária; já aos 12 anos, Alfonsina escreveu seus primeiros versos, e, logo depois, como operária em fábrica de gorros, se destacou por seu humor e participação “na luta pelas reivindicações sociais, engajada nas fileiras anarquistas”; também teve destaque em experiências como atriz em companhia teatral e, em turnê que durou um ano, se apresentou em várias localidades do país; estudou na Escuela Normal Mixta de Maestros Rurales de Coronda, onde também trabalhou, depois de formada mudou-se para Rosário e ali exerceu o ofício de professora, colaborou regularmente nas revistas Mundo Rosarino e Monas y Monadas, tornando-se dirigente do Comitê Feminista de Santa Fé; já em Buenos Aires, agora trabalhando em farmácia e também como vendedora de loja, logo tornou-se “corresponsal psicológico”, na empresa Freixas Hermanos, importadora de azeite de oliva; estreou com seu primeiro livro (La inquietud del rosal), fez suas primeiras colaborações literárias nas revistas Caras y Caretas, Fray Mocho, El Hogar, Mundo Argentino, La Nota, estabeleceu vínculos com o grupo intelectual da revista Nosotros, participou de saraus, passou a recitar seus poemas em bibliotecas, prosseguiu com a militância em grupos feministas e socialistas; depois, colaborou com o jornal La Nacion, fazendo uso do pseudônimo Tao-Lao; continando no desempenho da atividade de professora, lecionou em várias escolas: Colegio Marcos Paz, Escuela de Niños Débiles del parque Chacabuco, Instituto de Teatro Infantil Labardén, Escuela Normal de Lenguas vivas, Conservatório de Música y Declamación e Escuela de Adultos Bolivar, onde, em aulas noturnas, ensinou “castellano y aritmética”; suas obras: La inquietud del rosal (1916), El Dulce daño (1918), Irremediablemente (1919), Languidez (1920), Ocre (1925), Poemas de Amor (poemas em prosa, 1926), Mundo de siete pozos (1934), Mascarilla y trébol (1938) e outros títulos em prosa e verso e peças teatrais; com suas atitudes inovadoras, as mulheres do seu tempo, umas a admiravam e outras a viam como perigosa e, com a publicação do poema La Loba, Alfonsina causou escândalo; recebeu premiações por sua obra; consta que a poeta suicidou-se caminhando para dentro do mar, e tal ato foi registrado poeticamente na canção ‘Alfonsina y el mar’ gravada pela cantora Mercedes Sosa (1935 2009); teve seu corpo resgatado do oceano no dia 25 de outubro de 1938; três dias antes de suicidar-se enviou para publicação em um jornal o soneto ‘Voy a dormir’.

quarta-feira, 4 de setembro de 2024

Alfonsina Storni *: Moderna

 
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[traduzido por Luís Antônio Pimentel]

Dançarei numa alfombra de verdura.
O vinho será posto em taça de ouro,
própria para servir um licor louro,
brindando a noite plena de frescura.

Dançarei como a terra, a terra pura,
como a terra serei algum tesouro,
e o dar-me pura não será desdouro,
pois dar-se é uma alta forma de ternura.

Dançarei para que de tudo esqueças
e hei de embriagar-te, amor, sem que adormeças,
até que Vênus passe pelos céus.

Algo, porém, de ti será escondido,
porque pagã, de um século falido,
não deixarei cair todos os véus.

Alfonsina Storni

Moderna

Yo danzaré en alfombra de verdura,
ten pronto el vino en el cristal sonoro,
nos beberemos el licor de oro
celebrando la noche y su frescura.

Yo danzaré como la tierra pura,
como la tierra yo seré un tesoro,
y en darme pura no hallaré desdoro,
Que darse es una forma de la Altura.

Yo danzaré para que todo olvides
y habré de darte la embriaguez que pides
hasta que Venus pase por los cielos.

Mas algo acaso te será escondido,
que pagana de un siglo empobrecido
no dejaré caer todos los velos.

