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[traduzido
por Paulo César de Souza]
3.
Sainte-Beuve. — Nada viril nele;
cheio de mesquinha raiva a todos os espíritos viris. Vagueia ao redor, sutil,
curioso, entediado, espreitador — no fundo, uma personalidade de mulher, com
feminina avidez de vingança e feminina sensualidade. Como psicólogo, um gênio
da médisance
[maledicência]; inesgotavelmente rico em meios para isso; ninguém sabe, como
ele, misturar veneno e louvor. Plebeu nos instintos mais baixos, e aparentado
ao ressentiment
de Rousseau: por conseguinte, romântico — pois debaixo
de todo romantisme
rosna e anseia o instinto de vingança de Rousseau. Revolucionário, mas ainda
toleravelmente refreado pelo medo. Sem liberdade perante tudo o que tem força
(opinião pública, Academia, corte, até mesmo PortRoyal).* Irritado com tudo o que é grande nos homens e
nas coisas, com tudo o que acredita em si mesmo. Poeta e meio-mulher suficiente
para perceber o que é grande como poder; sempre encolhido como aquele famoso
verme,** pois
continuamente se sente pisado. Enquanto crítico, sem medida, firmeza e medula,
com a língua do libertin [libertino] cosmopolita para
muitas coisas, mas sem a coragem sequer para admitir a libertinage.
Enquanto historiador, sem filosofia, sem o poder do olhar filosófico — por isso
rejeitando a tarefa de julgar em todas as questões principais, exibindo a
“objetividade” como máscara. Comporta-se diferentemente em relação a todas as
coisas em que um gosto refinado, experimentado é a instância suprema: então tem
realmente a coragem e o prazer consigo mesmo — então é mestre. —
Em alguns aspectos, uma versão preliminar de Baudelaire. —***
3
Sainte-Beuve. — Nichts von Mann; voll.
Eines kleinen Ingrimms gegen alle Mannsgeister. Schweift umher, fein, neugierig,
gelangweilt, aushorcherisch — eine Weibsperson im Grunde, mit einer Weibs-Rachsucht
und Weibs-Sinnlichkeit. Als Psycholog ein Genie der médisance; unerschöpflich reich
na Mitteln dazu; niemand versteht besser, mit einem Lob Gift zu mischen. Plebejisch
in den untersten Instinkten und mit dem Ressentiment Rousseau’s verwandt: folglich
Romantiker, — denn unter allem romantisme grunzt und giert der Instinkt Rousseau’s
nach Rache. Revolutionär, aber durch die Furcht leidlich noch im Zaum gehalten.
Ohne Freiheit vor allem, was Stärke hat (öffentliche Meinung, Akademie, Hof, selbst
Port-Royal). Erbittert gegen alles Große na Mensch und Ding, gegen alles, was an
sich glaubt. Dichter und Halbweib genug, um das Große noch als Macht zu fühlen;
gekrümmt beständig, wie jener berühmte Wurm, weil er sich beständig getreten fühlt.
Als Kritiker ohne Maßstab, Halt und Rückgrat, mit der Zunge des kosmopolitischen
libertin für vielerlei, aber ohne den Mut selbst zum Eingeständnis der libertinage.
Als Historiker ohne Philosophie, ohne die Macht des philosophischen Blicks — deshalb
die Aufgabe des Richtens in allen Hauptsachen ablehnend, die »Objektivität« als
Maske vorhaltend. Anders verhält er sich zu allen Dingen, wo ein feiner, vernutzter
Geschmack die höchste Instanz ist: da hat er wirklich den Mut zu sich, die Lust
na sich — da ist er Meister. — Nach einigen Seiten eine Vorform Baudelaire’s. —
Notas do tradutor Paulo César de
Souza:
* “Academia”: a Académie française,
fundada pelo cardeal Richelieu em 1634, para zelar pela língua e literatura da
França. “Port Royal”: o convento da ordem cisterciense, próximo a Paris, que
serviu de refúgio para os heréticos jansenistas entre 1636 e 1710. O crítico e
historiador Sainte-Beuve (1804—69) escreveu uma obra em vários volumes sobre
esse movimento, intitulada justamente Port-Royal.
** Alusão à frase alemã que diz: “Auch
der Wurm krümmt sich, wenn man ihn tritt” (“Também o verme se
encolhe quando é pisado”); [...] Nesse parágrafo, a caracterização de
Sainte-Beuve baseia-se consideravelmente numa página do Diário dos Goncourt,
como se vê na transcrição feita por Colli e Montinari (vol. 14 da [Nietzsche,
F. Sämtliche Werke. Kritische
Studienausgabe] KSA,
p. 423).
*** Charles Baudelaire (1821—67):
poeta e ensaísta francês, autor de As flores do mal.
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Crepúsculo dos ídolos, ou Como se
filosofa com o martelo — Friedrich Nietzsche, Tradução, Notas e Posfácio de Paulo
César de Souza, 2006, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Friedrich Wilhelm Nietzsche
(1844 — 1900), nascido em Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual Alemanha,
foi filósofo, filólogo, crítico cultural, professor, poeta e compositor; estudou
na Universidade de Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e foi professor
de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu e publicou O
Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste
der Musik, 1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (textos que remontam a
1873, publicados postumamente), David Strauss, o Confessor e o Escritor (David Strauß.
Der Bekenner und der Schriftsteller, 1873), Humano, Demasiado Humano, um Livro para
Espíritos Livres (Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte originalmente
publicada em 1878 e versão final publicada em 1886), Schopenhauer como Educador
(Shopenhauer als Erzieher, 1874), Richard Wagner em Bayreuth (1876), Aurora, Reflexões
sobre Preconceitos Morais (Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile,
1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft, 1882), Assim Falou Zaratustra,
um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach Zarathustra, 1883 — 1885), Além
do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do Futuro (Jenseits von Gut und Böse,
1886), Genealogia da Moral, uma Polêmica (Zur Genealogie der Moral, 1887), O Crepúsculo
dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (Götzen Dämmerung, 1888), O Caso Wagner,
um Problema para Músicos (1888), O Anticristo — Praga contra o Cristianismo (Der
Antichrist, 1888), Ecce Homo, de como a gente se torna o que a gente é (Ecce Homo,
1888) e outros títulos; Nietzsche tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas
pelo mundo afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.
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