
____________________
Ah! quando est’alma heróica e
descontente
Libertar-se da carne, que a
reveste...
Ela, há de adejar incertamente
às paredes de um corpo, mais
celeste...
Como uma C’ruja às horas do
sol-poente...
entorno de uma torre
esburacada,
que será nosso ser,
macabramente,
nos assomos da carne
desmanchada!...
Não ter ficado Eu, entre as
ruínas!
expor à luz dos séculos
hiantes...
oculto sob as heras e boninas;
E depois, percorrer meu
próprio ser!
em adejos inúteis e
inconstantes...
como a andorinha à
"Torre-do-Não-Ser"!...
1918
Rio de Janeiro
____________________
História do Gosto e Outros Poemas — Ernani
Rosas, Organização de Ana Brancher e Biobibliografia de Iaponan Soares, 1997,
Editora da UFSC, Florianópolis — SC; Ernani Salomão Rosas Ribeiro de Almeida (1886 — 1955), catarinense de
Desterro, atual Florianópolis, foi poeta; desde os três anos de idade
passou a residir na cidade do Rio de Janeiro e, depois, com a morte do pai
(Oscar Rosas, político e também poeta, que basicamente lhe garantia as
mesadas), mudou-se com a mãe e irmãs para Nova Iguaçu, também no Rio, onde
morreu em difíceis condições; levou uma vida boêmia e sofreu discriminação pela
sua gagueira e homossexualidade; foi um homem reservado que tentou ficar o máximo
possível no anonimato; colaborou com os periódicos O
Imparcial, Maçã e A Época; sua bibliografia: Certa Lenda
numa Tarde — Paráfrasis de Narciso (assina Rictus da Cruz, 1917), Poemas
do Ópio (1918) e Silêncios (sem data); após sua morte,
houve o resgate de sua obra poética: em Panorama do Movimento Simbolista
Brasileiro — Organização de Andrade Muricy (1952), foram incluídos
vinte e sete de seus poemas e, em Poesias — Organização de
Iaponan Soares e Dalila Carneiro da Cunha Luz Varella (1989), estão
reunidos, em sua obra, todos os manuscritos e plaquetes * encontrados, já nos arquivos da Academia
Catarinense de Letras; depois, vieram outros estudos: este História do
Gosto e Outros Poemas (1997) e Cidade do Ócio — entre
sonetos e retalhos, Organizadora: Zilma Gesser Nunes (2008).
* Nota: plaquetes: este aprendiz de blogueiro
faz constar que, conforme o História do
Gosto e Outros Poemas, as plaquetes, em torno de trinta e sete, organizadas
pelo poeta, são pequenos livros costurados à mão e com barbante, com capa de
papel “de embrulho”, onde foi escrito à mão o título da plaquete; por elas
tem-se que Ernani Rosas também fez uso de alguns pseudônimos para assiná-las:
N. Cáspio, A. Luzo, N. Luzo, além do já anteriormente citado Rictus da Cruz.