* Nota do Organizador Vasco de Castro Lima: Embora tenha nascido na Suíça, é considerada argentina, porque na Argentina viveu toda a sua vida. Forma, com Gabriela Mistral e Juana de Ibarbourou, o trio feminino de maior inspiração poética no Continente [América do Sul, México e Caribe], em língua espanhola. Suicidou-se em Mar del Plata, apressando o fim de seu mal incurável.
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O Mundo Maravilhoso do Soneto: Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Alfonsina Storni Martignoni (1892 1938), nascida em Sala Capriasca Suíça, filha de pais argentinos, foi poeta, atriz e professora; aos 4 anos de idade retornou à Argentina, tendo, a partir daí, levado uma vida com dificuldades financeiras e, para o sustento da família, trabalhou como costureira e operária; já aos 12 anos, Alfonsina escreveu seus primeiros versos, e, logo depois, como operária em fábrica de gorros, se destacou por seu humor e participação “na luta pelas reivindicações sociais, engajada nas fileiras anarquistas”; também teve destaque em experiências como atriz em companhia teatral e, em turnê que durou um ano, se apresentou em várias localidades do país; estudou na Escuela Normal Mixta de Maestros Rurales de Coronda, onde também trabalhou, depois de formada mudou-se para Rosário e ali exerceu o ofício de professora, colaborou regularmente nas revistas Mundo Rosarino e Monas y Monadas, tornando-se dirigente do Comitê Feminista de Santa Fé; já em Buenos Aires, agora trabalhando em farmácia e também como vendedora de loja, logo tornou-se “corresponsal psicológico”, na empresa Freixas Hermanos, importadora de azeite de oliva; estreou com seu primeiro livro (La inquietud del rosal), fez suas primeiras colaborações literárias nas revistas Caras y Caretas, Fray Mocho, El Hogar, Mundo Argentino, La Nota, estabeleceu vínculos com o grupo intelectual da revista Nosotros, participou de saraus, passou a recitar seus poemas em bibliotecas, prosseguiu com a militância em grupos feministas e socialistas; depois, colaborou com o jornal La Nacion, fazendo uso do pseudônimo Tao-Lao; continuando no desempenho da atividade de professora, lecionou em várias escolas: Colegio Marcos Paz, Escuela de Niños Débiles del parque Chacabuco, Instituto de Teatro Infantil Labardén, Escuela Normal de Lenguas vivas, Conservatório de Música y Declamación e Escuela de Adultos Bolivar, onde, em aulas noturnas, ensinou “castellano y aritmética”; suas obras: La inquietud del rosal (1916), El Dulce daño (1918), Irremediablemente (1919), Languidez (1920), Ocre (1925), Poemas de Amor (poemas em prosa, 1926), Mundo de siete pozos (1934), Mascarilla y trébol (1938) e outros títulos em prosa e verso e peças teatrais; com suas atitudes inovadoras, as mulheres do seu tempo, umas a admiravam e outras a viam como perigosa e, com a publicação do poema 'La Loba', Alfonsina causou escândalo; recebeu premiações por sua obra; consta que a poeta suicidou-se caminhando para dentro do mar, e tal ato foi registrado poeticamente na canção ‘Alfonsina y el mar’ gravada por Mercedes Sosa; teve seu corpo resgatado do oceano no dia 25 de outubro de 1938; três dias antes de suicidar-se enviou para publicação em um jornal o soneto ‘Voy a dormir’.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Alfonsina Storni: O Rogo

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[traduzido por Maria Teresa Almeida Pina]

Senhor, Senhor, faz já tanto tempo, um dia 
Sonhei um amor como jamais pudera
Sonhá-lo ninguém, algum amor que fora
A vida toda, toda a poesia…

E passava o inverno e não vinha,
E passava também a primavera,
E o verão de novo persistia,
E o outono me encontrava em minha espera.

Senhor, Senhor; minhas costas estão desnudas.
Faça estalar ali, com mão rude,
O açoite que sangra aos perversos!

Que está a tarde já sobre minha vida,
E esta paixão ardente e desmedida,
A hei perdido, Senhor, fazendo versos!

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Alfonsina Storni

El Ruego

Señor, Señor, hace ya tiempo, un día
Soñé un amor como jamás pudiera
Soñarlo nadie, algún amor que fuera
La vida toda, toda la poesía.
            
Y pasaba el invierno y no venía,
Y pasaba también la primavera,
Y el verano de nuevo persistía,
Y el otoño me hallaba con mi espera.
            
Señor, Señor: mi espalda está desnuda:
¡Haz estallar allí, con mano ruda,
El látigo que sangra a los perversos!
            
Que está la tarde ya sobre mi vida,
Esta pasión ardiente y desmedida
La he perdido, ¡Señor, haciendo versos!

