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sábado, 4 de março de 2023

Friedrich Nietzsche: Sainte-Beuve


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[traduzido por Paulo César de Souza]

3.

Sainte-Beuve. Nada viril nele; cheio de mesquinha raiva a todos os espíritos viris. Vagueia ao redor, sutil, curioso, entediado, espreitador no fundo, uma personalidade de mulher, com feminina avidez de vingança e feminina sensualidade. Como psicólogo, um gênio da médisance [maledicência]; inesgotavelmente rico em meios para isso; ninguém sabe, como ele, misturar veneno e louvor. Plebeu nos instintos mais baixos, e aparentado ao ressentiment de Rousseau: por conseguinte, romântico pois debaixo de todo romantisme rosna e anseia o instinto de vingança de Rousseau. Revolucionário, mas ainda toleravelmente refreado pelo medo. Sem liberdade perante tudo o que tem força (opinião pública, Academia, corte, até mesmo PortRoyal).* Irritado com tudo o que é grande nos homens e nas coisas, com tudo o que acredita em si mesmo. Poeta e meio-mulher suficiente para perceber o que é grande como poder; sempre encolhido como aquele famoso verme,** pois continuamente se sente pisado. Enquanto crítico, sem medida, firmeza e medula, com a língua do libertin [libertino] cosmopolita para muitas coisas, mas sem a coragem sequer para admitir a libertinage. Enquanto historiador, sem filosofia, sem o poder do olhar filosófico por isso rejeitando a tarefa de julgar em todas as questões principais, exibindo a “objetividade” como máscara. Comporta-se diferentemente em relação a todas as coisas em que um gosto refinado, experimentado é a instância suprema: então tem realmente a coragem e o prazer consigo mesmo então é mestre. Em alguns aspectos, uma versão preliminar de Baudelaire. —***

Friedrich Nietzsche

3
Sainte-Beuve. Nichts von Mann; voll. Eines kleinen Ingrimms gegen alle Mannsgeister. Schweift umher, fein, neugierig, gelangweilt, aushorcherisch eine Weibsperson im Grunde, mit einer Weibs-Rachsucht und Weibs-Sinnlichkeit. Als Psycholog ein Genie der médisance; unerschöpflich reich na Mitteln dazu; niemand versteht besser, mit einem Lob Gift zu mischen. Plebejisch in den untersten Instinkten und mit dem Ressentiment Rousseau’s verwandt: folglich Romantiker, denn unter allem romantisme grunzt und giert der Instinkt Rousseau’s nach Rache. Revolutionär, aber durch die Furcht leidlich noch im Zaum gehalten. Ohne Freiheit vor allem, was Stärke hat (öffentliche Meinung, Akademie, Hof, selbst Port-Royal). Erbittert gegen alles Große na Mensch und Ding, gegen alles, was an sich glaubt. Dichter und Halbweib genug, um das Große noch als Macht zu fühlen; gekrümmt beständig, wie jener berühmte Wurm, weil er sich beständig getreten fühlt. Als Kritiker ohne Maßstab, Halt und Rückgrat, mit der Zunge des kosmopolitischen libertin für vielerlei, aber ohne den Mut selbst zum Eingeständnis der libertinage. Als Historiker ohne Philosophie, ohne die Macht des philosophischen Blicks deshalb die Aufgabe des Richtens in allen Hauptsachen ablehnend, die »Objektivität« als Maske vorhaltend. Anders verhält er sich zu allen Dingen, wo ein feiner, vernutzter Geschmack die höchste Instanz ist: da hat er wirklich den Mut zu sich, die Lust na sich da ist er Meister. Nach einigen Seiten eine Vorform Baudelaire’s.

Notas do tradutor Paulo César de Souza:
* “Academia”: a Académie française, fundada pelo cardeal Richelieu em 1634, para zelar pela língua e literatura da França. “Port Royal”: o convento da ordem cisterciense, próximo a Paris, que serviu de refúgio para os heréticos jansenistas entre 1636 e 1710. O crítico e historiador Sainte-Beuve (1804—69) escreveu uma obra em vários volumes sobre esse movimento, intitulada justamente Port-Royal.
** Alusão à frase alemã que diz: “Auch der Wurm krümmt sich, wenn man ihn tritt” (“Também o verme se encolhe quando é pisado”); [...] Nesse parágrafo, a caracterização de Sainte-Beuve baseia-se consideravelmente numa página do Diário dos Goncourt, como se vê na transcrição feita por Colli e Montinari (vol. 14 da [Nietzsche, F. Sämtliche Werke. Kritische Studienausgabe] KSA, p. 423).
*** Charles Baudelaire (1821—67): poeta e ensaísta francês, autor de As flores do mal.
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Crepúsculo dos ídolos, ou Como se filosofa com o martelo — Friedrich Nietzsche, Tradução, Notas e Posfácio de Paulo César de Souza, 2006, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 1900), nascido em Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual Alemanha, foi filósofo, filólogo, crítico cultural, professor, poeta e compositor; estudou na Universidade de Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e foi professor de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu e publicou O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik, 1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (textos que remontam a 1873, publicados postumamente), David Strauss, o Confessor e o Escritor (David Strauß. Der Bekenner und der Schriftsteller, 1873), Humano, Demasiado Humano, um Livro para Espíritos Livres (Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte originalmente publicada em 1878 e versão final publicada em 1886), Schopenhauer como Educador (Shopenhauer als Erzieher, 1874), Richard Wagner em Bayreuth (1876), Aurora, Reflexões sobre Preconceitos Morais (Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile, 1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft, 1882), Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach Zarathustra, 1883 1885), Além do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do Futuro (Jenseits von Gut und Böse, 1886), Genealogia da Moral, uma Polêmica (Zur Genealogie der Moral, 1887), O Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (Götzen Dämmerung, 1888), O Caso Wagner, um Problema para Músicos (1888), O Anticristo — Praga contra o Cristianismo (Der Antichrist, 1888), Ecce Homo, de como a gente se torna o que a gente é (Ecce Homo, 1888) e outros títulos; Nietzsche tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas pelo mundo afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Charles Augustin De Sainte-Beuve: Minha alma é esse lago . . .