Languidez  1920
____________________
Antologia Poética — Alfonsina Storni, Selección por Alfredo Veirave (Biblioteca Argentina Fundamental, Capitulo 34), 1968, Centro Editor de America Latina, Buenos Aires — Argentina; Alfonsina Storni Martignoni (1892 1938), nascida em Sala Capriasca Suíça, filha de pais argentinos, foi poeta, atriz e professora; aos 4 anos de idade retornou à Argentina, levou uma vida com dificuldades financeiras e, para o sustento familiar, trabalhou como costureira e operária; colaborou com seus textos nas revistas Caras y Caretas, Fray Mocho, e nos jornais La Nota e La Nacion; escreveu e publicou La inquietud del rosal (1916), El dulce daño (1918), Irremediablemente (1919), Languidez (1920), Ocre (1925), Poemas de amor (em prosa, 1926), Dos farsas pirotécnicas — Cimbellina en 1900 y pico e Polixena y la cenicienta (peças teatrais, 1931), Mundo de siete pozos (1934) e outros títulos em verso, prosa e para teatro; consta que a poeta suicidou-se caminhando para dentro do mar, e tal ato foi registrado poeticamente na canção ‘Alfonsina y el mar’ gravada por Mercedes Sosa; seu corpo foi resgatado do oceano no dia 25 de outubro de 1938; três dias antes de suicidar-se envia para publicação em um jornal o soneto ‘Voy a dormir’.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Alfonsina Storni: Bem pode ser

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[traduzido por José Jeronymo Rivera]

Bem pode ser que tudo o que em meu verso hei sentido
Não seja mais que aquilo que nunca pôde ser,
Não seja mais do que algo vedado e reprimido
De família em família, de mulher em mulher.

Dizem que nos solares dos meus, sempre medido
Estava tudo aquilo que se tinha a fazer...
Silenciosas dizem que as mulheres hão sido
Em meu materno lar. Ah, sim, bem pode ser...

Às vezes minha mãe terá sentido o anseio
De liberar-se, e logo viu subir-lhe do seio
Uma funda amargura, e na sombra chorou.

E tudo de mordaz, vencido, mutilado,
Tudo o que se encontrava em sua alma guardado,
Creio que sem querer fui eu quem libertou.

Alfonsina Storni

Bien pudiera ser...

Pudiera ser que todo lo que en verso he sentido
No fuera más que aquello que nunca pudo ser,
No fuera más que algo vedado y reprimido
De familia en familia, de mujer en mujer.

Dicen que en los solares de mi gente, medido
Estaba todo aquello que se debía hacer...
Dicen que silenciosas las mujeres han sido
De mi casa materna... Ah, bien pudiera ser...

A veces en mi madre apuntaron antojos
De liberarse, pero, se le subió a los ojos
Una honda amargura, y en la sombra lloró.

Y todo eso mordiente, vencido, mutilado,
Todo eso que se hallaba en su alma encerrado,
Pienso que sin quererlo lo he libertado yo.
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Antologia Poética  Alfonsina Storni, Selección por Alfredo Veirave (Biblioteca Argentina Fundamental, Capitulo 34), 1968, Centro Editor de America Latina, Buenos Aires Argentina; Alfonsina Storni Martignoni (1892 1938), nascida em Sala Capriasca Suíça, filha de pais argentinos, foi poeta, atriz e professora; aos 4 anos de idade retornou à Argentina, levou uma vida com dificuldades financeiras e, para o sustento familiar, trabalhou como costureira e operária; colaborou com seus textos nas revistas Caras y Caretas, Fray Mocho, e nos jornais La Nota e La Nacion; escreveu e publicou La inquietud del rosal (1916), El dulce daño (1918), Irremediablemente (1919), Languidez (1920), Ocre (1925), Poemas de amor (em prosa, 1926), Dos farsas pirotécnicas Cimbellina en 1900 y pico e Polixena y la cenicienta (peças teatrais, 1931), Mundo de siete pozos (1934) e outros títulos em verso, prosa e para teatro; consta que a poeta suicidou-se caminhando para dentro do mar, e tal ato foi registrado poeticamente na canção ‘Alfonsina y el mar’ gravada por Mercedes Sosa; seu corpo foi resgatado do oceano no dia 25 de outubro de 1938; três dias antes de suicidar-se envia para publicação em um jornal o soneto ‘Voy a dormir’.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Alfonsina Storni: Vou dormir

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[traduzido por Héctor Zanetti]

Dentes de flores, touca de sereno,
Mãos de ervas, tu, ama-de-leite fina,
Deixa-me prontos os lençóis terrosos
E o edredom de musgos escardeados.

Vou dormir, ama-de-leite minha, deita-me.
Põe-me uma lâmpada à cabeceira;
Uma constelação; a que te agrade;
Todas são boas: a abaixa um pouquinho

Deixa-me sozinha: ouves romper os brotos…
Te embala um pé celeste desde acima
E um pássaro te traça uns compassos

Para que esqueças… obrigado. Ah, um encargo:
Se ele chama novamente por telefone
Diz-lhe que não insista, que saí…

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Alfonsina Storni

Voy a dormir

Dientes de flores, cofia de rocío,
manos de hierbas, tú, nodriza fina,
tenme prestas las sábanas terrosas
y el edredón de musgos escardados.

Voy a dormir, nodriza mía, acuéstame.
Ponme una lámpara a la cabecera;
una constelación; la que te guste;
todas son buenas; bájala un poquito.

Déjame sola: oyes romper los brotes…
te acuna un pie celeste desde arriba
y un pájaro te traza unos compases

para que olvides… Gracias. Ah, un encargo:
si él llama nuevamente por teléfono
le dices que no insista, que he salido...

Mascarilla y Trébol — 1938
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Antologia Poética — Alfonsina Storni, Selección por Alfredo Veirave (Biblioteca Argentina Fundamental, Capitulo 34), 1968, Centro Editor de America Latina, Buenos Aires — Argentina; Alfonsina Storni Martignoni (1892 1938), nascida em Sala Capriasca Suíça, filha de pais argentinos, foi poeta, atriz e professora; aos 4 anos de idade retornou à Argentina, levou uma vida com dificuldades financeiras e, para o sustento familiar, trabalhou como costureira e operária; colaborou com seus textos nas revistas Caras y Caretas, Fray Mocho, e nos jornais La Nota e La Nacion;escreveu e publicou La inquietud del rosal (1916), El dulce daño (1918), Irremediablemente (1919), Languidez (1920), Ocre (1925), Poemas de amor (em prosa, 1926),  Dos farsas pirotécnicas Cimbellina en 1900 y pico e Polixena y la cenicienta (peças teatrais, 1931), Mundo de siete pozos (1934), Mascarilla y Trébol círculos imantados (1938) e outros títulos em verso, prosa e para teatro; consta que a poeta suicidou-se caminhando para dentro do mar, e tal ato foi registrado poeticamente na canção ‘Alfonsina y el mar’ gravada por Mercedes Sosa; seu corpo foi resgatado do oceano no dia 25 de outubro de 1938; três dias antes de suicidar-se envia para publicação em um jornal o soneto ‘Voy a dormir’.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Alfonsina Storni: Súplica

____________________
[traduzido por Ivo Barroso]

Senhor, Senhor, há muito tempo, um dia,
Um grande amor sonhei, que não pudera
Ninguém sonhar igual, um amor que era
A minha vida inteira de poesia.

Passava o inverno e, entanto, o amor não via;
E tornava a chegar a primavera,
O verão novamente aparecia
E o outono vinha me encontrar à espera.

Senhor, Senhor, meus ombros desnudados
Deixam-vos ver os golpes retalhados
Que ali deixaram látegos perversos...

E tomba a tarde já na minha vida!
E essa paixão ardente e desmedida,
Eu a perdi, Senhor, fazendo versos!...

Alfonsina Storni

Súplica

Señor, Señor, hace ya tiempo, un día,
Soñé un gran amor como jamás pudiera
Soñarlo nadie; algún amor que fuera
La vida toda, toda la poesía.

Y pasaba el invierno e no venía
Y volvía a llegar la primavera,
Y el verano de nuevo persistía
Y me hallaba el otoño con mi espera.

Señor, Señor, mi espalda está desnuda;
Hay retallos allí con mano ruda
Del látigo que sangras a los perversos!

Que está la tarde ya sobre mi vida
Y esta pasión ardiente y desmedida
La he perdido, Señor, haciendo versos!...
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O Torso e o Gato — O Melhor da Poesia Universal, Tradução e Organização de Ivo Barroso, Prefácio de Antônio Houaiss, 1991, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Alfonsina Storni Martignoni (1892  1938), nascida em Sala Capriasca  Suíça, filha de pais argentinos, foi poeta, atriz e professora; aos 4 anos de idade retornou à Argentina, tendo, a partir daí, levado uma vida com dificuldades financeiras e, para o sustento da família, trabalhou como costureira e operária; escreveu e publicou La inquietud del rosal (1916), El dulce daño (1918), Irremediablemente (1919), Languidez (1920), Ocre (1925), Mundo de siete pozos (1934) e outros títulos em verso, prosa e peças teatrais; consta que a poeta suicidou-se caminhando para dentro do mar, tendo sido tal ato registrado poeticamente na canção ‘Alfonsina y el mar’ gravada por Mercedes Sosa; seu corpo foi resgatado do oceano no dia 25 de outubro de 1938; três dias antes de suicidar-se enviara para publicação em um jornal o soneto ‘Voy a dormir’.