Resultado de imagem para pequena antologia de poemas franceses de François Villon a Fernando Pessoa por Renata Cordeiro
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[traduzido por Renata Cordeiro]

Minha alma é esse lago em que o sol, que declina
Numa tarde outoniça e linda, onde, expirando:
A onda pouco freme, e nem a asa argentina,
Nem o longínquo remo o agita, resvalando.
Tudo descansa em paz, e o cristal transparente,
À noite, ao esfriar no vento enregelado,
Sem rugas, eco, sem lamentações plangentes,
Parece espelho feito aos pálidos enfados.
Mas não sentis. Senhora, em tal tranquilidade,
No fluxo de cristal pelo próprio esquecido,
Nessa calma extensão de plena fixidade,
Seu gozo em vos ficar aos pés emudecido,
Em refletir em paz a bem-amada margem,
Em pintá-la mais pura, e sem se entremeter,
Em nada em si perder da divinal imagem
Daquela cujo rastro está sempre a colher?

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Charles Augustin Sainte-Beuve

Mon âme est ce lac même . . .

Mon âme est ce lac même où le soleil qui penche,
Par un beau soir d'automne, envoie un feu mourant:
Le flot frissonne à peine, et pas une aile blanche,
Pas une rame au loin n'y joue en l'effleurant.

Tout dort, tout est tranquille, et le cristal limpide,
En se refroidissant à l'air glacé des nuits,
Sans écho, sans soupir, sans un pli qui le ride,
Semble un miroir tout fait pour les pâles ennuis.

Mais ne sentez-vous pas, Madame, à son silence,
A ses flots transparents de lui-même oubliés,
A sa calme étendue où rien ne se balance,
Le bonheur qu'il éprouve à se taire à vos pieds,

À réfléchir en paix de bien-aimé rivage,
A le peindre plus pur en ne s'y mêlant pas,
À ne rien perdre en soi de la divine image
De Celle dont sans bruit il recueille les pas?
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Pequena Antologia de Poemas Franceses: De François Villon a Fernando Pessoa — Concepção, Seleção, Tradução e Notas de Renata Maria Parreira Cordeiro, 2002, Landy Livraria Editora e Distribuidora Ltda., São Paulo — SP; Charles Augustin Sainte-Beuve (1804 1869), nascido em Boulogne-Sur-Mer França, foi poeta, romancista e crítico literário; escreveu e publicou Vie, poésies et pensées de Joseph Delorme (Vida, poesias e pensamentos de Joseph Delorme, 1829), Les Consolations (Consolações, poesias, 1830), Volupté (Volúpia, romance, 1835), Pensées d'août (Pensamentos de agosto, poesias, 1837), Critiques et portraits littéraires (Críticas e  retratos literários, 1839), Portraits de femmes (Retratos de mulheres, crítica, 1844), Portraits contemporains (Retratos contemporâneos, crítica, 1846), Port-Royal (1859) e outros títulos.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Sainte-Beuve: Soneto

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[tradução de José Lino Grünewald]

Não ria do soneto, ó crítico em humor;
outrora por amor o fez o grande Shakespeare;
nessa lira feliz, Petrarca só suspira,
e Tasso nos grilhões mitiga um pouco o ardor.

Camões em seu exílio abrevia uma via,
pois do amor, seu império, em soneto ele aspira.
ama Dante essa flor de mirto e a respira,
mescla-a aos louros que cingem a fronte de guia.

Spencer ao retornar dessa ilha das magias,
exara em mil sonetos as tristezas pias;
Milton, cantando os seus, reilumina seu olhar.

Renovarei o doce soneto da França;
du Bellay, o primeiro, o trouxe de Florença,
e sabe-se mais de um desse velho Ronsard.

Sainte-Beuve

Sonnet

Ne ris point des sonnets, ô critique moqueur;
par amour autrefois en fit le grand Shakespeare;
c’est sur ce luth heureux que Pétrarque soupire,
et que le Tasse aux fers soulage un peu son cœur;

Camoens de son exil abrège la longueur,
car il chante en sonnets l’amour et son empire;
Dante aime cette fleur de myrte, et la respire,
et la mêle au cyprès qui ceint son front vainqueu.


Spencer, s’en revenant de l’île des féeries,
exhale en longs sonnets ses tristesses chéries;
Milton, chantant les siens, ranimait son regard.

Moi, je veux rajeunir le doux sonnet de France;;
du Bellay, le premier, l’apporta de Florence,
et l’on en sait plus d’un de notre vieux Ronsard.
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Poetas Franceses do Século XIX — Seleção, Organização e Nota Introdutória de José Lino Grünewald, 1991, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Charles Augustin Sainte-Beuve (1804  1869), nascido em Boulogne-Sur-Mer  França, foi poeta, romancista e crítico literário; escreveu e publicou Vie, poésies e pensées de Joseph Delorme ('Vida, poesias e pensamentos de Joseph Delorme', 1829), Les Consolations ('Consolações', poesias, 1830), Volupté ('Volúpia', romance, 1835), Pensées d'août ('Pensamentos de agosto', poesias, 1837), Critiques et portraits littéraires ('Críticas e retratos literários', 1839), Portraits de femmes ('Retratos de mulheres', crítica, 1844), Portraits contemporains ('Retratos contemporâneos', crítica, 1846), Port-Royal (1859) e outros títulos.